Pedro Claudio Noticias.
Jornalismo factual, opinativo em atividade na região Oeste de Goiás.
sexta-feira, 24 de abril de 2026
Sob o olhar de Maria, Iporá vive 80 anos de fé, humildade e transformação
domingo, 19 de abril de 2026
Da ruptura ao recomeço: minha vida, minha essência
Da
ruptura ao recomeço: minha vida, minha essência
É muito
interessante pensar a vida: como ela é dinâmica, como pode mudar de uma hora
para outra — ou não. Tudo é incerto. De repente, independentemente da nossa
vontade, tudo muda.
Cito o
meu caso.
Eu levava
uma vida considerada normal: pai de família, dois filhos já formados, 29 anos
de vida matrimonial produtiva, uma convivência conjugal e religiosa intensa.
Exercia minha missão como diácono permanente na Igreja Católica, em Iporá,
Goiás, com uma rotina de celebrações e reuniões. Minha esposa trabalhava, e a
vida seguia com boas perspectivas de futuro. Eu, aos 55 anos, acreditava na
continuidade daquele caminho.
E então,
o pior aconteceu.
Minha
esposa, tomada por uma atitude extrema contra a própria vida, decidiu pelo
autoextermínio. Um turbilhão tomou conta de mim. Eu não estava preparado para
aquilo.
Naquele
dia, após uma Celebração da Palavra na comunidade Jardim Monte Alto, às 18h, na
periferia de Iporá, eu me dirigia para uma segunda celebração, às 19h, na
Comunidade Nossa Senhora Aparecida, no Setor Carajás. No intervalo, senti a
necessidade de voltar para casa.
Foi ali
que me deparei com a catástrofe.
Minha
companheira de mais de 30 anos havia atentado contra a própria vida. Ainda
conseguiu expressar o desejo de morrer — foram suas últimas palavras
compreensíveis. Após ingerir soda cáustica, já não conseguia mais falar, apenas
balbuciava. Cancelei meus compromissos e acionei imediatamente o atendimento
médico. O SAMU chegou rápido. Eram por volta das 19h30 do dia 20 de janeiro de
2020.
Ali,
minha vida mudou para sempre.
No
hospital, com a chegada de familiares, amigos e do padre Pablo, que lhe
ministrou a confissão, vivemos momentos de angústia e esperança. Acreditávamos
que poderia sobreviver, ainda que com sequelas. Mas, por volta das 3h da
madrugada, veio a notícia mais dolorosa: o falecimento.
A partir
daí, não houve mais calmaria.
Consegui
manter certa serenidade sustentado por Deus e pela presença de pessoas
próximas: familiares, colegas, membros da comunidade católica, além do apoio de
psicólogos e médicos. Cada um trouxe uma palavra, uma orientação, um consolo.
Mas,
ainda assim, era preciso seguir.
Precisei
me ressignificar. Mudar. Recomeçar — já às portas da maturidade, mas ainda com
energia para viver.
E então
veio a pergunta inevitável: o que fazer?
O
caminhar é solitário. Toda decisão é subjetiva. Diante de mim, surgiram três
possibilidades, apresentadas pelo padre passionista Célio Amaro, que me
acompanhava: permanecer sozinho; seguir o sacerdócio; ou pedir dispensa e
reconstruir a vida ao lado de outra pessoa.
Naquele
momento, compreendi que a decisão era exclusivamente minha.
Coloquei-me
no altar do Senhor, pedindo que Ele conduzisse meu caminho, pois minha vontade
estava fragilizada por sentimentos, orgulho e vaidade.
Com o
tempo, vieram influências externas, contatos, redes sociais. Após o período
mais intenso do luto, surgiram experiências, tentativas, instabilidades
emocionais. A solidão se impunha. Amigos e até a família seguiram seus caminhos
— algo natural da vida.
E foi
nesse processo que novas possibilidades surgiram.
Até que,
acredito, Deus colocou em meu caminho Eva Maria da Silveira Borges, também
viúva, igualmente em busca de reconstrução.
Segui,
então, com transparência. Comuniquei minha decisão aos superiores — padres e
bispo —, depois à comunidade. Afastei-me das atividades pastorais, pois minha
nova condição não era compatível com as normas da Igreja, conforme o Código de
Direito Canônico.
