segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Rádio Rio Claro: quatro décadas acompanhando a transformação do rádio

 

Rádio Rio Claro: quatro décadas acompanhando a transformação do rádio


Por Pedro Claudio

A história da Rádio Rio Claro, de Iporá, Goiás, pioneira na comunicação radiofônica do Oeste Goiano, é também a história da transformação tecnológica do rádio no Brasil. Faço parte dessa história desde 1987 e, ao longo de quase quatro décadas, acompanhei de perto mudanças que transformaram não apenas os equipamentos, mas também a maneira de produzir, transmitir e ouvir rádio.

Criada em 1980, a Rádio Rio Claro começou sua trajetória na faixa AM, inicialmente em 1.580 kHz, passando posteriormente para 760 kHz. Era outro rádio. A operação era predominantemente analógica, muito mais manual e dependente da presença física do profissional em cada etapa da programação.

Não havia a facilidade dos computadores, dos sistemas de automação, da internet ou dos aplicativos. O rádio era feito com equipamentos, discos, fitas, microfones, mesas de áudio e muita operação manual.

A potência da emissora também foi sendo ampliada. Começou com aproximadamente 1 mil watts no AM, posteriormente chegou a 5 mil watts e, anos depois, veio uma das maiores transformações de sua história: a migração para o FM 91,9 MHz.

Agora, a Rádio Rio Claro dá mais um passo importante nessa trajetória.

A emissora está operando com maior alcance e melhor qualidade de sinal, após a elevação de sua classe para A3 e a substituição da antena de transmissão. A licença da Anatel registra a Rádio Rio Claro em 91,9 MHz, canal 220, classe A3, com a estação instalada no Morro da TV, na zona rural de Iporá.

A nova estrutura de transmissão representa mais uma mudança significativa na história da emissora. A antena deixou a região do Lago Pôr do Sol e foi instalada em uma área de maior altitude, em um morro próximo ao aeroporto da cidade.

A estação atualmente possui transmissão omnidirecional, com antena de polarização circular e centro de irradiação a 45 metros, conforme consta na licença de funcionamento.

Mas a evolução da Rádio Rio Claro não aconteceu somente na antena.

Mudou a maneira de produzir rádio. Mudou a maneira de transmitir. E mudou, principalmente, a maneira de ouvir.

Na década de 1980, a programação musical dependia dos tradicionais discos de vinil. Depois vieram as fitas, os CDs, o MiniDisc e, finalmente, os sistemas digitais.

Lembro de uma época em que escolher uma música significava procurar fisicamente o disco ou o CD, colocá-lo no equipamento e acompanhar toda a operação. Hoje, uma biblioteca musical inteira pode estar armazenada em um computador ou servidor e ser acessada com poucos comandos.

A tecnologia trouxe velocidade, praticidade e novas possibilidades.

Hoje, praticamente toda a operação de uma emissora pode estar integrada a computadores, softwares de automação, servidores e sistemas conectados à internet. A programação, os comerciais, as músicas, os boletins e os conteúdos jornalísticos são organizados digitalmente.

E o ouvinte também mudou.

Ele já não precisa estar diante de um aparelho de rádio para ouvir rádio.

Pode estar no carro, em casa, no trabalho ou em qualquer lugar com acesso à internet. Pode acompanhar a programação pelo receptor convencional, pelo computador, pelo celular, por aplicativos, sites e plataformas de streaming.

O rádio deixou de ser apenas um aparelho sobre a mesa.

Hoje, o rádio está onde está o ouvinte.

E essa talvez seja uma das maiores transformações da radiodifusão: a emissora deixou de depender exclusivamente do alcance de sua onda para chegar ao público. O sinal continua sendo fundamental, mas passou a conviver com um universo digital que permite ampliar a presença da rádio para muito além de sua área tradicional de cobertura.

É uma transformação tecnológica, mas também uma transformação cultural.

E agora surge uma nova fronteira: a inteligência artificial.

A IA começa a entrar no universo da comunicação e da radiodifusão, oferecendo possibilidades para produção, organização de conteúdos, edição, transcrição, análise de audiência e diversas outras tarefas.

Mas toda inovação tecnológica também exige responsabilidade.

A tecnologia pode facilitar a comunicação, mas não substitui o conhecimento, a sensibilidade, a ética e a responsabilidade de quem comunica.

Porque, no final das contas, não basta ter equipamentos modernos, um sinal potente, computador de última geração, aplicativo, internet ou inteligência artificial.

É preciso ter o que dizer.

É preciso saber para quem dizer.

E, principalmente, é preciso saber por que dizer.

É aí que começa uma reflexão necessária para todos nós que trabalhamos na Rádio Rio Claro.

O que queremos comunicar?

O que significa evangelizar através do rádio?

Como podemos ser mais atrativos para o público sem perder nossa identidade?

Estamos conseguindo dialogar com as novas gerações?

Estamos ouvindo o nosso ouvinte ou apenas falando para ele?

Essas são perguntas que precisam fazer parte do nosso cotidiano.

Todos nós, trabalhadores da comunicação, precisamos estar ligados aos objetivos da emissora, mas também precisamos estar atentos às mudanças do mundo. O público mudou. Os hábitos mudaram. A linguagem mudou. A tecnologia mudou.

E se tudo mudou, nós também precisamos mudar.

Não significa abandonar a história ou aquilo que deu identidade à Rádio Rio Claro. Significa compreender que tradição não pode ser confundida com imobilismo.

