Colocar Deus em primeiro lugar: entre a
prática religiosa e o amor ao próximo
Por Pedro Claudio
Recentemente, ouvi uma homilia na qual o pregador
desafiava os fiéis a refletirem sobre uma pergunta: Deus está realmente em
primeiro lugar em nossa vida?
Segundo ele, se perguntarmos às pessoas, quase todas
responderão que sim. Afinal, rezam, carregam o terço, participam das
celebrações e procuram manter uma relação com Deus. Entretanto, o religioso
chamou a atenção para determinados comportamentos, especialmente quando as
pessoas programam suas viagens, escolhem os lugares que frequentarão e
organizam seus momentos de lazer. Para ele, também nessas situações o cristão
deveria demonstrar que Deus ocupa o primeiro lugar.
Um dos exemplos apresentados foi a participação na
missa durante uma viagem. Muitas pessoas até procuram uma igreja no destino,
mas isso acaba acontecendo apenas se houver oportunidade. Na avaliação do
pregador, o ideal seria pesquisar antecipadamente os horários das celebrações e
organizar a viagem considerando esse compromisso.
Reconheço que existe uma preocupação legítima nessa
orientação. A fé também se expressa nas escolhas, nas prioridades e na maneira
como organizamos nossa vida. A missa, a oração, o terço e os demais momentos de
espiritualidade não são meros costumes ou obrigações vazias. São oportunidades
de encontro com Deus, fortalecimento da fé, reflexão e comunhão com a
comunidade. Para muitos cristãos, representam uma fonte indispensável de
esperança e sustentação diante dos desafios da vida.
Entretanto, aquela homilia me provocou algumas
perguntas.
Existe um manual de lugares permitidos e proibidos aos
cristãos? Quem estabelece quais ambientes uma pessoa de fé pode ou não
frequentar? E, principalmente, o que significa colocar Deus em primeiro lugar?
Não estou defendendo que a fé deva ser vivida sem
critérios, valores ou compromissos. Tampouco pretendo diminuir a importância
das práticas religiosas. Minha inquietação é outra: será que, algumas vezes,
não corremos o risco de dar tanta atenção às manifestações externas da fé que
acabamos deixando em segundo plano aquilo que deveria dar sentido a todas elas:
o amor?
Quando você viaja, descansa, passeia e desfruta das
oportunidades que a vida lhe oferece, também se lembra daqueles que não têm as
mesmas condições? Quando participa da missa, volta para casa com o coração mais
atento às necessidades de quem está ao seu lado? Quando reza o terço, sua
oração também se transforma em solidariedade, compromisso e disposição para
ajudar alguém?
Não se trata de sentir culpa por viajar, passear,
descansar ou desfrutar das coisas boas da vida. Todos têm direito ao descanso,
à convivência familiar, à diversão e aos momentos de lazer. A questão é
compreender que a experiência cristã não pode ficar restrita aos momentos
reservados à oração e às celebrações. Ela precisa acompanhar o cristão em todos
os ambientes e circunstâncias.
É impossível não recordar o apóstolo Paulo, em sua
primeira carta aos Coríntios, capítulo 13. Ele faz uma afirmação
extraordinária: ainda que alguém fale todas as línguas, tenha dons, conheça os
mistérios, distribua seus bens e até entregue o próprio corpo, se não tiver
amor, nada será.
Paulo vai além: sem amor, somos como um sino que
ressoa ou um prato que retine. Fazemos barulho, chamamos a atenção, mas podemos
estar vazios do essencial.
E aqui está o ponto que considero fundamental: amar
o próximo também é uma maneira de amar a Deus.
Não é possível separar completamente essas duas
dimensões. Jesus, ao falar dos mandamentos, coloca o amor a Deus e o amor ao
próximo no centro da experiência religiosa. No Evangelho de Mateus, capítulo
25, identifica-se com os famintos, os sedentos, os estrangeiros, os doentes e
os encarcerados.
Quando Jesus diz: "Eu estava com fome, e me
destes de comer; estava com sede, e me destes de beber; era estrangeiro, e me
recebestes em casa", apresenta uma dimensão profundamente humana da fé. E
conclui dizendo que aquilo que fizemos ao menor dos irmãos foi feito a Ele.
