segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Além do Púlpito: a Liberdade da Fé e o Mistério da Consciência

 

Além do Púlpito: a Liberdade da Fé e o Mistério da Consciência



Por Pedro Claudio | 12 de outubro de 2026 — Dia de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil

Se mede a fé? Somos capazes de fazê-lo? Alguém é dono da fé de outra pessoa?

São questionamentos que todos aqueles que vivem próximos ao púlpito, exercem funções religiosas ou assumem responsabilidades nas comunidades de fé deveriam fazer a si mesmos, em um permanente exercício de reflexão, estudo e exame de consciência.

É preocupante perceber que, para algumas pessoas, não basta participar das celebrações, cultivar a oração e professar suas crenças. Elas também se sentem autorizadas a julgar a fé alheia e, em determinadas circunstâncias, até mesmo a constranger ou impedir que outras pessoas vivam sua experiência religiosa. Isso pode ocorrer pelo peso de um cargo, pela tradição de uma longa participação na comunidade ou por convicções tão rígidas que acabam limitando a capacidade de compreender o outro.

Mas de onde vem essa pretensão de medir a fé alheia? Quem nos concedeu a capacidade de conhecer, em toda a sua profundidade, a consciência de outra pessoa e a intimidade de sua relação com Deus?

A fé, penso eu, não pode ser reduzida a métricas humanas. Não se mede simplesmente pela frequência ao templo, pelo tempo de participação em uma Igreja, pelas funções exercidas ou pela aparente observância de determinadas práticas religiosas. A vida comunitária tem seu valor, assim como as normas e os compromissos assumidos por quem pertence a uma instituição. Entretanto, é necessário distinguir a disciplina institucional da relação pessoal que cada ser humano estabelece com o Divino.

Estar em comunhão com uma comunidade religiosa e viver de acordo com os preceitos de sua tradição são questões relacionadas, mas não idênticas. As instituições têm regras, autoridades e responsabilidades. A consciência individual, por sua vez, exige liberdade, discernimento e responsabilidade diante de Deus.

A fé não é propriedade de quem ocupa o púlpito, nem privilégio exclusivo de quem acredita conhecer melhor os caminhos da religião.

A autoridade religiosa e os limites do julgamento humano

Na vida das instituições religiosas, existem sanções, afastamentos e restrições. Na Igreja Católica, por exemplo, há pessoas excomungadas, ministros suspensos do exercício de determinadas funções e fiéis que, por diferentes razões, deixam de participar de atividades comunitárias.

Essas situações precisam ser compreendidas à luz das normas, das circunstâncias e das responsabilidades envolvidas. Questionar a autoridade religiosa não significa negar a existência de regras, assim como reconhecer a disciplina de uma instituição não exige atribuir a ela o poder de determinar, de maneira definitiva, o destino espiritual de alguém.

Há uma distinção fundamental que merece nossa atenção: estar afastado de uma função religiosa, sofrer uma sanção institucional ou ser colocado para fora de uma comunidade não significa, automaticamente, estar fora do alcance da misericórdia de Deus.

Entre estar colocado para fora e estar verdadeiramente fora do coração de Deus existe uma distância que nenhum julgamento humano pode estabelecer como definitiva.

A instituição pode determinar as condições de participação em seus ministérios e aplicar as normas que a regem. Contudo, não lhe cabe transformar uma decisão disciplinar em sentença definitiva sobre a salvação de uma pessoa.

O Catecismo da Igreja Católica, nos parágrafos 1776 a 1802, apresenta a consciência moral como o lugar interior em que a pessoa reconhece o chamado ao bem e discerne suas responsabilidades diante de Deus. No parágrafo 1776, a consciência é descrita como o núcleo mais secreto e o sacrário da pessoa humana, onde ela se encontra a sós com Deus, cuja voz ressoa em seu íntimo.

Isso não significa que a consciência individual seja infalível ou esteja dispensada de formação. Ela precisa ser educada, examinada e orientada. Significa, porém, que a responsabilidade moral não pode ser substituída simplesmente pela pressão de outras pessoas, pelo medo da autoridade ou pela necessidade de obter aprovação social.

A consciência exige liberdade, mas também compromisso com a verdade e com o bem.

A liberdade religiosa como fundamento da dignidade humana

Essa reflexão encontra importante fundamentação no Concílio Vaticano II, especialmente na declaração Dignitatis humanae, promulgada em 7 de dezembro de 1965.

O documento afirma, em seu número 2, que a liberdade religiosa consiste na imunidade de coação em matéria religiosa: ninguém deve ser obrigado a agir contra a própria consciência nem impedido de agir segundo ela, dentro dos devidos limites.

Trata-se de um princípio que merece ser considerado inclusive dentro das próprias comunidades religiosas. A adesão à fé não deve ser confundida com submissão obtida pela intimidação. A participação religiosa precisa ser compreendida à luz da dignidade humana, da liberdade e da responsabilidade pessoal.

É importante esclarecer que esse princípio não elimina a autoridade doutrinal e disciplinar da Igreja Católica, nem significa que toda escolha individual esteja automaticamente de acordo com seus ensinamentos. O que ele nos convida a reconhecer é que a liberdade de consciência possui um valor próprio e que a coerção não constitui o caminho adequado para produzir uma adesão interior autêntica.

A fé cristã não se resume à obediência exterior. Ela envolve uma resposta pessoal ao chamado de Deus, uma caminhada que exige discernimento, conversão e compromisso.

Jesus e a crítica à pretensão de julgar o outro

Nos Evangelhos, encontramos elementos importantes para questionar a arrogância religiosa e a pretensão de estabelecer superioridade espiritual sobre o próximo.

