segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Desconfie dos Excessos e da Razão Armada

 

Desconfie dos Excessos e da Razão Armada

Por Pedro Claudio



Vivemos tempos em que o verniz da civilidade parece caro demais para o mercado da política. Nas esquinas das redes sociais ou nos palanques reluzentes, quem grita mais alto costuma levar o troféu do instante. Mas o instante passa, e o que sobra nos escombros de uma discussão polarizada é a cinza fria da intolerância. Vale a pena desconfiar. Desconfie do politicamente correto engessado, desconfie daqueles que brandem com furor marcial palavras sagradas como "Pátria", "Família" e "Deus" não como valores de união, mas como armas de exclusão. Desconfie, sobretudo, do ódio desmedido contra o outro, essa paixão triste que nos animaliza e nos cega.

Este é um convite urgente à inteligência humana, à paz e à tolerância.

Será que líderes que tratam quem pensa diferente como inimigo existencial realmente atraem a maioria? Sim, eles atraem engajamento. Atraem aplausos ensurdecedores de quem já pensa exatamente igual, de quem encontrou no eco do outro a validação dos próprios medos. Mas isso, por mais barulhento que pareça, é uma minoria barulhenta. O grande oceano da sociedade é feito de nuances, de dúvidas, de gente que tenta pagar os boletos no fim do mês e só quer viver em paz.

A democracia não exige uniformidade; ela exige respeito. Você pode — e deve — discordar quando julgar que algo está errado. A discordância é o oxigênio da liberdade. Ocorre que existe um abismo entre o argumento firme e a força bruta. É infinitamente mais fácil combater o que consideramos inadequado apelando para o fígado, para o insulto, para a rinha de galo verbal. Exige muito mais de nós, no entanto, combater o erro com maestria, sabedoria e elegância intelectual. A verdadeira força não precisa espumar pela boca; ela se sustenta na solidez dos fatos e na clareza das ideias.

Nessas eleições recentes, com o advento e a permanência do bolsonarismo — cujas promessas econômicas ou sociais podem até seduzir alguns, cabendo a cada cidadão o juízo —, há um dado que é inegável: a facilidade ímpar com que se cultiva a divisão por meio de um discurso agressivo. É o combate sem inteligência, ancorado na força da ofensa sistemática. Negar fatos históricos como um golpe militar, elogiar torturadores que encarnaram o lado mais sombrio da nossa história, ou virar as costas para a ciência em troca de bravatas não é apenas uma estratégia partidária equivocada; é uma indigência mental que vai muito além da política. É uma falência do espírito.

O fanatismo exige que fechemos os olhos para o óbvio em nome de uma tribo. A inteligência, ao contrário, exige o esforço incômodo de abrir a janela e respirar o ar rarefeito da alteridade.

Pense nisso. Antes de curtir o próximo post que destrói o oponente, antes de transformar o vizinho em monstro só porque ele vota diferente, lembre-se de que a pátria que queremos salvar é a mesma onde todos nós teremos de continuar morando, quer ganhe a eleição de hoje, quer vença a sensatez de amanhã.

 

Ressignificar, renascer e mudar a rota: desistir jamais!

 

Ressignificar, renascer e mudar a rota: desistir jamais!

A vida nunca mais será como antes. Mas isso não significa que ela não possa voltar a ter sentido, beleza e esperança.

Por Pedro Claudio



Quem já passou por grandes traumas sabe do que estou falando. No primeiro momento, talvez nem consiga perceber, compreender ou aceitar o que aconteceu. A dor é intensa, o vazio parece ocupar todos os espaços e a sensação é de que o mundo parou, enquanto tudo ao redor continua seguindo seu curso.

Mas, aos poucos, gota a gota, as coisas começam a ganhar novos contornos. Não porque a dor desapareceu, mas porque aprendemos, mesmo sem perceber, a conviver com ela. É parte da vida, embora existam experiências que jamais escolheríamos viver.

Diante de uma perda irreparável, como a morte de alguém da família, experimentamos, talvez, uma das maiores rupturas que podemos enfrentar. Para quem acredita na fé cristã, a morte representa a passagem para outra dimensão da existência, para além da vida terrena. Mas a ruptura não acontece apenas com quem parte. Ela também transforma profundamente a vida daqueles que ficam.

Muda a rotina, os planos, os hábitos, os sonhos e até a maneira de enxergar o futuro. Quem partiu deixa de estar fisicamente presente, mas permanece nas lembranças, nos ensinamentos, nas histórias compartilhadas e nos gestos que continuam vivos dentro de nós.

