Ainda estou aqui
Solidão eclesiástica não é solidão de Deus.
Não é o fim.
Estou longe do púlpito, sem vestes, mas não sem Deus, que se impregnou em mim.
Apesar de mim, das consequências de minhas ações, de meu
afastamento por minha culpa, minha tão grande culpa, sinto a presença de Deus o
tempo todo. Porque “para onde irei longe do teu espírito? Para onde fugirei de
tua presença?” (Sl 139,7 – Bíblia CNBB).
Estou sem o privilégio da Eucaristia. Estou em
sacrifício, mas ainda me considero em comunhão, porque o próprio Cristo
afirmou: “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós” (Jo 15,4).
Não há apontamento de culpados. Não há abandono. Meu coração pulsa. Meus olhos
veem. Meus ouvidos escutam a Palavra. Todos os meus sentidos apontam Deus
falando ao meu ouvido.
Aprendi com Santo Agostinho que Deus é mais íntimo a mim
do que eu mesmo: “Tu estavas dentro de mim e eu te procurava fora”
(Confissões). Por isso, ainda que afastado exteriormente de funções e
ministérios, não consigo me perceber separado da graça que um dia me alcançou.
Quando no púlpito eu entoava o canto de animação e
compromisso — “Eu confio em Nosso Senhor com fé, esperança e amor...” — e a
comunidade completava em unidade de espírito, esse cantar permanecia gravado em
mim. A memória da fé nunca morre.
Ainda escuto a fiel Abadiinha entremeando-se na oração
eucarística e dizendo: “Eu acredito Senhor, mas aumentai a minha fé” (cf. Mc
9,24).
Ainda ouço o chamado da Sebastiana Rosa convidando-me para visitar doentes e
idosos, levando a Eucaristia e a oração aos que sofriam.
Ainda ouço o então Padre José Roberto insistindo para que eu assumisse a missão
diaconal.
Ainda sinto em minha cabeça o toque do Bispo Dom Carmelo impondo as mãos e
transmitindo o Espírito que vem dos apóstolos, conforme a sucessão apostólica
preservada pela Santa Igreja.
Ainda sinto e vivo minha prostração diante do altar, colocando minha vida
inteira a serviço do Reino.
E o que é mais forte em mim, o que me garante a vida em
Deus, é o sinal visível e sensível da Divindade: os sacramentos.
O Catecismo da Igreja Católica ensina que alguns
sacramentos imprimem na alma um “caráter espiritual indelével” (CIC 1121), uma
marca que jamais se apaga. O Código de Direito Canônico reafirma: “Os
sacramentos do batismo, confirmação e ordem imprimem caráter e não podem ser
repetidos” (Cânon 845 §1).
Carrego em mim o sinal indelével recebido no Batismo
pela unção do óleo santo.
Depois confirmado na Crisma.
Alimentado pela Eucaristia, que uma vez feita carne em mim, continua sendo
presença mesmo quando dela estou privado.
O sacramento do Matrimônio, embora ferido pela insensatez da morte, permanece
como história santa inscrita em minha existência. “O amor jamais passará” (1Cor
13,8).
E por fim, a Ordem recebida no segundo grau do
Sacramento: diácono permanente. Não como honra humana, mas como serviço. Não
como poder, mas como entrega. A Igreja ensina que a ordenação configura o homem
a Cristo Servo. E aquilo que Deus marcou, o tempo não apaga.
A Doutrina Social da Igreja ensina que a dignidade
humana não desaparece com a queda, porque ela nasce da filiação divina.
Continuo sendo filho de Deus. Pecador, sim. Frágil, sim. Necessitado de
misericórdia, profundamente. Mas ainda filho.
Sei que há muitos questionamentos. Normais.
Muitos apontamentos. Normais.
Muitos julgamentos. Normais. Afinal, somos humanos.
Mas o único julgamento definitivo que reconheço é o da
misericórdia de Deus. Porque “a misericórdia triunfa sobre o julgamento” (Tg
2,13).
Não caminho apoiado em méritos. Caminho sustentado pela
esperança.
São Paulo escreveu: “Quem nos separará do amor de Cristo?” (Rm 8,35).
Nem a dor.
Nem a solidão.
Nem os erros.
Nem a perda.
Nem o silêncio.
Nem o afastamento.
Por essas e outras, nunca me ausentarei da fé.
Porque antes de eu procurar Deus, Ele já havia me encontrado.
E enquanto meu coração pulsar, enquanto minha
consciência ainda dobrar os joelhos diante do Cristo Crucificado e
Ressuscitado, permanecerei vivo na fé.
Pedro Claudio
Viúvo.
Diácono Permanente.
Jornalista.
Historiador.
Sonhador.
Persistente.





