domingo, 5 de julho de 2026

Sou fruto do efeito colateral da Pastoral da Juventude

 

Sou fruto do efeito colateral da Pastoral da Juventude

Por Pedro Claudio



Sou fruto de um efeito colateral da Pastoral da Juventude (PJ). Um efeito colateral positivo. Sou alguém que aprendeu, desde cedo, a acreditar na vida, na dignidade humana e na justiça social.

Era por volta de 1980. Eu era um adolescente extremamente magro, com o rosto que denunciava a pobreza. Nossa alimentação era simples: arroz e feijão no almoço e na janta. Carne era rara. Em compensação, a natureza nos alimentava generosamente. Na época das chuvas, encontrávamos com facilidade cagaita, mangaba, mama-cadela, amora, goiaba, manga, mamão, mexerica, laranja e tantas outras frutas do Cerrado. Algumas eram cultivadas; outras brotavam espontaneamente. Tudo era sazonal, mas era abundante enquanto durava.

Hoje percebo que, mesmo vivendo na pobreza, tínhamos uma alimentação muito mais natural do que a de muitas famílias atualmente. Não existiam pizzas, hambúrgueres ou a enorme variedade de produtos industrializados à base de trigo que hoje dominam as mesas. Nossa vida era simples e, de certo modo, saudável.

Foi nesse contexto que um convite mudou minha maneira de enxergar o mundo.

Fui participar de uma reunião da Pastoral da Juventude no salão paroquial que também funcionava como a Creche Chapeuzinho Vermelho. O nome, bastante comum naquela época, provavelmente não seria utilizado hoje, mas marcou a infância de muitas crianças da comunidade.

Entrei naquela reunião movido pela fé que havia recebido de meus pais e avós. Também carregava a intuição de que os pobres precisavam caminhar juntos. Sem saber, estava sendo apresentado a uma leitura da fé profundamente comprometida com a transformação da sociedade.

O texto que mais me impressionava era o relato da primeira comunidade cristã:

"Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e colocavam tudo em comum." (Atos 2,44)

E mais adiante:

"Entre eles ninguém passava necessidade, porque aqueles que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o valor da venda e o depositavam aos pés dos apóstolos; depois era distribuído conforme a necessidade de cada um." (Atos 4,34-35)

Essas passagens sempre me pareceram revolucionárias. Não falavam apenas de oração. Falavam de partilha, solidariedade e compromisso concreto com quem mais precisava.

Foi ali que, mesmo sem compreender conceitos acadêmicos, começou a correr em minhas veias aquilo que mais tarde conheceria como Teologia da Libertação.

Nunca fui dirigente da Pastoral da Juventude. Sempre fui um participante comum. Um daqueles que ajudavam, aprendiam e acreditavam. Eu era mais figurante do que protagonista. Mas acreditava profundamente no enredo.

Naqueles anos, o Brasil ainda respirava os últimos tempos da ditadura militar. Havia um enorme desejo de democracia, participação popular e direitos sociais. Sem conhecer profundamente a Revolução Francesa ou seus lemas de liberdade, igualdade e fraternidade, esses ideais já habitavam o coração de muitos jovens cristãos.

Queríamos combater a injustiça, a concentração de renda, o latifúndio e todas as formas de exclusão. Era uma luta inspirada pelo Evangelho, que buscava construir uma sociedade mais humana.

Reconheço hoje que, junto desse desejo de justiça, muitas vezes surgia também um sentimento de aversão aos ricos. Talvez fosse fruto das desigualdades que víamos diariamente. Com o passar dos anos, aprendi que o Evangelho não ensina o ódio de classes, mas a conversão do coração. Jesus nunca condenou alguém por possuir bens, mas advertiu contra a idolatria da riqueza e contra a indiferença diante dos pobres.

Como está escrito:

"Ninguém pode servir a dois senhores... Não podeis servir a Deus e ao dinheiro." (Mateus 6,24)

E também:

"O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres, proclamar a libertação aos presos, devolver a vista aos cegos e libertar os oprimidos." (Lucas 4,18)

Foi essa compreensão que amadureceu em mim.

Em 1987, já adulto, mas ainda com espírito juvenil, iniciei minha trajetória na Rádio Rio Claro. Em 2026, completo 39 anos de profissão.

A partir daquele momento, minha relação com a Pastoral da Juventude mudou. De participante passei a ser observador, incentivador e comunicador. Como repórter e redator, acompanhei inúmeras atividades pastorais. A emissora possuía uma linha editorial fortemente voltada para as questões sociais, o que dialogava com minha formação e minha visão de mundo.

Foi nesse caminho que conheci pessoas que marcaram minha caminhada, como Divino José — hoje professor doutor —, o saudoso Natalino Nascimento, além de tantos outros jovens que ajudaram a construir a história da PJ em nossa região.

Também entrevistei lideranças importantes da Igreja, como Padre Flores, Padre Wiro Van Vliet e diversos religiosos comprometidos com a evangelização e a promoção humana.

Toda essa vivência despertou em mim uma grande curiosidade: de onde havia surgido essa maneira de compreender o Evangelho?

Essa pergunta me acompanhou até a universidade.

