quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O vencedor antes das urnas

 

O vencedor antes das urnas



Por Pedro Claudio

Se as pesquisas estiverem captando corretamente o momento eleitoral, há uma constatação que merece reflexão: independentemente do resultado das urnas, Flávio Bolsonaro já conseguiu algo politicamente importante — transformar o sobrenome Bolsonaro em uma força eleitoral capaz de chegar novamente ao centro da disputa presidencial.

A pesquisa Datafolha divulgada em 21 de setembro mostra Lula com 39% e Flávio Bolsonaro com 36% no primeiro turno. No segundo turno, aparecem com 46% e 44%, respectivamente. Em ambos os casos, a diferença está dentro da margem de erro.

Isso não significa antecipar resultado. Pesquisa não é urna. Mas revela alguma coisa sobre o eleitor brasileiro: uma parcela expressiva do país continua disposta a votar no projeto político associado ao bolsonarismo.

E aqui começa a questão que considero mais importante.

Como explicar que, depois de tantos episódios controversos, tantas acusações, investigações, disputas institucionais e críticas acumuladas ao longo dos últimos anos, uma parcela significativa do eleitorado continue mantendo uma preferência tão resistente?

Talvez a resposta esteja menos nos candidatos individualmente e mais na profunda polarização política brasileira.

O bolsonarismo construiu sua identidade em oposição frontal ao PT e à esquerda. Seus adversários, por sua vez, construíram boa parte de sua mobilização política em oposição ao bolsonarismo.

É uma guerra política que parece ter criado dois grandes campos de pertencimento.

De um lado, o discurso de que o PT representa corrupção, aparelhamento do Estado, radicalismo ideológico e ameaça a valores tradicionais. De outro, a denúncia de que o bolsonarismo representa autoritarismo, intolerância, ataques aos direitos humanos e resistência ao reconhecimento de problemas sociais e ambientais.

Cada lado enxerga com enorme facilidade os defeitos do outro — e enorme dificuldade para reconhecer os seus próprios.

O PT também carrega sua história. O mensalão, as condenações e os personagens daquele período permanecem na memória política brasileira. José Dirceu, Delúbio Soares e outros dirigentes tornaram-se símbolos de um dos maiores desgastes da história do partido.

Durante anos, a cobertura jornalística sobre os escândalos de corrupção ajudou a fixar no imaginário popular uma associação entre PT e corrupção. Manchetes, imagens e denúncias foram repetidas à exaustão.

Depois vieram as redes sociais.

E as redes mudaram a maneira como o eleitor recebe informação.

Hoje, cada cidadão pode construir sua própria realidade política a partir dos conteúdos que escolhe acompanhar. O algoritmo entrega mais daquilo que prende nossa atenção. Quem acredita em um lado recebe mais argumentos daquele lado. Quem rejeita o outro recebe mais razões para rejeitá-lo.

A política deixou de ser apenas uma disputa por votos. Tornou-se também uma disputa pela realidade que cada eleitor enxerga.

É nesse ambiente que o bolsonarismo continua forte.

E talvez esteja aí a explicação para o que parece, à primeira vista, contraditório: quanto mais uma parte do eleitorado é convencida de que Bolsonaro e seus aliados representam uma ameaça, mais outra parte pode interpretar os mesmos ataques como perseguição política.

O mesmo acontecimento pode produzir conclusões completamente diferentes.

E isso nos leva ao outro lado dessa história: o PT e seus aliados.

Mesmo diante dos problemas e das controvérsias que atingem seus adversários, o campo petista continua encontrando dificuldade para transformar essas críticas em uma maioria política incontestável.

Isso também deveria provocar reflexão dentro do próprio PT.

Por que uma parcela do eleitorado continua desconfiando do partido mesmo depois de tantos anos?

Por que denúncias contra adversários nem sempre se transformam em votos para o PT?

Talvez porque a memória política não desapareça simplesmente. Ela permanece.

E, quando o eleitor já possui uma imagem formada sobre determinado partido ou grupo político, novas informações são frequentemente interpretadas a partir dessa imagem.

É assim que chegamos a uma situação preocupante.

Enquanto Bolsonaro e Lula disputam a preferência do eleitor, o debate sobre projetos para o país muitas vezes fica em segundo plano.

A discussão sobre saúde, educação, segurança, emprego, desigualdade, equilíbrio das contas públicas, meio ambiente e qualidade dos serviços públicos acaba sendo frequentemente substituída pela velha pergunta:

“Você é Lula ou Bolsonaro?”

E talvez essa seja a maior derrota da política brasileira.

Porque o eleitor não deveria ser obrigado a escolher entre duas identidades políticas.

Deveria poder escolher entre projetos.

Deveria cobrar resultados.

Deveria perguntar quanto custa cada proposta, de onde virá o dinheiro, quem será beneficiado, quais serão as consequências e quem será responsabilizado se der errado.

Flávio Bolsonaro pode ganhar ou perder a eleição. Lula pode ganhar ou perder. Outros candidatos podem crescer.

Mas existe uma questão maior que permanecerá depois da eleição:

o que o Brasil terá aprendido com essa polarização?

Se continuarmos transformando adversários em inimigos, se continuarmos tratando política como torcida organizada e se continuarmos aceitando qualquer argumento apenas porque confirma aquilo em que já acreditamos, quem perde não é Lula nem Flávio.

Quem perde é o cidadão.

E talvez seja justamente essa a reflexão que deveríamos fazer antes de entrar novamente na cabine de votação:

Não perguntar apenas “contra quem eu voto?”

Mas, principalmente:

“O que este candidato pretende fazer, como pretende fazer, quanto vai custar e quem vai fiscalizá-lo?”

Porque democracia não deveria ser uma guerra entre dois grupos.

Deveria ser uma escolha consciente de uma sociedade sobre o seu próprio futuro.

 


Nenhum comentário: