domingo, 20 de setembro de 2026

Se esta vida não tem sentido, então como devemos vivê-la?

 

Se esta vida não tem sentido, então como devemos vivê-la?


Por Pedro Claudio

Tenho ouvido uma afirmação religiosa que merece, ao menos, uma reflexão: “Esta vida não tem sentido sem Deus. Este mundo só serve para escolher quem terá a vida eterna. Não tem sentido viver se não houver vida eterna. Sem Deus nada somos.” O argumento ainda relaciona o afastamento de Deus ao crescimento da depressão.

Antes de continuar, é preciso fazer uma distinção. A Igreja Católica possui, sim, preceitos e orientações que, segundo sua própria doutrina, fazem parte da vida cristã de quem foi batizado e deseja viver em comunhão com a Igreja. Entre os preceitos estão a participação na Missa aos domingos e dias santos de guarda, a observância de determinadas normas litúrgicas e morais e a acolhida das verdades de fé ensinadas pela Igreja.

Entre essas verdades estão, por exemplo, a crença em Deus Uno e Trino, na encarnação de Jesus Cristo, na ressurreição, na vida eterna e, dentro da doutrina mariana, na Imaculada Conceição e na maternidade divina de Maria. A Igreja também recomenda fortemente a leitura e meditação da Bíblia, a oração, a reza do terço, a participação na comunidade, a prática da caridade e a vivência dos sacramentos.

Tudo isso tem seu lugar e sua importância para quem professa a fé católica. A questão que proponho aqui é outra: cumprir práticas religiosas significa necessariamente considerar a vida presente como algo sem sentido próprio, uma espécie de passagem provisória cujo único objetivo seria determinar quem ganhará ou não a vida eterna?

 

É uma afirmação que pode parecer profundamente religiosa, mas me provoca uma pergunta: se este mundo serve apenas como passagem para outro, como devemos viver enquanto estamos aqui?

Devemos nos afastar dos prazeres da vida? Desconfiar da felicidade? Renunciar aos bens materiais? Considerar o trabalho, a cultura, a ciência, a amizade, o amor, a família, a sexualidade, a arte e a própria natureza como distrações perigosas? Devemos viver como miseráveis para provar que desejamos o céu?

Creio que essa conclusão não corresponde necessariamente ao cristianismo.

Uma coisa é afirmar que a vida humana encontra em Deus uma dimensão transcendente. Outra, muito diferente, é dizer que a vida presente não possui sentido próprio.

Se acreditamos que Deus é o criador, então o mundo criado não pode ser simplesmente um lugar sem importância. A tradição bíblica começa afirmando que a criação é boa. E, no cristianismo, Deus não permanece distante da realidade humana: a própria encarnação de Jesus significa entrar na história, assumir um corpo, viver entre pessoas, experimentar alegrias, dores, amizades, conflitos, trabalho, sofrimento e morte.

Jesus não ensinou seus seguidores a abandonar a realidade. Ao contrário: falou de fome, pão, justiça, perdão, dinheiro, pobreza, doença, solidariedade, relações humanas e cuidado com o próximo.

Quando Jesus diz que veio para que todos tenham vida, e vida em abundância, seria estranho interpretar essa mensagem como se a existência presente fosse apenas um corredor sem importância que precisamos atravessar até chegar ao verdadeiro destino.

O problema, talvez, esteja em transformar a esperança da vida eterna em desvalorização da vida presente.

Uma fé madura não precisa dizer: “não aproveite esta vida porque a verdadeira vida será depois”.

Pode dizer: “viva esta vida com profundidade porque ela é o lugar concreto onde você ama, sofre, aprende, trabalha, cria, perdoa, cuida e constrói o bem.”

O prazer também não precisa ser visto como pecado simplesmente porque é prazer. Comer uma boa refeição, ouvir música, viajar, conversar com amigos, apaixonar-se, contemplar uma paisagem, praticar esporte, estudar, produzir conhecimento ou simplesmente rir não são necessariamente sinais de afastamento de Deus.