Durante o curso de História na Universidade Estadual de Goiás (UEG), escolhi pesquisar justamente essa temática em meu Trabalho de Conclusão de Curso. Estudando documentos, textos históricos e as origens do cristianismo, descobri que muito do que a Pastoral da Juventude vivia encontrava inspiração direta na vida histórica de Jesus de Nazaré.

Percebi que a Teologia da Libertação não nasceu do nada. Ela foi profundamente influenciada pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), pela Conferência Episcopal de Medellín (1968), pela Conferência de Puebla (1979) e pela Doutrina Social da Igreja, especialmente pelas encíclicas Rerum Novarum (1891), Mater et Magistra (1961), Populorum Progressio (1967) e Laborem Exercens (1981), documentos que insistem na dignidade do trabalho, na justiça social e na opção preferencial pelos pobres.

Nesse caminho surgiram pensadores como Gustavo Gutiérrez, Leonardo Boff, Clodovis Boff, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Pedro Casaldáliga e tantos outros homens e mulheres que buscaram aproximar o Evangelho da realidade concreta dos pobres latino-americanos.

Hoje compreendo que a Pastoral da Juventude não pretendia formar revolucionários armados, mas discípulos comprometidos com o Reino de Deus, anunciado por Jesus.

O Reino que começa quando há pão repartido, justiça, solidariedade, fraternidade e esperança.

Essa continua sendo minha maior herança.

Não me considero um herói dessa história. Fui apenas um jovem que acreditou. Um figurante que aprendeu com muitos protagonistas.

Mas sei que, sem a Pastoral da Juventude, talvez eu não tivesse aprendido a olhar o mundo com os olhos dos pobres e nem compreendido que a fé cristã também possui uma dimensão social.

Sou, com orgulho, fruto desse efeito colateral.

E continuo acreditando que a verdadeira transformação da sociedade começa quando o Evangelho deixa de ser apenas um livro e passa a orientar nossas escolhas, nossa maneira de viver e nossa forma de amar o próximo.


sexta-feira, 3 de julho de 2026

Quando o mestre de cerimônias esquece qual é o seu papel

 


Quando o mestre de cerimônias esquece qual é o seu papel

Precisamos aprender, em Iporá, a organizar e conduzir eventos com mais naturalidade e profissionalismo. Não escrevo estas linhas para ensinar ninguém, mas para compartilhar uma percepção de quem, há muitos anos, acompanha solenidades, cerimônias e eventos dos mais diversos.

E não se trata de um único mestre de cerimônias. O que tenho observado é que alguns parecem copiar uns aos outros na tentativa de demonstrar quem é o melhor, quem emociona mais ou quem consegue arrancar mais aplausos. Mas será que param para pensar em quem realmente desejam agradar? O convidado que está sendo anunciado ou o público que assiste ao evento?

Confesso que não sou especialista em cerimonial. Porém, sou um atento ouvinte. Durante muitos anos acompanhei cerimônias e, na época da faculdade, também tive a oportunidade de atuar algumas vezes nessa função. Naquele tempo havia protocolo, planejamento e, principalmente, um coordenador que fazia questão de manter o mestre de cerimônias dentro daquilo que havia sido estabelecido. O foco era o evento, não quem segurava o microfone.

Hoje, infelizmente, em algumas ocasiões vejo acontecer exatamente o contrário. O anúncio de uma autoridade ou de um convidado transforma-se em um espetáculo à parte. Voz impostada, entonação de narrador esportivo, pausas dramáticas e uma sucessão de adjetivos que, muitas vezes, mais cansam do que valorizam a pessoa apresentada.

O mestre de cerimônias exerce uma função importante: conduzir a programação com elegância, informar o público, apresentar os participantes e garantir que tudo aconteça com organização e naturalidade. Seu protagonismo está justamente na discrição e na capacidade de fazer o evento brilhar.

A boa comunicação dispensa exageros. Um convidado merece ser apresentado por seus méritos reais, com respeito, objetividade e bom senso. Quando os elogios se tornam excessivos e a interpretação ganha mais destaque do que a informação, corre-se o risco de provocar o efeito contrário: constranger quem é apresentado e cansar quem está assistindo.

Talvez esteja faltando alguém que tenha coragem de dizer: "Não faça isso. Está exagerado. Está cansativo. Está tirando o brilho de quem realmente deveria ser o centro das atenções."

A verdadeira qualidade de um mestre de cerimônias não está na potência da voz, nem na quantidade de adjetivos que utiliza, mas na capacidade de conduzir um evento com serenidade, elegância e eficiência. Quando a cerimônia termina e todos se lembram dos homenageados, das mensagens e dos momentos vividos, é sinal de que o cerimonial cumpriu sua missão. Quando o que fica na memória é apenas a performance de quem estava ao microfone, talvez seja hora de rever o conceito de protagonismo.

Em cerimônias, como em tantas outras atividades, menos quase sempre é mais. O melhor mestre de cerimônias é aquele que faz o evento acontecer, e não aquele que tenta ser a principal atração dele.


quarta-feira, 1 de julho de 2026

O Fenômeno Religioso e a Jornada da Fé: Entre a Tradição.