Na parábola do fariseu e do publicano, em Lucas 18,9-14, Jesus apresenta dois homens que vão ao templo para rezar. Um deles enumera suas virtudes e se considera superior ao outro. O segundo, consciente de sua fragilidade, pede misericórdia.

A conclusão da parábola inverte a expectativa de quem acreditava poder estabelecer a própria justiça a partir de suas credenciais religiosas. Jesus questiona a atitude daqueles que confiam em si mesmos, considerando-se justos, e desprezam os demais.

A mensagem não é que a oração, a disciplina ou a participação religiosa sejam inúteis. É que essas práticas perdem seu sentido quando alimentam a soberba, a discriminação e o desprezo.

Outra passagem merece atenção. Em Marcos 9,38-40, os discípulos querem impedir um homem de agir em nome de Jesus porque ele não pertencia ao grupo deles. Jesus os adverte contra essa postura de exclusividade.

O episódio nos convida a pensar: será que, em algumas circunstâncias, também não agimos como se a ação de Deus estivesse limitada ao nosso grupo, à nossa compreensão ou à nossa autoridade?

No Evangelho de João 3,8, Jesus utiliza a imagem do vento que sopra onde quer ao falar da ação do Espírito. A passagem não significa que todas as interpretações humanas estejam corretas ou que as instituições religiosas não tenham qualquer papel. Ela nos recorda, porém, que o mistério de Deus é maior do que nossa capacidade de compreensão e não pode ser transformado em propriedade particular.

A advertência vale especialmente para quem exerce funções de liderança: a autoridade religiosa deveria conduzir ao serviço, à responsabilidade e ao cuidado com as pessoas, e não à convicção de que se possui o direito de controlar a consciência alheia.

A fé que permanece além das fronteiras institucionais

Penso nas pessoas que, por diferentes motivos, já não ocupam os espaços religiosos que um dia frequentaram. Algumas se afastaram por decisão própria. Outras foram afastadas de determinadas funções ou enfrentaram conflitos com suas comunidades. Há quem carregue feridas, dúvidas, arrependimentos e perguntas ainda sem resposta.

Cada história possui suas particularidades. Não seria justo transformar todas essas situações em uma única interpretação, ignorando as responsabilidades individuais ou as circunstâncias de cada caso.

Entretanto, também não é justo presumir que alguém tenha perdido sua relação com Deus simplesmente porque já não ocupa determinado lugar dentro de uma instituição.

A experiência da fé não elimina nossas contradições. A pessoa que crê também erra, questiona, sofre, se arrepende e procura recomeçar. A maturidade espiritual talvez esteja justamente na capacidade de reconhecer a própria fragilidade sem transformar a fragilidade alheia em motivo de condenação.

A misericórdia não dispensa a responsabilidade. O perdão não significa negar os erros. A liberdade não significa ausência de compromisso. Mas a disciplina também não deve ser confundida com a pretensão de conhecer o julgamento definitivo de Deus.

Se acreditamos que Deus conhece o íntimo de cada pessoa, precisamos reconhecer os limites de nossos próprios julgamentos.

É possível que alguém, mesmo afastado de uma função religiosa, continue rezando, buscando a Deus, praticando o bem e procurando viver os ensinamentos de Jesus. Da mesma forma, alguém que permanece assiduamente no templo precisa continuar examinando suas atitudes, porque a presença física em uma celebração não garante, por si só, a transformação do coração.

A pergunta essencial, portanto, não é apenas quem está dentro ou fora de uma instituição. É também o que fazemos com a fé que professamos.

Ela nos torna mais humanos? Mais justos? Mais solidários? Mais capazes de reconhecer nossos erros? Ou nos faz acreditar que somos melhores do que aqueles cuja história desconhecemos?

Nossa Senhora Aparecida e o caminho da esperança

Neste 12 de outubro, dia em que o Brasil celebra Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do país, somos convidados a renovar nossa confiança em Deus e a refletir sobre o sentido de nossa devoção.

Maria ocupa um lugar especial na tradição católica não como proprietária da graça divina, mas como aquela que aponta para Jesus e convida à escuta de sua Palavra.

No relato das bodas de Caná, ela diz aos servidores: “Fazei tudo o que ele vos disser” (João 2,5).

Essa orientação continua sendo um convite para os cristãos: voltar o olhar para Jesus, procurar compreender seu Evangelho e permitir que seus ensinamentos transformem nossas atitudes.

Que Nossa Senhora Aparecida interceda por nós, para que não façamos da religião um instrumento de disputa, exclusão ou superioridade. Que nossas comunidades sejam lugares de oração, acolhimento, discernimento e compromisso com a dignidade humana.

Que, com as bênçãos de Deus e a presença de Jesus em nossas atitudes, possamos errar menos, reconhecer nossas falhas, pedir perdão quando necessário, perdoar com mais generosidade e trilhar caminhos que nos aproximem da verdade, da justiça e do amor.

E que a devoção à Padroeira do Brasil nos ajude a compreender que a fé não deve ser usada para construir muros entre as pessoas, mas para alimentar a esperança e a disposição de caminhar juntos, mesmo quando existem diferenças e conflitos.

Ao final, permanecem as perguntas que deram origem a esta reflexão: é possível medir a fé? Somos capazes de conhecer a profundidade da relação de outra pessoa com Deus? Quem somos nós para transformar nossos julgamentos em sentenças definitivas sobre a vida espiritual do próximo?

Talvez seja mais proveitoso substituir a preocupação em medir a fé alheia pela disposição de examinar a nossa própria consciência.

Afinal, a fé não nos torna donos de Deus, nem nos concede o monopólio de sua misericórdia. Ela nos convida a uma caminhada de confiança, responsabilidade, conversão e esperança.