A missão permanece: comunicar, informar e evangelizar.

Mas a forma de cumprir essa missão precisa acompanhar o seu tempo.

Existe uma frase que resume uma inquietação que considero fundamental: nada é mais triste do que existir sem produzir efeito.

Na comunicação, esse efeito precisa aparecer.

É necessário haver feedback, retorno, participação, resposta.

Uma rádio que fala, mas não sabe se está sendo ouvida, precisa parar e refletir.

A comunicação não pode ser autoritária. Não pode ser manipuladora. Não pode simplesmente impor uma visão ao público.

Comunicar é também estabelecer uma relação.

É falar, mas também ouvir.

É informar, mas também permitir o diálogo.

É apresentar ideias, provocar reflexão e, quando necessário, direcionar para aquilo que consideramos importante, sem retirar do ouvinte sua capacidade de pensar e decidir.

Caso contrário, corremos o risco de produzir apenas barulho.

E aqui cabe lembrar a imagem utilizada pelo apóstolo Paulo ao falar do sino que soa: muito ruído, mas sem significado quando falta aquilo que realmente dá sentido à comunicação.

Esse é um risco que nenhuma emissora pode ignorar.

Não basta ocupar o espaço.

É preciso fazer diferença.

A Rádio Rio Claro tem uma história construída ao longo de mais de quatro décadas. Uma história feita por profissionais, comunicadores, técnicos, gestores e tantos colaboradores que ajudaram a construir essa emissora.

Eu mesmo faço parte dessa caminhada desde 1987.

Por isso, acompanhar mais essa mudança tecnológica não é apenas observar uma nova antena ou uma melhoria no sinal.

É olhar para trás e perceber o tamanho da transformação.

Da AM 1.580 para a AM 760.

Da potência inicial aos 5 mil watts.

Do AM para o FM 91,9.

Do vinil para o CD.

Do CD para o MiniDisc.

Do MiniDisc para o computador.

Do rádio convencional para o aplicativo, a internet e o streaming.

E agora, diante de nós, a inteligência artificial e uma nova geração de tecnologias que ainda estamos começando a compreender.

São mais de quatro décadas de mudanças, mas uma coisa permanece: a necessidade humana de comunicação.

O rádio muda.

A tecnologia muda.

Os hábitos do público mudam.

Mas a necessidade de informação, companhia, serviço, cultura, proximidade e sentido continua.

Por isso, celebrar uma nova etapa tecnológica da Rádio Rio Claro deve ser também uma oportunidade para olhar para dentro e perguntar:

Que rádio queremos ser daqui para frente?

Uma rádio que apenas transmite?

Ou uma rádio que participa da vida das pessoas?

Uma rádio que fala?

Ou uma rádio que também sabe ouvir?

Uma rádio que acompanha a tecnologia?

Ou uma rádio que compreende as transformações do seu público?

A nova antena melhora o sinal.

A tecnologia amplia o alcance.

A internet multiplica as possibilidades.

Mas quem realmente amplia o alcance de uma emissora é a credibilidade, a qualidade do conteúdo e a capacidade de estabelecer uma relação verdadeira com quem está do outro lado.

Que a Rádio Rio Claro continue fazendo aquilo que sempre fez: comunicando, informando, evangelizando e participando da vida da comunidade.

Mas que nunca deixe de fazer a pergunta mais importante para qualquer meio de comunicação:

Estamos realmente fazendo efeito?

Porque uma emissora não existe apenas para emitir sinais.

Existe para alcançar pessoas.

E, quando alcança pessoas, precisa deixar alguma coisa: uma informação, uma reflexão, uma esperança, uma orientação, uma companhia ou simplesmente a certeza de que alguém está ali.

A Rádio Rio Claro tem história.

Tem memória.

Tem desafios.

E tem futuro.

Uma emissora com mais de quatro décadas de história, mas que precisa continuar com os olhos e os ouvidos voltados para o futuro.

 


domingo, 6 de setembro de 2026

O Fenômeno Neopentecostal e a Mercantilização da Fé

 


O Fenômeno Neopentecostal e a Mercantilização da Fé

Por Pedro Claudio

A relação entre religião, economia e poder político no Brasil passou por uma transformação radical nas últimas décadas. O avanço das denominações neopentecostais ressignificou a dogmática tradicional, dando lugar à Teologia da Prosperidade. Sob essa lógica, a prosperidade material deixa de ser encarada como tentação e passa a ser divulgada como prova direta de bênção divina.

Para compreender essa engrenagem complexa, é necessário analisar as dinâmicas sociais, financeiras e partidárias que moldam o ecossistema religioso atual. Em A Ética Protestante e o "Espírito" do Capitalismo, Max Weber (2004) expõe a gênese da relação entre fé e economia, demonstrando como o ascetismo do protestantismo de matriz calvinista via o trabalho árduo como vocação e dever, encarando a riqueza como fruto indireto dessa disciplina religiosa, mas condenando o luxo e o gozo ostentoso. No neopentecostalismo contemporâneo, no entanto, essa concepção original é subvertida: a riqueza descola-se da ética do trabalho e transforma-se no próprio objeto de fé e em barganha divina (Mariano, 1999).


1. A Visibilidade dos Grandes Templos e o Luxo das Lideranças

A construção de megatemplos de arquitetura suntuosa cumpre um papel estratégico: serve como vitrine corporativa de poder e prosperidade. O espetáculo do gigantismo funciona como validação do discurso religioso — a imponência do templo sugere o sucesso da doutrina.