É preciso compreender que cada pessoa tem sua própria história e uma maneira particular de enfrentar o sofrimento. Não existe um manual para atravessar o luto, tampouco um prazo determinado para superar uma perda. Há quem consiga reorganizar a vida rapidamente; outros precisam de mais tempo, de silêncio, de acolhimento e de pequenos passos para encontrar novamente o próprio caminho.

Não cabe julgar quem chora por muito tempo, nem exigir de alguém que se levante antes de estar preparado. Cada um tem seu ritmo, suas dores e suas possibilidades.

Entretanto, chega um momento em que precisamos, respeitando nosso tempo, olhar para a realidade e reconhecer que a vida mudou. E, embora nada volte a ser exatamente como antes, ainda podemos construir uma nova maneira de viver.

É aí que entra a ressignificação.

Ressignificar não é esquecer o passado, apagar as lembranças ou deixar de sentir saudade. É aprender a dar um novo sentido à vida, mesmo depois daquilo que nos feriu profundamente.

É compreender que podemos continuar amando quem partiu sem deixar de cuidar de quem permanece. É descobrir que sentir saudade não nos impede de sorrir novamente, fazer planos, cultivar amizades, experimentar coisas novas e encontrar motivos para agradecer.

A saudade talvez nunca desapareça por completo. Há datas, lugares, músicas, fotografias e acontecimentos que trazem de volta a presença de quem amamos. Em alguns dias, a lembrança chega suavemente; em outros, a emoção aperta o coração. E tudo bem. Amar também é carregar conosco aquilo que o tempo não apaga.

Mas a vida continua nos convocando a viver.

Algumas pessoas conseguem deixar para trás antigos hábitos e reorganizar a rotina de imediato. Outras vão fazendo isso gradualmente, arrumando a casa, retomando compromissos, encontrando novos interesses e reconstruindo, pouco a pouco, a própria identidade. Não existe uma única maneira de recomeçar.

O importante é não transformar a dor em uma sentença definitiva sobre o futuro.

Se for necessário, procure ajuda. Converse com alguém de confiança, aproxime-se de pessoas que acolham seus sentimentos sem impor julgamentos. A fé, a espiritualidade, a convivência familiar, as amizades e o acompanhamento profissional podem ser importantes aliados nessa travessia. Pedir ajuda não é sinal de fraqueza; é uma atitude de coragem e cuidado consigo mesmo.

Também é preciso aceitar que recomeçar não significa abandonar tudo o que vivemos. Podemos preservar o que foi bonito, honrar a história de quem partiu e, ao mesmo tempo, abrir espaço para novas experiências. A memória não precisa ser uma prisão; ela pode ser uma fonte de afeto, aprendizado e força.

Talvez você esteja vivendo um momento em que tudo parece perdido. Talvez tenha sofrido uma separação, enfrentado uma doença, perdido alguém querido, visto um projeto fracassar ou precisado abandonar um caminho no qual depositou tantos sonhos.

Seja qual for a sua dor, lembre-se: um capítulo difícil não precisa definir toda a sua história.

Às vezes, mudar a rota é necessário. Em outras ocasiões, é preciso descansar, rever as prioridades, reconhecer os próprios limites e começar novamente, mesmo que seja com passos pequenos. Não precisamos resolver toda a vida em um único dia. Um passo de cada vez também é movimento.

Renascer não significa voltar a ser exatamente quem éramos. Significa descobrir quem podemos nos tornar depois de tudo o que vivemos. É amadurecer, aprender a valorizar o essencial, reconhecer a fragilidade da existência e compreender que ainda há possibilidades diante de nós.

Por isso, minha mensagem é de encorajamento: em meio às dificuldades, não desista de você. Não permita que uma perda roube para sempre a possibilidade de experimentar a alegria, o afeto e a esperança. Respeite suas lágrimas, acolha suas lembranças, mas não feche definitivamente as portas para o amanhã.

Nada será como antes. E talvez essa seja uma das verdades mais difíceis de aceitar. Mas uma vida diferente também pode ser uma vida digna, bonita e cheia de significado.

Ressignifique. Reorganize. Recomece. Mude a rota, se for preciso. Não tenha vergonha de precisar de tempo, nem medo de pedir ajuda.

A vida não nos devolve tudo o que perdemos, mas pode nos oferecer novos encontros, novos aprendizados e novas razões para continuar.

Desistir jamais não significa nunca cair, nunca chorar ou nunca se sentir cansado. Significa compreender que, mesmo quando não conseguimos enxergar o caminho inteiro, ainda podemos dar o próximo passo.

