domingo, 8 de fevereiro de 2026

Igreja, Teologia da Libertação e Sinodalidade: entre a memória, a crise e a esperança

 


Igreja, Teologia da Libertação e Sinodalidade: entre a memória, a crise e a esperança

Por Pedro Claudio

A história da Igreja Católica é marcada por tensões permanentes entre tradição e mudança, conservação e reforma, espiritualidade e compromisso social. Ao longo dos séculos, essa instituição secular foi chamada a responder aos desafios impostos pelas transformações culturais, políticas, econômicas e sociais, construindo, nem sempre sem conflitos, caminhos de fidelidade ao Evangelho em contextos históricos diversos.

Na América Latina, especialmente a partir da segunda metade do século XX, essa tensão ganhou novos contornos com o surgimento da Teologia da Libertação, expressão teológica profundamente enraizada na realidade dos pobres e excluídos. Inspirada pelo Concílio Vaticano II (1962–1965) e pelas Conferências Episcopais Latino-Americanas de Medellín (1968) e Puebla (1979), essa corrente teológica buscou responder ao clamor das maiorias empobrecidas, propondo uma leitura da fé cristã a partir da práxis histórica e da opção preferencial pelos pobres.

Este texto organiza reflexivamente um conjunto de experiências pastorais, dados históricos e referenciais teóricos que fundamentaram pesquisas acadêmicas, vivências pastorais e militância social, particularmente na região Oeste de Goiás, entre as décadas de 1980 e 1990. Ao mesmo tempo, problematiza o atual contexto eclesial, marcado por divisões, disputas ideológicas e enfraquecimento do debate teológico-pastoral, propondo a sinodalidade como horizonte possível de reconstrução do diálogo, da comunhão e da esperança.


1. Igreja, história e transformação social

Desde suas origens, o cristianismo nasceu em meio a conflitos, perseguições e tensões com o poder estabelecido. A mensagem cristã, centrada no amor ao próximo, na justiça, na fraternidade e na dignidade humana, confrontava diretamente as estruturas de dominação do Império Romano. Por essa razão, os primeiros cristãos foram perseguidos, marginalizados e obrigados a viver na clandestinidade até o Edito de Milão, em 313, que garantiu liberdade religiosa.

Ao longo da história, a Igreja buscou estruturar sua doutrina, preservar sua unidade e responder aos desafios de cada época. Contudo, como toda instituição humana, vivenciou disputas internas, resistências à mudança e processos lentos de atualização. A relação entre fé e realidade social sempre esteve no centro dessas tensões, especialmente no que diz respeito à pobreza, à desigualdade e às formas de organização da sociedade.

A partir do século XIX, com a Revolução Industrial, a urbanização acelerada e o agravamento das condições de vida da classe trabalhadora, a chamada “questão social” impôs-se como desafio incontornável. A Igreja, pressionada pelas novas realidades, começou a elaborar respostas mais sistemáticas, inaugurando o caminho da Doutrina Social com a encíclica Rerum Novarum (1891), do Papa Leão XIII. Esse documento representa um marco ao reconhecer os direitos dos trabalhadores, denunciar a exploração e afirmar a dignidade do trabalho humano.

Desde então, a Doutrina Social da Igreja desenvolveu-se por meio de sucessivas encíclicas, aprofundando o compromisso com a justiça, a dignidade humana, a solidariedade e o bem comum. Essa trajetória preparou o terreno para as grandes transformações promovidas pelo Concílio Vaticano II, que abriu definitivamente a Igreja ao diálogo com o mundo contemporâneo.


2. O Concílio Vaticano II e a opção pelos pobres

O Concílio Vaticano II representou um divisor de águas na história da Igreja. Ao afirmar que a Igreja deveria ser “povo de Deus em caminhada”, reconheceu o protagonismo dos leigos, a importância do diálogo ecumênico e inter-religioso, bem como a necessidade de uma presença mais encarnada na realidade social.

Na América Latina, essas orientações ganharam forma concreta nas Conferências Episcopais de Medellín e Puebla, que assumiram explicitamente a opção preferencial pelos pobres como eixo da ação evangelizadora. Essa opção não significava partidarização da fé, mas fidelidade radical ao Evangelho, inspirado na prática de Jesus, que se colocou ao lado dos marginalizados, doentes, pecadores públicos e excluídos.

