domingo, 14 de junho de 2026

Hoje é Domingo, Pé de Cachimbo

 


Hoje é Domingo, Pé de Cachimbo

Por Pedro Cláudio

Neste domingo, 14 de junho, bateu uma saudade daqueles tempos em que a infância era vivida nas ruas, nos quintais e nas calçadas. Uma época em que não existiam internet, redes sociais, celulares ou jogos eletrônicos. A diversão nascia da criatividade, das amizades e das brincadeiras simples que marcaram gerações.

Lembrei-me de uma parlenda folclórica muito conhecida:

Hoje é domingo,
pé de cachimbo.
O cachimbo é de ouro,
bate no touro.
O touro é valente,
bate na gente.
A gente é fraca,
cai no buraco.
O buraco é fundo,
acabou-se o mundo.

Quem cresceu ouvindo esses versos certamente sorri ao recordá-los. Eram palavras passadas de criança para criança, de pais para filhos, preservando uma cultura popular rica e espontânea.

Também vieram à memória brincadeiras que hoje quase desapareceram. Uma delas era o famoso "passar o anel", quando a expectativa tomava conta de todos para descobrir quem estava com o objeto escondido entre as mãos. Outra era a tradicional roda da "Ciranda, Cirandinha", que reunia crianças em cantorias e movimentos simples, mas cheios de alegria.

As lembranças mostram como o tempo passa. As gerações mudam, os costumes se transformam e novas tecnologias ocupam espaço em nossas vidas. Mas a memória tem o poder de guardar momentos especiais e de nos lembrar que a felicidade muitas vezes estava nas coisas mais simples.

Ao recordar essas brincadeiras e cantigas, percebemos que tudo passa na vida. Ficam as histórias, as lembranças e a gratidão por ter vivido um tempo em que a imaginação era a principal tecnologia disponível.

E você, de qual brincadeira da infância sente mais saudade?

sábado, 13 de junho de 2026

A Cultura que Nos Habita

 

Artigo de Opinião: A Cultura que Nos Habita

Por Pedro Claudio


Artigo de Opinião: A Cultura que Nos Habita

Por Pedro Claudio

A história oferece exemplos claros desse poder da cultura. Durante a Idade Média e em diversos outros períodos, quando um reino conquistava outro, não bastava vencer militarmente. Era preciso destruir símbolos, apagar tradições, proibir antigos cultos e impor uma nova forma de enxergar o mundo. Os vencidos eram levados a abandonar seus deuses, seus costumes e até sua identidade coletiva. Em certo sentido, morriam para uma realidade e renasciam para outra.

Além das riquezas materiais, os vencedores também se apropriavam das pessoas. Os chamados despojos de guerra incluíam terras, objetos, animais e seres humanos capturados. Muitos eram obrigados a abandonar suas crenças e a assimilar a cultura dos conquistadores. A história está repleta desses exemplos, frequentemente retratados em livros e filmes, mostrando que dominar um povo significava muito mais do que controlar seu território: significava controlar sua memória, sua identidade e sua forma de compreender o mundo.

Talvez seja por isso que ainda hoje existam disputas tão intensas no campo das ideias. Afinal, quem influencia a cultura influencia a maneira como as pessoas enxergam a realidade. A escola, a família, a religião, os meios de comunicação, a internet e até os grupos de amizade participam diariamente da construção dos nossos valores. Muitas vezes acreditamos estar agindo por vontade própria, quando na verdade estamos reproduzindo conceitos e comportamentos que aprendemos ao longo da vida.

Essa estratégia revela uma verdade profunda: controlar a cultura é controlar a forma como as pessoas pensam.

Por isso, devemos ter cautela quando afirmamos que nossa visão de mundo é a única correta. Sou cristão e acredito nos ensinamentos de Jesus. Essa fé orienta minha vida e meus valores. No entanto, existem bilhões de pessoas que enxergam o mundo a partir de outras tradições religiosas ou filosóficas. Não necessariamente porque sejam melhores ou piores, mas porque foram formadas em contextos culturais diferentes.

O sociólogo Émile Durkheim já demonstrava que a sociedade exerce uma força poderosa sobre os indivíduos. Sigmund Freud, por sua vez, argumentava que muitos dos nossos impulsos são reprimidos para possibilitar a convivência social. Enquanto isso, Jean Piaget mostrava como o conhecimento é construído pela interação entre o indivíduo e o ambiente em que vive.

Todos esses pensadores, cada um a seu modo, ajudam a compreender que o ser humano não pode ser analisado isoladamente. Somos resultado de nossa biologia, mas também de nossa educação, de nossa cultura, de nossa fé e das experiências que acumulamos ao longo da vida.

Talvez por isso seja tão importante cultivar a tolerância. Quem trabalha com educação, especialmente nas licenciaturas, aprende que cada pessoa carrega uma história singular. Nem sempre o comportamento do outro pode ser explicado apenas por escolhas individuais. Existem fatores familiares, culturais, emocionais e sociais que influenciam profundamente a maneira como cada um age.

É nesse contexto que também reflito sobre a responsabilização dos jovens. Muitas vezes exigimos deles um nível de maturidade que nem os próprios adultos possuem. Transferimos responsabilidades sem reconhecer que a formação moral e cultural dos mais novos depende, em grande medida, do exemplo e da orientação oferecidos pelos mais velhos. E nem sempre idade significa sabedoria.

Ao final, talvez a maior lição seja esta: somos menos livres do que imaginamos e mais influenciados pelo meio do que gostamos de admitir. Vivemos cercados por forças visíveis e invisíveis que moldam nossos pensamentos, nossos desejos e nossas convicções.

Reconhecer essa realidade não deve nos tornar pessimistas. Pelo contrário. Deve nos tornar mais humildes diante das diferenças humanas e mais conscientes de que aquilo que chamamos de verdade muitas vezes é, também, o reflexo da cultura que nos formou.

Pense nisso.

Texto reflexivo inspirado em leituras realizadas durante minha graduação, especialmente nas contribuições de Jean Piaget e Sigmund Freud para a compreensão do desenvolvimento humano, da formação do conhecimento e das influências sociais e culturais sobre o comportamento.

 


quinta-feira, 11 de junho de 2026

A Seleção Ainda é Genuinamente Brasileira?

 


Antes de a bola rolar e os resultados influenciarem qualquer análise, faço questão de registrar esta reflexão. Independentemente de o Brasil conquistar ou não a Copa do Mundo de 2026, algo me incomoda profundamente: pela primeira vez, a Seleção Brasileira será comandada por um técnico estrangeiro.

Não se trata de questionar a competência de Carlo Ancelotti. Seu currículo fala por si. É um dos treinadores mais vitoriosos da história do futebol. O problema, para mim, não é a capacidade técnica. É a simbologia.

A Seleção Brasileira sempre representou muito mais do que um time de futebol. Ela é uma expressão da identidade nacional. Durante décadas, o Brasil encantou o mundo com seu jeito próprio de jogar, pensar e viver o futebol. Nossos títulos foram construídos por brasileiros dentro e fora de campo.

Hoje, já convivemos com uma realidade difícil para quem aprecia o futebol nacional. A maioria dos convocados atua no exterior. São jogadores formados aqui, é verdade, mas que desenvolvem suas carreiras longe dos gramados brasileiros. Até certo ponto, compreendo essa dinâmica. O mercado globalizado levou nossos talentos para os maiores clubes do mundo.

Mas o comando técnico é diferente.

O treinador é quem define estratégias, estabelece a cultura do grupo, toma as decisões finais e imprime sua visão sobre a equipe. Quando essa figura não é brasileira, algo da essência nacional parece se perder.

Se o Brasil levantar a taça em 2026, a história registrará que a seleção pentacampeã ampliou sua galeria de títulos sob o comando de um italiano. Ao lado de nomes como Vicente Feola, Aymoré Moreira, Mário Zagallo, Carlos Alberto Parreira e Luiz Felipe Scolari, aparecerá Carlo Ancelotti. É um fato que não consigo enxergar com naturalidade.