E, às vezes, esse pequeno passo já é o começo de um novo renascimento.

A vida mudou. Você também mudou. Agora, com as marcas do que viveu e a sabedoria que o tempo pode trazer, permita-se viver o que ainda está por vir.

 

domingo, 25 de outubro de 2026

Quando a política desperta o pior de nós: a humanidade ainda tem muito a aprender

 

Quando a política desperta o pior de nós: a humanidade ainda tem muito a aprender

Por Pedro Claudio — em meio a muitas dúvidas



As últimas eleições brasileiras nos deixam uma lição que vai muito além da disputa entre candidatos, partidos e ideologias. Elas nos colocam diante de uma pergunta incômoda: o que acontece com o ser humano quando alguém ameaça suas convicções, seus interesses ou a sua maneira de enxergar o mundo?

Em muitos casos, a resposta aparece nas ruas, nas redes sociais e até dentro das famílias: a razão cede lugar à emoção, o diálogo transforma-se em confronto e aquele que pensa diferente deixa de ser visto como semelhante para ser tratado como inimigo.

Não é uma impressão isolada nem um fenômeno exclusivamente brasileiro. Basta acompanhar os registros públicos, as notícias e os relatos históricos para perceber que a intolerância política, religiosa, racial e ideológica acompanha a humanidade há séculos. O que muda são as circunstâncias, os discursos e os instrumentos utilizados para agredir.

Nas disputas eleitorais brasileiras, encontramos relatos de ameaças, agressões físicas, ofensas e humilhações motivadas por preferências políticas. Nas redes sociais, a violência verbal tornou-se parte da rotina. Quem manifesta uma opinião diferente pode ser chamado de burro, ignorante, vendido, comunista, fascista ou receber outros insultos, como se o simples fato de discordar retirasse da pessoa o direito à dignidade.

E há uma contradição evidente: muitos dizem defender a democracia, mas não aceitam a liberdade do outro de pensar diferente. Querem o direito de falar, mas não reconhecem o mesmo direito a quem discorda deles.

A democracia não é a liberdade de concordar com o meu candidato. É também a capacidade de conviver com quem escolhe outro caminho, sem transformar a divergência em motivo de ódio.

O que a psicologia e a sociologia nos ajudam a compreender?

A psicologia social oferece algumas pistas. O ser humano procura pertencimento, identificação e segurança em grupos. Quando passa a enxergar um partido, um líder ou uma corrente ideológica como parte fundamental da própria identidade, uma crítica ao grupo pode ser sentida como uma ofensa pessoal.

Nesse processo, surge a tendência de valorizar as atitudes dos integrantes do próprio grupo e desconfiar das intenções daqueles que pertencem ao grupo adversário. O adversário deixa de ser alguém que simplesmente pensa diferente: passa a ser alguém que, supostamente, representa uma ameaça.

A psicologia também estuda o chamado viés de confirmação: a tendência de procurar, valorizar e compartilhar informações que reforçam nossas crenças, enquanto questionamos ou rejeitamos aquilo que as contradiz. Em ambientes digitais, esse comportamento pode ser intensificado por conteúdos que provocam indignação e por comunidades que recompensam a hostilidade com curtidas, compartilhamentos e aprovação.

Isso não significa que toda pessoa politicamente engajada se torne violenta, nem que a emoção seja sempre inimiga da razão. A indignação pode ser legítima diante de uma injustiça. O problema começa quando a emoção elimina a capacidade de examinar os fatos, reconhecer os próprios erros e enxergar humanidade no adversário.

A sociologia nos convida a olhar além do indivíduo: discursos de lideranças, relações de poder, desigualdades e normas aceitas dentro de determinados grupos também influenciam os comportamentos. Quando insultar o adversário passa a ser considerado demonstração de lealdade, a agressividade pode ganhar legitimidade social.

É nesse ponto que precisamos prestar atenção: a violência não começa necessariamente com um soco ou um disparo. Muitas vezes, começa quando nos convencemos de que o outro merece ser humilhado.

A história se repete quando transformamos diferenças em motivos para perseguir

A história mundial está repleta de exemplos de seres humanos que foram perseguidos, expulsos ou mortos porque pertenciam a outro povo, professavam outra religião, tinham determinada origem ou eram considerados inferiores por algum grupo dominante.

Na Alemanha nazista, a propaganda antissemita, o racismo e a ideia de superioridade racial foram utilizados para desumanizar os judeus e outros grupos perseguidos. Essa construção ideológica contribuiu para o Holocausto, no qual seis milhões de judeus foram assassinados, além de milhões de outras vítimas do regime nazista e de seus colaboradores.