Da mesma forma, o estilo de vida ostentoso de certas lideranças (veículos de luxo, vestuários de grife e mansões) é apresentado aos fiéis não como desvio, mas como o resultado prático da fé que pregam. O líder atua como o modelo do que o crente pode vir a alcançar se mantiver suas contribuições em dia, operando dentro daquilo que o sociólogo Ricardo Mariano (1999) define como a transação mágica da Teologia da Prosperidade, em que as doações financeiras tomam a forma de "sementes" para a colheita de milagres materiais.

2. A Realidade Demográfica: Quem Realmente Frequenta as Igrejas?

Diferente da percepção de que o cristianismo de mercado atrai majoritariamente elites, dados demográficos do IBGE e de pesquisas sociológicas indicam o oposto. A expansão evangélica no Brasil ocorre com mais força nas periferias urbanas, entre a população de menor renda, mulheres e pessoas negras.

  • Perfil socioeconômico: As igrejas de bairro crescem justamente onde o Estado é ausente, preenchendo lacunas de infraestrutura e serviços básicos (Machado, 2006).
  • Rede de apoio: Como observa a antropóloga Christina Vital da Cunha (2015), esses espaços oferecem pertencimento, acolhimento comunitário, auxílio social direto e redes de solidariedade para famílias em situação de vulnerabilidade.
  • A ilusão da atração das elites: Embora a alta cúpula acumule riqueza e capital político, a base de fiéis permanece predominantemente trabalhadora e de baixa renda.

3. Instituições Financeiras e a Formação de Impérios Econômicos

A criação de estruturas financeiras, meios de comunicação e bancos ligados a grandes grupos religiosos reflete a profissionalização do setor. Diante de movimentações bilionárias provenientes de dízimos, ofertas e doações, a criação de serviços financeiros próprios reduz custos bancários, garante sigilo na gestão de ativos e permite rentabilizar o capital arrecadado. O templo deixa de atuar apenas como espaço de culto e passa a operar nos moldes de uma holding empresarial (Campos, 1997).

4. A Bancada Evangélica e a Ocupação da Política

A presença massiva de lideranças religiosas em cargos legislativos e executivos responde a dois objetivos centrais:

  • Proteção de interesses corporativos: Garantia da manutenção de imunidades tributárias, facilitação de outorgas de rádio e TV e defesa do patrimônio das instituições (Lacerda, 2018).
  • Pauta de costumes: Mobilização do eleitorado de base através de pânicos morais e agendas conservadoras, convertendo o capital espiritual do púlpito em votos nas urnas.

A Alienação na Era Digital e as Lições da História

A ascensão dos impérios da fé evidencia como certas estruturas instrumentalizaram as necessidades das classes populares para consolidar um projeto de poder financeiro e político. Enquanto a base busca amparo espiritual e econômico diante das incertezas da vida diária, a cúpula converte a fé em um mercado altamente rentável e influente.

Nestes novos tempos, a grande massa de fiéis consome conteúdos fragmentados em redes sociais (Facebook, Instagram, TikTok e grupos de WhatsApp). Esse ecossistema digital torna-se a chave de acesso para manipuladores. Sem uma leitura crítica da realidade e dos textos sagrados, multidões são facilmente convencidas de que infortúnios financeiros ou pessoais são "pecados" resultantes da falta de dízimos e ofertas.

Esse cenário de alienação em que a população aplaude seus próprios exploradores remete à clássica política do Panem et Circenses (Pão e Circo), formulada pelo poeta romano Juvenal em suas Sátiras (Sátira X), referente ao controle das massas mediante distrações superficiais e migalhas materiais em vez de cidadania real.

Historicamente, o acúmulo desmedido de privilégios e a exploração da fé e da miséria costumam gerar rupturas. Como demonstrado por historiadores como Eric Hobsbawm (1996) e Georges Lefebvre (1989), a Revolução Francesa (1789) eclodiu justamente em resposta aos abusos da nobreza e ao peso dos impostos sobre o Terceiro Estado, enquanto o Primeiro Estado (o Clero) mantinha terras, isenções e dízimos compulsórios.

Na atualidade, a ausência de reflexão crítica, aliada à desinformação das redes sociais, anestesia a sociedade para que continue reverenciando seus próprios algozes, esquecendo-se de que o acúmulo descontrolado de poder e riqueza em nome do sagrado é uma fórmula histórica de opressão.


Referências Bibliográficas Sugeridas

  • CAMPOS, Leonildo Silveira. Teatro, Templo e Mercado: organização e marketing de um empreendimento neopentecostal. Petrópolis: Vozes, 1997.
  • CUNHA, Christina Vital da. Oração de Traficante: religião e poder na periferia do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Garamond, 2015.
  • HOBSBAWM, Eric. A Era das Revoluções: 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
  • JUVENAL. Sátiras. (Sátira X — sobre a expressão "Pão e Circo").
  • LACERDA, Fabio. Evangélicos na Política Brasileira: representação e diversidade. São Paulo: Alameda, 2018.
  • LEFEBVRE, Georges. A Revolução Francesa. São Paulo: IBRASA, 1989.
  • MACHADO, Maria das Dores Campos. Política e Religião: a participação dos evangélicos nas eleições. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2006.
  • MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: Sociologia do novo pentecostalisno no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 1999.
  • WEBER, Max. A Ética Protestante e o "Espírito" do Capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Quando a emoção vence a razão

 

Quando a emoção vence a razão



Por Pedro Claudio

Estamos vivendo um dos períodos mais confusos da história política brasileira recente. Não apenas pela quantidade de denúncias, investigações e disputas de poder, mas, principalmente, pela dificuldade que estamos tendo de separar fatos de narrativas, convicções de interesses e, sobretudo, emoção de razão.