Talvez alguns considerem essa visão ultrapassada. Respeito. Mas acredito que existem momentos em que o orgulho nacional tem valor. Não falo de xenofobia, isolamento ou rejeição aos estrangeiros. Pelo contrário. Defendo um país aberto, acolhedor e capaz de aprender com outras culturas.

No entanto, há espaços em que a afirmação da própria identidade faz diferença. E a Seleção Brasileira é um deles.

O futebol sempre foi uma das maiores demonstrações da capacidade criativa do povo brasileiro. Quando dependemos de um comandante estrangeiro para buscar o título máximo do esporte, fica a sensação de que deixamos de acreditar plenamente em nossa própria competência.

Aprender com quem faz bem é uma virtude. Copiar modelos de sucesso também pode ser inteligente. Mas entregar o posto de maestro, professor, mestre ou comandante máximo da seleção nacional é uma decisão que merece reflexão.

Será que realmente não temos treinadores capazes? Será que o país que revelou tantos craques e conquistou cinco Copas do Mundo não consegue formar um técnico à altura de sua história?

São perguntas que permanecem.

Apesar de tudo, torcerei como sempre. Quero ver o Brasil campeão. Quero ver a camisa amarela novamente no topo do mundo. Quero comemorar o tão sonhado hexacampeonato.

Apenas confesso que, para mim, a conquista teria um sabor mais especial se fosse construída integralmente por brasileiros.

Talvez você concorde. Talvez discorde.

Mas a reflexão está feita.

Escrevo estas linhas em 11 de junho de 2026, antes de a bola rolar e de qualquer resultado influenciar minha opinião. Neste sábado, 13 de junho, o Brasil fará sua estreia na Copa do Mundo diante de Marrocos.

Coincidência ou não, será no dia 13, número eternizado pelo velho Lobo. Se estivesse entre nós, o que diria Mário Zagallo diante deste novo capítulo da história da Seleção Brasileira? Talvez repetisse seu bordão mais famoso e desafiasse os críticos a engolirem suas previsões. Talvez defendesse a tradição da camisa amarela. Ou talvez apenas lembrasse que, acima de tudo, o importante é o Brasil vencer.

Seja qual for a resposta, uma coisa é certa: quando a Seleção entra em campo, o coração do brasileiro continua batendo mais forte. E é por isso que, apesar das reflexões e das divergências, sigo torcendo pelo hexacampeonato.

Que venha a Copa. E que venha o hexa.

 

terça-feira, 9 de junho de 2026

O Fio Invisível da Fé: Minha Herança Familiar Através da Oração

 


Por Pedro Claudio

A história de uma família não se escreve apenas com certidões de nascimento, inventários ou grandes feitos públicos. Muitas vezes, o patrimônio mais sólido de uma linhagem reside no invisível: nas palavras repetidas ao pé da cama, no limiar da porta antes de ganhar o mundo, no sussurro que atravessa gerações. Para não deixar morrer a tradição, eu, Pedro Claudio, compartilho com vocês um caminho que percorro em minha vida espiritual desde criança — uma prece que me foi ensinada por meu pai, José Claudio Rosa, que por sua vez a recebeu de meu avô, Lafaiete Claudio Rosa, e que certamente veio de outros que os antecederam em nossa família.

Sempre que saio de casa, as palavras que me guiam são estas:

"De minha casa vou saindo, por meu caminho vou andando; Jesus Cristo é meu guia, a Virgem Santíssima e os santos anjos vão me acompanhando. Tomo Deus por meu Pai, a Virgem Santíssima por minha Mãe, os anjos por meus parentes e os santos por meus advogados, para que meus inimigos não me possam ferir nem matar, nem meu sangue tirar; nem por cobra seja ofendido, nem por cão danado mordido. Livrai-me de toda prisão e aflição, para que eu não morra sem confissão. Por Jesus, Maria e José, minha alma vossa é. Amém."

Ao olhar para essa herança com um olhar atento, percebo que essa fórmula reúne características fascinantes da religiosidade popular católica brasileira e portuguesa. Ela não é apenas uma prece de proteção; é o testemunho vivo de um catolicismo dinâmico, transmitido pela memória do coração.

