Foto: Studios Rádio Rio Claro entrevista assuntos locais.
Jornalismo Não É Propaganda: Entre a Verdade dos Fatos e a
Responsabilidade de Informar
O princípio de que “jornalismo não é propaganda”
não é novo, tampouco casual. Ele encontra respaldo em alguns dos mais
importantes escritos da história da comunicação. Um dos marcos desse
entendimento está na obra Public Opinion,
publicada em 1922 por Walter Lippmann,
conteúdo hoje de fácil acesso inclusive em língua portuguesa e em formato
digital. Nela, o autor já alertava para os riscos da manipulação da informação
e para a necessidade de o jornalismo atuar como mediador responsável entre os
fatos e o público. Décadas depois, o debate foi aprofundado por Bill Kovach e Tom
Rosenstiel em The Elements of
Journalism, onde se estabelece que a primeira obrigação do
jornalismo é com a verdade, e sua lealdade deve ser com o cidadão — não com
governos, empresas ou interesses particulares.
Hoje, vive-se uma profunda confusão sobre o que
é, de fato, jornalismo. Em um ambiente saturado de informação, sobretudo nas
redes sociais, tornou-se comum a reação imediata: se uma pauta não agrada,
critica-se o veículo. Mas fatos são fatos — independem da simpatia ou da
rejeição de quem os recebe. Nesse cenário, surgem expressões como “Globo lixo”,
direcionadas à TV Globo, muitas vezes não
por erro factual, mas por descontentamento com a exposição de acontecimentos do
cotidiano.
É importante, portanto, resgatar um dos
fundamentos mais básicos da prática jornalística: a estrutura da notícia. Desde
os manuais clássicos, convencionou-se que toda narrativa informativa deve
responder a perguntas essenciais: o quê,
quem, quando, onde, como e por quê. Essas perguntas organizam o fato,
dão clareza ao público e permitem que a informação seja compreendida de forma
objetiva. No entanto, especialmente no caso do “por quê”, muitas vezes o
discernimento final cabe ao ouvinte, leitor ou telespectador. E esse julgamento
não é neutro: ele é atravessado por cultura, educação, experiências pessoais e
pela própria capacidade cognitiva de cada indivíduo.
É nesse ponto que o jornalismo se distingue da
propaganda. Enquanto o primeiro busca informar e contextualizar, a segunda tem
como objetivo persuadir. Quando essa fronteira se rompe, surge algo perigoso: o
marketing disfarçado de jornalismo. Trata-se de uma forma de charlatanismo
informativo — é como receitar o remédio errado a quem precisa de orientação
segura. Um exemplo claro está na divulgação de tratamentos ou produtos com
suposta eficácia, sem qualquer comprovação científica, vendendo “gato por
lebre” sob a aparência de notícia.
Nos tempos de páginas e mais páginas que se
apresentam como conteúdo jornalístico em plataformas como Instagram e Facebook,
além da proliferação de rádios e TVs web, a atenção precisa ser redobrada.
Nunca houve tantos produtores de conteúdo, mas nem todos comprometidos com a
ética da informação. Muitos estão interessados apenas em promover alguém, um
produto ou uma ideia — e os mais desavisados acabam consumindo esse material
como se fosse jornalismo legítimo.
É claro que o jornalista também precisa
sobreviver, precisa de sustento. A publicidade é parte desse ecossistema. Mas
há uma regra essencial: separar claramente os espaços. Quando é publicidade,
que se diga com todas as letras. Quando é jornalismo, que se pratique com
rigor. Misturar ambos é comprometer a credibilidade — e sem credibilidade, não
há jornalismo.
Construir um mundo melhor para todos é, sim,
um dos papéis do jornalismo. Mas isso não se faz com proselitismo ou distorção.
Não adianta apontar os erros de políticos que se desviam de condutas ou
recursos e agir da mesma forma no campo da informação. O compromisso deve ser
com os fatos, com a exposição honesta das causas e consequências, e com o
respeito ao público.
Pense nisso. Fazer jornalismo sério é, antes
de tudo, um exercício diário de responsabilidade.
Material para leitura pode ser encontrado em
plataformas como Estante Virtual ou em
outras fontes de pesquisa.
Por Pedro Claudio, desde
abril de 1987 no radiojornalismo em Iporá, Goiás.