A partir desse horizonte, emergem as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), espaços privilegiados de leitura popular da Bíblia, organização comunitária, formação política e compromisso social. Nessas comunidades, fé e vida se entrelaçavam por meio do método ver–julgar–agir, favorecendo processos de conscientização e transformação social.


3. Teologia da Libertação: fundamentos, tensões e controvérsias

A Teologia da Libertação nasce nesse contexto como esforço sistemático de reflexão teológica a partir da realidade dos pobres. Seus principais expoentes — Gustavo Gutiérrez, Leonardo Boff, Jon Sobrino, Frei Betto, entre outros — afirmam que a teologia não pode ser mera especulação abstrata, mas deve partir da prática histórica de libertação, iluminada pela Palavra de Deus.

Seu fundamento principal é bíblico e cristológico. A libertação proclamada não se reduz a uma dimensão política, mas abarca a integralidade da pessoa humana, envolvendo aspectos espirituais, sociais, culturais e históricos. Como afirma Carlos Bazarra, “o fundamento da teologia da libertação não pode ser outro senão a Palavra de Deus e, concretamente, Jesus Cristo”.

Entretanto, essa corrente teológica foi frequentemente acusada de reduzir o Evangelho a uma ideologia política, sobretudo pela utilização de instrumentos de análise social inspirados no marxismo. De fato, muitos teólogos recorreram a categorias marxistas para compreender as estruturas de exploração e desigualdade. Contudo, isso se deu de forma crítica e instrumental, não como adesão ideológica.

O próprio Bazarra destaca que, muito antes de Marx, já existia o clamor dos pobres e a resposta evangélica da Igreja. A influência marxista, quando presente, limitou-se à análise das contradições sociais, sem substituir o núcleo teológico-cristão da reflexão.

As tensões com Roma, especialmente durante o pontificado de João Paulo II e a atuação do então cardeal Joseph Ratzinger, revelam as dificuldades da Igreja em lidar com interpretações teológicas que colocavam em questão estruturas tradicionais de poder e autoridade. As instruções da Congregação para a Doutrina da Fé, embora buscassem salvaguardar a integridade da fé, acabaram por gerar desconfiança, silenciamento e retração das iniciativas pastorais ligadas à libertação.


4. Pastoral da Juventude, formação cidadã e militância social

Na região Oeste de Goiás, particularmente na Diocese de São Luís de Montes Belos, as orientações do Vaticano II e da Teologia da Libertação encontraram terreno fértil. A Pastoral da Juventude tornou-se espaço privilegiado de formação integral, articulando espiritualidade, compromisso social, reflexão crítica e engajamento político.

Entre as décadas de 1980 e 1990, jovens foram mobilizados por meio de encontros, assembleias, cursos bíblicos, grupos de reflexão e ações comunitárias. Esse processo formativo gerou lideranças que passaram a atuar em movimentos sociais, sindicatos, associações comunitárias, partidos políticos e diversas áreas profissionais, levando consigo uma visão crítica da realidade e um compromisso com a transformação social.

Esse fenômeno revela a potência evangelizadora de uma Igreja que confia nos leigos, valoriza a participação e aposta na formação da consciência crítica. Ao mesmo tempo, evidencia o impacto histórico da Teologia da Libertação na construção da cidadania e no fortalecimento da democracia, especialmente em contextos marcados pela ditadura militar e pela exclusão social.


5. Crise contemporânea, polarização e desafios da sinodalidade

Nas últimas décadas, observa-se um processo de retração das pastorais sociais, enfraquecimento das CEBs e crescente polarização ideológica dentro da Igreja. Questões sociais passaram a ser associadas, de forma reducionista, a posições partidárias, gerando desconfiança e conflitos.

O avanço de discursos conservadores, intensificado no contexto político recente, contribuiu para a estigmatização da Teologia da Libertação e para o esvaziamento do debate teológico-pastoral. A fé, muitas vezes, foi instrumentalizada por projetos políticos, produzindo divisões profundas no interior das comunidades.