Abaixo, compartilho com vocês uma análise que faço sobre o conteúdo desta oração, a partir de uma pesquisa histórica. Ela revela muito sobre nossas origens e, com certeza, é um tema sobre o qual poucas pessoas pararam para pensar e refletir."

Anatomia de uma Fé Popular: Análise do Conteúdo

Podemos compreender a profundidade dessa prece dividindo-a em seis partes fundamentais:

1. Entrega do caminho a Deus

"De minha casa vou saindo, no meu caminho vou andando, Jesus Cristo é meu guia..." Esta é uma fórmula tradicional de proteção para quem sai de casa. A ideia de Cristo como guia evoca o Evangelho de João, no qual Jesus afirma ser o Caminho, a Verdade e a Vida. É o reconhecimento de nossa vulnerabilidade ao deixar a segurança do lar.

2. Invocação da Virgem, anjos e santos

"Tomo Deus por meu pai, Virgem por minha mãe, os anjos por parentes e os santos por advogados..." Essa construção reorganiza o mundo social de quem reza. Diante do isolamento, passamos a ser cercados por uma "família celestial". A expressão "santos por advogados" é belíssima e muito antiga na espiritualidade católica, onde a palavra "advogado" carrega o sentido estrito de intercessor diante de Deus.

3. Pedido de proteção física

"Para que meus inimigos não me possam ferir nem matar, nem meu sangue tirar..." Este trecho reflete perfeitamente uma época em que nossos antepassados enfrentavam viagens a cavalo, estradas desertas, conflitos de terra e muitos perigos cotidianos. A fé era a armadura real contra a violência do mundo.

4. Proteção contra animais

"Nem por cobra seja ofendido, nem por cão danado mordido." Uma formulação tipicamente ligada ao meio rural. "Cão danado" era o termo antigo para o animal com raiva, uma sentença de morte quase certa no passado. Orações com esse teor aparecem com frequência no folclore religioso do interior do Brasil.

5. Preparação para a morte cristã

"Livrai-me de toda a prisão para que eu não morra sem confissão." Aqui se revela a raiz teológica do catolicismo tradicional. Durante séculos, o maior medo de um fiel não era a morte em si, mas a "morte repentina e desassistida". Morrer após receber o sacramento da confissão era considerada a maior das graças para a salvação da alma.

6. Consagração final

"Por Jesus, Maria e José minha alma vossa é." O fechamento sela um pacto de total entrega e fidelidade à Sagrada Família, colocando a vida e a eternidade sob a guarda dos maiores protetores do lar.

O Mistério da Tradição Oral

Curioso sobre a extensão dessa prece, fiz uma busca detalhada pelos trechos mais característicos dela na internet e o resultado me surpreendeu: não encontrei registros exatos da versão que recito. Embora existam muitas orações e hinos com expressões semelhantes — como "Jesus é meu guia" ou pedidos de proteção aos anjos —, a fórmula completa, com essa estrutura exata, parece não estar publicada em lugar nenhum.

Isso me confirma que somos guardiões de uma joia da tradição oral. Muitas dessas preces nasceram séculos atrás, cruzaram o oceano vindas de Portugal e sobreviveram no interior do Brasil apenas porque pais dedicados decidiram ensiná-las aos seus filhos, sofrendo pequenas e belas adaptações ao longo das eras.

A linguagem usada — termos como "cão danado", "santos por advogados" e "não me possam meu sangue tirar" — carrega a pátina do tempo, lembrando fórmulas devocionais dos séculos XVIII e XIX.

Reflexão Final

Ao compartilhar essa oração com vocês, sinto que cumpro o papel de manter acesa uma chama que aqueceu os passos do meu avô Lafaiete e do meu pai José Claudio. Caminhar repetindo essas palavras é a certeza de que nunca ando sozinho; sigo acompanhado por uma multidão de antepassados que, diante das incertezas da vida, se apegavam exatamente à mesma fé.

Que essa herança espiritual continue viva, protegendo meus passos e inspirando todos nós a valorizar as pequenas grandes tradições que dão sentido à nossa história.