Porque estar junto ao púlpito não significa estar acima do próximo. E conhecer as normas de uma religião não significa conhecer, por inteiro, os caminhos de Deus.

Pedro Claudio
12 de outubro de 2026 — Dia de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil

Referências teóricas e bíblicas Referência:

 CONCÍLIO VATICANO II. Dignitatis humanae: declaração sobre a liberdade religiosa, especialmente o número 2. Disponível no portal oficial da Santa Sé: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_decl_19651207_dignitatis-humanae_po.html

 

  1. Concílio Vaticano II. Dignitatis humanae (1965), n.º 2 — liberdade religiosa e imunidade de coação.
  2. Catecismo da Igreja Católica, §§ 1776–1802 — consciência moral, discernimento e responsabilidade.
  3. Bíblia Sagrada: Lucas 18,9-14; Marcos 9,38-40; João 3,8; João 2,1-11.

 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Perdi a inocência: o que a campanha política de 2026 me ensinou


 

QUANDO A FÉ VIRA INSTRUMENTO DE CAMPANHA



Opinião — Por Pedro Claudio

Nessas eleições, muita coisa me chamou a atenção. Mais do que discursos, propostas ou disputas partidárias, chamou-me a atenção o comportamento humano diante da fé. E, particularmente, o uso do nome de Deus como instrumento para convencer o outro a aceitar determinada convicção política ou partidária.

Foi uma campanha que mostrou como a fé pode ser manipulada quando deixa de ser experiência espiritual e passa a ser utilizada como ferramenta de disputa pelo poder.

Vi religiosos — padres, pastores e outras lideranças — entrarem no debate político. Vi também pessoas sem religião e até ateus discutindo religião e tentando utilizar símbolos religiosos para reforçar suas posições. E isso deveria nos fazer pensar.

Deus apareceu em discursos políticos. A pátria apareceu. A família apareceu. O aborto apareceu. A defesa da chamada família tradicional apareceu. E, muitas vezes, tudo foi apresentado de maneira simplificada: “Fulano é a favor do aborto”; “determinado grupo é contra a família”; “quem apoia aquele partido está contra Deus”.

Mas desde quando a escolha política de uma pessoa pode ser transformada em julgamento sobre sua relação com Deus?

O problema se torna ainda maior quando alguém passa a utilizar o medo religioso.

Houve quem dissesse, por exemplo, que o eleitor deveria tomar cuidado com quem apoiava nas urnas porque poderia estar apoiando alguém ligado ao aborto — e que, nesse caso, “as portas do inferno estariam abertas”.

Isso não é uma simples opinião política. É a utilização de uma linguagem religiosa de condenação para interferir na consciência do eleitor.

E aqui está uma questão teológica fundamental: quem deu a uma liderança religiosa o poder de determinar o destino eterno de uma pessoa a partir do voto que ela deposita na urna?

O Evangelho não pode ser reduzido a cabo eleitoral.

Outro fenômeno que me chamou atenção foi a utilização de Nossa Senhora e de símbolos católicos por pessoas que, em outras circunstâncias, nem sequer demonstram vínculo com a fé católica. De repente, a imagem da Mãe de Jesus passou a aparecer no debate político como instrumento de convencimento.

Nossa Senhora, que para milhões de católicos representa uma referência de fé, humildade e serviço, não deveria ser transformada em moeda de troca eleitoral.

É preciso dizer isso com clareza: símbolos religiosos não são propriedade de partidos, candidatos ou grupos políticos.

E houve ainda uma confusão histórica que considero particularmente grave: a tentativa de estabelecer uma ligação direta entre o Estado de Israel contemporâneo e o Israel bíblico.

É preciso separar as coisas.

O Israel mencionado nas Escrituras pertence a uma realidade histórica, religiosa e teológica própria. O Estado de Israel moderno é uma realidade política contemporânea, criada em 1948, inserida em um conflito histórico envolvendo israelenses e palestinos.

Uma coisa não pode ser automaticamente utilizada para legitimar a outra.

Não se pode simplesmente afirmar que defender o Estado de Israel atual significa estar defendendo o “Israel da Bíblia”, como se todas as decisões de um governo contemporâneo fossem automaticamente aprovadas por Deus.

E muito menos transformar uma posição política sobre o conflito entre israelenses e palestinos em uma espécie de teste de fidelidade cristã.

A Bíblia não pode ser utilizada como um carimbo para legitimar qualquer governo.

Aliás, os próprios profetas bíblicos passaram boa parte de sua história denunciando reis, governantes e estruturas de poder. O Deus dos profetas não era propriedade do palácio. Era justamente aquele que cobrava justiça do palácio.

Talvez essa seja uma das grandes lições que precisamos recuperar.

Deus não precisa de cabo eleitoral.

Deus não precisa que um padre diga em quem devo votar.

Deus não precisa que um pastor transforme o púlpito em palanque.

E Deus certamente não precisa que alguém utilize o medo do inferno para controlar a consciência de outra pessoa.

Foi observando tudo isso que alguma coisa mudou dentro de mim.

Talvez eu tenha perdido uma certa inocência.

Durante muito tempo, talvez tenha imaginado que padres, pastores, bispos e outras lideranças religiosas fossem pessoas que, por sua formação ou posição, necessariamente saberiam mais sobre Deus e, por isso, seriam sempre referências seguras para orientar nossas escolhas.

Hoje penso diferente.

Lideranças religiosas são seres humanos.

Podem estudar muito. Podem possuir uma profunda experiência espiritual. Podem prestar um enorme serviço à sociedade. Mas também podem errar, exagerar, interpretar equivocadamente, misturar convicções pessoais com doutrina e, principalmente, deixar que suas preferências políticas contaminem sua atuação religiosa.