Por
decisão pessoal, suspendi minhas funções. Posteriormente, essa condição foi
formalizada e permanece até hoje.
Mas minha
missão não terminou.
Ela
continua — e continuará enquanto eu viver.
Hoje,
vivo em constante ressignificação. A cada atitude, a cada escolha.
A normalidade
de antes não existe mais. E talvez nunca mais exista.
Minha
oração é para que, mesmo em meio às inquietações, eu seja coerente, firme e
fiel à missão de cuidar, amar e viver enquanto houver fôlego.
Tenho
consciência de que não estou livre de novas mudanças. A vida é assim. Perdi a
inocência de acreditar que tudo seria permanente. Hoje entendo: tudo dura
enquanto precisa durar — e deve ser vivido com intensidade.
Vivemos
para nós e para os outros. A vida é comunitária.
Depois de
atravessar uma ruptura dessa magnitude, pensar a vida deixa de ser teoria e
passa a ser sobrevivência.
A
existência, que antes parecia estável, revela sua verdadeira natureza: a
impermanência.
Não é
apenas a perda de alguém. É a ruptura de identidade. Um “eu” que deixa de
existir como era. E, diante disso, surge o vazio — e o vazio exige decisão.
E decidir
é um ato solitário.
Mesmo com
apoio, ninguém pode escolher por nós. Essa solidão não é abandono — é condição
humana. É nela que se constrói um novo sentido.
As
possibilidades que tive não eram apenas caminhos práticos, mas formas de
existir:
permanecer na ausência, aprofundar a fé no sacerdócio ou reconstruir a vida
afetiva.
A escolha
foi, acima de tudo, existencial.
Colocar
essa decisão nas mãos de Deus foi também uma forma de organizar o caos
interior, dar sentido ao que parecia incompreensível.
O luto
não é linear. Ele passa por instabilidade, busca, tentativas. Não há pureza
nesse processo — há humanidade.
O
reencontro com o afeto não substitui o passado. Ele reconfigura o presente.
E assim,
a vida ensina:
Não há
garantias.
A identidade não é fixa.
O controle é limitado.
O sentido precisa ser reconstruído constantemente.
A
maturidade não está em superar a dor, mas em integrá-la à própria história.
A antiga
ideia de normalidade desaparece. Em seu lugar, surge uma vida mais consciente,
mais real, mais comprometida com o essencial.
Viver
passa a ser um ato diário de escolha.
No fim,
permanece uma verdade simples: viver é aceitar o inacabado.
E
continuar, apesar de tudo, já é um ato de fé.
Sou eu,
Pedro Claudio, contando minha história — juntando cacos e construindo uma nova
vida.
Iporá, Goiás.
No rádio, meu local de trabalho desde abril de 1987.
19 de abril de 2026.
quarta-feira, 15 de abril de 2026
Política sem ódio: Iporá pede respeito, diálogo e foco em soluções
Ao aproximar a campanha eleitoral 2026 é bom pensar um pouco
Divergir faz parte da democracia. Ter posições
diferentes, defender ideias opostas e até fazer críticas mais firmes é
legítimo. O que não se pode normalizar é a escalada da agressividade — seja em
palavras, gestos ou atitudes que estimulem a violência. Quando isso acontece,
perde-se o foco do que realmente importa: melhorar a vida das pessoas.
Iporá, assim como qualquer comunidade, precisa ser
exemplo de respeito. Aqui, todos convivem nos mesmos espaços, enfrentam
desafios semelhantes e compartilham a mesma realidade. Transformar divergência
política em conflito pessoal só enfraquece a sociedade e afasta soluções
concretas.
Muitas vezes, surge a tentativa de entender de
onde vem tanto ódio no debate político, inclusive entre grupos que defendem
valores como “Deus, Pátria e Família”. Para alguns, isso soa como incoerência.
Mas, mais importante do que buscar uma explicação única, é reconhecer que esse
ambiente de confronto permanente não contribui em nada — pelo contrário,
empobrece o debate público e afasta a população das discussões que realmente
fazem diferença no dia a dia.