 

O Espírito Santo e a Missão do Cristão

 O Espírito Santo e a Missão do Cristão

Quando experimentamos o amor de Deus e a salvação oferecida por Jesus Cristo, somos naturalmente impulsionados a anunciar essa Boa Nova. Desde os primeiros dias da Igreja, após a Ressurreição de Cristo e a descida do Espírito Santo em Pentecostes, os discípulos compreenderam que não poderiam guardar para si a experiência transformadora que haviam vivido.

O Espírito Santo foi a força que conduziu os apóstolos a superar o medo e a proclamar o Evangelho com coragem. O mesmo Pedro que havia negado Jesus tornou-se uma das maiores testemunhas da fé cristã. Essa transformação demonstra que a missão não depende apenas das capacidades humanas, mas da ação poderosa do Espírito de Deus na vida daqueles que se colocam à sua disposição.

A história da Igreja mostra também que o Evangelho é destinado a todos os povos. O Espírito Santo conduziu os primeiros cristãos a compreenderem que a salvação não era privilégio de um grupo específico, mas um dom oferecido a toda a humanidade. Assim, homens e mulheres, ricos e pobres, judeus e pagãos foram chamados a fazer parte da mesma comunidade de fé.

Essa comunidade cristã se caracterizava pela união, pela oração, pela partilha dos bens e pela perseverança na Palavra de Deus. Mesmo diante de perseguições, dificuldades e conflitos internos, os primeiros cristãos permaneceram firmes porque confiavam na ação do Espírito Santo.

Hoje, o desafio continua sendo o mesmo: viver a fé de forma autêntica e testemunhar Jesus Cristo no ambiente familiar, no trabalho, na escola e em todos os lugares onde estamos. Cada cristão é chamado a ser um sinal vivo do Evangelho, anunciando não apenas com palavras, mas principalmente com atitudes de amor, justiça, solidariedade e misericórdia.

Que o Espírito Santo continue renovando a Igreja e fortalecendo cada fiel para assumir sua missão com alegria, coragem e ardor missionário, levando a esperança de Cristo a todos aqueles que necessitam conhecer o amor de Deus.

Pedro Claudio


segunda-feira, 8 de junho de 2026

Padre Pablo Henrique utiliza redes sociais para defender catequese mais sólida e posições conservadoras

 

Padre Pablo Henrique utiliza redes sociais para defender catequese mais sólida e posições conservadoras


O padre Pablo Henrique, ordenado sacerdote pela então Diocese de São Luís de Montes Belos — atualmente pertencente à Diocese de Itumbiara — e médico de formação, tornou-se uma das figuras religiosas mais atuantes nas redes sociais da região. Com presença constante no Instagram e Facebook, suas publicações alcançam milhares de pessoas e despertam reações distintas: é amplamente aplaudido por muitos fiéis, mas também alvo de críticas e, por vezes, de incompreensão.

Um dos aspectos mais marcantes de sua trajetória é a decisão de abandonar a carreira médica, tradicionalmente considerada uma profissão de grande estabilidade e boa remuneração, para dedicar-se integralmente ao sacerdócio. A escolha é frequentemente associada ao ideal cristão de renúncia. O bispo que o ordenou, Dom Carmelo Scampa, hoje bispo emérito, costumava relativizar o destaque dado ao fato de Pablo ter deixado a medicina, argumentando que todo padre, ao atender ao chamado vocacional, deixa para trás projetos, bens e oportunidades para servir à Igreja.

Além da atividade evangelizadora, Padre Pablo manifesta posicionamentos públicos sobre temas políticos, culturais e religiosos. Em suas redes sociais, costuma criticar o Partido dos Trabalhadores (PT) e setores da esquerda, associando essas correntes a pautas como a descriminalização do aborto, a discussão sobre identidade de gênero e uma visão de sociedade que, segundo ele, diverge dos princípios tradicionais do catolicismo. Em sentido oposto, representantes e simpatizantes desses grupos rejeitam essa caracterização, sustentando que tais associações fazem parte do embate político e ideológico contemporâneo.

