O vencedor antes das urnas
Se as pesquisas estiverem captando corretamente o
momento eleitoral, há uma constatação que merece reflexão: independentemente
do resultado das urnas, Flávio Bolsonaro já conseguiu algo politicamente
importante — transformar o sobrenome Bolsonaro em uma força eleitoral capaz de
chegar novamente ao centro da disputa presidencial.
A pesquisa Datafolha divulgada em 21 de setembro
mostra Lula com 39% e Flávio Bolsonaro com 36% no primeiro turno. No segundo
turno, aparecem com 46% e 44%, respectivamente. Em ambos os casos, a diferença
está dentro da margem de erro.
Isso não significa antecipar resultado. Pesquisa não é
urna. Mas revela alguma coisa sobre o eleitor brasileiro: uma parcela
expressiva do país continua disposta a votar no projeto político associado ao
bolsonarismo.
E aqui começa a questão que considero mais importante.
Como explicar que, depois de tantos episódios
controversos, tantas acusações, investigações, disputas institucionais e
críticas acumuladas ao longo dos últimos anos, uma parcela significativa do
eleitorado continue mantendo uma preferência tão resistente?
Talvez a resposta esteja menos nos candidatos
individualmente e mais na profunda polarização política brasileira.
O bolsonarismo construiu sua identidade em oposição
frontal ao PT e à esquerda. Seus adversários, por sua vez, construíram boa
parte de sua mobilização política em oposição ao bolsonarismo.
É uma guerra política que parece ter criado dois
grandes campos de pertencimento.
De um lado, o discurso de que o PT representa
corrupção, aparelhamento do Estado, radicalismo ideológico e ameaça a valores
tradicionais. De outro, a denúncia de que o bolsonarismo representa
autoritarismo, intolerância, ataques aos direitos humanos e resistência ao
reconhecimento de problemas sociais e ambientais.
Cada lado enxerga com enorme facilidade os
defeitos do outro — e enorme dificuldade para reconhecer os seus próprios.
O PT também carrega sua história. O mensalão, as
condenações e os personagens daquele período permanecem na memória política
brasileira. José Dirceu, Delúbio Soares e outros dirigentes tornaram-se
símbolos de um dos maiores desgastes da história do partido.
Durante anos, a cobertura jornalística sobre os
escândalos de corrupção ajudou a fixar no imaginário popular uma associação
entre PT e corrupção. Manchetes, imagens e denúncias foram repetidas à
exaustão.
Depois vieram as redes sociais.
E as redes mudaram a maneira como o eleitor recebe
informação.
Hoje, cada cidadão pode construir sua própria
realidade política a partir dos conteúdos que escolhe acompanhar. O algoritmo
entrega mais daquilo que prende nossa atenção. Quem acredita em um lado recebe
mais argumentos daquele lado. Quem rejeita o outro recebe mais razões para
rejeitá-lo.
A política deixou de ser apenas uma
disputa por votos. Tornou-se também uma disputa pela realidade que cada eleitor
enxerga.
É nesse ambiente que o bolsonarismo continua forte.
E talvez esteja aí a explicação para o que parece, à
primeira vista, contraditório: quanto mais uma parte do eleitorado é convencida
de que Bolsonaro e seus aliados representam uma ameaça, mais outra parte pode
interpretar os mesmos ataques como perseguição política.
O mesmo acontecimento pode produzir conclusões
completamente diferentes.
E isso nos leva ao outro lado dessa história: o PT
e seus aliados.
Mesmo diante dos problemas e das controvérsias que
atingem seus adversários, o campo petista continua encontrando dificuldade para
transformar essas críticas em uma maioria política incontestável.
Isso também deveria provocar reflexão dentro do
próprio PT.
Por que uma parcela do eleitorado continua
desconfiando do partido mesmo depois de tantos anos?
Por que denúncias contra adversários nem sempre se
transformam em votos para o PT?
Talvez porque a memória política não desapareça
simplesmente. Ela permanece.
E, quando o eleitor já possui uma imagem formada sobre
determinado partido ou grupo político, novas informações são frequentemente
interpretadas a partir dessa imagem.
É assim que chegamos a uma situação preocupante.
Enquanto Bolsonaro e Lula disputam a
preferência do eleitor, o debate sobre projetos para o país muitas vezes fica
em segundo plano.
A discussão sobre saúde, educação, segurança, emprego,
desigualdade, equilíbrio das contas públicas, meio ambiente e qualidade dos
serviços públicos acaba sendo frequentemente substituída pela velha pergunta:
“Você é Lula ou Bolsonaro?”
E talvez essa seja a maior derrota da política
brasileira.
Porque o eleitor não deveria ser obrigado a escolher
entre duas identidades políticas.
Deveria poder escolher entre projetos.
Deveria cobrar resultados.
Deveria perguntar quanto custa cada proposta, de onde
virá o dinheiro, quem será beneficiado, quais serão as consequências e quem
será responsabilizado se der errado.
Flávio Bolsonaro pode ganhar ou perder a eleição. Lula
pode ganhar ou perder. Outros candidatos podem crescer.
Mas existe uma questão maior que permanecerá depois da
eleição:
o que o Brasil terá aprendido com essa
polarização?
Se continuarmos transformando adversários em inimigos,
se continuarmos tratando política como torcida organizada e se continuarmos
aceitando qualquer argumento apenas porque confirma aquilo em que já
acreditamos, quem perde não é Lula nem Flávio.
Quem perde é o cidadão.
E talvez seja justamente essa a reflexão que
deveríamos fazer antes de entrar novamente na cabine de votação:
Não perguntar apenas “contra quem eu voto?”
Mas, principalmente:
“O que este candidato pretende fazer, como
pretende fazer, quanto vai custar e quem vai fiscalizá-lo?”
Porque democracia não deveria ser uma guerra entre
dois grupos.
Deveria ser uma escolha consciente de uma
sociedade sobre o seu próprio futuro.

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