Entre a liberdade de publicar e o
compromisso de informar
Crônica jornalística — Por Pedro Claudio
Vivemos um tempo em que todos podem falar, publicar,
opinar e disputar a atenção do público. Nunca foi tão fácil comunicar.
Paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão necessário aprender a distinguir
informação, opinião, propaganda e jornalismo.
As redes sociais democratizaram a comunicação. Deram
voz a cidadãos que antes dependiam dos meios tradicionais para tornar públicas
suas ideias, críticas e reivindicações. Isso representa um avanço importante
para a liberdade de expressão e para a participação democrática. Entretanto,
essa transformação também trouxe um desafio: estamos aprendendo a conviver com
uma infinidade de informações, interesses, preferências e posicionamentos, nem
sempre acompanhados da responsabilidade que a comunicação exige.
Em períodos eleitorais, esse cenário fica ainda mais
evidente. A política ocupa as conversas, mobiliza paixões, divide opiniões e
transforma cada manifestação pública em motivo para disputas. As páginas nas
redes sociais ganham protagonismo, os vídeos circulam rapidamente e os
acontecimentos passam a ser avaliados não apenas pelo que representam, mas
também por quem os divulga e por quem se beneficia de sua repercussão.
É nesse ambiente que surge uma confusão que considero
preocupante: comparar indistintamente a atuação de páginas pessoais, portais
independentes e veículos de imprensa profissional, como se todos exercessem a
mesma atividade e estivessem sujeitos às mesmas responsabilidades.
Não é bem assim.
Uma pessoa pode criar um perfil no Instagram, uma
página no Facebook ou um canal em qualquer outra plataforma e divulgar
conteúdos de acordo com suas convicções políticas, preferências e interesses.
Pode apoiar um candidato, criticar um governo, defender uma causa ou escolher
os assuntos que deseja destacar. A liberdade de expressão protege esse espaço,
dentro dos limites da lei.
A imprensa profissional, porém, tem outra natureza e
outros compromissos. O jornalismo pressupõe apuração, verificação dos fatos,
responsabilidade editorial, respeito ao contraditório e disposição para ouvir
os diferentes lados de uma questão. No rádio e na televisão, existem também
obrigações legais específicas, cuja aplicação depende das normas pertinentes a
cada situação, especialmente no contexto eleitoral.
Isso não significa que todo veículo profissional seja
necessariamente imparcial, nem que toda página independente seja irresponsável.
Há bons trabalhos jornalísticos fora das grandes empresas, assim como há
veículos tradicionais que precisam ser questionados por suas escolhas
editoriais. O que precisamos compreender é que liberdade para publicar e
compromisso profissional de informar são coisas diferentes.
Tomemos como exemplo uma manifestação política. Um
grupo realiza uma passeata, reúne apoiadores e ganha espaço nas páginas locais.
Outro grupo, de orientação política diferente, promove atos semelhantes e
reclama da falta de divulgação. A indignação pode ser legítima e merece ser
examinada. Afinal, quem comunica também faz escolhas, e essas escolhas podem
revelar preferências, prioridades ou interesses.
Mas há uma pergunta que precisa anteceder qualquer
julgamento: estamos falando de um veículo comprometido com critérios
jornalísticos ou de uma página que publica aquilo que considera relevante,
interessante ou conveniente?
A distinção não elimina a necessidade de cobrar
responsabilidade de quem divulga informações. Tampouco transforma a omissão de
acontecimentos relevantes em algo irrelevante. Significa apenas que precisamos
avaliar cada situação de acordo com a natureza do canal, seus compromissos
declarados e sua atuação concreta.
Também é preciso reconhecer que a própria imprensa não
está acima de críticas. Pelo contrário: deve estar aberta ao questionamento
público, à correção de erros e à cobrança por transparência. A credibilidade
não se impõe pelo nome de um veículo, por sua tradição ou por uma concessão de
funcionamento. Conquista-se diariamente, com trabalho, coerência e
responsabilidade.
Talvez, nessa corrida por audiência, curtidas,
compartilhamentos e seguidores, estejamos deixando em segundo plano a
importância da produção jornalística. O rádio, por exemplo, continua exercendo
uma função pública relevante, especialmente nas comunidades do interior, onde a
informação local ajuda o cidadão a acompanhar decisões políticas, fiscalizar a
administração e compreender os problemas que afetam sua vida.
A produção de uma notícia exige trabalho. É preciso
buscar a fonte, conferir documentos, ouvir os envolvidos, contextualizar os
acontecimentos e organizar as informações para que o público compreenda o que
está em discussão. Uma publicação pode ser feita em segundos; uma reportagem
responsável pode exigir horas ou dias de apuração.
É justamente essa diferença que não podemos perder de
vista.
O Brasil atravessa uma transformação profunda na
maneira de pensar, agir, participar da política e consumir informação. A
modernidade tecnológica abriu possibilidades extraordinárias, enquanto as
mudanças culturais e sociais alteraram a relação entre cidadãos, instituições e
meios de comunicação. Estamos diante de uma realidade que não será revertida
simplesmente pela saudade de um tempo em que poucos controlavam os canais de
divulgação.
Não se trata de condenar as redes sociais, muito menos
de defender privilégios para a imprensa tradicional. Trata-se de reconhecer que
a democracia precisa tanto da liberdade de expressão quanto de informação
confiável para que as pessoas possam fazer suas escolhas com consciência.
Não sei se esse modelo de comunicação vai mudar tão
cedo. Talvez não estejamos diante de um modismo passageiro, mas de uma
transformação estrutural. O que pode mudar, e precisa mudar, é a nossa
capacidade de compreender esse novo ambiente, avaliar as fontes e cobrar
responsabilidade de acordo com o papel que cada um desempenha.
Acredito que ainda estamos em processo de aprendizado.
O cidadão precisa aprender a desconfiar de informações sem origem identificada,
o comunicador deve compreender o alcance de suas publicações e o jornalista
precisa reafirmar, todos os dias, o valor de sua responsabilidade profissional.
No fim das contas, não basta perguntar quem publicou,
quantas pessoas curtiram ou qual grupo político foi beneficiado. É necessário
perguntar: o fato foi apurado? Os envolvidos foram ouvidos? Há tratamento
igualitário, equânime? Há interesse público? A informação está contextualizada?
Existe disposição para corrigir um erro?
São perguntas simples, mas fundamentais para a saúde
da democracia.
Depois de tantos anos trabalhando no rádio, continuo
acreditando que comunicar é muito mais do que ocupar um espaço e conquistar
audiência. É assumir uma responsabilidade perante a sociedade.
Todos têm o direito de falar. Todos podem
participar do debate público. Mas a sociedade precisa saber distinguir quem
expressa uma opinião, quem defende um interesse e quem assume o compromisso
profissional de fazer jornalismo.
Essa distinção não restringe a liberdade. Ao
contrário: ajuda a protegê-la.
Pedro Claudio