Um episódio revelado nesta semana chama a atenção. O ex-banqueiro Daniel Vorcaro afirmou, em uma proposta de delação premiada, que as doações de R$ 3 milhões para a campanha de Jair Bolsonaro e de R$ 2 milhões para a campanha de Tarcísio de Freitas, em 2022, teriam sido, na realidade, propina disfarçada de contribuição eleitoral. Segundo o relato, os recursos estariam relacionados a uma negociação envolvendo a manutenção do Credcesta, serviço de crédito consignado para servidores públicos.

É preciso fazer uma ressalva fundamental: a declaração de Vorcaro é uma acusação, não uma verdade judicialmente comprovada. Sua proposta de delação foi rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República por falta de fatos novos ou provas suficientes. Os citados também negam as acusações.

Mas o episódio levanta uma discussão que vai muito além de Vorcaro, Bolsonaro, Tarcísio ou qualquer outro personagem.

Para que alguém coloca milhões de reais em uma campanha eleitoral?

A resposta pode ser absolutamente legítima: acreditar em um projeto, defender uma determinada visão de país ou apoiar um candidato. E a legislação brasileira reconhece a possibilidade de doações de pessoas físicas, estabelecendo regras e limites. Para as eleições de 2026, por exemplo, o TSE mantém o limite de 10% dos rendimentos brutos do doador no ano anterior à eleição.

Portanto, doação eleitoral não é, por si só, propina.

O problema começa quando uma contribuição financeira deixa de ser uma manifestação legítima de apoio político e passa a funcionar como moeda de troca por uma vantagem futura. Aí estamos diante de algo completamente diferente: dinheiro privado buscando influência sobre decisões públicas.

E talvez seja exatamente aí que esteja uma das grandes doenças da política brasileira: a dificuldade de enxergar que, muitas vezes, quem financia o poder também espera alguma coisa dele.

Mas existe uma questão ainda mais profunda.

O discurso religioso e a prática

Tenho escrito sobre isso porque é algo que me incomoda profundamente como cidadão e como alguém que, durante tantos anos, conviveu diariamente com pessoas, ouvindo suas histórias, suas dores, suas esperanças e suas contradições.

Estamos vendo crescer uma política que utiliza a religião, especialmente o discurso cristão, como instrumento de mobilização.

Não há absolutamente nada de errado em um cristão participar da política. Pelo contrário. A fé também pode inspirar a defesa da justiça, da solidariedade, da honestidade e da dignidade humana.

O problema aparece quando a religião passa a ser utilizada apenas como ferramenta de convencimento, enquanto determinados comportamentos e propostas entram em contradição com os próprios valores que o discurso religioso afirma defender.

É preciso ter coragem para fazer uma pergunta simples:

Será que estamos comparando aquilo que nossos líderes políticos dizem com aquilo que efetivamente defendem e praticam?

Ou estamos apenas aplaudindo aquilo que confirma nossas crenças?

É aí que a emoção pode se tornar perigosa.

Um discurso inflamado, uma frase de efeito, uma passagem bíblica, uma história emocionante ou uma imagem cuidadosamente produzida nas redes sociais podem criar uma identificação tão forte que muitas pessoas deixam de fazer a pergunta mais importante da democracia:

“Isso que estão propondo é realmente bom para mim, para minha família e para o país?”

O paradoxo do pobre que vota contra seus próprios interesses

É uma das contradições que mais me intrigam.

O trabalhador que recebe um salário mínimo — hoje de R$ 1.621 — enfrenta o preço da comida, do aluguel, do transporte, da energia elétrica e dos medicamentos.

E, muitas vezes, esse mesmo trabalhador é convencido a concentrar sua preocupação política exclusivamente em determinadas pautas morais, enquanto questões que interferem diretamente na sua vida — educação, emprego, salário, saúde, aposentadoria, moradia e segurança — ficam em segundo plano.

Não estou dizendo que valores morais não sejam importantes. São.

Estou dizendo que uma sociedade não pode discutir apenas aquilo que provoca indignação emocional e esquecer aquilo que determina a qualidade de vida das pessoas.

Veja o caso da juventude.

Em junho deste ano, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou a admissibilidade de uma proposta que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. A proposta ainda precisa cumprir outras etapas de tramitação e, portanto, não virou lei.

Podemos discutir se um adolescente que comete um crime grave deve ou não responder de maneira diferente. É um debate legítimo.

Mas também deveríamos perguntar:

O que estamos oferecendo a esse jovem antes que ele entre para o crime?

Educação de qualidade?

Formação profissional?

Primeiro emprego?

Esporte?

Cultura?

Perspectiva de futuro?

Os números mostram que o problema é muito mais complexo. Segundo o IBGE, em 2024, entre os homens de 15 a 29 anos que abandonaram a escola antes de concluir o ensino médio, a principal razão apontada foi a necessidade de trabalhar.