Quando a política passa a ser guiada por
provocações, generalizações e ataques — seja contra a direita, contra a
esquerda ou qualquer outro grupo — o resultado é sempre o mesmo: mais
polarização e menos solução. E isso não é exclusividade de um lado. Esse
comportamento tem se espalhado, muitas vezes impulsionado por estratégias
políticas e pela dinâmica das redes sociais.
Defender a paz não é ser neutro ou omisso. É
ter firmeza para afirmar que nenhum projeto político justifica o desrespeito ao
outro. É possível debater com responsabilidade, criticar com argumentos e
disputar ideias sem ultrapassar os limites da convivência.
No
fim das contas, o que a população espera é algo simples: equilíbrio, respeito e
foco em coisas reais — saúde, educação,
economia, qualidade de vida. Mais do que entender o ódio, o desafio é
superá-lo. Porque política não deve ser sobre inimigos, mas sobre soluções. E
isso exige maturidade, responsabilidade e a capacidade de conviver com quem
pensa diferente.
Por Pedro Claudio, a partir de episódios políticos.
Iporá, 15 de abril de 2026
sábado, 4 de abril de 2026
Fé entre o íntimo e o coletivo: crença, diversidade e os limites do controle religioso
Fé entre o íntimo e o coletivo: crença, diversidade e os limites do controle
religioso
A fé, enquanto experiência humana, situa-se em um território ao mesmo tempo
íntimo e coletivo. Do ponto de vista teológico, ela é resposta a uma revelação;
sociologicamente, é também construção simbólica partilhada. Essa dupla dimensão
explica por que, mesmo dentro de uma mesma tradição religiosa, o ato de crer
nunca é completamente uniforme. A adesão institucional pode ser comum, mas a
forma de acreditar permanece profundamente pessoal, marcada pela história,
pelas emoções e pela compreensão de cada indivíduo.
No cristianismo, por exemplo, a crença na
ressurreição de Cristo — central para a fé professada na Igreja — aparece como
um ponto de convergência entre diferentes denominações. A tradição católica,
assim como outras vertentes cristãs, sustenta essa verdade no credo: Cristo
ressuscitou e, ao final dos tempos, todos ressuscitarão. No entanto, ainda que
o conteúdo da fé seja compartilhado, o modo como ele é assimilado, imaginado e
vivido varia significativamente. Para alguns, trata-se de uma realidade concreta
e futura; para outros, possui também dimensões simbólicas e existenciais. Essa
diversidade de compreensão não nega a fé, mas revela sua profundidade.
Essa é, em certa medida, a beleza e o desafio
da experiência religiosa: ninguém pode possuir ou controlar plenamente a fé do
outro. Ainda assim, as instituições religiosas assumem a missão de ensinar,
orientar e transmitir suas doutrinas. A pregação cotidiana busca dar forma ao
conteúdo da fé, oferecendo interpretações e caminhos de vivência. Contudo, é justamente
nessa mediação que surgem tensões. A limitação humana na compreensão do
transcendente pode abrir espaço para simplificações, distorções e, em alguns
casos, manipulação.
Sob a ótica sociológica, a religião também
exerce uma função de organização social. Ela orienta comportamentos, estabelece
normas e cria sentidos compartilhados que sustentam a vida em comunidade. No
entanto, essa mesma estrutura pode ser instrumentalizada. Ao longo da história,
grupos religiosos — ou lideranças específicas — utilizaram o discurso da fé
para consolidar poder, reunir seguidores e garantir recursos, sejam eles
simbólicos ou materiais. A promessa de salvação, muitas vezes apresentada de
forma condicionada ao cumprimento de regras estritas, pode se transformar em
mecanismo de controle, alimentando o medo da exclusão e da condenação.
Do ponto de vista teológico, entretanto, a
salvação permanece um mistério que escapa ao domínio humano. A tradição cristã
afirma que o juízo final pertence a Deus, e não às instituições ou aos
indivíduos. Ainda assim, no cotidiano religioso, observa-se a recorrente
construção de fronteiras rígidas entre “salvos” e “perdidos”, como se o destino
eterno pudesse ser previamente delimitado por critérios humanos. Essa tensão
entre a liberdade divina e o controle institucional revela uma das grandes
ambiguidades da vivência religiosa.
