Da
ruptura ao recomeço: minha vida, minha essência
É muito
interessante pensar a vida: como ela é dinâmica, como pode mudar de uma hora
para outra — ou não. Tudo é incerto. De repente, independentemente da nossa
vontade, tudo muda.
Cito o
meu caso.
Eu levava
uma vida considerada normal: pai de família, dois filhos já formados, 29 anos
de vida matrimonial produtiva, uma convivência conjugal e religiosa intensa.
Exercia minha missão como diácono permanente na Igreja Católica, em Iporá,
Goiás, com uma rotina de celebrações e reuniões. Minha esposa trabalhava, e a
vida seguia com boas perspectivas de futuro. Eu, aos 55 anos, acreditava na
continuidade daquele caminho.
E então,
o pior aconteceu.
Minha
esposa, tomada por uma atitude extrema contra a própria vida, decidiu pelo
autoextermínio. Um turbilhão tomou conta de mim. Eu não estava preparado para
aquilo.
Naquele
dia, após uma Celebração da Palavra na comunidade Jardim Monte Alto, às 18h, na
periferia de Iporá, eu me dirigia para uma segunda celebração, às 19h, na
Comunidade Nossa Senhora Aparecida, no Setor Carajás. No intervalo, senti a
necessidade de voltar para casa.
Foi ali
que me deparei com a catástrofe.
Minha
companheira de mais de 30 anos havia atentado contra a própria vida. Ainda
conseguiu expressar o desejo de morrer — foram suas últimas palavras
compreensíveis. Após ingerir soda cáustica, já não conseguia mais falar, apenas
balbuciava. Cancelei meus compromissos e acionei imediatamente o atendimento
médico. O SAMU chegou rápido. Eram por volta das 19h30 do dia 20 de janeiro de
2020.
Ali,
minha vida mudou para sempre.
No
hospital, com a chegada de familiares, amigos e do padre Pablo, que lhe
ministrou a confissão, vivemos momentos de angústia e esperança. Acreditávamos
que poderia sobreviver, ainda que com sequelas. Mas, por volta das 3h da
madrugada, veio a notícia mais dolorosa: o falecimento.
A partir
daí, não houve mais calmaria.
Consegui
manter certa serenidade sustentado por Deus e pela presença de pessoas
próximas: familiares, colegas, membros da comunidade católica, além do apoio de
psicólogos e médicos. Cada um trouxe uma palavra, uma orientação, um consolo.
Mas,
ainda assim, era preciso seguir.
Precisei
me ressignificar. Mudar. Recomeçar — já às portas da maturidade, mas ainda com
energia para viver.
E então
veio a pergunta inevitável: o que fazer?
O
caminhar é solitário. Toda decisão é subjetiva. Diante de mim, surgiram três
possibilidades, apresentadas pelo padre passionista Célio Amaro, que me
acompanhava: permanecer sozinho; seguir o sacerdócio; ou pedir dispensa e
reconstruir a vida ao lado de outra pessoa.
Naquele
momento, compreendi que a decisão era exclusivamente minha.
Coloquei-me
no altar do Senhor, pedindo que Ele conduzisse meu caminho, pois minha vontade
estava fragilizada por sentimentos, orgulho e vaidade.
Com o
tempo, vieram influências externas, contatos, redes sociais. Após o período
mais intenso do luto, surgiram experiências, tentativas, instabilidades
emocionais. A solidão se impunha. Amigos e até a família seguiram seus caminhos
— algo natural da vida.
E foi
nesse processo que novas possibilidades surgiram.
Até que,
acredito, Deus colocou em meu caminho Eva Maria da Silveira Borges, também
viúva, igualmente em busca de reconstrução.
Segui,
então, com transparência. Comuniquei minha decisão aos superiores — padres e
bispo —, depois à comunidade. Afastei-me das atividades pastorais, pois minha
nova condição não era compatível com as normas da Igreja, conforme o Código de
Direito Canônico.
Por
decisão pessoal, suspendi minhas funções. Posteriormente, essa condição foi
formalizada e permanece até hoje.
Mas minha
missão não terminou.
Ela
continua — e continuará enquanto eu viver.
Hoje,
vivo em constante ressignificação. A cada atitude, a cada escolha.
A normalidade
de antes não existe mais. E talvez nunca mais exista.
Minha
oração é para que, mesmo em meio às inquietações, eu seja coerente, firme e
fiel à missão de cuidar, amar e viver enquanto houver fôlego.
Tenho
consciência de que não estou livre de novas mudanças. A vida é assim. Perdi a
inocência de acreditar que tudo seria permanente. Hoje entendo: tudo dura
enquanto precisa durar — e deve ser vivido com intensidade.
Vivemos
para nós e para os outros. A vida é comunitária.
Depois de
atravessar uma ruptura dessa magnitude, pensar a vida deixa de ser teoria e
passa a ser sobrevivência.
A
existência, que antes parecia estável, revela sua verdadeira natureza: a
impermanência.
Não é
apenas a perda de alguém. É a ruptura de identidade. Um “eu” que deixa de
existir como era. E, diante disso, surge o vazio — e o vazio exige decisão.
E decidir
é um ato solitário.
Mesmo com
apoio, ninguém pode escolher por nós. Essa solidão não é abandono — é condição
humana. É nela que se constrói um novo sentido.
As
possibilidades que tive não eram apenas caminhos práticos, mas formas de
existir:
permanecer na ausência, aprofundar a fé no sacerdócio ou reconstruir a vida
afetiva.
A escolha
foi, acima de tudo, existencial.
Colocar
essa decisão nas mãos de Deus foi também uma forma de organizar o caos
interior, dar sentido ao que parecia incompreensível.
O luto
não é linear. Ele passa por instabilidade, busca, tentativas. Não há pureza
nesse processo — há humanidade.
O
reencontro com o afeto não substitui o passado. Ele reconfigura o presente.
E assim,
a vida ensina:
Não há
garantias.
A identidade não é fixa.
O controle é limitado.
O sentido precisa ser reconstruído constantemente.
A
maturidade não está em superar a dor, mas em integrá-la à própria história.
A antiga
ideia de normalidade desaparece. Em seu lugar, surge uma vida mais consciente,
mais real, mais comprometida com o essencial.
Viver
passa a ser um ato diário de escolha.
No fim,
permanece uma verdade simples: viver é aceitar o inacabado.
E
continuar, apesar de tudo, já é um ato de fé.
Sou eu,
Pedro Claudio, contando minha história — juntando cacos e construindo uma nova
vida.
Iporá, Goiás.
No rádio, meu local de trabalho desde abril de 1987.
19 de abril de 2026.