E existe outro dado que deveria nos fazer pensar: em 2024, o Brasil tinha cerca de 1,65 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil. Entre os adolescentes de 16 e 17 anos, a proporção em situação de trabalho infantil chegou a 15,3%.

Então eu pergunto:

É mais fácil defender que um jovem de 16 anos seja punido como adulto ou construir uma sociedade que ofereça a ele educação, oportunidade e trabalho digno?

Talvez a segunda opção não produza aplausos imediatos.

Talvez não renda vídeos virais.

Talvez não provoque multidões emocionadas.

Mas pode produzir cidadãos.

E o cristianismo nisso tudo?

É aqui que a contradição se torna ainda maior.

Há cristãos que se mobilizam intensamente contra o aborto — uma posição que merece ser respeitada dentro do debate democrático — mas, ao mesmo tempo, defendem discursos de violência e até a ideia de que determinadas pessoas deveriam ter o direito de matar quem considera um inimigo.

Como conciliar essas duas coisas?

Como defender a vida em uma situação e relativizá-la em outra?

Como falar em amor ao próximo e transformar adversários políticos em inimigos?

Como defender a família e, ao mesmo tempo, aceitar a mentira, a corrupção, a intolerância ou a violência simplesmente porque quem pratica essas coisas está do “nosso lado”?

O próprio Evangelho deveria ser utilizado como régua para medir todos — inclusive aqueles de quem gostamos.

Não apenas os adversários.

Talvez este seja o nosso maior problema

Não é apenas a esquerda.

Não é apenas a direita.

Não é Bolsonaro.

Não é Lula.

Não é o Congresso.

Não é o Supremo.

Somos nós também.

Nós, cidadãos, temos responsabilidade quando aceitamos qualquer coisa de nosso grupo e condenamos a mesma coisa quando praticada pelo grupo adversário.

A corrupção do meu político vira “erro”.

A corrupção do adversário vira “crime”.

A mentira do meu candidato vira “estratégia”.

A mentira do outro vira “prova de caráter”.

A violência praticada pelo meu lado é “reação”.

A violência praticada pelo outro é “barbárie”.

Esse comportamento não é defesa da democracia.

É torcida organizada.

E democracia não pode ser torcida.

Democracia exige cidadãos capazes de dizer:

“Meu lado também pode estar errado.”

Talvez precisemos recuperar algo que parece estar desaparecendo: a capacidade de ouvir, desconfiar, conferir, comparar e pensar.

Antes de compartilhar, verificar.

Antes de aplaudir, perguntar.

Antes de condenar, conhecer.

Antes de votar, analisar.

E, principalmente, antes de dizer que alguém representa nossos valores, comparar o discurso dessa pessoa com aquilo que ela efetivamente defende.

Porque quando a emoção vence completamente a razão, deixamos de ser cidadãos críticos e passamos a ser seguidores.

E uma sociedade de seguidores é terreno fértil para qualquer tipo de líder — inclusive para aqueles que, depois de conquistarem o poder, descobrem que podem fazer quase tudo porque seus seguidores continuarão aplaudindo.

A política precisa de convicções, sim.

A religião precisa de fé, sim.

Mas uma democracia precisa, acima de tudo, de consciência.

E consciência exige uma coisa que parece cada vez mais rara:

pensar antes de aplaudir.

Tenho dito.

 


domingo, 30 de agosto de 2026

Entre o pedestal e o serviço: quando a nossa vaidade nos impede de viver o Evangelho

 

Entre o pedestal e o serviço: quando a nossa vaidade nos impede de viver o Evangelho


Pedro Claudio

Há uma contradição muito profunda na experiência humana: nós somos capazes de ler textos sagrados, ouvir sermões, estudar teologia, conhecer os ensinamentos de Jesus e até falar sobre humildade, caridade e serviço — mas, muitas vezes, temos enorme dificuldade de transformar tudo isso em atitudes concretas no cotidiano.

Talvez esse seja um dos grandes dramas da condição humana: compreender uma verdade não significa necessariamente conseguir vivê-la.

A Bíblia está repleta de ensinamentos que confrontam aquilo que naturalmente desejamos. Nós gostamos de reconhecimento, de prestígio, de títulos, de posição, de elogios e de estar próximos de pessoas consideradas importantes. A sociedade constrói hierarquias e nós, muitas vezes, não apenas as aceitamos, mas as alimentamos.

É assim na política, na universidade, nas empresas, nas profissões e também dentro das religiões.

Na Igreja, podemos perceber isso de maneira muito clara. O leigo pode colocar o diácono em um pedestal; o diácono pode colocar o padre; o padre pode colocar o bispo; o bispo pode colocar o Papa. E, nessa escalada de admiração, corremos o risco de esquecer uma coisa fundamental: nenhum título transforma um ser humano em alguém superior diante de Deus.

A Igreja Católica possui, evidentemente, uma estrutura hierárquica e reconhece diferentes ministérios. Bispos, presbíteros e diáconos possuem responsabilidades distintas. Mas a própria doutrina católica afirma que todos os fiéis possuem igual dignidade como filhos de Deus e que a hierarquia existe para servir o povo de Deus. O ministério ordenado não é apresentado como uma plataforma de superioridade pessoal, mas como serviço.

O problema começa quando a função passa a ser confundida com o valor da pessoa.

Um Papa continua sendo um ser humano.

Um bispo continua sendo um ser humano.

Um padre continua sendo um ser humano.