 

O Fenômeno Religioso e a Jornada da Fé: Entre a Tradição, a Multiplicidade e o Olhar Interior


Por Pedro Claudio para pensar a vida!



A Graça do Caráter e as Estradas Tortuosas

O fenômeno religioso e o engajamento humano em torno do sagrado são dimensões que tocam o cerne da nossa existência. Pessoalmente, minha caminhada está profundamente ancorada no Cristianismo Católico, matriz onde fui gerado, batizado, crismado e onde recebi os sacramentos que moldam minha identidade. Na teologia católica, o Batismo, a Confirmação e a Ordem conferem o chamado caráter (character), um sinal espiritual indelével impresso na alma que configura o fiel a Cristo de modo permanente (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1121). Tendo recebido o terceiro grau do Sacramento da Ordem — o Diaconato —, trago em mim essa marca de serviço à Igreja.

Até mesmo os episódios insólitos da caminhada, como a recepção comunitária e equívoca da Unção dos Enfermos em uma celebração — sacramento que, conforme o Código de Direito Canônico (Cân. 1004), é estritamente reservado aos fiéis que atingiram o uso da razão e começam a perigar a vida por doença ou velhice —, tornam-se parte da história. A liturgia é viva, feita por homens e, às vezes, sujeita a compreensões pastorais equivocadas; contudo, a essência da fé permanece. Alimentado pela tradição dos meus antepassados, compreendo que caminhos tortuosos exigem reconfigurações. Repaginar a vivência da fé sem abandonar o barco é um exercício de fidelidade. Diante das crises e das incompreensões humanas, recordo-me de que nada é impossível para Deus (cf. Lc 1, 37). Trata-se de um desabafo de quem prefere o autoexame e a autocrítica ao invés do julgamento alheio.

A Multiplicidade Religiosa e as Fronteiras do Cristianismo

Olhando para além das minhas próprias fronteiras, a multiplicidade das religiões e das interpretações do próprio Cristianismo é um campo fascinante. Fora do eixo cristão, grandes tradições da humanidade, como o Hinduísmo, o Budismo e o Islamismo, expressam a busca incessante do ser humano por um Sentido Supremo e por uma transcendência que aponte para além da morte.

No cenário intra-cristão ou de franjas cristãs, surgem debates teológicos complexos. O Espiritismo Kardecista, por exemplo, embora se fundamente em preceitos morais evangélicos sob a ótica de Allan Kardec, frequentemente não é catalogado pela teologia cristã tradicional como uma vertente do Cristianismo devido à rejeição de dogmas centrais, como a unicidade da vida terrena (em contraposição à reencarnação) e a ressurreição da carne. Da mesma forma, as Testemunhas de Jeová, conhecidas por seu fervor missionário e por utilizarem a Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas — amplamente criticada por eruditos bíblicos ecumênicos por verter versículos de modo a negar a divindade de Jesus Cristo (como em João 1, 1) —, situam-se em um campo para-cristão ou restauracionista não-trinitário. No entanto, sociologicamente, é inegável sua capacidade de reunir comunidades resilientes e dedicadas a um estilo de vida estrito.

Para nós, cristãos católicos, a garantia da pluralidade de caminhos e da acolhida na eternidade encontra eco nas palavras do próprio Cristo:

"Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se não fosse assim, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós" (João 14, 2 — Bíblia da CNBB).

Essa imagem de acolhimento definitivo é coroada na literatura apocalíptica, onde a Jerusalém Celeste é descrita como o lugar de comunhão perfeita, onde Deus habitará com os homens e "enxugará toda lágrima de seus olhos" (Apocalipse 21, 4 — Bíblia da CNBB), em uma recepção gloriosa cercada pela liturgia celestial dos anjos e santos (cf. Ap 7, 9-11).

A Miopia do Julgamento e a Solidez da Estrutura Eclesial

O ponto mais desafiador da vivência religiosa contemporânea é a propensão ao proselitismo agressivo e à "miopia espiritual", que leva fiéis a apontarem o dedo para os outros em vez de olharem para si. O Protestantismo, nascido da Reforma do século XVI, ramificou-se a partir de teses teológicas profundas: as formulações de Martinho Lutero sobre a justificação estritamente pela fé (Sola Fide) e a autoridade soberana das Escrituras (Sola Scriptura), e o desenvolvimento analítico de João Calvino sobre a soberania absoluta de Deus e a predestinação. São construções teológicas robustas que alteraram o curso da história ocidental.

Por outro lado, o Catolicismo caminha com a certeza de sua apostolicidade e originalidade histórica. Fundamentada na promessa de Cristo a Pedro — "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja" (Mt 16, 18) —, a Igreja Católica estrutura-se sobre a Tradição Apostólica e a Sucessão Apostólica. O Papa, Bispo de Roma e Sucessor de Pedro, exerce o múnus de ser o Vigário de Cristo na Terra, a ponte visível (Pontifex) de comunhão e a autoridade para salvaguardar o depósito da fé.