Padre não é Deus. Pastor não é Deus. Bispo não é Deus. Líder religioso não é Deus.

E nenhum deles deveria exigir obediência política como condição para uma pessoa ser considerada boa cristã.

Isso não significa desprezar a religião. Muito pelo contrário.

Significa levar a fé a sério.

Uma fé adulta não precisa ser conduzida pelo medo. Uma consciência cristã não deveria precisar de ameaça para fazer o bem.

Jesus não formou discípulos para serem massa de manobra. Formou pessoas capazes de discernir.

E talvez seja justamente essa a palavra que mais precisamos recuperar: discernimento.

Também quero fazer uma observação sobre a Igreja Católica e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB.

Não faço aqui proselitismo religioso. Tampouco pretendo transformar a CNBB em modelo absoluto de comportamento.

Mas, durante o período eleitoral, foi possível perceber uma diferença entre apresentar princípios da Doutrina Social da Igreja e fazer campanha explícita por candidatos ou partidos.

A tradição social católica possui posições construídas há décadas sobre dignidade humana, pobreza, trabalho, justiça social, defesa da vida, democracia, bem comum, cuidado com os pobres, direitos humanos e responsabilidade do Estado e da sociedade.

Apresentar esses princípios é uma coisa.

Dizer ao fiel em quem ele deve votar é outra.

E essa diferença precisa ser respeitada.

O cidadão tem direito à sua consciência. O eleitor tem direito ao seu discernimento. E a fé não deveria ser utilizada para sequestrar esse espaço de liberdade.

No fim das contas, talvez as eleições tenham deixado uma lição que vai muito além da política.

Precisamos aprender a desconfiar quando alguém coloca Deus ao lado do próprio candidato.

Precisamos ficar atentos quando alguém diz: “Deus está conosco” — como se Deus tivesse partido, número eleitoral e candidato.

Precisamos ter cuidado quando alguém tenta transformar adversário político em inimigo de Deus.

E precisamos ter ainda mais cuidado quando alguém ameaça o outro com o inferno simplesmente porque ele pensa diferente.

A fé pode iluminar a política.

Mas quando a política passa a manipular a fé, alguma coisa se perdeu no caminho.

Eu perdi um pouco da inocência.

E talvez isso não seja necessariamente ruim.

Hoje, quando escuto uma autoridade religiosa falar em nome de Deus, procuro ouvir com respeito, mas também com discernimento.

Porque aprendi uma coisa simples:

religiosos não são Deus.
Lideranças religiosas não são infalíveis.
Candidatos não são enviados por Deus.
Partidos não são igrejas.
E o voto de ninguém determina o lugar de sua alma no céu ou no inferno.

A fé é grande demais para caber em uma urna eletrônica.

E Deus é grande demais para ser transformado em instrumento de campanha.

Opinião — Pedro Claudio



segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Israel da Bíblia e Estado de Israel: é preciso separar as coisas

 

Israel da Bíblia e Estado de Israel: é preciso separar as coisas


Por Pedro Claudio

Gente, existe muita confusão quando se fala sobre a guerra entre Israel e Palestina. Muitas vezes, acontecimentos políticos e militares do presente são colocados diretamente dentro de uma narrativa bíblica, como se o Israel mencionado na Bíblia fosse exatamente o mesmo Estado de Israel que existe hoje.

É preciso fazer uma distinção histórica importante.

O Israel da Bíblia pertence ao mundo antigo. A Bíblia fala de Israel como povo, como território e também como reino. A história bíblica registra diferentes períodos e organizações políticas, como os antigos reinos de Israel e Judá.

Já o Estado de Israel moderno foi criado em 14 de maio de 1948, no contexto posterior ao fim do Mandato Britânico na Palestina e de um longo processo político relacionado ao movimento sionista e à história do povo judeu.

Existe, portanto, uma ligação histórica, cultural e religiosa muito forte entre o antigo Israel, o povo judeu e o Estado moderno. Mas isso não significa que sejam a mesma realidade política e histórica.

Israel bíblico não é simplesmente o Estado de Israel de hoje

Essa distinção é importante também para nós, cristãos.

Há pessoas que dizem: "Sou cristão, portanto tenho obrigação de defender Israel". E algumas justificam essa posição recorrendo às promessas feitas por Deus a Abraão na Bíblia.

Um dos textos mais citados é Gênesis 12,3, quando Deus diz a Abraão:

"Abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem."

É uma passagem importante dentro da tradição bíblica e da história da fé judaico-cristã. Mas é preciso perguntar: a quem o texto bíblico está se referindo e em qual contexto histórico e religioso essa promessa foi feita?

O texto está falando da relação de Deus com Abraão e sua descendência dentro da história bíblica da aliança. Não está apresentando uma regra de política internacional para os Estados modernos milhares de anos depois.

Portanto, utilizar automaticamente essa passagem para afirmar que todo cristão tem obrigação religiosa de apoiar qualquer decisão do atual governo de Israel é uma interpretação teológica, não uma conclusão histórica inevitável.

Uma coisa é apoiar Israel; outra é dizer que o cristão é obrigado a fazê-lo

Uma pessoa pode, naturalmente, defender o Estado de Israel, apoiar sua existência, sua segurança e até apoiar determinadas decisões de seu governo.

Assim como outra pessoa pode fazer críticas às políticas do governo israelense e defender os direitos dos palestinos.

Essas são posições políticas que fazem parte do debate democrático.

O problema começa quando alguém afirma:

"Se você é cristão, obrigatoriamente precisa estar a favor do Estado de Israel porque Israel é o povo protegido por Deus na Bíblia."