Essa passagem me faz pensar que Deus não está presente
somente no altar, no sacrário ou no templo. Ele também se faz encontrar na
pessoa que sofre, naquele que precisa de ajuda, no abandonado, no esquecido e
em quem teve sua dignidade desrespeitada.
Jesus também frequentava ambientes considerados
inadequados pelos religiosos de seu tempo. Sentava-se à mesa com publicanos e
pecadores. Sua presença não significava concordância com tudo o que faziam, mas
disposição para acolher, dialogar e transformar. Isso nos ensina que o
discernimento sobre os ambientes que frequentamos é importante, mas não deve se
transformar em preconceito, julgamento ou isolamento.
Também me pergunto sobre nossas prioridades dentro da
própria Igreja. É importante construir e manter templos, cuidar dos espaços de
celebração, preservar o patrimônio religioso e garantir condições para a
evangelização. Afinal, os espaços de culto são lugares de encontro, oração,
acolhimento e fortalecimento da comunidade.
Mas será que podemos medir a força de uma comunidade
cristã apenas pela beleza de seu templo, pela quantidade de celebrações ou pelo
número de fiéis que participam das atividades religiosas? Não seria igualmente
importante observar quanto essa comunidade se dedica aos pobres, aos enfermos,
às famílias em dificuldade e às pessoas que vivem à margem da sociedade?
Não se trata de colocar uma coisa contra a outra. A
Igreja precisa de seus templos, assim como precisa de comunidades vivas,
solidárias e comprometidas com o Evangelho. O templo deve ser também um lugar
de onde saímos fortalecidos para servir, acolher e cuidar da vida.
A oração não substitui a solidariedade, mas pode nos
conduzir a ela. A missa não termina necessariamente com a bênção final; de
certa maneira, continua quando voltamos à vida cotidiana e colocamos em prática
aquilo que celebramos. O terço não deve ser apenas um objeto que carregamos,
mas também um convite à contemplação dos ensinamentos de Cristo.
A Carta de Tiago, no capítulo 2, versículo 17, também
nos provoca: a fé, se não tiver obras, está morta em si mesma. É um chamado
para compreender que a experiência religiosa precisa produzir frutos concretos.
Talvez colocar Deus em primeiro lugar não signifique
apenas organizar a agenda para garantir compromissos religiosos, pesquisar
antecipadamente onde haverá missa durante uma viagem ou estabelecer uma lista
de lugares que um cristão pode ou não frequentar. Essas atitudes podem ser
expressões legítimas de uma fé comprometida. Mas colocar Deus em primeiro lugar
também significa permitir que Ele seja a referência de nossas escolhas, de
nossos relacionamentos, de nosso comportamento e, sobretudo, da maneira como
tratamos as pessoas.
Não quero transformar minhas dúvidas em certezas
absolutas, nem julgar a maneira como cada pessoa expressa sua espiritualidade.
Continuo refletindo, questionando e procurando compreender. Acredito na
importância da oração, da missa, dos sacramentos e da vida comunitária. Mas
também acredito que essas práticas precisam estar ligadas àquilo que Jesus nos
ensinou.
Uma pessoa pode frequentar diariamente a igreja,
conhecer orações de cor, carregar o terço no bolso e falar constantemente de
Deus. Tudo isso pode ser muito significativo. Entretanto, se não consegue amar,
respeitar, acolher e se solidarizar com o próximo, alguma coisa essencial está
faltando em sua experiência de fé.
Talvez a pergunta mais importante não seja apenas:
"Deus está em primeiro lugar na minha agenda?", mas também: "As
pessoas que encontro todos os dias conseguem perceber, nas minhas atitudes, que
Deus ocupa um lugar importante na minha vida?"
Essa é uma pergunta que todo cristão deveria ter
coragem de fazer a si mesmo.
Porque, no final, não será apenas o tamanho do nosso
terço, a quantidade de missas frequentadas, os templos que ajudamos a construir
ou os lugares que deixamos de frequentar que revelarão a profundidade do nosso
cristianismo. Será também a maneira como vivemos, convivemos, acolhemos e
amamos.
A prática religiosa alimenta a fé, mas é o
amor que revela sua autenticidade. Uma fé que reza, celebra e busca a Deus
precisa também aprender a enxergá-lo no próximo. Afinal, como nos ensina Paulo,
sem amor, nada somos.