O sacerdote também não evita fazer críticas à própria Igreja quando entende que determinadas práticas precisam ser revistas. Enquanto esteve à frente da Paróquia São Paulo VI, em Iporá, por exemplo, não aderiu à Campanha da Fraternidade, promovida anualmente pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A iniciativa costuma abordar temas sociais e de promoção da dignidade humana, mas, na visão de Padre Pablo, determinadas abordagens podem afastar a atenção da formação doutrinária e sacramental dos fiéis.

Uma de suas publicações mais recentes provocou debates ao abordar a situação da catequese. Nela, o sacerdote questiona uma frase frequentemente repetida nos ambientes pastorais de que "catequese não é aula" e que "catequista não é professor". Em tom crítico, ele pergunta: "Então, o que é?".

Segundo Padre Pablo, um dos grandes problemas enfrentados pela Igreja na atualidade é a falta de conhecimento sobre a própria fé. Em sua análise, muitas pessoas afirmam que a missa é cansativa ou pouco atrativa porque não compreendem seu verdadeiro significado. Para ele, grande parte dos fiéis desconhece a riqueza da liturgia, o sentido das músicas, a dimensão espiritual da celebração e a presença real de Cristo na Eucaristia.

O sacerdote também critica a utilização de recursos teatrais durante as celebrações, argumentando que, em alguns casos, o espetáculo acaba se sobrepondo ao caráter sagrado e sacrificial da missa. Na sua avaliação, quando as pessoas destacam apenas que a celebração foi "bonita" ou divertida, isso revela uma compreensão limitada daquilo que, para a tradição católica, representa o memorial do sacrifício de Cristo.

Na reflexão divulgada, Padre Pablo sustenta que a pequena incidência de conversões profundas decorre justamente da deficiência na formação religiosa. Em sua visão, muitos católicos não sabem participar adequadamente da comunhão nem compreender o sentido espiritual do sacrifício eucarístico.

Ele faz ainda uma comparação com o Antigo Testamento, afirmando que o povo judeu recebia sólida instrução religiosa, embora seus sacrifícios fossem exteriores, baseados na oferta de animais. Já no cristianismo, em que o sacrifício de Cristo é único e definitivo, a participação consciente dos fiéis dependeria de uma catequese consistente, desenvolvida tanto na família quanto na própria comunidade eclesial.

Em uma das passagens que mais repercutiram, Padre Pablo afirma que a atual fragilidade da catequese seria consequência da ação do mal, sustentando que "Satanás destruiu a catequese" ao difundir a ideia de que ela não deve ser encarada como um verdadeiro processo de ensino e aprendizado da fé.

As manifestações do sacerdote reforçam uma característica já conhecida de sua atuação pastoral: a defesa de uma formação religiosa mais tradicional, centrada na doutrina, na liturgia e no aprofundamento do conhecimento da fé católica.

sábado, 6 de junho de 2026

Entre pregadores e influenciadores: a crise da autonomia intelectual.

 

A era dos influenciados

Confesso que às vezes não entendo muito esses tempos atuais. Parece que estamos cercados de pregadores, mentores, coaches, influenciadores e especialistas para tudo. Nas igrejas, multiplicam-se pessoas que afirmam conhecer a vontade de Deus melhor do que qualquer um. Nas redes sociais, surgem diariamente novos "influenciadores", gente que se apresenta como referência para ensinar como viver, pensar, investir, amar, votar ou até mesmo acreditar.

Fico pensando se, em algum momento, perdemos a capacidade de tirar nossas próprias conclusões.

Sou de um tempo em que as pessoas liam livros, jornais, estudavam nas escolas, frequentavam bibliotecas, conversavam nas praças ou nas academias e, a partir disso, construíam suas próprias opiniões. Havia divergências, claro, mas cada um era responsável pelo próprio julgamento. A independência intelectual era quase um valor.

Hoje, parece que muita gente prefere terceirizar o pensamento. Em vez de analisar um fato, espera que alguém faça a interpretação por ela. E há quem tenha descoberto que isso pode ser um excelente negócio. Afinal, quanto maior a dependência do público, maior a audiência, maior a influência e, consequentemente, maior o lucro.