Um diácono continua sendo um ser humano.

E também é ser humano aquele homem simples que acorda cedo, trabalha, sustenta sua família, ajuda um vizinho, cuida de um doente, divide o pouco que possui e ninguém conhece.

Talvez esse homem jamais receba um título religioso, jamais suba a um altar e jamais seja aplaudido por uma multidão. Mas isso não significa que sua vida tenha menos valor diante de Deus.

Deus não mede as pessoas pelo tamanho do palco em que elas estão, mas pela verdade do coração e pela maneira como vivem.

Jesus foi particularmente duro com a necessidade humana de aparecer.

No Evangelho, ele critica aqueles que gostam dos primeiros lugares, dos cumprimentos e das posições de destaque. E estabelece uma lógica completamente diferente: entre seus discípulos, quem quiser ser grande deve tornar-se servidor.

Essa lógica é revolucionária porque inverte a nossa escala de valores.

Nós frequentemente pensamos:

maior cargo = maior importância.

O Evangelho propõe:

maior responsabilidade = maior serviço.

Filipenses 2 apresenta justamente essa lógica ao combater a ambição egoísta e a vaidade e colocar diante do cristão o exemplo de Cristo, que se esvazia de si mesmo e assume a condição de servo.

E aqui está uma pergunta que talvez todos nós devêssemos fazer:

Se Jesus aparecesse hoje entre nós, quem seria realmente considerado importante?

Seria o homem poderoso?

O religioso famoso?

O político influente?

O empresário rico?

O teólogo conhecido?

O sacerdote que reúne multidões?

Ou seria aquela pessoa que ninguém percebe, mas que passa a vida servindo?

Não temos como responder por Deus. Mas o Evangelho nos dá pistas suficientes para perceber que a lógica divina não coincide necessariamente com a lógica social do prestígio.

O perigo do pedestal

Existe ainda outro problema: quando colocamos alguém em um pedestal, deixamos de enxergar essa pessoa como ela realmente é.

Começamos a atribuir a ela uma espécie de superioridade moral automática.

Se fala um padre, pensamos: "ele sabe mais".

Se fala um bispo: "ele sabe ainda mais".

Se fala o Papa: "então deve estar certo".

Mas isso pode produzir um perigoso atalho mental: em vez de avaliarmos aquilo que foi dito, avaliamos quem disse.

A psicologia identifica fenômenos relacionados à autoridade, ao status e à admiração que podem influenciar nosso julgamento. Pessoas percebidas como competentes ou importantes tendem a receber maior deferência, e a admiração pode contribuir para a manutenção das hierarquias sociais.

Isso não significa desrespeitar autoridades.

Significa compreender que respeito não é idolatria; obediência não é cegueira; admiração não é submissão intelectual.

O cristão pode respeitar o Papa sem transformar o Papa em Cristo.

Pode respeitar o bispo sem transformar o bispo em Cristo.

Pode respeitar o padre sem transformar o padre em Cristo.

Pode respeitar o diácono sem transformar o diácono em Cristo.

Porque o centro do cristianismo não é a pessoa que ocupa o cargo. É Cristo.

O problema não está na hierarquia; está na vaidade

É importante não confundir as coisas.

Uma organização pode precisar de autoridade.

Uma Igreja precisa de ministros.

Uma comunidade precisa de responsabilidades diferentes.

Uma família possui funções diferentes.

Uma sociedade possui autoridades.

O problema não está necessariamente na existência dessas diferenças.

O problema aparece quando a diferença de função se transforma em diferença de dignidade.

O Catecismo da Igreja Católica é muito claro ao afirmar que a autoridade deve ser exercida como serviço e que aqueles que exercem autoridade devem buscar o bem da comunidade, e não o próprio interesse.

Essa deveria ser uma pergunta permanente para qualquer pessoa que exerça algum tipo de poder:

Estou aqui para ser servido ou para servir?

Essa pergunta vale para o Papa.

Vale para o bispo.

Vale para o padre.

Vale para o diácono.

Vale para o prefeito.

Vale para o professor.

Vale para o empresário.

Vale para o jornalista.

Vale para o pai e para a mãe.

E vale para cada um de nós.

O cristão precisa descer do pedestal

Talvez uma das maiores conversões que precisamos realizar não seja mudar de religião, mudar de comunidade ou aprender mais doutrina.

Talvez seja simplesmente descer do pedestal.

Descer do pedestal do cargo.

Do conhecimento.

Da experiência.

Da idade.

Do dinheiro.

Da posição social.

Da função religiosa.

Da própria importância.

Porque existe uma forma muito sofisticada de vaidade: a vaidade de achar que somos humildes.

Podemos dizer que servimos enquanto, secretamente, esperamos reconhecimento.

Podemos falar sobre humildade enquanto queremos ser tratados como pessoas especiais.

Podemos defender a igualdade enquanto fazemos distinção entre pessoas importantes e pessoas comuns.

Podemos falar que todos são filhos de Deus enquanto tratamos melhor aquele que tem poder do que aquele que não tem nada para nos oferecer.

E talvez seja justamente aí que o Evangelho começa a nos incomodar.

Como viver isso na prática?

Talvez seja necessário transformar a grandeza do Evangelho em pequenas atitudes.

Quando encontrar uma pessoa simples, não a trate como alguém inferior.

Quando alguém que ocupa um cargo importante falar com você, respeite a função, mas não abandone sua capacidade de pensar.