O problema não está no prazer, mas naquilo que fazemos dele.

Quando o prazer se transforma em dependência, exploração, egoísmo ou destruição de outras pessoas, ele pode nos escravizar. Mas quando uma experiência proporciona alegria, convivência, descanso, beleza e gratidão, por que necessariamente deveria ser considerada inimiga da espiritualidade?

Também precisamos ter cuidado com a afirmação de que “sem Deus nada somos”.

Do ponto de vista da fé, alguém pode dizer que a existência humana encontra sua origem e seu fundamento em Deus. Mas isso não significa que uma pessoa sem fé seja um ser sem valor, sem dignidade ou sem capacidade de amar.

Uma pessoa pode não acreditar em Deus e ainda assim dedicar a vida à família, à ciência, à justiça, à solidariedade, à educação, à defesa da natureza ou ao cuidado de quem sofre.

E aqui aparece outra questão importante: não devemos atribuir automaticamente o aumento da depressão à falta de Deus.

A depressão é uma condição complexa, relacionada a fatores psicológicos, biológicos, sociais e ambientais. Solidão, perdas, violência, dificuldades econômicas, traumas, doenças, relações familiares, predisposição individual e muitas outras circunstâncias podem participar desse processo.

A espiritualidade pode ser, para muitas pessoas, uma importante fonte de sentido, esperança, comunidade e apoio. Mas isso não significa que a ausência de religião seja a explicação para todo sofrimento psicológico.

Aliás, dizer a alguém deprimido que sua tristeza existe porque está longe de Deus pode produzir ainda mais culpa: “Estou sofrendo porque minha fé é insuficiente.”

E isso pode ser profundamente doloroso.

Talvez seja mais saudável compreender a relação entre fé e existência de outra maneira.

Não precisamos escolher entre viver plenamente este mundo e esperar a eternidade.

Para quem acredita, uma coisa pode estar ligada à outra.

A esperança cristã não deveria produzir desprezo pela Terra, mas responsabilidade diante dela. Se acredito na vida eterna, isso não me autoriza a tratar esta vida como descartável. Pelo contrário: deveria aumentar minha responsabilidade por aquilo que faço enquanto estou aqui.

Se acredito em Deus, como trato o ser humano que está diante de mim?

Como trato minha família?

Como trato quem pensa diferente?

Como trato o pobre?

Como trato quem não acredita?

Como trato a natureza?

Como exerço minha profissão?

Como uso o dinheiro?

Como trato o meu próprio corpo?

Como enfrento a injustiça?

Como lido com o poder?

Talvez seja justamente aí que a fé deixe de ser apenas discurso sobre o céu e se transforme em prática concreta na Terra.

O cristianismo não deveria ensinar uma fuga da realidade, mas uma maneira diferente de habitá-la.

Não precisamos viver como miseráveis para provar que queremos o céu. Também não precisamos transformar os prazeres do mundo em nosso único objetivo.

Podemos trabalhar sem fazer do dinheiro um deus.

Podemos desfrutar sem transformar o prazer em escravidão.

Podemos conquistar bens sem sermos possuídos por eles.

Podemos estudar e questionar sem perder a espiritualidade.

Podemos amar a ciência sem abandonar a fé.

Podemos celebrar a vida sem esquecer a morte.

Podemos reconhecer nossos limites sem deixar de sonhar.

E podemos acreditar na eternidade sem desprezar o presente.

Talvez a pergunta mais importante não seja “esta vida tem sentido sem Deus?”

Para quem acredita, a pergunta pode ser outra:

“Se Deus nos deu esta vida, o que estamos fazendo com ela?”

Porque, se existe uma eternidade, ela não deveria servir para diminuir o valor do presente.

Deveria nos tornar ainda mais responsáveis pela maneira como vivemos o presente.

A vida não precisa ser uma sala de espera para o céu.

Pode ser o lugar onde aprendemos a amar.

 


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