Diante desse cenário, a proposta de uma Igreja sinodal, defendida pelo Papa Francisco, surge como horizonte promissor. A sinodalidade pressupõe escuta, diálogo, participação, discernimento comunitário e corresponsabilidade. Trata-se de resgatar a dimensão comunitária da fé, superando clericalismos, autoritarismos e polarizações estéreis.

Para que esse processo seja efetivo, é fundamental a atuação corajosa do episcopado, a formação teológica dos leigos e a valorização das experiências históricas que marcaram positivamente a caminhada da Igreja no Brasil.


Considerações finais

A Teologia da Libertação não é um capítulo encerrado da história da Igreja, mas uma memória viva que interpela o presente. Seu legado permanece atual diante das novas formas de pobreza, exclusão e violência que marcam o mundo contemporâneo.

Resgatar sua intuição fundamental — a centralidade dos pobres na vivência da fé — não significa repetir modelos do passado, mas reinterpretar criativamente o Evangelho à luz dos desafios atuais. A sinodalidade, nesse sentido, pode se tornar o espaço privilegiado para reconstruir pontes, curar feridas e reacender a esperança.

A Igreja, fiel à sua vocação, é chamada a ser sinal de justiça, fraternidade e misericórdia. Somente assim poderá continuar sendo fermento de transformação na sociedade e testemunha autêntica do Reino de Deus.


Pedro Claudio

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Oração pela Consciência, pela Fé e pelo Caminho


 Oração pela Consciência, pela Fé e pelo Caminho


Que Deus conserve em mim a lucidez da mente
e a clareza do coração.
Que, mesmo na simplicidade das letras
e na limitação do saber,
eu jamais seja conduzido pela manipulação,
mas guiado pela consciência,
pela verdade e pela justiça.

Que eu não me torne ignorante
diante da petulância dos homens,
nem algoz na vida de ninguém.
Que minha vontade e meus desejos
nunca ultrapassem o direito do próximo,
e que minha insensatez
jamais se sobreponha ao bom senso.

Que minha capacidade cognitiva não me engane,
mas me ajude a discernir,
a escolher, a compreender.
Que eu chegue ao fim da caminhada
com o coração em paz
e o sentimento sereno de missão cumprida.

Que a rudeza da ignorância não me destrua,
nem o ceticismo dos estudos
me torne incrédulo.
Que meus pecados não ultrapassem
os limites do corpo, da alma e da consciência.
Que minha fé não seja em vão,
mas força viva, esperança constante
e luz nos dias difíceis.

Que meu olhar para o tempo passado
nunca seja marcado pelo arrependimento,
mas pela gratidão,
pela aprendizagem
e pela certeza de ter tentado fazer o bem.

Guia-me, Senhor,
pois sempre confiei em Ti
e entreguei em Tuas mãos
todo o meu destino.

Pedro Claudio Rosa

sábado, 24 de janeiro de 2026

Vamos pensar: Onde estamos sendo enganados?

 

Onde estamos sendo enganados?

Por Pedro Claudio
24 de janeiro de 2026


Onde estamos sendo enganados? Como estamos sendo enganados? E por que tantas vítimas acabam defendendo seus próprios algozes? Essas perguntas atravessam o nosso tempo e exigem mais do que respostas rápidas — pedem reflexão profunda, discernimento e coragem intelectual.

Nossa inocência, muitas vezes, é atravessada pela esperteza de poucos e pela simplicidade de muitos. No cenário nacional, vivemos uma explosão de plataformas digitais, transmissões em streaming, canais fechados e abertos de rádio e TV que se apresentam como imprensa. Parte deles, de fato, exerce função jornalística; outra parte atua claramente como braço partidário. Há quem se autoproclame comentarista ou jornalista e, de forma histérica, substitua a análise pelo ataque, o contraditório pelo achincalhe, a informação pelo linchamento verbal. Discordar passou a ser motivo suficiente para destruir reputações.

Instala-se, assim, uma confusão perigosa: opinião travestida de notícia, militância disfarçada de jornalismo. Uma imprensa que escolhe um lado, distorce fatos de maneira deliberada e apresenta versões parciais da realidade perde qualquer utilidade coletiva. Não informa; forma torcidas. Não esclarece; manipula. O resultado é uma sociedade manobrada como marionete, cheia de defensores das causas dos outros — típica condição de quem foi conduzido, mas nunca verdadeiramente convencido.

