Por Pedro Claudio, jornalista repórter
Escrevo nesta tarde de 7 de maio de 2026 uma reflexão sobre os rumos da administração pública de Iporá. A prefeita Maysa Cunha Peres Peixoto surgiu para muita gente como a esperança de uma nova era administrativa à frente do Executivo municipal. Entretanto, passados mais de dois anos de gestão, a administração não engrena como parte da população imaginava.
Como repórter, acompanho as administrações municipais desde o final dos anos 80 e início dos anos 90. Vi passar governos de José Antonio da Silva Sobrinho, em seu primeiro mandato, depois Sebastião Pereira Coutinho, ambos já falecidos, além de Mac Mahoen Távora Diniz, a frustração com Iron Guimarães, o período de Luiz Otávio, passando ainda por Valdion Marques, Danilo Gleic e Naçoitan Araújo Leite , até chegar agora à primeira mulher eleita para governar o município.
Não se
trata aqui de uma crítica pessoal ou religiosa. O problema está na impressão de
que a gestão adota um modelo excessivamente centralizador e com forte
influência de uma visão quase teocrática de governo. Independentemente da
religião de qualquer gestor, pessoas devem ser avaliadas pela capacidade
técnica, administrativa e política, e não pelo nível de engajamento religioso
ou proximidade ideológica.
Governos
teocráticos historicamente não funcionam bem dentro de um Estado democrático e
laico. O Estado brasileiro é laico por natureza e pela própria formação plural
de seu povo. Misturar excessivamente convicções pessoais com administração
pública tende a criar distorções, favorecimentos e decisões pouco técnicas.
Há ainda
um conjunto de fatores complicadores nesta gestão. O primeiro deles é a
inexperiência administrativa, algo que poderia ser compensado com assessorias
competentes, diálogo político e planejamento eficiente. Mas é justamente aí que
mora outra fragilidade: a ausência de planejamento consistente.
Administrar
uma cidade exige olhar amplo. É necessário enxergar o município como um
organismo inteiro, identificar suas necessidades, mapear fragilidades,
quantificar problemas e compreender as reais condições financeiras disponíveis.
A partir disso, definem-se prioridades e executam-se ações possíveis, sem
aventuras e sem projetos atropelados.
Talvez
isso não produza manchetes grandiosas nem transforme imediatamente alguém em
“grande administradora”, mas ao menos mantém o barco equilibrado em meio à
correnteza. O problema é que, na atual gestão, muitas ações parecem ser tomadas
às pressas, sem amadurecimento técnico e sem diálogo suficiente.
Percebe-se
uma tentativa constante de imprimir velocidade e marca pessoal às decisões.
Porém, governar não é apenas demonstrar vontade ou autoridade. Saber ouvir,
aceitar orientações, dividir responsabilidades e cercar-se de assessorias
competentes não é sinal de fraqueza. Pelo contrário: isso amplia as chances de
sucesso administrativo.
Em pouco
mais de dois anos, foram inúmeras minirreformas administrativas, remanejamentos
de servidores, rearranjos internos e mudanças de equipe. Poucos desligamentos
definitivos, muitas trocas e quase nenhuma estabilidade administrativa. O
resultado é a sensação de que tudo muda para continuar no mesmo lugar.
Enquanto
isso, as dificuldades financeiras aumentam. Dívidas são proteladas, problemas
são empurrados adiante e cresce a preocupação de que a estrutura administrativa
chegue a um ponto de desgaste ainda maior. Agora, no início de maio, anuncia-se
mais uma reforma administrativa, com exonerações, cortes e nova concentração de
decisões.
A
pergunta que fica é: há tempo para corrigir a rota?
Ainda há.
Mas isso exige humildade política, capacidade de ouvir, planejamento verdadeiro
e menos personalismo. Uma administração pública não se sustenta apenas na força
da vontade individual de quem governa. Ela depende de equipe técnica, diálogo,
equilíbrio fiscal e confiança coletiva.
O barco
ainda navega. Mas os sinais de infiltração são visíveis. E quando uma
embarcação pública afunda, não afoga apenas quem está no comando. Afoga junto servidores,
fornecedores, trabalhadores e toda uma população que depende dos serviços
públicos.
Fica a
reflexão: quem poderá salvar Iporá de mais uma crise administrativa prolongada?