Essa instituição milenar não flutua no subjetivismo; ela é balizada por uma ordem jurídica estrita. O Código de Direito Canônico (promulgado em sua versão atual em 1983 por São João Paulo II) funciona como o guia legal e administrativo que rege a concessão dos sacramentos, a estrutura hierárquica e a transferência do poder espiritual e jurisdicional. É uma religião encarnada na história, construída no dia a dia, que navega pelo tempo sob a guia do Espírito Santo, apesar das fraquezas dos homens que a compõem.

Caminhar por estradas tortuosas sem desviar o olhar da própria consciência é, afinal, o teste mais honesto de qualquer fé verdadeira.


Notas de Embasamento Técnico e Teológico (Para sua referência)

  1. Unção dos Enfermos (Cânon 1004): O código atual clareia que o sacramento é para o fiel que "começa a perigar a vida por doença ou velhice". A prática de dar a unção a crianças saudáveis ou em filas gerais sem critério médico/etário é considerada um abuso litúrgico. Você pontuou isso perfeitamente e com leveza no seu texto original.
  2. As Muitas Moradas (João 14, 2): Na exegese católica, essa passagem da CNBB é muito usada para falar do acolhimento paternal de Deus e da diversidade de carismas e estados de vida na Igreja e no plano de salvação.
  3. Sucessão Apostólica: É o termo teológico correto para o que você chamou de "transferências de poder espiritual". É a transmissão do mandato de Cristo desde os apóstolos até os bispos atuais pela imposição das mãos.
  4. Diferença Teológica (Espiritismo e Testemunhas de Jeová): Para ser formalmente considerado "Cristianismo" no diálogo ecumênico clássico (como o do Conselho Mundial de Igrejas), exige-se a fé no dogma da Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) e o Batismo em fórmula trinitária. Como o Espiritismo foca na reencarnação e as Testemunhas de Jeová negam a divindade de Cristo (Ário/Arianismo), eles não entram no conceito teológico estrito de igrejas cristãs históricas, embora usem elementos do Novo Testamento.

Nota do Autor

Por Pedro Claudio

Este texto foi construído com o auxílio de Inteligência Artificial (IA) para a formatação técnica e levantamento do embasamento teórico-teológico das minhas reflexões. Embora o rigor conceitual tenha sido buscado, o texto pode conter imprecisões. Acima de tudo, este conteúdo reflete de forma honesta e transparente um desabafo pessoal, fazendo parte do meu pensamento, da minha caminhada de fé e do meu planejamento de vida.

 


domingo, 28 de junho de 2026

Católicos unem solidariedade e fé no Óbolo de São Pedro; arrecadação deste ano será destinada às vítimas do terremoto na Venezuela

 




Católicos unem solidariedade e fé no Óbolo de São Pedro; arrecadação deste ano será destinada às vítimas do terremoto na Venezuela

Neste domingo (28), durante a celebração da Solenidade de São Pedro e São Paulo, na Igreja Matriz Nossa Senhora Auxiliadora, o padre passionista Leonardo Luiz da Cruz, CP, destacou o verdadeiro significado do Óbolo de São Pedro, coleta anual realizada em todas as comunidades católicas do mundo como expressão de comunhão com o Papa e de solidariedade aos mais necessitados.

Na homilia, o sacerdote anunciou que, neste ano, por determinação da Santa Sé, os recursos arrecadados terão como principal finalidade auxiliar as vítimas do recente terremoto na Venezuela, levando ajuda humanitária às famílias atingidas pela tragédia.

Mais do que uma simples arrecadação financeira, o Óbolo de São Pedro representa um gesto concreto de unidade da Igreja Católica com o Sucessor de São Pedro. A tradição remonta às primeiras comunidades cristãs, descritas nos Atos dos Apóstolos, quando os fiéis colocavam seus bens aos pés dos apóstolos para que fossem distribuídos conforme a necessidade de cada pessoa.

Segundo o padre Leonardo, essa coleta expressa o compromisso dos católicos com a missão universal da Igreja, permitindo ao Santo Padre atender situações de emergência, apoiar comunidades que vivem em extrema pobreza, socorrer cristãos perseguidos e manter inúmeras obras de caridade ao redor do mundo.

Podemos recordar com esse gesto o ensinamento de Jesus sobre a oferta da viúva pobre, narrado no Evangelho de São Marcos, ressaltando que Deus não mede o valor material da contribuição, mas a generosidade e o amor com que ela é oferecida.

O Óbolo de São Pedro constitui o fundo de caridade do Papa, utilizado para responder rapidamente a desastres naturais, guerras, crises humanitárias e necessidades urgentes da Igreja em diversos países.

Os fiéis católicos todos os anos são mobilizados a participarem da coleta com espírito de fé, desapego e solidariedade, reafirmando a comunhão com o Santo Padre, Papa Leão XIV, e com a missão evangelizadora da Igreja.

A coleta do Óbolo de São Pedro acontece tradicionalmente na Solenidade de São Pedro e São Paulo, reunindo, uma vez por ano, a contribuição espontânea de milhões de católicos em todo o mundo como sinal concreto de comunhão com o Papa e de apoio às obras de caridade da Santa Sé.

 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Jovem Pan e o novo jornalismo de posicionamento


Jornalismo livre funciona

A Jovem Pan criou, nos últimos anos, uma nova forma de fazer jornalismo no Brasil. Se isso é certo ou errado, cabe ao público julgar. O fato é que a emissora deixou de disfarçar seu alinhamento político e passou a defender de maneira explícita o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu grupo político.