Essa reflexão se amplia quando consideramos a
pluralidade de tradições religiosas existentes no mundo. Religiões como o
islamismo, o hinduísmo, o budismo, além das diversas expressões do
cristianismo, do espiritismo e das religiões de matriz africana, expressam
diferentes formas de relação com o transcendente. Diante dessa diversidade,
surge uma questão inevitável: como compreender o destino espiritual daqueles
que professam outras crenças ou que nunca tiveram acesso a uma tradição
religiosa? A exclusividade de uma única via de salvação parece, à luz dessa
pluralidade, uma questão complexa e desafiadora.
Assim, a fé revela-se não apenas como adesão a
um conjunto de verdades, mas como experiência viva, situada entre o mistério
divino e as mediações humanas. Ela pode libertar, dar sentido e promover a
solidariedade, mas também pode ser utilizada como instrumento de controle e
poder. Reconhecer essa ambivalência é essencial para uma vivência mais
autêntica e consciente da religião.
No
fim, permanece o convite à reflexão: se a fé é, ao mesmo tempo, pessoal e
comunitária, como equilibrar liberdade interior e pertença institucional sem
cair na imposição ou na manipulação? Talvez a resposta esteja em reconhecer os
limites humanos diante do divino e em cultivar uma fé que, mais do que
controlar, seja capaz de acolher, dialogar e humanizar.
Iporá Goiás, 04 de abril de 2026
Por Pedro Claudio.
terça-feira, 31 de março de 2026
Jornalismo Não É Propaganda: Entre a Verdade dos Fatos e a Responsabilidade de Informar
Foto: Studios Rádio Rio Claro entrevista assuntos locais.
Jornalismo Não É Propaganda: Entre a Verdade dos Fatos e a
Responsabilidade de Informar
O princípio de que “jornalismo não é propaganda”
não é novo, tampouco casual. Ele encontra respaldo em alguns dos mais
importantes escritos da história da comunicação. Um dos marcos desse
entendimento está na obra Public Opinion,
publicada em 1922 por Walter Lippmann,
conteúdo hoje de fácil acesso inclusive em língua portuguesa e em formato
digital. Nela, o autor já alertava para os riscos da manipulação da informação
e para a necessidade de o jornalismo atuar como mediador responsável entre os
fatos e o público. Décadas depois, o debate foi aprofundado por Bill Kovach e Tom
Rosenstiel em The Elements of
Journalism, onde se estabelece que a primeira obrigação do
jornalismo é com a verdade, e sua lealdade deve ser com o cidadão — não com
governos, empresas ou interesses particulares.
Hoje, vive-se uma profunda confusão sobre o que
é, de fato, jornalismo. Em um ambiente saturado de informação, sobretudo nas
redes sociais, tornou-se comum a reação imediata: se uma pauta não agrada,
critica-se o veículo. Mas fatos são fatos — independem da simpatia ou da
rejeição de quem os recebe. Nesse cenário, surgem expressões como “Globo lixo”,
direcionadas à TV Globo, muitas vezes não
por erro factual, mas por descontentamento com a exposição de acontecimentos do
cotidiano.
É importante, portanto, resgatar um dos
fundamentos mais básicos da prática jornalística: a estrutura da notícia. Desde
os manuais clássicos, convencionou-se que toda narrativa informativa deve
responder a perguntas essenciais: o quê,
quem, quando, onde, como e por quê. Essas perguntas organizam o fato,
dão clareza ao público e permitem que a informação seja compreendida de forma
objetiva. No entanto, especialmente no caso do “por quê”, muitas vezes o
discernimento final cabe ao ouvinte, leitor ou telespectador. E esse julgamento
não é neutro: ele é atravessado por cultura, educação, experiências pessoais e
pela própria capacidade cognitiva de cada indivíduo.
É nesse ponto que o jornalismo se distingue da
propaganda. Enquanto o primeiro busca informar e contextualizar, a segunda tem
como objetivo persuadir. Quando essa fronteira se rompe, surge algo perigoso: o
marketing disfarçado de jornalismo. Trata-se de uma forma de charlatanismo
informativo — é como receitar o remédio errado a quem precisa de orientação
segura. Um exemplo claro está na divulgação de tratamentos ou produtos com
suposta eficácia, sem qualquer comprovação científica, vendendo “gato por
lebre” sob a aparência de notícia.