Esse fenômeno não se limita à política ou à mídia. Ele também se repete no campo religioso. Protegidas pela liberdade de crença e pelo princípio do Estado laico, diversas expressões religiosas acabam servindo de palco para projetos de poder, autopromoção e política partidária. No cristianismo, isso se torna ainda mais grave. Cristo não deixou dúvidas sobre o que pregava: justiça, misericórdia, serviço e verdade. Ainda assim, seu nome é frequentemente utilizado para deturpar, dominar e enganar. O apóstolo Paulo advertiu com clareza: “De fato, vai chegar um tempo em que muitos não suportarão a sã doutrina, mas, segundo seus próprios desejos, cercar-se-ão de mestres, quando sentirem coceira nos ouvidos” (2Tm 4,3, Bíblia Sagrada, CNBB, 2ª ed., 2019).

Num país onde a educação não alcança a todos, torna-se fácil fazer o pobre — em recursos, oportunidades e acesso à informação — defender a causa dos ricos. Defender quem já tem tudo. Quem pisa, desvia, se apropria e ostenta. O profeta Isaías denunciou essa lógica com dureza: “Ai dos que decretam leis injustas e dos escribas que redigem decretos opressores, para negar justiça aos pobres no julgamento” (Is 10,1-2, Bíblia Sagrada, CNBB, 2ª ed., 2019). O estelionato, nesse caso, não é clandestino; é oficial, público, à vista de todos. E, ainda assim, passa despercebido.

Comentadores lançam pedras com palavras, analisam apenas o lado que lhes convém, ignoram conquistas alheias e transformam o debate público em trincheira permanente. Isso não é crítica; é partidarismo. E o partidarismo, quando travestido de análise, serve para promover grupos e interesses específicos — quase sempre em benefício próprio.

Se não refletirmos sobre isso, corremos o risco de sentar à mesa como convidados e descobrir, tarde demais, que não fomos chamados para o jantar, mas para o cardápio. Foi contra esse tipo de dominação que Jesus se levantou. Ainda assim, os “grandes” e “poderosos” que ele enfrentou continuam sendo defendidos por cidadãos simples, que entregam sua vida simbólica — e às vezes concreta — àqueles que os exploram.

O Evangelho não pede ingenuidade. Pelo contrário: “Vede, eu vos envio como ovelhas no meio de lobos; sede, portanto, prudentes como as serpentes e simples como as pombas” (Mt 10,16, Bíblia Sagrada, CNBB, 2ª ed., 2019). Jesus também ensina: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29, Bíblia Sagrada, CNBB, 2ª ed., 2019). Mansidão e humildade não são sinônimos de submissão cega, alienação ou cumplicidade com a injustiça. São virtudes que caminham junto com a lucidez, a prudência e o compromisso com a verdade.

Ser manso não é ser tolo. Ser humilde não é abrir mão da consciência crítica. Ao contrário: é reconhecer a própria dignidade e não permitir que ela seja usada contra si mesmo.

Como defender a causa de quem já tem tudo? De quem vive no luxo enquanto muitos mal sobrevivem? Pense nisso. Desperte. Viva — mas viva de verdade. Não a vida oferecida pela manipulação, pelo medo ou pela idolatria do poder, e sim a vida que nasce do pensamento livre, da fé coerente e da verdade que liberta.

 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Aumento do orçamento de Iporá reacende debate sobre aplicação dos recursos públicos

 


Foto: Professor Paulo Alves 

As gestões públicas geralmente iniciam o ano com planejamento e definição do orçamento. As prefeituras elaboram a Lei Orçamentária Anual (LOA), que é enviada ao Poder Legislativo. Esse instrumento define quanto o município pretende arrecadar ao longo do ano e estabelece onde e como os recursos públicos serão aplicados. Trata-se de uma lei fundamental para o funcionamento da administração pública.

A explicação é do professor Paulo Alves, da rede estadual de ensino, graduado em Gestão Pública e com experiência de dois mandatos como vereador em Iporá. Ele chama a atenção para a importância que a sociedade deve dar à Lei Orçamentária, por se tratar do principal planejamento financeiro do município.