Não se trata apenas de uma linha editorial conservadora, algo legítimo em qualquer democracia. O diferencial está na intensidade desse posicionamento. Em muitos momentos, comentaristas e programas ultrapassam a análise dos fatos e assumem um papel semelhante ao de militantes políticos.

Essa realidade levanta uma discussão importante. No Brasil, rádio e televisão operam por meio de concessões públicas. Historicamente, a legislação prevê princípios como pluralidade de opiniões, equilíbrio na informação e respeito ao interesse público. Em tese, os veículos não deveriam se transformar em instrumentos de promoção de um único grupo político.

Mas também não podemos ser ingênuos. A neutralidade absoluta nunca existiu. Todo veículo de comunicação possui valores, interesses, crenças e visões de mundo que influenciam a escolha das pautas, o destaque dado às notícias e até mesmo a seleção de seus comentaristas. Alguns tendem mais à esquerda, outros mais à direita; alguns privilegiam o liberalismo econômico, outros o progressismo social.

A diferença é que, durante décadas, essas inclinações editoriais eram mais discretas. A Jovem Pan decidiu torná-las explícitas. Em vez de sustentar o discurso da imparcialidade absoluta, assumiu claramente uma posição, aproximando-se de modelos já conhecidos em determinados canais de opinião dos Estados Unidos.

O debate que surge é legítimo: essa transparência fortalece a democracia ao deixar claras as convicções do veículo ou enfraquece o jornalismo ao reduzir o espaço para a diversidade de opiniões dentro da própria emissora? O desafio continua sendo o mesmo de sempre: informar com responsabilidade, distinguir notícia de opinião e permitir que o cidadão forme seu próprio julgamento.

Escrevo estas linhas com a experiência de quem trabalha no jornalismo desde 1987. Sou do tempo em que as emissoras de rádio exibiam vinhetas durante as eleições afirmando sua imparcialidade. Naquela época, acreditávamos que era possível demonstrar ao público uma neutralidade quase absoluta.

Hoje, talvez eu não utilizasse mais aquelas vinhetas. O ouvinte, o leitor e o telespectador não são ingênuos. Eles percebem tendências, identificam preferências e compreendem que cada veículo enxerga os fatos a partir de determinada perspectiva. O público não é burro; é atento.

Nem mesmo no futebol eu admitia o chamado bairrismo. Sempre defendi que uma equipe de transmissão deveria narrar e comentar os fatos, e não se transformar em torcida organizada. Atualmente, porém, vemos narrativas mais passionais, tanto no esporte quanto na política, refletindo uma sociedade cada vez mais polarizada e conectada.

São novos tempos. O desafio não é negar essa realidade, mas compreendê-la. É navegar por esse ambiente de opiniões fortes sem abrir mão da honestidade intelectual, da busca pela verdade e do respeito aos fatos. Para quem já viveu tantas transformações na imprensa brasileira, fica a convicção de que a tecnologia muda, os formatos mudam, as plataformas mudam, mas a credibilidade continua sendo o maior patrimônio de qualquer jornalista.

Por Pedro Claudio


IPORÁ PASSA A CONTAR COM CONVENTO DAS IRMÃS CARMELITAS SERVAS DA MISERICÓRDIA DE SIÃO

 


Foto; Lucimar Pereira Borges

A cidade de Iporá passa a contar oficialmente com a presença de uma comunidade religiosa feminina. Desde o dia 17 de junho está em funcionamento o Convento Santa Terezinha, das Irmãs Carmelitas Servas da Misericórdia de Sião.

As religiosas foram acolhidas pela comunidade iporaense ainda no dia 25 de fevereiro, durante Santa Missa celebrada na Paróquia São Paulo VI. Já na última quarta-feira, dia 17 de junho, aconteceu a inauguração oficial da nova casa religiosa, em celebração presidida pelo bispo diocesano Dom Lindomar, com a presença da Madre Elena de Jesus, vinda da Diocese de Ponta Grossa.

O convento está localizado ao lado da Capela Cristo Rei, no Conjunto Águas Claras.

Passam a integrar a comunidade as irmãs Maria José de Jesus, Maria Teresa de Jesus, Maria Goretti de Jesus e Faustina de Jesus.

Mas quais serão as atividades desenvolvidas pelas religiosas em Iporá? Conversamos com a irmã Maria José de Jesus. Ela explica que a missão da congregação é somar forças ao trabalho evangelizador já realizado pela Igreja local.

A presença de conventos faz parte da história do cristianismo há muitos séculos. Os primeiros registros de comunidades religiosas organizadas remontam aos séculos III e IV, quando homens e mulheres passaram a dedicar suas vidas integralmente à oração, à contemplação e ao serviço religioso.

Embora todos façam parte da tradição católica, cada congregação possui um carisma próprio, uma identidade espiritual que orienta sua missão e suas atividades. Algumas ordens religiosas são contemplativas, conhecidas popularmente como irmãs de clausura. Nesses mosteiros, a vida é dedicada principalmente à oração e ao silêncio, com contato bastante restrito com o público.

