Iporá precisa de mais do que boa vontade:
precisa de planejamento, números e propostas
Por Pedro Claudio
O vice-prefeito de Iporá, Léo Contador, demonstra
disposição para participar da vida pública e, ao longo dos últimos meses,
passou a fazer críticas e observações sobre a administração municipal. Segundo
ele próprio tem deixado transparecer em suas manifestações, existe dificuldade
de espaço e de diálogo dentro do governo da prefeita Mayza Cunha.
Não vejo, pelo menos até aqui, um rompimento político
formal entre os dois.
Vejo um vice-prefeito que parece estar procurando seu
espaço, manifestando opiniões e tentando ser ouvido. E isso não é
necessariamente novidade na política. A relação entre prefeitos e
vice-prefeitos, em muitos municípios, é marcada justamente por essa dificuldade
de definir claramente o papel de quem foi eleito para ser o segundo na linha de
comando do Executivo.
O vice não administra diretamente. A responsabilidade
constitucional pela condução da Prefeitura é do prefeito. O vice, entretanto,
não precisa ser uma figura decorativa. Pode colaborar, fiscalizar
politicamente, apresentar ideias, participar do debate público e,
principalmente, preparar-se para eventualmente assumir a Prefeitura.
É nesse ponto que acredito que Léo Contador poderia
avançar.
Tenho acompanhado algumas de suas manifestações nas
redes sociais e percebo críticas e opiniões colocadas, muitas vezes, de maneira
cuidadosa. Porém, em minha avaliação, elas ainda permanecem muito no campo das
ideias gerais e pouco entram naquilo que realmente interessa ao cidadão: números,
prioridades, propostas e caminhos concretos.
E aqui está, talvez, a grande contribuição que um
vice-prefeito com formação e conhecimento na área contábil poderia oferecer ao
debate.
Cadê os números?
Vamos imaginar uma situação simples.
Se Iporá arrecada, somando transferências
constitucionais, FPM, ICMS, receitas próprias, IPTU, ISS, taxas, eventos e
demais fontes, determinado volume de recursos durante o ano, quanto
efetivamente entra nos cofres municipais?
E quanto a Prefeitura gasta?
Quanto vai para a folha de pagamento?
Quanto custa a saúde?
Quanto custa a educação?
Quanto é destinado à manutenção da cidade?
Quanto está comprometido com contratos,
financiamentos, precatórios, fornecedores e outras obrigações?
Existe déficit ou superávit?
Qual é o tamanho da dívida?
Quanto existe de restos a pagar?
Quanto dinheiro está disponível para investimento?
É justamente a partir dessas respostas que se começa a
discutir uma administração municipal de maneira séria.
Se existe déficit, por exemplo, a pergunta seguinte
não pode ser apenas "quem é o culpado?". É preciso perguntar: onde
cortar? O que pode ser reduzido? O que precisa ser renegociado? Onde buscar
novos recursos? Quais despesas são indispensáveis? Quais investimentos podem
ser adiados? Que recursos podem ser buscados junto ao Governo de Goiás, Governo
Federal, deputados, senadores e outras instituições?
Esse é o tipo de debate que Iporá precisa.
Mudança pode ser necessária
Se a situação financeira do município for realmente
difícil, talvez seja necessária uma mudança importante na maneira de
administrar.
E mudança, muitas vezes, não significa fazer mais.
Pode significar gastar melhor, cortar desperdícios, reorganizar estruturas,
estabelecer prioridades e, em alguns casos, tomar medidas impopulares.
É preciso ter coragem para fazer aquilo que precisa
ser feito para colocar as contas em ordem.
É claro que existe um limite: a Prefeitura não pode
deixar de prestar os serviços básicos à população. Saúde, educação, assistência
social, limpeza urbana e outros serviços essenciais precisam continuar
funcionando.
Mas também não se pode administrar pensando apenas na
popularidade do momento.
Populismo pode agradar hoje e produzir uma
conta ainda maior amanhã.
Se há um problema financeiro, ele precisa ser
enfrentado. Se há dinheiro, é preciso mostrar onde está sendo aplicado. Se não
há dinheiro, é preciso explicar por quê.
E a Prefeitura?
Essa cobrança, entretanto, não deve ser dirigida
somente ao vice-prefeito.
A prefeita Mayza Cunha também tem responsabilidade de
apresentar à população, com clareza, a situação encontrada e os resultados da
administração.
A prefeita já afirmou que realizou uma espécie de
diagnóstico da Prefeitura, que contratou equipe para analisar a situação
administrativa e financeira e que está trabalhando para colocar o município no
caminho que considera correto.
Muito bem.
Mas o cidadão precisa saber mais.
Dizer que "Deus está ajudando", que
"estamos no caminho certo" ou que "Iporá é o povo que quer"
pode fazer parte do discurso político. Mas administração pública precisa ir
além das frases de efeito.
É preciso mostrar.