Nos tempos de páginas e mais páginas que se
apresentam como conteúdo jornalístico em plataformas como Instagram e Facebook,
além da proliferação de rádios e TVs web, a atenção precisa ser redobrada.
Nunca houve tantos produtores de conteúdo, mas nem todos comprometidos com a
ética da informação. Muitos estão interessados apenas em promover alguém, um
produto ou uma ideia — e os mais desavisados acabam consumindo esse material
como se fosse jornalismo legítimo.
É claro que o jornalista também precisa
sobreviver, precisa de sustento. A publicidade é parte desse ecossistema. Mas
há uma regra essencial: separar claramente os espaços. Quando é publicidade,
que se diga com todas as letras. Quando é jornalismo, que se pratique com
rigor. Misturar ambos é comprometer a credibilidade — e sem credibilidade, não
há jornalismo.
Construir um mundo melhor para todos é, sim,
um dos papéis do jornalismo. Mas isso não se faz com proselitismo ou distorção.
Não adianta apontar os erros de políticos que se desviam de condutas ou
recursos e agir da mesma forma no campo da informação. O compromisso deve ser
com os fatos, com a exposição honesta das causas e consequências, e com o
respeito ao público.
Pense nisso. Fazer jornalismo sério é, antes
de tudo, um exercício diário de responsabilidade.
Material para leitura pode ser encontrado em
plataformas como Estante Virtual ou em
outras fontes de pesquisa.
Por Pedro Claudio, desde
abril de 1987 no radiojornalismo em Iporá, Goiás.
segunda-feira, 23 de março de 2026
História e Teologia: dois caminhos, uma mesma busca
História e Teologia: dois caminhos, uma mesma busca
Há cursos que não apenas ensinam conteúdos, mas
transformam a forma como enxergamos o mundo. Entre aqueles que tive a
oportunidade de frequentar, dois se destacam de maneira especial: História e
Teologia. À primeira vista, parecem trilhar caminhos distintos — quase opostos
—, mas, ao mergulhar em suas profundezas, percebe-se que dialogam de maneira
surpreendente.
A História, enquanto ciência, vai muito além de
datas, nomes e acontecimentos isolados. Inserida no campo da História, ela busca compreender a trajetória da
humanidade ao longo do tempo, analisando contextos, relações de poder, cultura,
economia e mentalidades. Seu objeto central é o tempo — não apenas o tempo
cronológico, mas o tempo vivido, interpretado e reconstruído a partir de
evidências. Desde os primeiros registros de Heródoto,
frequentemente chamado de “pai da História”, até as abordagens contemporâneas,
o campo evoluiu para investigar não só o que aconteceu, mas por que aconteceu.
Já a Teologia, por sua vez, ultrapassa a ideia
comum de que se limita à fé ou à religiosidade institucional. Como área de
estudo, a Teologia se dedica a compreender
o ser humano em sua relação com o divino, com o transcendente, com aquilo que
muitas vezes escapa à lógica estritamente racional. Ela se estrutura em diversas
correntes — algumas mais filosóficas, outras mais ligadas à tradição religiosa
—, mas todas partem de uma inquietação comum: o sentido da existência.
É fácil imaginar um contraste: de um lado, a
História, associada ao ceticismo, à análise crítica e à exigência de provas e
evidências; de outro, a Teologia, frequentemente ligada ao mistério, ao
simbólico e ao invisível. No entanto, essa oposição é apenas aparente. Ambas
são formas de conhecimento rigorosas, cada uma com seus métodos e limites. A
História questiona documentos, interpreta vestígios e reconstrói narrativas. A
Teologia questiona significados, interpreta textos sagrados e busca compreender
dimensões mais profundas da experiência humana.
Nesse ponto, torna-se evidente que não há
espaço para fantasia ou romantização em nenhuma das duas áreas. Ambas exigem
disciplina intelectual, leitura, reflexão crítica e, sobretudo, humildade
diante da complexidade da vida. A famosa ideia de que “há mais mistérios entre
o céu e a terra do que pode compreender nossa vã filosofia” não é um convite à
ignorância, mas ao reconhecimento de que o conhecimento humano, embora
poderoso, é também limitado.