Já as Carmelitas Servas da Misericórdia de Sião possuem um carisma voltado à evangelização, à oração e ao serviço pastoral junto às comunidades, atuando em sintonia com os trabalhos desenvolvidos pela Diocese de São Luís de Montes Belos e pela Paróquia São Paulo VI.

Com a inauguração do Convento Santa Terezinha, Iporá amplia sua presença religiosa e ganha mais um espaço dedicado à fé, à espiritualidade e ao fortalecimento da vida cristã.

PARÓQUIA SÃO PAULO VI: UMA HISTÓRIA DE CRESCIMENTO DA IGREJA CATÓLICA EM IPORÁ

Em agosto de 2018, a Diocese de Iporá viveu um momento histórico com a criação de uma nova paróquia na cidade. Na ocasião, o então recém-ordenado padre Pablo Henrique de Faria foi empossado como primeiro pároco da comunidade Cristo Libertador, em celebração presidida pelo bispo diocesano, Dom Carmelo Scampa, no dia 12 de agosto daquele ano.

A nova unidade pastoral nasceu do desmembramento da Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora, matriz histórica da cidade e sede dos religiosos passionistas, responsáveis pela evangelização da região desde a criação da Diocese de Iporá. A medida atendeu à necessidade de ampliar a presença da Igreja junto aos fiéis diante do crescimento populacional e da expansão urbana do município.

Inicialmente, a nova paróquia recebeu o nome de Cristo Libertador. Poucos meses depois, com a canonização do Papa Paulo VI pelo Vaticano, em 14 de outubro de 2018, a comunidade passou a se chamar oficialmente Paróquia São Paulo VI, tornando-se a primeira da diocese dedicada ao santo pontífice.

Na época de sua posse, o padre Pablo Henrique chamava a atenção por sua trajetória singular. Natural de São Luís de Montes Belos, ele formou-se em Medicina, especializando-se em Otorrinolaringologia. Após cerca de dez anos de exercício profissional, deixando para trás uma carreira consolidada e uma clínica própria, decidiu seguir o chamado vocacional que manifestava desde a infância. Realizou seus estudos de Filosofia e Teologia em Roma, na Itália, e foi ordenado sacerdote em julho de 2018, assumindo logo em seguida a missão de estruturar a nova paróquia iporaense.

A Paróquia São Paulo VI passou a atender diversas comunidades urbanas e rurais, entre elas Nossa Senhora das Graças, Parque das Estrelas, Sagrada Família, Santa Gemma Galgani, Imaculada Conceição, além das comunidades rurais da Cocolândia, Pé de Pato, Lage, Cruzeirinho e Santa Marta. Também integrava a nova área pastoral o município de Amorinópolis e suas comunidades.

Nova realidade pastoral

Oito anos depois, a organização pastoral da Igreja Católica em Iporá continua evoluindo. Atualmente, a Paróquia São Paulo VI tem como pároco o Padre Geraldo, que dá continuidade ao trabalho iniciado por Padre Pablo e seus sucessores.

A cidade passou a contar ainda com uma terceira paróquia. Além da histórica Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora, considerada a paróquia-mãe do município e que abriga a padroeira de Iporá, foram criadas a Paróquia São Paulo VI, a Paróquia Imaculada Conceição, atualmente conduzida pelo Padre José Moreira, e outra unidade pastoral que amplia a presença evangelizadora da Diocese.

Segundo a Diocese de Iporá, a criação dessas novas paróquias ocorreu em resposta ao crescimento da população católica e à necessidade de uma atuação pastoral mais próxima das comunidades, permitindo melhor acompanhamento religioso, social e missionário dos fiéis.

Assim, a história iniciada em 2018 com a chegada do médico que se tornou padre permanece como um marco da expansão da Igreja Católica em Iporá, refletindo um processo contínuo de fortalecimento da evangelização e de aproximação da Igreja com as comunidades urbanas e rurais da região.

Por Pedro Cláudio
Iporá, junho de 2026.


domingo, 21 de junho de 2026

A fé além dos templos: o que se enxerga quando se observa a religião do lado de fora

 

A fé além dos templos: o que se enxerga quando se observa a religião do lado de fora

Por Pedro Claudio

O que acontece quando alguém deixa de participar ativamente de um grupo religioso, mas não abandona a fé? É possível continuar acreditando, rezando e buscando a Deus sem a frequência habitual ao templo, às reuniões e às atividades da comunidade?

A experiência mostra que sim. A fé pode sobreviver ao afastamento institucional. Entretanto, ela raramente permanece igual. O tempo e a distância mudam o olhar. Quem deixa de ocupar determinados espaços passa a enxergar aspectos que antes estavam encobertos pela rotina, pelas responsabilidades e pelo envolvimento diário.

O afastamento nem sempre é fruto de uma escolha. Muitas vezes ele decorre de circunstâncias da vida. Mas, quando acontece, provoca algo interessante: a pessoa deixa de olhar a religião apenas por dentro e passa a observá-la também por fora. E quem observa de fora enxerga coisas que antes passavam despercebidas.