Quando receber um elogio, agradeça sem acreditar que você se tornou superior aos outros.

Quando exercer alguma autoridade, pergunte quem será beneficiado pela sua decisão.

Quando estiver em uma posição de destaque, procure quem está escondido e esquecido.

Quando perceber alguém sendo humilhado, não participe da humilhação apenas porque todos estão fazendo isso.

Quando alguém cometer um erro, lembre-se de que você também é capaz de errar.

Quando alguém simples fizer algo extraordinário, tenha humildade para reconhecer.

Quando ninguém estiver olhando, faça o bem mesmo assim.

E, principalmente, quando perceber que está admirando excessivamente uma pessoa, faça uma pausa e pergunte:

Estou admirando o caráter dessa pessoa ou apenas o poder que ela possui?

Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes.

O verdadeiro tamanho de uma pessoa

Talvez precisemos aprender a medir as pessoas por outro critério.

Não pelo título.

Não pela roupa.

Não pelo cargo.

Não pelo número de seguidores.

Não pelo dinheiro.

Não pelo lugar que ocupa na hierarquia.

Mas pela capacidade de amar, servir, perdoar, repartir, ouvir, reconhecer o próprio erro, proteger o vulnerável e fazer o bem sem precisar ser aplaudido.

Porque, no fim das contas, uma pessoa pode ocupar o lugar mais alto de uma instituição e continuar pequena diante de Deus; e outra pode ocupar o último lugar na sociedade e possuir uma grandeza que ninguém consegue enxergar.

Não cabe a nós determinar quem é maior diante de Deus.

Mas cabe a nós viver de maneira que nossa grandeza não dependa de sermos maiores que ninguém.

Jesus não ensinou seus discípulos a procurar o primeiro lugar.

Ensinou-os a servir.

E talvez essa seja a grande dificuldade do cristianismo: não é tão difícil aprender a falar como cristão; difícil é aprender a viver como Cristo.

A fé deixa de ser apenas conhecimento quando modifica nossas relações.

Quando começamos a respeitar o pequeno da mesma maneira que respeitamos o poderoso.

Quando conseguimos ouvir quem pensa diferente.

Quando deixamos de procurar aplausos.

Quando exercemos autoridade sem humilhar.

Quando fazemos o bem sem precisar contar para ninguém.

Quando entendemos que nossa função não determina nosso valor.

E quando finalmente percebemos que, diante de Deus, não somos chamados a construir pedestais para seres humanos, mas a construir uma vida de serviço.

Talvez a verdadeira humildade não seja dizer:

"Eu não sou importante."

Talvez seja dizer:

"Eu não preciso ser mais importante que ninguém."

E talvez seja exatamente aí que começamos a compreender, não apenas com a inteligência, mas com a vida, aquilo que o Evangelho tenta nos ensinar há dois mil anos.

Pedro Claudio em 30 de agosto de 2026


quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Que tempos estamos vivendo na política brasileira?

 

Que tempos estamos vivendo na política brasileira?



Gente, que tempos estamos vivendo no Brasil? A campanha eleitoral de 2026 começa a colocar diante dos brasileiros um debate que vai muito além da disputa entre esquerda e direita. Estamos falando sobre os limites do poder, o respeito às instituições, a segurança pública, a liberdade individual e, principalmente, sobre que tipo de democracia queremos para o país.

Algumas declarações e propostas de candidatos chamam atenção e merecem ser discutidas com serenidade, sem paixão partidária.

O candidato Renan Santos, do Missão, por exemplo, afirmou que, se eleito, poderia deixar de cumprir decisões do Supremo Tribunal Federal que considerasse ilegais, depois de consultar sua própria equipe jurídica. Também defendeu que o Brasil desenvolva uma bomba atômica e uma política de segurança inspirada no governo de Nayib Bukele, de El Salvador, com uma atuação policial extremamente dura.

A pergunta que fica é: quem decide se uma decisão judicial é legal ou ilegal? O presidente da República? Sua assessoria jurídica? Ou existem mecanismos constitucionais para contestar uma decisão da Justiça?

Porque democracia não significa apenas poder votar. Significa também aceitar as regras do jogo, inclusive quando a decisão judicial contraria aquilo que defendemos.

Outro exemplo é o candidato Romeu Zema, do Novo. Ele criticou a obrigatoriedade da vacinação e defendeu o direito de o cidadão decidir se quer ou não se vacinar. Também defende anistia para condenados pelos atos de 8 de janeiro, mesma tese do candidato Ronaldo Caiado..

Aqui também existe um debate legítimo. Até onde vai a liberdade individual? E em que momento uma escolha individual pode produzir consequências para outras pessoas?

Na segurança pública, o discurso também está cada vez mais duro.

Flávio Bolsonaro, candidato do PL, defende a redução da maioridade penal para 16 anos e, em determinados crimes graves, punição para adolescentes a partir dos 14 anos. Também propõe penas mais duras e uma política de enfrentamento extremamente rigorosa contra criminosos.

Mas existe um capítulo ainda mais delicado nessa discussão: a chamada excludente de ilicitude.

O ex-presidente Jair Bolsonaro defendeu, durante seu governo, a ampliação da proteção jurídica para policiais e militares em determinadas operações. Em 2018, ele e Eduardo Bolsonaro apresentaram projeto para instituir excludente de ilicitude nas ações de agentes públicos em operações policiais. Em 2019, o governo Bolsonaro também enviou ao Congresso proposta sobre o tema.