Isso fica ainda mais delicado quando entra no campo da fé. Pessoas pegam textos sagrados, interpretam conforme seus interesses e, não raras vezes, fecham os olhos e dizem: "Deus está me revelando que...". O problema não é a espiritualidade, nem a crença. O problema é quando alguém usa o nome de Deus para transformar opiniões pessoais em verdades absolutas.

E o mais impressionante é que sempre existe quem esteja disposto a seguir, sem questionar, sem refletir, sem confrontar aquilo com a própria consciência ou com aquilo que está escrito.

Talvez a maior crise do nosso tempo não seja a falta de informação. Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento. A verdadeira crise pode ser a falta de autonomia para pensar.

Influenciar pessoas não é necessariamente algo ruim. Professores influenciam, pais influenciam, líderes religiosos influenciam, jornalistas influenciam. O problema começa quando a influência substitui o pensamento crítico.

A liberdade não está apenas em poder falar. Está, principalmente, em poder pensar por conta própria. E isso talvez seja uma das coisas mais valiosas que uma sociedade pode preservar. 

Por Pedro Claudio

sexta-feira, 5 de junho de 2026

A fé que transforma

 

A fé que transforma

Por Pedro Claudio Rosa


Caros amigos de fé,

Manifestar a religiosidade é importante. Para nós, cristãos, especialmente os católicos, participar das celebrações, dos sacramentos e da vida comunitária não é apenas uma tradição, mas um compromisso assumido diante de Deus e da própria consciência.

Entretanto, entre estar presente e ser verdadeiramente participante existe uma distância que merece reflexão.

Posso estar na igreja com o corpo, mas ausente no espírito. Da mesma forma, alguém pode, por circunstâncias da vida, não estar fisicamente presente, mas demonstrar em suas atitudes diárias uma profunda vivência dos valores do Evangelho. Afinal, a fé não se mede apenas pela frequência aos cultos, mas pelos frutos que ela produz.

O próprio Cristo advertiu sobre isso ao condenar a hipocrisia dos fariseus, que exibiam práticas religiosas impecáveis, mas esqueciam da justiça, da misericórdia e do amor ao próximo.

Tenho muitos questionamentos, e posso até estar errado em alguns deles. Mas me pergunto se, às vezes, não damos importância excessiva ao que aparece. Fazemos o melhor para Deus: vestes bonitas, templos ornamentados, objetos sagrados valiosos. Tudo isso pode ter seu significado e sua beleza. Contudo, quando a forma se torna mais importante que o conteúdo, corre-se o risco de alimentar apenas o orgulho humano.

Quantas vezes aquilo que deveria aproximar-nos de Deus acaba fortalecendo o ego? Quantas vezes a prática religiosa é usada como símbolo de superioridade moral, como se quem participa dos ritos estivesse automaticamente acima do bem e do mal?

A filosofia ajuda a pensar essas questões.

Platão ensinava que o mundo sensível, aquilo que vemos e tocamos, é apenas uma sombra da verdadeira realidade, que está no campo das ideias e das virtudes. Em outras palavras, a aparência nunca deve substituir a essência.

Seu discípulo, Aristóteles afirmava que a virtude nasce do hábito. Não basta conhecer o bem; é preciso praticá-lo continuamente. A ética, para ele, não está no discurso, mas na ação.

Séculos depois, Santo Agostinho escreveu que "a medida do amor é amar sem medida". O verdadeiro encontro com Deus não se revela pela exibição pública da fé, mas pela capacidade de amar.

Já São Tomás de Aquino defendia que a fé e a razão caminham juntas. Uma religião sem reflexão pode cair no fanatismo; uma razão sem valores pode perder a humanidade.

Entre os pensadores contemporâneos, Marilena Chaui nos alerta para o perigo das aparências e das ideologias que mascaram a realidade. Muitas vezes, construímos imagens de nós mesmos para sermos admirados, quando deveríamos estar preocupados em sermos melhores.

Também vale recordar as palavras de Friedrich Nietzsche, um crítico severo da moral religiosa quando ela se torna mera formalidade. Sua provocação não era necessariamente contra Deus, mas contra a hipocrisia daqueles que usam a religião como instrumento de poder e superioridade.