História e Teologia, portanto, não se anulam —
elas se complementam. Enquanto a primeira nos ancora na realidade concreta, nos
fatos e nas transformações sociais, a segunda amplia nosso horizonte,
convidando à reflexão sobre o sentido, o propósito e o transcendente. Juntas,
ajudam a formar uma compreensão mais completa do ser humano: um ser histórico,
situado no tempo, mas também um ser que busca significado além dele.
Compreender o que essas duas áreas exigem é
compreender também a necessidade de equilíbrio entre razão e reflexão, entre
evidência e sentido. Talvez seja justamente nesse encontro — entre o que
podemos provar e o que apenas podemos buscar entender — que reside uma das
maiores riquezas do conhecimento humano.
domingo, 22 de março de 2026
Entre controvérsias e apoio popular, o enigma do voto brasileiro
Por Pedro Claudio
É um exercício quase diário tentar compreender o
comportamento do eleitor brasileiro. Em um país de dimensões continentais,
diversidade cultural e profundas desigualdades, o voto muitas vezes parece
seguir caminhos que escapam à lógica mais imediata. Não se trata apenas de
preferência partidária, mas de uma combinação complexa de identidade, valores,
informação — e, sobretudo, percepção.
O caso de Flávio
Bolsonaro é um exemplo que intriga. Parte da imprensa aponta uma série
de episódios controversos envolvendo seu nome, que, em tese, poderiam
influenciar negativamente sua imagem pública. Ainda assim, pesquisas eleitorais
frequentemente indicam um desempenho robusto, sugerindo que esses fatores não
têm o peso que muitos analistas imaginam. Isso levanta uma pergunta inevitável:
o que, de fato, orienta o voto?
Especialistas em comportamento eleitoral
destacam que o eleitor nem sempre decide com base apenas em denúncias ou fatos
objetivos. Elementos como identificação ideológica, rejeição ao adversário,
confiança pessoal e até sentimentos como medo ou esperança têm papel
determinante. Em muitos casos, o eleitor escolhe não “o melhor candidato”, mas
aquele que melhor representa sua visão de mundo — ou que se opõe ao que ele
rejeita.
Do outro lado do espectro político, está Luiz Inácio Lula da Silva, uma figura que também
carrega controvérsias em sua trajetória. Sua prisão, posteriormente anulada por
decisões judiciais que apontaram irregularidades processuais, alimentou um
debate intenso sobre justiça, política e instituições no Brasil. Ainda assim,
Lula mantém uma base sólida de apoio popular, reforçando a ideia de que a
relação entre eleitor e candidato vai muito além de episódios isolados.
Esse cenário revela um traço marcante da
democracia contemporânea: a polarização. Em contextos assim, a análise racional
muitas vezes cede espaço à paixão política. O eleitor passa a relativizar erros
de seu candidato enquanto amplifica os do adversário. É um fenômeno observado
não apenas no Brasil, mas em diversas democracias ao redor do mundo.
Outro fator decisivo é o papel das redes
sociais. Plataformas digitais transformaram a forma como as campanhas são
feitas e como a informação circula. Se, por um lado, ampliam o acesso e
democratizam a comunicação, por outro, também criam bolhas de opinião, onde
cada grupo consome conteúdos que reforçam suas próprias convicções. Isso pode
explicar por que diferentes parcelas da população enxergam realidades tão
distintas sobre os mesmos fatos.
Diante disso, talvez a pergunta não seja
apenas “por que determinado candidato cresce?”, mas “como o eleitor constrói
sua verdade política?”. A resposta passa por educação, acesso à informação de
qualidade e, principalmente, pela capacidade crítica de cada cidadão.
No fim, há um princípio que precisa prevalecer:
o respeito ao voto. Independentemente de quem vença — seja Flávio Bolsonaro, Luiz
Inácio Lula da Silva ou qualquer outro nome que surja, como Ratinho Júnior ou Ronaldo
Caiado — a democracia se sustenta na legitimidade das escolhas
populares.
O Brasil ainda tem muito a debater. A
construção de um país mais justo e equilibrado passa necessariamente pelo
diálogo, pela pluralidade de ideias e pelo fortalecimento das instituições. As
eleições são apenas uma etapa desse processo. O verdadeiro desafio está no que
vem depois: governar para todos.