Essa afirmação mistura diferentes períodos históricos, conceitos religiosos e realidades políticas.

O Israel bíblico, o povo judeu, o judaísmo, o Estado de Israel moderno, o governo de Israel e os israelenses de hoje não são expressões que podem ser usadas como sinônimos.

E o Estado de Israel não é um Estado cristão

Outro ponto que precisa ser esclarecido: Israel não é um Estado cristão.

Sua população é diversificada. Há judeus, muçulmanos, cristãos, drusos e pessoas sem religião, entre outros grupos.

Portanto, também não faz sentido apresentar a guerra atual simplesmente como uma disputa entre "cristãos e inimigos de Deus".

O conflito envolve história, território, nacionalismo, religião, segurança, política regional, direitos nacionais, ocupação, grupos armados e decisões de governos.

É uma realidade muito mais complexa.

Netanyahu não é Israel. Hamas não é o povo palestino.

Também precisamos separar governo de população.

Benjamin Netanyahu é o primeiro-ministro de Israel, mas não é Israel. Suas decisões e as decisões de seu governo podem e devem ser analisadas e criticadas como decisões políticas.

Da mesma forma, Hamas não é sinônimo de todo o povo palestino.

Existem israelenses que discordam do governo. Existem judeus que criticam determinadas políticas de Israel. Existem palestinos que não apoiam o Hamas. E existem cristãos palestinos vivendo naquela região.

Quando transformamos povos inteiros em representantes automáticos de governos ou organizações armadas, perdemos a capacidade de compreender a realidade.

E para o cristão, existe ainda uma questão maior

O cristianismo nasceu no ambiente judaico do primeiro século. Jesus era judeu. Os primeiros discípulos eram judeus. A Bíblia cristã possui suas raízes profundas na história de Israel.

Mas isso não significa que o cristianismo tenha como missão defender automaticamente um Estado moderno específico.

O centro da fé cristã é Cristo e seu ensinamento.

E quando pensamos nas palavras de Jesus, encontramos uma mensagem que também nos obriga a olhar para o sofrimento humano.

No Evangelho de Mateus, por exemplo, Jesus ensina:

"Bem-aventurados os que promovem a paz."
Mateus 5,9

E também:

"Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem."
Mateus 5,44

Isso não elimina o direito de uma pessoa defender Israel, defender a Palestina, defender a segurança de civis ou criticar grupos armados e governos.

Mas nos lembra que o cristão não precisa transformar uma guerra política em uma obrigação religiosa de tomar partido de um governo.

História não pode ser substituída por slogan

É perfeitamente possível reconhecer a importância histórica e religiosa de Israel para o judaísmo e para o cristianismo, reconhecer o direito dos israelenses à segurança e, ao mesmo tempo, reconhecer os direitos e a dignidade do povo palestino.

Também é possível condenar ataques contra civis israelenses sem, por isso, considerar legítima toda e qualquer ação do governo de Israel.

E é possível defender os direitos dos palestinos sem justificar ataques contra civis israelenses.

Uma coisa não precisa obrigatoriamente anular a outra.

O que precisamos evitar é uma tremenda confusão histórica: pegar o Israel da Bíblia, descrito nos textos do Antigo Testamento, e simplesmente transferi-lo para o Estado moderno criado em 1948, como se as duas realidades fossem exatamente a mesma coisa.

A Bíblia pertence a uma história religiosa e antiga. O Estado de Israel pertence à história política contemporânea.

Estudar essa diferença não diminui a importância da Bíblia, nem a importância histórica do povo judeu.

Ao contrário: respeitar a Bíblia também significa respeitar o seu contexto histórico.

E talvez seja justamente isso que precisamos fazer diante de uma guerra: menos slogans religiosos, menos simplificações e mais conhecimento.

Porque fé não precisa ser confundida com política, e solidariedade com um povo não precisa significar apoio automático a todas as decisões de seu governo.

 



sábado, 26 de setembro de 2026

Cine Riviera: quando Iporá tinha cinema, filmes e até programa de rádio ao vivo

 

Cine Riviera: quando Iporá tinha cinema, filmes e até programa de rádio ao vivo

Por Pedro Claudio



Quem olha para esta fotografia talvez veja apenas uma antiga fachada, marcada pelo tempo. Mas as grandes letras “CINE” revelam muito mais: ali está uma parte da memória cultural de Iporá.

Sim, Iporá teve cinema — e a história é mais recente do que muitos imaginam.

Na época registrada pela fotografia, o cinema funcionava na Rua Esmerindo Pereira e era propriedade de Aytubes Diniz, empresário de uma família que teve participação importante na história econômica e comercial da cidade. Entre os empreendimentos ligados à família estava também o Esplanada Hotel , que ficava na esquina próxima ao cinema.

O cinema era Cine Riviera e não se limitava às sessões de filmes. O espaço também fazia parte da vida cultural e artística de Iporá.

Um dos exemplos era o programa “Roda de Violeiros”, transmitido pela Rádio Rio Claro, que acontecia nas manhãs de domingo. O programa reunia música, violeiros e a participação da comunidade, criando uma ligação interessante entre cinema, rádio e cultura popular.

Era outro tempo.

Antes da televisão por assinatura, da internet, das plataformas de streaming e dos smartphones, o cinema era um dos espaços de encontro da população. Ir ao Cine Riviera significava muito mais do que assistir a um filme. Era uma oportunidade de encontrar amigos, namorar, conversar e participar da vida cultural da cidade.

Os filmes também fazem parte da memória

A fotografia ajuda a recuperar um pouco daquela época. Os cartazes espalhados pela fachada anunciam as atrações que estavam em cartaz e registram nomes e produções que faziam parte do cotidiano dos frequentadores.

