“Convertei-vos
e crede no Evangelho”
Por Pedro Claudio, uma contribuição pensada para a quaresma.
A frase proclamada sobre cada fiel no rito das cinzas — “Convertei-vos e crede no Evangelho” — não é apenas uma fórmula litúrgica repetida ano após ano. Ela é um chamado profundo, existencial e permanente. Marca o início do tempo quaresmal, quarenta dias que remetem diretamente à experiência de Jesus no deserto, onde, após o jejum, enfrentou as tentações e reafirmou sua fidelidade absoluta ao Pai (cf. Mt 4,1-11; Mc 1,12-13; Lc 4,1-13). A Quaresma, portanto, não é um intervalo simbólico, mas um caminho espiritual que a Igreja propõe a cada batizado.
Em alguns
ambientes cristãos, o termo conversão é compreendido como mudança de
filiação religiosa: sair de uma denominação para aderir a outra. Do ponto de
vista católico, porém, a conversão tem um significado muito mais profundo e
exigente. Não se trata, primariamente, de mudar de grupo, mas de mudar o
coração.
O
Catecismo da Igreja Católica ensina que a conversão é uma obra contínua,
interior e comunitária:
“A
conversão é, antes de tudo, obra da graça de Deus que faz voltar a Ele os
nossos corações” (CIC, n. 1432).
Ela
implica arrependimento sincero, mudança de mentalidade (metanoia) e
decisão concreta de viver segundo o Evangelho. Jesus inicia sua pregação
exatamente com esse chamado: “O tempo se cumpriu, e o Reino de Deus está
próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Crer no Evangelho
não é apenas aceitá-lo intelectualmente, mas deixar que ele molde atitudes,
escolhas e relações.
A Igreja,
fiel à tradição bíblica, propõe a Quaresma como um tempo privilegiado de jejum,
abstinência e oração, sempre unidos à caridade. Esses três pilares aparecem
claramente no ensinamento de Jesus no Sermão da Montanha (cf. Mt 6,1-18), onde
Ele alerta que tais práticas não devem ser feitas para aparecer, mas como
expressão sincera de conversão interior.
O Código
de Direito Canônico estabelece normas concretas para ajudar os fiéis nesse
caminho:
- O cânon 1249 recorda que
todos os fiéis são chamados à penitência;
- O cânon 1251 determina a
abstinência de carne às sextas-feiras e, de modo particular, na
Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa;
- O cânon 1252 define quem
está obrigado ao jejum e à abstinência.
Essas
práticas, porém, não são um fim em si mesmas. O próprio Catecismo adverte que a
penitência exterior deve estar unida à conversão do coração (cf. CIC, n. 1430).
Por isso, muitos pastores insistem corretamente: jejuar de carne, de alimentos
ou de costumes só tem sentido se vier acompanhado de gestos concretos de misericórdia,
justiça e amor ao próximo.
Receber
as cinzas é um gesto forte e profundamente bíblico. Ao ouvir “Tu és pó e ao
pó voltarás” (cf. Gn 3,19), o fiel reconhece sua fragilidade, a
transitoriedade da vida e a vaidade de toda pretensão de autossuficiência. Tudo
passa, tudo se dissolve. No entanto, esse gesto não conduz ao desespero, mas à
verdade: só Deus permanece.
As cinzas
têm sentido quando provocam uma revisão sincera de vida. Elas não são um rito
mágico nem um sinal de status religioso. São um apelo silencioso à conversão:
olhar para si, reconhecer limites, pecados e incoerências, e decidir caminhar
de modo novo. Conversão, nesse sentido, é retomar o caminho traçado por Jesus.
Os quatro
Evangelhos oferecem o conteúdo e o critério dessa caminhada. Jesus ensina o
amor radical (cf. Jo 13,34), o perdão sem medidas (cf. Mt 18,22), a
misericórdia como rosto do Pai (cf. Lc 15), a verdade que liberta (cf. Jo 8,32)
e a atenção preferencial aos pobres, doentes e excluídos (cf. Mt 25,31-46).
Não
faltam ensinamentos. Falta, muitas vezes, acolhê-los com o coração e
traduzi-los em vida. Isso vale para todos na Igreja: do Papa aos bispos, dos
padres e diáconos aos religiosos e leigos. A conversão não é privilégio de
alguns nem exigência apenas para “quem está afastado”. É tarefa permanente de
todo cristão.
A
consciência amadurecida entre os leigos engajados aponta para uma verdade
essencial: não basta frequentar o templo, assistir à missa ou cumprir preceitos
externos. A fé exige compromisso. O Catecismo é claro ao afirmar que a
conversão se manifesta em obras, gestos e decisões concretas (cf. CIC, n.
1434).
Abster-se
de carne, jejuar, participar das celebrações quaresmais — tudo isso é valioso
quando se transforma em atitudes novas: mais paciência, mais solidariedade,
mais justiça, mais cuidado com o outro. Sem isso, o rito perde sua força
transformadora.
“Convertei-vos e crede no Evangelho” não é um convite para agradar
aos outros, à sociedade ou mesmo para “parecer religioso”. É um chamado para
ser maior diante de si mesmo e, sobretudo, diante de Deus. Não para se exaltar,
mas para se tornar melhor; não para julgar, mas para ajudar o próximo a também
ser melhor.
As
tentações continuam a rondar a vida humana, como rondaram a de Jesus. Por isso,
a Quaresma nos lembra: não esmorecer, não ceder, não desistir. Caminhar
quarenta dias é aprender a caminhar sempre, sustentados pela Palavra, pela
graça e pela esperança de que a conversão, ainda que difícil, é sempre
possível.
Esse é o
verdadeiro sentido das cinzas, do jejum e da oração: um caminho de
transformação à luz do Evangelho, que conduz da fragilidade à vida nova.