Em relação a Iporá, Paulo Alves informa que o orçamento municipal para o ano de 2026 é de R$ 207.068.887,09 (duzentos e sete milhões, sessenta e oito mil, oitocentos e oitenta e sete reais e nove centavos). O orçamento entra em vigor em 1º de janeiro e segue até 31 de dezembro. Segundo sua análise, houve um acréscimo significativo em comparação com o ano anterior, quando o orçamento foi de aproximadamente R$ 166 milhões.

De acordo com o professor, o valor é calculado com base na média da arrecadação dos últimos anos, o que demonstra, segundo ele, que a arrecadação do município de Iporá está em crescimento. “Temos mais dinheiro em caixa”, afirma. Com esse argumento, Paulo Alves defende que não se justificam atrasos no pagamento de servidores públicos municipais ou a interrupção de serviços essenciais.

Ele alerta ainda que a sociedade deve acompanhar de perto a execução do orçamento, especialmente os vereadores, que têm a responsabilidade constitucional de fiscalizar a correta aplicação dos recursos públicos. O montante de R$ 207 milhões representa uma média aproximada de R$ 17 milhões por mês. “Não dá para fazer tudo o que o município precisa, mas dá para fazer muita coisa”, avalia.

Paulo Alves também defende a adoção do orçamento participativo, modelo que envolve a sociedade e os segmentos organizados na discussão da elaboração e, principalmente, da execução do orçamento, priorizando as reais necessidades da população. Segundo ele, esse mecanismo fortalece a fiscalização e contribui para a aplicação correta dos recursos públicos, atendendo aos anseios da comunidade.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Editorial — O papel da imprensa e o valor do jornalismo local

 


Editorial — O papel da imprensa e o valor do jornalismo local

Na foto: Pedro Claudio e Valdeci Marques, em final de 2025, avaliando publicação divulgada na página Oeste Goiano (oestegoiano.com.br).

A imprensa cumpre um papel essencial em qualquer sociedade democrática: informar, contextualizar, fiscalizar o poder e estimular o debate público. É por meio dela que fatos ganham sentido, versões são confrontadas e a população encontra subsídios para formar opinião. No entanto, ao observar o noticiário nacional, sobretudo nos grandes conglomerados de comunicação, percebe-se um fenômeno cada vez mais evidente: conteúdos praticamente idênticos circulando em diferentes plataformas, com pequenas variações de enfoque, linguagem ou título.

Publicações em portais como G1, UOL, Veja, IstoÉ e outros frequentemente apresentam as mesmas informações, estruturadas de forma semelhante, como se houvesse um roteiro previamente estabelecido. Muda-se a ordem dos parágrafos, ajusta-se o tom, mas o núcleo da narrativa permanece igual. A sensação é de que todos falam a mesma coisa, ao mesmo tempo, com pouca ou nenhuma informação realmente diferenciada. Não se trata, necessariamente, de “copiar”, mas de uma prática que privilegia a reprodução rápida do conteúdo já disponível, em detrimento da apuração aprofundada, da investigação própria e da busca por exclusividade.

Produzir matérias com enfoque distinto sobre o mesmo fato é, sem dúvida, mais econômico e menos arriscado. Exige menos tempo, menos recursos e quase nenhuma pesquisa avançada. Contudo, essa lógica empobrece o debate público e reduz a diversidade de interpretações, algo essencial para uma sociedade plural. Grandes veículos, justamente por disporem de estrutura, profissionais especializados e acesso às esferas de poder, poderiam — e deveriam — investir mais em reportagens exclusivas, análises originais e pautas que fujam do lugar-comum.

É nesse cenário que os veículos locais e regionais ganham relevância. O jornalismo do interior, mesmo com limitações técnicas, financeiras e de alcance, possui um diferencial inegável: a proximidade com os fatos, com as pessoas e com a realidade cotidiana. É ele que acompanha de perto os problemas da comunidade, debate questões locais, dá voz a quem raramente aparece no noticiário nacional e revela realidades que não cabem nas grandes manchetes.

É verdade que o jornalismo regional não dispõe da mesma expertise, nem do mesmo poder de influência dos grandes meios. Falta, muitas vezes, estrutura, reconhecimento e valorização. Ainda assim, há mérito e importância no chamado “jornalismo feito a machado”: aquele construído com esforço, persistência e compromisso, muitas vezes na simplicidade, sem ser simplório. Nessa prática, informar, orientar e até influenciar positivamente a sociedade torna-se possível, mesmo sem holofotes.