Quanto foi encontrado? Quanto existe hoje?
O que foi feito? Quanto custou? O que ainda precisa ser feito? Qual é a meta?
Qual é o prazo?
Isso vale para a prefeita e vale para o vice-prefeito.
Comunicação também é gestão
Existe ainda outro problema que considero importante: a
comunicação da Prefeitura com a população.
Comunicação pública não pode ser apenas divulgação de
inaugurações, eventos, obras e ações administrativas.
Comunicação pública também é prestação de contas.
O cidadão precisa saber quais obras estão em
andamento, quanto custam, de onde veio o dinheiro, qual é o prazo de conclusão
e quais dificuldades estão sendo encontradas.
Precisa saber quais problemas foram identificados na
saúde, na educação, na infraestrutura e nas finanças e o que está sendo feito
para resolvê-los.
E isso precisa chegar à população não apenas pelas
redes sociais oficiais.
A imprensa local continua tendo papel fundamental.
Uma entrevista coletiva, uma prestação de contas
periódica, uma conversa aberta com rádios, jornais e outros meios de
comunicação poderiam contribuir muito para aproximar a Prefeitura da população.
Uma sugestão ao vice-prefeito
Por isso, como jornalista e também como cidadão que
acompanha a vida pública de Iporá há muitos anos, faço uma sugestão ao
vice-prefeito Léo Contador.
Se existe uma visão diferente sobre os caminhos da
administração municipal, apresente essa visão de maneira concreta à
população.
Não precisa ser um documento complicado, cheio de
termos técnicos.
Pode ser algo simples:
Qual é o problema?
Qual é a proposta?
Qual é a prioridade?
Quanto custa?
De onde virão os recursos?
Qual é o prazo?
E como a população poderá acompanhar o resultado?
Isso seria muito mais forte do que uma sequência de
críticas ou mensagens genéricas nas redes sociais.
E, principalmente, permitiria que a população pudesse
avaliar as ideias do vice-prefeito e compará-las com aquilo que está sendo
feito pela atual administração.
Começo, meio e fim
Tenho ouvido muito a expressão "começo, meio e
fim".
Na administração pública, eu traduziria essa expressão
por uma palavra: planejamento.
Planejamento significa saber onde estamos, definir
onde queremos chegar, estabelecer prioridades, calcular quanto será necessário
investir, definir prazos e, depois, avaliar se o resultado foi alcançado.
Então, quais são hoje, na avaliação do vice-prefeito,
os principais problemas de Iporá?
Como melhorar a saúde pública?
Como melhorar a educação?
O que fazer pela infraestrutura urbana e pelas
estradas?
Como gerar oportunidades de emprego e renda?
Como melhorar a arrecadação sem simplesmente aumentar
impostos?
Como reduzir despesas sem prejudicar os serviços
essenciais?
Como recuperar a capacidade de investimento do
município?
E, principalmente, qual é o projeto de cidade que está
sendo proposto para os próximos anos?
Essas são perguntas que merecem respostas.
Política também é escolha
Apoiar deputados estaduais e federais também faz parte
da política. É legítimo que Léo Contador tenha seus candidatos e peça votos
para eles.
Mas nós, eleitores, precisamos ir além da escolha de
nomes.
Precisamos perguntar:
O que esses deputados podem trazer para
Iporá?
Quais recursos serão destinados ao município?
Quais projetos vão defender?
Quais compromissos assumirão?
E qual é o projeto político-administrativo daqueles
que pretendem liderar Iporá?
A população não deveria escolher apenas pessoas.
Deveria escolher também propostas e projetos.
Por isso, a cobrança que faço aqui não é apenas ao
vice-prefeito Léo Contador. É também à prefeita Mayza Cunha, aos vereadores,
aos deputados que representam Iporá e a todos aqueles que pretendem exercer
algum papel de liderança política no município.
Precisamos sair do discurso abstrato e
entrar no terreno dos fatos.
Iporá precisa, sim, de sonhos.
Mas sonho sem planejamento vira promessa.
Precisa de boa vontade.
Mas boa vontade sem ação produz pouca coisa.
Precisa de recursos.
Mas dinheiro sem planejamento pode ser desperdiçado.
E precisa, sobretudo, de transparência para que o
cidadão possa acompanhar, cobrar e avaliar.
Se existe um problema financeiro, que se mostrem os
números.
Se existem soluções, que sejam apresentadas.
Se é necessário cortar, que se explique onde e por
quê.
Se é possível buscar recursos, que se diga onde e
como.
Se existem resultados, que sejam demonstrados.
Iporá não precisa apenas de quem diga que
quer uma cidade melhor. Precisa de quem consiga explicar, com clareza, como
pretende construí-la.
Esse debate não deveria ser uma disputa entre Mayza e
Léo.
Deveria ser uma discussão sobre Iporá.
E, nesse debate, a população merece ouvir menos frases
prontas e mais números, propostas, planejamento, transparência e resultados.