Hoje, esses cartazes podem parecer apenas propaganda antiga. Para quem viveu aquele período, entretanto, eles podem despertar lembranças: qual filme foi assistido? Com quem? Quanto custava o ingresso? Como era a sala? Quem trabalhava no cinema?

São detalhes que normalmente desaparecem com o passar dos anos, mas que ajudam a reconstruir a história de uma cidade.

O Cine Riviera e a Rádio Rio Claro

Há ainda um detalhe particularmente interessante nessa história: um cinema que também servia como espaço para a produção de um programa de rádio.

O Roda de Violeiros, transmitido pela Rádio Rio Claro nas manhãs de domingo, mostra como os meios de comunicação e os espaços culturais estavam interligados.

A rádio levava a voz dos artistas para os ouvintes e o cinema oferecia um espaço físico para a realização do programa. Era uma forma de aproximar rádio, música, cultura sertaneja e comunidade.

Para quem trabalha ou trabalhou no rádio em Iporá, essa memória ganha ainda mais significado.

Uma fotografia que merece ser preservada

A imagem do antigo Cine Riviera não é apenas uma fotografia de uma construção. É um registro de uma época em que Iporá tinha seus próprios espaços de entretenimento e cultura.

Hoje, talvez muita gente mais jovem nem imagine que naquela rua existiu um cinema, que os filmes eram anunciados nas paredes e que, nas manhãs de domingo, dali também se fazia rádio.

A história de uma cidade não está somente nos grandes acontecimentos. Ela também está nos cinemas, nos programas de rádio, nos hotéis, nas praças, nas lojas e nos lugares onde as pessoas viveram seus pequenos e grandes momentos.

E o Cine Riviera, ligado à história de Aytubes Diniz, da família Diniz, do Hotel Esplanada e da Rádio Rio Claro, é uma dessas histórias que Iporá precisa preservar.

Quem viveu essa época certamente tem muito mais para contar.

Pedro Claudio – jornalista e radialista



Quando a democracia vira um campo de batalha

 

Quando a democracia vira um campo de batalha



Por Pedro Claudio

Tempo de campanha política. Infelizmente, um dos períodos de maior desafio para a democracia.

É justamente quando deveríamos estar discutindo projetos, propostas e o futuro da sociedade que aparecem, com preocupante naturalidade, discursos que relativizam a liberdade, defendem a concentração de poder e até flertam com ideias autoritárias, com a ditadura e, em casos extremos, com o próprio nazismo.

E há algo ainda mais preocupante: a naturalização da ideia de que o mais forte deve se sobrepor ao mais fraco.

Como se quem possui mais dinheiro tivesse, por isso, mais direitos. Como se o poder econômico desse ao patrão o direito de impor sua vontade ao trabalhador. Como se as relações de trabalho pudessem ser resolvidas exclusivamente pela negociação individual, sem regras, sem proteção social e sem a presença reguladora do Estado.

Até o salário mínimo, uma conquista histórica de proteção ao trabalhador, passa a ser apresentado por alguns como algo que deveria simplesmente ser "negociado" entre patrão e empregado.

Mas negociação entre desiguais nem sempre significa liberdade. Quando um lado tem o capital, o poder de contratação e a possibilidade de dizer "aceite ou procure outro emprego", enquanto o outro precisa trabalhar para sobreviver, a relação de forças não é exatamente a mesma.

E, em época de eleição, vemos também outra cena conhecida: candidatos fazendo dancinhas, abraçando crianças, comendo pastel, apertando mãos e tentando demonstrar uma proximidade com o povo que, muitas vezes, desaparece depois que termina a campanha.

O cidadão simples vira personagem durante alguns meses. Depois, volta a ser apenas eleitor — quando não é esquecido.

Por isso, este é um momento que exige atenção.

Democracia não pode ser transformada em um simples "salve-se quem puder". Porque, quando cada um passa a cuidar apenas de si e os mais fortes ficam livres para impor sua vontade, quem normalmente paga a conta é justamente a maioria que tem menos poder econômico, político e social.

A história já nos mostrou isso.

Antes da Revolução Francesa, a sociedade europeia estava organizada em uma estrutura de ordens e privilégios. No chamado Antigo Regime, o clero e a nobreza ocupavam posições privilegiadas, enquanto o chamado Terceiro Estado reunia a grande maioria da população, incluindo burgueses, trabalhadores, camponeses e outros grupos que sustentavam grande parte dos encargos da sociedade.

Era uma sociedade profundamente desigual.

E talvez devêssemos prestar atenção quando algumas ideias contemporâneas começam a tratar desigualdade como algo natural, pobreza como culpa individual e direitos sociais como privilégios.

O mais curioso — e preocupante — é que quem questiona essa lógica muitas vezes é imediatamente chamado de "comunista".

Defender salário digno, direitos trabalhistas, saúde pública, educação, igualdade perante a lei e proteção para quem está em situação de vulnerabilidade não deveria ser uma questão de esquerda ou direita. São questões de cidadania e de dignidade humana.

Não se trata de defender um partido.

Não se trata de escolher um candidato.

Trata-se de perguntar que tipo de sociedade queremos construir.

Uma sociedade em que o poder econômico determina quem pode mais?

Uma sociedade em que o trabalhador precisa aceitar qualquer condição porque não tem outra alternativa?

Uma sociedade em que o cidadão só é lembrado durante a campanha?

Ou uma sociedade em que liberdade venha acompanhada de responsabilidade, direitos sejam acompanhados de deveres e todos sejam tratados com dignidade?

A democracia é imperfeita. Dá trabalho. Exige diálogo, contraditório, respeito às diferenças e, principalmente, participação consciente.