É importante explicar: excludente de ilicitude não é, juridicamente, um "direito de matar". O Código Penal já estabelece situações como legítima defesa, estado de necessidade e estrito cumprimento do dever legal. E a própria lei determina que o agente pode responder pelo excesso.

O problema político está justamente em saber até onde essa proteção pode ser ampliada.

Críticos das propostas apresentadas durante o governo Bolsonaro argumentaram que uma ampliação excessiva poderia funcionar, na prática, como uma espécie de salvo-conduto para policiais que matassem durante determinadas operações. A própria Agência Câmara registrou essa crítica ao discutir o projeto.

Bolsonaro, por sua vez, rejeitava a ideia de que estivesse defendendo uma autorização para matar e afirmava que o objetivo era proteger policiais que agissem dentro da lei.

E aqui está o ponto que merece reflexão: quando um Estado autoriza ou protege o uso da força letal, quem fiscaliza o limite dessa força?

É legítimo defender que o policial tenha segurança jurídica para agir diante de uma ameaça real. Afinal, o policial também tem direito à vida.

Mas uma coisa é proteger o agente que age dentro da lei para salvar uma vida. Outra, completamente diferente, seria transformar a possibilidade de matar em uma espécie de autorização prévia.

E essa discussão fica ainda mais interessante quando colocamos lado a lado diferentes discursos políticos.

Há candidatos que fazem da defesa da vida e do combate ao aborto uma das principais bandeiras políticas e, ao mesmo tempo, defendem políticas de segurança pública que ampliam a possibilidade do uso da força letal pelo Estado.

Não se trata de dizer que defender segurança pública é errado. Muito pelo contrário. O cidadão tem direito de viver sem medo, e o Estado tem obrigação de proteger a população.

A questão é outra: qual é o limite entre autoridade e violência? Entre legítima defesa e execução? Entre combater o crime e transformar a morte em política de Estado?

E existe uma contradição que merece ser discutida sem paixão partidária.

Como podemos defender que o Estado não deve permitir a interrupção de uma vida em determinada circunstância e, ao mesmo tempo, aceitar com facilidade a ideia de que o Estado possa retirar uma vida em outra circunstância?

É claro que as situações jurídicas são diferentes. Aborto e legítima defesa não são assuntos juridicamente equivalentes. Mas, no campo político e moral, quando um candidato fala tanto em "defesa da vida", o eleitor tem o direito de perguntar: o princípio da defesa da vida vale para quais situações? E quais são as exceções?

Talvez seja justamente aí que esteja o grande problema da política brasileira atual: muitas vezes, nós não analisamos princípios. Analisamos pessoas.

Se é o nosso candidato defendendo uma medida dura, chamamos de coragem.

Se é o adversário, chamamos de autoritarismo.

Se é o nosso candidato questionando uma decisão judicial, dizemos que está defendendo a liberdade.

Se é o adversário, dizemos que está atacando a democracia.

Se o nosso lado fala em anistia, dizemos que é pacificação.

Se o outro lado fala em anistia, dizemos que é impunidade.

Se o nosso candidato defende a força policial, dizemos que está protegendo o cidadão.

Se o adversário faz a mesma coisa, dizemos que está defendendo a violência.

Talvez esteja na hora de o eleitor brasileiro tirar a paixão da frente e colocar a coerência no lugar.

Não precisamos concordar com Lula para defender a democracia. Não precisamos concordar com Flávio Bolsonaro para defender segurança pública. Não precisamos concordar com Renan Santos para defender liberdade individual. Não precisamos concordar com Zema ou Caiado para reconhecer que determinados temas merecem ser debatidos.

O eleitor precisa perguntar a cada candidato:

Você respeitará a Constituição mesmo quando ela contrariar sua vontade?

Aceitará uma decisão judicial enquanto recorre pelos meios legais?

Defenderá a liberdade individual mesmo quando quem exercer essa liberdade for seu adversário?

Combaterá o crime sem transformar a violência estatal em vingança?

Aceitará o resultado das urnas mesmo se perder?

E, principalmente, respeitará o direito de quem pensa diferente?

Talvez essa seja uma pergunta ainda mais importante do que saber quem será o próximo presidente.

Porque o Brasil não precisa apenas de um vencedor da eleição. Precisa de um presidente que saiba que, depois da eleição, ele não será presidente apenas de quem votou nele.

E quanto ao voto obrigatório? Sim, esse também é um debate legítimo.

Se alguém defende liberdade individual para decidir sobre vacina, costumes e tantos outros assuntos, por que não discutir também se o cidadão deve ser obrigado a comparecer às urnas?

Mas acabar com o voto obrigatório não significa acabar com o dever cívico de votar. Uma democracia saudável precisa de participação. Talvez a discussão mais importante seja justamente esta: como fazer o brasileiro votar não porque é obrigado, mas porque acredita que seu voto é importante?

No fim das contas, talvez a pergunta não seja apenas "o que esses candidatos querem?"

A pergunta deveria ser:

Que Brasil nós, eleitores, estamos dispostos a construir e aceitar?

Porque candidatos fazem propostas para conquistar votos.

Mas quem coloca esses candidatos no poder somos nós.

E uma democracia não fica forte quando o nosso lado vence.

Ela fica forte quando aceitamos as regras mesmo quando o nosso lado perde.