sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Entre a liberdade de publicar e o compromisso de informar

 

Entre a liberdade de publicar e o compromisso de informar




Crônica jornalística — Por Pedro Claudio

Vivemos um tempo em que todos podem falar, publicar, opinar e disputar a atenção do público. Nunca foi tão fácil comunicar. Paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão necessário aprender a distinguir informação, opinião, propaganda e jornalismo.

As redes sociais democratizaram a comunicação. Deram voz a cidadãos que antes dependiam dos meios tradicionais para tornar públicas suas ideias, críticas e reivindicações. Isso representa um avanço importante para a liberdade de expressão e para a participação democrática. Entretanto, essa transformação também trouxe um desafio: estamos aprendendo a conviver com uma infinidade de informações, interesses, preferências e posicionamentos, nem sempre acompanhados da responsabilidade que a comunicação exige.

Em períodos eleitorais, esse cenário fica ainda mais evidente. A política ocupa as conversas, mobiliza paixões, divide opiniões e transforma cada manifestação pública em motivo para disputas. As páginas nas redes sociais ganham protagonismo, os vídeos circulam rapidamente e os acontecimentos passam a ser avaliados não apenas pelo que representam, mas também por quem os divulga e por quem se beneficia de sua repercussão.

É nesse ambiente que surge uma confusão que considero preocupante: comparar indistintamente a atuação de páginas pessoais, portais independentes e veículos de imprensa profissional, como se todos exercessem a mesma atividade e estivessem sujeitos às mesmas responsabilidades.

Não é bem assim.

Uma pessoa pode criar um perfil no Instagram, uma página no Facebook ou um canal em qualquer outra plataforma e divulgar conteúdos de acordo com suas convicções políticas, preferências e interesses. Pode apoiar um candidato, criticar um governo, defender uma causa ou escolher os assuntos que deseja destacar. A liberdade de expressão protege esse espaço, dentro dos limites da lei.

A imprensa profissional, porém, tem outra natureza e outros compromissos. O jornalismo pressupõe apuração, verificação dos fatos, responsabilidade editorial, respeito ao contraditório e disposição para ouvir os diferentes lados de uma questão. No rádio e na televisão, existem também obrigações legais específicas, cuja aplicação depende das normas pertinentes a cada situação, especialmente no contexto eleitoral.

Isso não significa que todo veículo profissional seja necessariamente imparcial, nem que toda página independente seja irresponsável. Há bons trabalhos jornalísticos fora das grandes empresas, assim como há veículos tradicionais que precisam ser questionados por suas escolhas editoriais. O que precisamos compreender é que liberdade para publicar e compromisso profissional de informar são coisas diferentes.

Tomemos como exemplo uma manifestação política. Um grupo realiza uma passeata, reúne apoiadores e ganha espaço nas páginas locais. Outro grupo, de orientação política diferente, promove atos semelhantes e reclama da falta de divulgação. A indignação pode ser legítima e merece ser examinada. Afinal, quem comunica também faz escolhas, e essas escolhas podem revelar preferências, prioridades ou interesses.

Mas há uma pergunta que precisa anteceder qualquer julgamento: estamos falando de um veículo comprometido com critérios jornalísticos ou de uma página que publica aquilo que considera relevante, interessante ou conveniente?

A distinção não elimina a necessidade de cobrar responsabilidade de quem divulga informações. Tampouco transforma a omissão de acontecimentos relevantes em algo irrelevante. Significa apenas que precisamos avaliar cada situação de acordo com a natureza do canal, seus compromissos declarados e sua atuação concreta.

Também é preciso reconhecer que a própria imprensa não está acima de críticas. Pelo contrário: deve estar aberta ao questionamento público, à correção de erros e à cobrança por transparência. A credibilidade não se impõe pelo nome de um veículo, por sua tradição ou por uma concessão de funcionamento. Conquista-se diariamente, com trabalho, coerência e responsabilidade.

Talvez, nessa corrida por audiência, curtidas, compartilhamentos e seguidores, estejamos deixando em segundo plano a importância da produção jornalística. O rádio, por exemplo, continua exercendo uma função pública relevante, especialmente nas comunidades do interior, onde a informação local ajuda o cidadão a acompanhar decisões políticas, fiscalizar a administração e compreender os problemas que afetam sua vida.

A produção de uma notícia exige trabalho. É preciso buscar a fonte, conferir documentos, ouvir os envolvidos, contextualizar os acontecimentos e organizar as informações para que o público compreenda o que está em discussão. Uma publicação pode ser feita em segundos; uma reportagem responsável pode exigir horas ou dias de apuração.

É justamente essa diferença que não podemos perder de vista.

O Brasil atravessa uma transformação profunda na maneira de pensar, agir, participar da política e consumir informação. A modernidade tecnológica abriu possibilidades extraordinárias, enquanto as mudanças culturais e sociais alteraram a relação entre cidadãos, instituições e meios de comunicação. Estamos diante de uma realidade que não será revertida simplesmente pela saudade de um tempo em que poucos controlavam os canais de divulgação.

Não se trata de condenar as redes sociais, muito menos de defender privilégios para a imprensa tradicional. Trata-se de reconhecer que a democracia precisa tanto da liberdade de expressão quanto de informação confiável para que as pessoas possam fazer suas escolhas com consciência.

Não sei se esse modelo de comunicação vai mudar tão cedo. Talvez não estejamos diante de um modismo passageiro, mas de uma transformação estrutural. O que pode mudar, e precisa mudar, é a nossa capacidade de compreender esse novo ambiente, avaliar as fontes e cobrar responsabilidade de acordo com o papel que cada um desempenha.

Acredito que ainda estamos em processo de aprendizado. O cidadão precisa aprender a desconfiar de informações sem origem identificada, o comunicador deve compreender o alcance de suas publicações e o jornalista precisa reafirmar, todos os dias, o valor de sua responsabilidade profissional.

No fim das contas, não basta perguntar quem publicou, quantas pessoas curtiram ou qual grupo político foi beneficiado. É necessário perguntar: o fato foi apurado? Os envolvidos foram ouvidos? Há tratamento igualitário, equânime? Há interesse público? A informação está contextualizada? Existe disposição para corrigir um erro?

São perguntas simples, mas fundamentais para a saúde da democracia.

Depois de tantos anos trabalhando no rádio, continuo acreditando que comunicar é muito mais do que ocupar um espaço e conquistar audiência. É assumir uma responsabilidade perante a sociedade.

Todos têm o direito de falar. Todos podem participar do debate público. Mas a sociedade precisa saber distinguir quem expressa uma opinião, quem defende um interesse e quem assume o compromisso profissional de fazer jornalismo.

Essa distinção não restringe a liberdade. Ao contrário: ajuda a protegê-la.

Pedro Claudio