Talvez a maior lição venha de Mahatma Gandhi, que dizia: "A melhor maneira de encontrar a si mesmo é perder-se no serviço aos outros."

No fim das contas, a fé verdadeira talvez seja menos visível do que imaginamos. Ela aparece no respeito ao diferente, na honestidade, na solidariedade silenciosa, no cuidado com quem sofre, na capacidade de perdoar e de reconhecer os próprios erros.

Frequentar a igreja é importante. Participar da comunidade é necessário. Mas a religião não pode ser um palco para a vaidade ou um certificado de superioridade moral.

Ninguém é melhor que o outro porque reza mais, canta mais alto ou ocupa um lugar de destaque no templo. A verdadeira grandeza espiritual talvez esteja justamente em quem serve sem aparecer.

Afinal, como ensinou Jesus, "pelos seus frutos os conhecereis".

Que a nossa fé não seja apenas vista, mas sentida. Que não seja apenas proclamada, mas vivida. E que, antes de apontarmos as falhas do próximo, tenhamos a coragem de examinar o próprio coração.

Iporá, 05 de junho de 2026 

 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

O eleitor que aceita ser massa de manobra

 

O eleitor que aceita ser massa de manobra


Chega a temporada mais previsível da política brasileira. É o momento em que muitos candidatos vestem a fantasia de santo, de salvador da pátria, de herói incorruptível, enquanto pintam o adversário como a própria encarnação do mal. A política vira novela barata, com mocinhos e vilões cuidadosamente construídos por marqueteiros.

Nas novelas, o roteiro é fictício. O vilão manipula, mente, engana, e mesmo quando todos enxergam suas artimanhas, ele continua conquistando espaço porque a trama precisa de audiência. Na política, infelizmente, a história se repete. A diferença é que o enredo afeta a vida de milhões de pessoas.

Boa parte dos políticos conhece perfeitamente a fragilidade emocional do eleitorado. Sabem que a paixão política cega, ensurdece e emburrece. O sujeito deixa de analisar propostas, esquece o histórico dos candidatos e passa a agir como torcedor fanático. Não importa o que seu político faça; para ele, sempre haverá uma justificativa. Já o adversário, mesmo quando acerta, será tratado como inimigo.

É assustador perceber o quanto nos deixamos manipular. Um pretenso candidato cria uma crise, joga a responsabilidade no colo do outro e, com a maior cara de pau, faz um discurso moralista, quase sorrindo da ingenuidade dos seus seguidores. E eles aplaudem. Aplaudem porque não querem ouvir a verdade; querem apenas confirmar suas próprias crenças.

A paixão, quando entra na política, costuma expulsar a razão. Quem já se apaixonou sabe disso. Fazemos sacrifícios, ignoramos defeitos e defendemos o indefensável. O problema é que, na política, essa paixão destrói amizades, separa famílias e cria inimigos onde deveriam existir apenas opiniões diferentes.

Enquanto o povo se agride nas redes sociais e nas rodas de conversa, muitos daqueles que alimentam essa guerra dividem a mesma mesa, apertam as mesmas mãos e negociam os mesmos interesses. O cidadão comum vira soldado de uma batalha que não é sua.

Somos, muitas vezes, uma sociedade de memória curta e senso crítico atrofiado. Aceitamos discursos prontos, frases de efeito e falsas narrativas sem o mínimo esforço para questionar. Viramos massa de manobra voluntária, manipulados por quem domina a arte da propaganda e da divisão.

Nenhum político, de qualquer lado, merece que você destrua amizades, rompa laços familiares ou carregue ódio no coração. Ideias devem ser debatidas; pessoas não precisam ser inimigas.

O Brasil não precisa de torcidas organizadas da política. Precisa de cidadãos atentos, críticos e inteligentes. Eleitores capazes de desconfiar de promessas milagrosas, de discursos exageradamente moralistas e daqueles que sempre apontam o dedo para os outros, mas nunca assumem seus próprios erros.

Chegou a hora de deixar a paixão de lado e recuperar a lucidez. O Brasil merece ser tratado com seriedade. E o eleitor também.

Por Pedro Claudio