Por isso, em tempo de eleição, talvez a pergunta mais importante não seja "quem está fazendo a melhor propaganda?", mas:

Que ideias estão sendo defendidas? Que sociedade essas ideias podem produzir? E quem ganha e quem perde quando elas são colocadas em prática?

Liberdade não pode existir somente para os mais fortes.

Igualdade não significa que todos sejam iguais em tudo, mas que ninguém seja considerado inferior por sua condição social.

E fraternidade significa reconhecer que uma sociedade não pode ser construída contra o outro, mas com o outro.

São valores que atravessaram séculos e continuam atuais:

Liberté, Égalité, Fraternité.

Liberdade, igualdade e fraternidade.

Talvez seja justamente disso que este nosso tempo esteja precisando: menos idolatria política, menos culto ao poder e mais consciência de que democracia não é apenas o direito de votar.

Democracia é também o compromisso permanente de impedir que alguém se torne poderoso demais para se colocar acima dos demais.


“Não basta dizer que somos cristãos: o que nossas atitudes revelam?”

 

A Lista de Schindler e a pergunta que precisa ser feita a nós mesmos



Lendo a obra A Lista de Schindler e assistindo ao filme, é impossível não olhar para a história e perguntar: como o ser humano foi capaz de chegar a tamanha desumanidade?

O Holocausto nos causa indignação. A perseguição, a discriminação, a separação entre pessoas, a ideia de que alguns seres humanos seriam superiores a outros e, portanto, teriam o direito de decidir quem deveria viver ou morrer.

Mas, depois de olhar para tudo isso, talvez seja necessário fazer uma pergunta ainda mais difícil:

E eu? Como estou sendo como ser humano?

É muito fácil condenar os erros do passado. É fácil olhar para a história e dizer: “Eu jamais faria uma coisa dessas”. Mas será que não existem, em nosso cotidiano, pequenas atitudes de exclusão, preconceito, julgamento e separação?

Será que, ao me declarar cristão, estou realmente olhando para minhas próprias atitudes?

Será que, algumas vezes, não me coloco em uma posição de superioridade diante de outras pessoas? Será que não faço uma divisão silenciosa entre “os bons” e “os pecadores”? Entre aqueles que frequentam o templo e aqueles que estão fora dele?

Será que não penso, mesmo sem perceber: “Ele é pecador; eu sou diferente, porque frequento a igreja”?

E aqui está uma contradição que precisa nos fazer pensar.

Qual é o sentido de frequentar um templo, participar de uma comunidade religiosa, ouvir a Palavra de Deus, rezar, cantar, receber os sacramentos e professar uma fé, se tudo isso não produz em nós um esforço sincero para sermos pessoas melhores?

Não melhores do que os outros.

Melhores do que nós mesmos fomos ontem.

Talvez essa seja uma das grandes perguntas que a fé deveria provocar em nossa vida.

Não se trata de construir uma aparência de santidade. Não se trata de apontar o dedo para quem erra. Não se trata de criar muros entre os que consideramos “certos” e os que consideramos “errados”.

Trata-se de olhar para dentro.

Porque também podemos separar pessoas com palavras. Podemos afastá-las com nossos julgamentos. Podemos promover distanciamento social com nossos preconceitos. Podemos transformar a religião em uma espécie de fronteira: de um lado, os que consideramos dignos; do outro, aqueles que julgamos indignos.

E talvez seja justamente aí que nossa fé esteja sendo colocada à prova.

O cristianismo não deveria nos ensinar a olhar de cima para baixo. Deveria nos ensinar a olhar para o outro como alguém que também é filho de Deus.

Isso não significa concordar com tudo. Não significa abandonar princípios, convicções ou valores. Significa não transformar nossas convicções em instrumentos para humilhar, excluir ou desumanizar o outro.

A história nos mostra até onde a humanidade pode chegar quando começa a retirar do outro sua dignidade.

Por isso, talvez a grande reflexão de A Lista de Schindler não esteja apenas naquilo que aconteceu ontem.

Ela também está naquilo que fazemos hoje.

Como tratamos quem pensa diferente?

Como tratamos quem errou?

Como tratamos quem não frequenta nossa igreja?

Como tratamos o pobre, o dependente químico, o preso, o imigrante, o adversário político, aquele que vive de maneira diferente da nossa?

E, principalmente: como tratamos aqueles de quem não precisamos de nada?

Talvez seja aí que descobrimos quem realmente somos.

A fé não deveria servir para nos colocar acima de ninguém. Deveria nos colocar diante de Deus com humildade.

Não sou melhor que ninguém.

Também não sou pior.

Sou gente.

Tenho erros, tenho limitações, tenho contradições e tenho muito a aprender.

Sou filho de Deus e estou tentando melhorar.

Quero aprender a ouvir mais. Julgar menos. Perdoar mais. Amar mais. Reconhecer meus próprios erros. E, quando eu cair, ter humildade para recomeçar.

Talvez a grande vitória da vida não seja convencer o mundo de que somos santos.

Talvez seja permitir que Deus transforme, silenciosamente, aquilo que ainda precisa ser transformado dentro de nós.

Deixar Deus agir.

Ouvir o sussurro do Espírito Santo.

E encontrar força para continuar a caminhada.

Porque, no final, a pergunta mais importante talvez não seja:

“Eu sou melhor do que os outros?”

Mas:

“Hoje, eu estou sendo uma pessoa melhor do que fui ontem?”

E talvez seja justamente nessa caminhada — imperfeita, humana e sincera — que a nossa fé começa a fazer sentido.