E,
até lá, seguimos aguardando — atentos, críticos e, acima de tudo, comprometidos
com a democracia.
domingo, 15 de março de 2026
Influenciadores digitais: estamos pensando por conta própria?
Reflexão – Por Pedro Claudio
15 de março de 2026
Nos últimos tempos, principalmente a partir da
popularização da internet e do advento das redes sociais, surgiu uma figura
curiosa da sociedade contemporânea: o chamado influenciador ou influenciadora
digital. Como o próprio nome indica, “influencer” é alguém com poder de
influenciar opiniões, comportamentos e até decisões de consumo e de voto.
Mas esse fenômeno levanta uma pergunta
inevitável: por que tantas pessoas precisam de alguém para pensar por elas?
O crescimento desse tipo de personagem nas
redes é impressionante. O Brasil é hoje um dos países que mais consomem redes
sociais no mundo, com mais de 130 milhões de usuários conectados, e o número de
influenciadores digitais já passa de 2
milhões no país.
Estudos mostram ainda que 37% dos
brasileiros já compraram algum produto por influência de posts nas redes
sociais, e uma parcela significativa afirma que pretende passar ainda
mais tempo nesses ambientes digitais.
Ou seja, não se trata de um fenômeno pequeno.
É um novo modo de comunicação, de consumo e até de formação de opinião.
Outro dia alguém escreveu — não recordo o
autor — que o sucesso dos influenciadores é um sinal do aumento da burrice
coletiva. Talvez seja uma frase dura, mas ela provoca reflexão. Afinal, quando
abandonamos o hábito da leitura, quando deixamos de refletir e analisar por
conta própria, abrimos espaço para que outros pensem por nós.
Isso tem consequências. Em um ambiente de
informação rápida, superficial e muitas vezes emocional, torna-se mais fácil
manipular opiniões. Abrem-se brechas para a disseminação de notícias falsas,
para o consumo irrefletido e até para a eleição de políticos que não apresentam
comportamento ético ou compromisso com a sociedade.
Mas seria injusto afirmar que tudo é negativo
no universo dos influenciadores.
Existem pessoas sérias nesse meio, que
estudam, pesquisam, possuem formação consistente ou acumulam experiências de
vida que merecem ser compartilhadas. Há educadores, cientistas, comunicadores e
trabalhadores que utilizam as redes para ensinar, orientar e promover
conhecimento.
Aliás, pensando bem, influenciadores sempre
existiram.
Penso na sabedoria dos meus pais e dos mais
antigos, gente simples do interior que conhecia a natureza e os remédios do
cerrado. Gente que sabia que o cordão-de-frade
ajudava nos problemas de estômago, que a quina
era utilizada na medicina caseira, que a erva-de-santa-maria
servia para diversos males. Havia também plantas que alimentavam, como aquela
que produzia uma espuma quando batida, conhecida como butique em algumas regiões.
Esse conhecimento não estava na internet, não
tinha curtidas nem seguidores. Era transmitido de geração em geração, pela
experiência e pela convivência.
Talvez esses sim fossem verdadeiros
influenciadores — não porque apareciam em vídeos ou mostravam uma vida de luxo,
mas porque possuíam sabedoria acumulada e compromisso com a comunidade.
Hoje, muitas vezes, a influência se constrói
de outra forma. Valoriza-se a aparência, o consumo, a vida de celebridades, as
festas da alta sociedade e os romances dos famosos.
E então fica a pergunta:
Estamos realmente evoluindo como sociedade ou
apenas trocando sabedoria por entretenimento?
Influenciar não é apenas convencer alguém a
comprar algo ou seguir uma tendência. Influenciar deveria significar ajudar as
pessoas a pensar melhor, a compreender o mundo e a tomar decisões mais
conscientes.
Talvez o verdadeiro desafio da nossa época
seja este: aprender a usar as redes sociais sem abandonar aquilo que sempre foi
essencial para a liberdade humana — a capacidade de pensar por conta própria.
Pedro Claudio – jornalista e comunicador.
Texto elaborado a partir de reflexões do autor com
apoio de ferramentas de inteligência artificial para organização e revisão.