Assim seguimos na região Oeste de Goiás. Nem sempre valorizados como deveríamos, mas convictos de que resultados positivos são alcançados. O jornalismo local, quando exercido com responsabilidade e ética, cumpre sua missão fundamental: servir à comunidade, fortalecer a cidadania e manter viva a essência da imprensa — a de ser ponte entre os fatos e a sociedade.

Pedro Claudio

 

domingo, 4 de janeiro de 2026

Venezuela, Estados Unidos e o dilema do mal necessário.

 


Venezuela, Estados Unidos e o dilema do “mal necessário”

Por Pedro Claudio

Não é um assunto que esteja diretamente ligado à minha área de competência técnica. Ainda assim, como simples cidadão que vive em um país democrático — onde a liberdade de expressão é assegurada, desde que exercida com responsabilidade — sinto-me no direito de opinar, ou, como se diz popularmente, “dar meu pitaco”, a exemplo de milhões de pessoas que acompanham os acontecimentos internacionais.

O caso envolvendo Venezuela e Estados Unidos é complexo e cercado de versões, interesses e narrativas. A opinião que formo é construída a partir das informações a que tenho acesso: imprensa, análises de especialistas, redes sociais e comentários de terceiros. Trata-se, portanto, de uma visão leiga, mas nem por isso descompromissada com a realidade.

Diante desse conjunto de informações, a impressão que tenho é de que se realizou ali aquilo que muitos chamariam de um “mal necessário”. Alguém que tinha poder, capacidade e influência acabou agindo. Donald Trump agiu. Pelo que tudo indica, não consultou formalmente o Congresso norte-americano, mas certamente ouviu assessores próximos — e, como é de seu perfil, deixou que seu ego também tivesse peso na decisão.

As intenções por trás dessa ação são motivo de intenso debate. Teria sido uma tentativa de fazer justiça humanitária contra um regime acusado de se apoderar do poder e massacrar parte de sua população? Uma estratégia para conter o fluxo de entorpecentes em direção aos Estados Unidos? Uma demonstração de força geopolítica para deixar claro que nenhuma liderança deve contestar sua autoridade? Ou ainda um movimento calculado de olho nas riquezas naturais da Venezuela, país que concentra cerca de 17% das reservas de petróleo do planeta?

Fato é que Donald Trump foi ousado, petulante e, como poucos líderes contemporâneos, imprevisível. Nesse aspecto, guarda semelhanças com Vladimir Putin, que bombardeia a Ucrânia na tentativa de retomar territórios que considera seus. São líderes que agem à margem do consenso internacional quando acreditam que seus interesses estratégicos estão em jogo.

O grande problema, no entanto, são os efeitos colaterais dessas ações. Como reagirão Rússia, China e a União Europeia? Quais serão os desdobramentos diplomáticos, econômicos e militares? E onde entram os países da América Latina nesse tabuleiro?

A realidade é dura: por mais que a maioria dos países latino-americanos condene determinadas ações, sua influência prática é limitada. Em alguns casos, a reação pode até resultar em prejuízos econômicos, ao se indispor com uma potência global. Ainda assim, o ideal — e o desejável — é que não assumamos uma postura submissa, de “cão vira-lata” ou de mentalidade colonial. Não devemos aceitar o papel de quintal de nenhuma grande potência.

Ao mesmo tempo, é preciso cautela. “Ir devagar com o andor, porque o santo é de barro.” Não considero correto explorar ideologicamente essa situação para atacar adversários políticos internos ou para atiçar ainda mais a fogueira. Divergências políticas não devem servir de combustível para radicalizações irresponsáveis no cenário internacional.

Apesar de todas as ressalvas, continuo acreditando que alguma ação precisava ser tomada. Não é aceitável normalizar a tomada do poder pela força, a perpetuação de ditaduras e a supressão da vontade popular. A democracia — o poder do povo — deve ser um valor preponderante, inclusive quando se trata da “casa dos outros”.

Esse é um debate difícil, cheio de contradições e zonas cinzentas. Não há soluções simples. Mas silenciar diante de regimes autoritários também não parece ser uma opção justa ou sustentável.