A fé em Jesus pode permanecer intacta. Em alguns casos, torna-se até mais forte. O que muda é a percepção das fragilidades humanas presentes em qualquer instituição religiosa. O olhar torna-se mais crítico, não necessariamente mais descrente.

Meu entendimento sobre Jesus não mudou. Continuo encontrando Nele a referência maior da vida cristã. O que mudou foi a forma de perceber os comportamentos humanos que cercam a religião. E isso inclui não apenas os líderes religiosos, mas também os fiéis.

Lembro-me de uma canção do padre Zezinho que fala sobre amar como Jesus amou e viver como Jesus viveu. Talvez esteja aí a essência do cristianismo. Não se trata de reproduzir costumes de dois mil anos atrás, mas de compreender os valores que orientaram a vida de Cristo.

Jesus viveu em uma época que também possuía ricos, palácios, reis e estruturas de poder. E, mesmo assim, escolheu o caminho da simplicidade. Trabalhou, caminhou entre o povo e nunca fez do prestígio social um objetivo.

Os Evangelhos mostram um homem simples, conhecido como carpinteiro (Mc 6,3). Ensinava que "o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça" (Lc 9,58). Expulsou os vendedores do Templo (Jo 2,16), advertiu sobre os perigos do apego aos bens materiais e exigiu de seus seguidores uma profunda disposição para servir.

Talvez seja justamente nesse ponto que surgem algumas inquietações para quem observa a religião com certa distância.

Existe um risco que acompanha qualquer liderança religiosa: o apego ao reconhecimento. O ministério e o serviço podem, sem que se perceba, transformar-se em status. Há pessoas que passam a ser admiradas, aplaudidas e tratadas como se ocupassem uma categoria superior dentro da comunidade.

Muitos fiéis, movidos pela devoção e pelo respeito, colocam padres, pastores, bispos e outros líderes em um pedestal. Algumas vezes, atribuem-lhes uma importância quase incompatível com a condição humana que possuem. E seria ingenuidade imaginar que essa admiração não agrade a alguns. O reconhecimento público, os aplausos, os privilégios e a influência podem se tornar tentações tão perigosas quanto o dinheiro.

Talvez por isso Jesus tenha sido tão enfático quando ensinou: "O maior entre vós seja aquele que serve" (Mt 23,11). E mais ainda: "Quem quiser ser o primeiro entre vós, seja vosso servo" (Mt 20,27).

A autoridade cristã, segundo o Evangelho, não se mede pela quantidade de pessoas que obedecem, mas pela capacidade de servir.

Isso não significa ignorar que os ministros religiosos precisam ser sustentados. A própria Escritura afirma que "o trabalhador merece o seu sustento" (Mt 10,10). É justo que tenham condições dignas de vida e exerçam seu ministério sem preocupações excessivas com a sobrevivência material.

Porém, permanece válida a pergunta sobre os limites entre uma vida digna e uma vida marcada por excessos. O Evangelho não exige miséria, mas recomenda simplicidade. Não condena o conforto moderado, mas alerta constantemente contra o apego ao luxo e aos privilégios.

O grande desafio continua sendo viver próximo do povo. Compartilhar suas alegrias, suas dificuldades e suas limitações. Jesus não escolheu os palácios como centro de sua missão. Escolheu as estradas, as casas simples e a convivência com trabalhadores comuns.

O mais curioso é que o afastamento das estruturas religiosas não me afastou de Cristo. Em muitos momentos, permitiu até percebê-lo com maior clareza. Descobri que a fé não depende exclusivamente da presença física em um templo, embora a comunidade continue sendo importante para a caminhada cristã.

Continuo acreditando que a Igreja é maior do que seus erros e mais profunda do que suas contradições. Mas também acredito que uma fé madura não fecha os olhos para a realidade. Amar a Igreja não significa ignorar suas fragilidades. Significa reconhecê-las sem perder a esperança.

Talvez a principal lição seja esta: aprender a distinguir Cristo daquilo que os homens fazem em seu nome. Porque instituições mudam, lideranças passam e costumes se transformam. Mas continua atual a pergunta que Jesus fez aos seus discípulos: "E vós, quem dizeis que eu sou?" (Mt 16,15).

No final das contas, a resposta a essa pergunta continua sendo o verdadeiro centro da fé.

 


domingo, 14 de junho de 2026

Hoje é Domingo, Pé de Cachimbo

 


Hoje é Domingo, Pé de Cachimbo

Por Pedro Cláudio

Neste domingo, 14 de junho, bateu uma saudade daqueles tempos em que a infância era vivida nas ruas, nos quintais e nas calçadas. Uma época em que não existiam internet, redes sociais, celulares ou jogos eletrônicos. A diversão nascia da criatividade, das amizades e das brincadeiras simples que marcaram gerações.

Lembrei-me de uma parlenda folclórica muito conhecida:

Hoje é domingo,
pé de cachimbo.
O cachimbo é de ouro,
bate no touro.
O touro é valente,
bate na gente.
A gente é fraca,
cai no buraco.
O buraco é fundo,
acabou-se o mundo.

Quem cresceu ouvindo esses versos certamente sorri ao recordá-los. Eram palavras passadas de criança para criança, de pais para filhos, preservando uma cultura popular rica e espontânea.