 

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O vencedor antes das urnas

 

O vencedor antes das urnas



Por Pedro Claudio

Se as pesquisas estiverem captando corretamente o momento eleitoral, há uma constatação que merece reflexão: independentemente do resultado das urnas, Flávio Bolsonaro já conseguiu algo politicamente importante — transformar o sobrenome Bolsonaro em uma força eleitoral capaz de chegar novamente ao centro da disputa presidencial.

A pesquisa Datafolha divulgada em 21 de setembro mostra Lula com 39% e Flávio Bolsonaro com 36% no primeiro turno. No segundo turno, aparecem com 46% e 44%, respectivamente. Em ambos os casos, a diferença está dentro da margem de erro.

Isso não significa antecipar resultado. Pesquisa não é urna. Mas revela alguma coisa sobre o eleitor brasileiro: uma parcela expressiva do país continua disposta a votar no projeto político associado ao bolsonarismo.

E aqui começa a questão que considero mais importante.

Como explicar que, depois de tantos episódios controversos, tantas acusações, investigações, disputas institucionais e críticas acumuladas ao longo dos últimos anos, uma parcela significativa do eleitorado continue mantendo uma preferência tão resistente?

Talvez a resposta esteja menos nos candidatos individualmente e mais na profunda polarização política brasileira.

O bolsonarismo construiu sua identidade em oposição frontal ao PT e à esquerda. Seus adversários, por sua vez, construíram boa parte de sua mobilização política em oposição ao bolsonarismo.

É uma guerra política que parece ter criado dois grandes campos de pertencimento.

De um lado, o discurso de que o PT representa corrupção, aparelhamento do Estado, radicalismo ideológico e ameaça a valores tradicionais. De outro, a denúncia de que o bolsonarismo representa autoritarismo, intolerância, ataques aos direitos humanos e resistência ao reconhecimento de problemas sociais e ambientais.

Cada lado enxerga com enorme facilidade os defeitos do outro — e enorme dificuldade para reconhecer os seus próprios.

O PT também carrega sua história. O mensalão, as condenações e os personagens daquele período permanecem na memória política brasileira. José Dirceu, Delúbio Soares e outros dirigentes tornaram-se símbolos de um dos maiores desgastes da história do partido.

Durante anos, a cobertura jornalística sobre os escândalos de corrupção ajudou a fixar no imaginário popular uma associação entre PT e corrupção. Manchetes, imagens e denúncias foram repetidas à exaustão.

Depois vieram as redes sociais.

E as redes mudaram a maneira como o eleitor recebe informação.

Hoje, cada cidadão pode construir sua própria realidade política a partir dos conteúdos que escolhe acompanhar. O algoritmo entrega mais daquilo que prende nossa atenção. Quem acredita em um lado recebe mais argumentos daquele lado. Quem rejeita o outro recebe mais razões para rejeitá-lo.

A política deixou de ser apenas uma disputa por votos. Tornou-se também uma disputa pela realidade que cada eleitor enxerga.

É nesse ambiente que o bolsonarismo continua forte.

E talvez esteja aí a explicação para o que parece, à primeira vista, contraditório: quanto mais uma parte do eleitorado é convencida de que Bolsonaro e seus aliados representam uma ameaça, mais outra parte pode interpretar os mesmos ataques como perseguição política.

O mesmo acontecimento pode produzir conclusões completamente diferentes.

E isso nos leva ao outro lado dessa história: o PT e seus aliados.

Mesmo diante dos problemas e das controvérsias que atingem seus adversários, o campo petista continua encontrando dificuldade para transformar essas críticas em uma maioria política incontestável.

Isso também deveria provocar reflexão dentro do próprio PT.

Por que uma parcela do eleitorado continua desconfiando do partido mesmo depois de tantos anos?

Por que denúncias contra adversários nem sempre se transformam em votos para o PT?

Talvez porque a memória política não desapareça simplesmente. Ela permanece.

E, quando o eleitor já possui uma imagem formada sobre determinado partido ou grupo político, novas informações são frequentemente interpretadas a partir dessa imagem.

É assim que chegamos a uma situação preocupante.

Enquanto Bolsonaro e Lula disputam a preferência do eleitor, o debate sobre projetos para o país muitas vezes fica em segundo plano.

A discussão sobre saúde, educação, segurança, emprego, desigualdade, equilíbrio das contas públicas, meio ambiente e qualidade dos serviços públicos acaba sendo frequentemente substituída pela velha pergunta:

“Você é Lula ou Bolsonaro?”

E talvez essa seja a maior derrota da política brasileira.

Porque o eleitor não deveria ser obrigado a escolher entre duas identidades políticas.

Deveria poder escolher entre projetos.

Deveria cobrar resultados.

Deveria perguntar quanto custa cada proposta, de onde virá o dinheiro, quem será beneficiado, quais serão as consequências e quem será responsabilizado se der errado.

Flávio Bolsonaro pode ganhar ou perder a eleição. Lula pode ganhar ou perder. Outros candidatos podem crescer.

Mas existe uma questão maior que permanecerá depois da eleição:

o que o Brasil terá aprendido com essa polarização?

Se continuarmos transformando adversários em inimigos, se continuarmos tratando política como torcida organizada e se continuarmos aceitando qualquer argumento apenas porque confirma aquilo em que já acreditamos, quem perde não é Lula nem Flávio.

Quem perde é o cidadão.

E talvez seja justamente essa a reflexão que deveríamos fazer antes de entrar novamente na cabine de votação:

Não perguntar apenas “contra quem eu voto?”

Mas, principalmente:

“O que este candidato pretende fazer, como pretende fazer, quanto vai custar e quem vai fiscalizá-lo?”

Porque democracia não deveria ser uma guerra entre dois grupos.

Deveria ser uma escolha consciente de uma sociedade sobre o seu próprio futuro.