Também vieram à memória brincadeiras que hoje quase desapareceram. Uma delas era o famoso "passar o anel", quando a expectativa tomava conta de todos para descobrir quem estava com o objeto escondido entre as mãos. Outra era a tradicional roda da "Ciranda, Cirandinha", que reunia crianças em cantorias e movimentos simples, mas cheios de alegria.

As lembranças mostram como o tempo passa. As gerações mudam, os costumes se transformam e novas tecnologias ocupam espaço em nossas vidas. Mas a memória tem o poder de guardar momentos especiais e de nos lembrar que a felicidade muitas vezes estava nas coisas mais simples.

Ao recordar essas brincadeiras e cantigas, percebemos que tudo passa na vida. Ficam as histórias, as lembranças e a gratidão por ter vivido um tempo em que a imaginação era a principal tecnologia disponível.

E você, de qual brincadeira da infância sente mais saudade?

sábado, 13 de junho de 2026

A Cultura que Nos Habita

 

Artigo de Opinião: A Cultura que Nos Habita

Por Pedro Claudio


Artigo de Opinião: A Cultura que Nos Habita

Por Pedro Claudio

A história oferece exemplos claros desse poder da cultura. Durante a Idade Média e em diversos outros períodos, quando um reino conquistava outro, não bastava vencer militarmente. Era preciso destruir símbolos, apagar tradições, proibir antigos cultos e impor uma nova forma de enxergar o mundo. Os vencidos eram levados a abandonar seus deuses, seus costumes e até sua identidade coletiva. Em certo sentido, morriam para uma realidade e renasciam para outra.

Além das riquezas materiais, os vencedores também se apropriavam das pessoas. Os chamados despojos de guerra incluíam terras, objetos, animais e seres humanos capturados. Muitos eram obrigados a abandonar suas crenças e a assimilar a cultura dos conquistadores. A história está repleta desses exemplos, frequentemente retratados em livros e filmes, mostrando que dominar um povo significava muito mais do que controlar seu território: significava controlar sua memória, sua identidade e sua forma de compreender o mundo.

Talvez seja por isso que ainda hoje existam disputas tão intensas no campo das ideias. Afinal, quem influencia a cultura influencia a maneira como as pessoas enxergam a realidade. A escola, a família, a religião, os meios de comunicação, a internet e até os grupos de amizade participam diariamente da construção dos nossos valores. Muitas vezes acreditamos estar agindo por vontade própria, quando na verdade estamos reproduzindo conceitos e comportamentos que aprendemos ao longo da vida.

Essa estratégia revela uma verdade profunda: controlar a cultura é controlar a forma como as pessoas pensam.

Por isso, devemos ter cautela quando afirmamos que nossa visão de mundo é a única correta. Sou cristão e acredito nos ensinamentos de Jesus. Essa fé orienta minha vida e meus valores. No entanto, existem bilhões de pessoas que enxergam o mundo a partir de outras tradições religiosas ou filosóficas. Não necessariamente porque sejam melhores ou piores, mas porque foram formadas em contextos culturais diferentes.

O sociólogo Émile Durkheim já demonstrava que a sociedade exerce uma força poderosa sobre os indivíduos. Sigmund Freud, por sua vez, argumentava que muitos dos nossos impulsos são reprimidos para possibilitar a convivência social. Enquanto isso, Jean Piaget mostrava como o conhecimento é construído pela interação entre o indivíduo e o ambiente em que vive.

Todos esses pensadores, cada um a seu modo, ajudam a compreender que o ser humano não pode ser analisado isoladamente. Somos resultado de nossa biologia, mas também de nossa educação, de nossa cultura, de nossa fé e das experiências que acumulamos ao longo da vida.

Talvez por isso seja tão importante cultivar a tolerância. Quem trabalha com educação, especialmente nas licenciaturas, aprende que cada pessoa carrega uma história singular. Nem sempre o comportamento do outro pode ser explicado apenas por escolhas individuais. Existem fatores familiares, culturais, emocionais e sociais que influenciam profundamente a maneira como cada um age.

É nesse contexto que também reflito sobre a responsabilização dos jovens. Muitas vezes exigimos deles um nível de maturidade que nem os próprios adultos possuem. Transferimos responsabilidades sem reconhecer que a formação moral e cultural dos mais novos depende, em grande medida, do exemplo e da orientação oferecidos pelos mais velhos. E nem sempre idade significa sabedoria.

Ao final, talvez a maior lição seja esta: somos menos livres do que imaginamos e mais influenciados pelo meio do que gostamos de admitir. Vivemos cercados por forças visíveis e invisíveis que moldam nossos pensamentos, nossos desejos e nossas convicções.

Reconhecer essa realidade não deve nos tornar pessimistas. Pelo contrário. Deve nos tornar mais humildes diante das diferenças humanas e mais conscientes de que aquilo que chamamos de verdade muitas vezes é, também, o reflexo da cultura que nos formou.

Pense nisso.

Texto reflexivo inspirado em leituras realizadas durante minha graduação, especialmente nas contribuições de Jean Piaget e Sigmund Freud para a compreensão do desenvolvimento humano, da formação do conhecimento e das influências sociais e culturais sobre o comportamento.