O genocídio não aconteceu simplesmente porque as pessoas discordavam umas das outras. Foi resultado de uma ideologia racista, da perseguição organizada pelo Estado, da propaganda, da guerra e da participação ou colaboração de diferentes setores da sociedade. Compreender essa complexidade é essencial para que a história não seja reduzida a uma comparação superficial com qualquer disputa política contemporânea.

Na região dos Grandes Lagos africanos, especialmente em Ruanda, em 1994, aproximadamente 800 mil pessoas foram assassinadas durante cerca de cem dias, em sua maioria tutsis, além de hutus moderados e outros que se opuseram aos massacres. A violência foi alimentada por extremismo, propaganda, organização política e décadas de tensões históricas.

É importante corrigir uma versão que circula de maneira simplificada: não há fundamento histórico sólido para explicar esse genocídio dizendo que dois povos se mataram simplesmente porque um tinha o nariz mais largo que o outro. Características físicas foram usadas em classificações raciais e em discursos de desumanização, mas as causas do genocídio foram muito mais complexas.

A região do Congo também viveu e continua vivendo conflitos graves, envolvendo disputas políticas, étnicas, territoriais e econômicas, entre outros fatores. Não é correto, porém, atribuir suas guerras a uma suposta diferença no formato do nariz entre grupos negros. Repetir essa explicação seria substituir a história por uma caricatura.

O que esses episódios nos ensinam? Que as diferenças humanas podem ser transformadas em justificativas para a exclusão e a violência quando discursos de superioridade, medo e ódio encontram condições para prosperar.

As Cruzadas, iniciadas no final do século XI, constituem outro capítulo complexo dessa história. Em nome de objetivos religiosos e políticos, diferentes campanhas militares provocaram mortes, perseguições e saques. A religião esteve entre as motivações proclamadas, mas interesses territoriais, dinásticos e econômicos também tiveram importância. Não se pode resumir toda a história das Cruzadas a uma única causa.

O problema, portanto, não está em reconhecer que as pessoas têm crenças, identidades e convicções. Está em transformar essas convicções em autorização para retirar do outro o direito de existir, discordar e viver com dignidade.

E no Brasil, o que estamos fazendo com nossas diferenças?

A política brasileira tem sido marcada, em diferentes momentos e por diferentes grupos, por discursos de hostilidade e episódios de violência. Não seria correto atribuir toda a agressividade a um único campo político sem delimitar os acontecimentos, os períodos e os dados utilizados para essa conclusão.

Isso não impede que cada caso seja investigado e que responsabilidades sejam apontadas quando existem provas. Se os registros de determinado período indicarem maior participação de integrantes ou apoiadores de um movimento em episódios específicos, essa informação deve ser apresentada com números, fontes e critérios claros — não apenas com impressões pessoais.

O bolsonarismo, o petismo e outras correntes políticas precisam ser examinados à luz de declarações, comportamentos e acontecimentos documentados. Nenhuma identidade partidária, por si só, prova que alguém seja violento; da mesma maneira, nenhuma bandeira política torna uma agressão aceitável.

A questão central é outra: por que tanta gente parece disposta a relativizar a violência quando ela é praticada por alguém do próprio lado?

Quando o adversário agride, exigimos punição. Quando o nosso grupo agride, procuramos justificativas. Quando o outro espalha uma informação falsa, denunciamos a mentira. Quando a informação favorece nossas convicções, compartilhamos sem conferir.

É assim que os princípios se tornam conveniências.

Defender a pátria, a família e Deus pode expressar valores legítimos para milhões de brasileiros. Mas nenhuma dessas palavras deve funcionar como salvo-conduto para o desrespeito. A defesa da pátria não autoriza perseguir compatriotas; a defesa da família não justifica humilhar famílias diferentes da nossa; e a fé em Deus não transforma o próximo em inimigo que precisa ser destruído.

Uma sociedade democrática precisa avaliar comportamentos concretos, e não apenas slogans. O discurso público deve ser confrontado com as atitudes de quem o pronuncia.

Quando o Evangelho não chega ao comportamento

Talvez a contradição mais dolorosa esteja entre aquilo que muitos professam e aquilo que praticam.

Há pessoas que frequentam igrejas, conhecem passagens bíblicas, participam de celebrações e falam constantemente em Deus, mas são incapazes de tolerar uma opinião diferente. Algumas utilizam a fé como instrumento de superioridade moral, como se a proximidade com determinada liderança religiosa ou política lhes concedesse o direito de julgar e condenar os demais.

É preciso perguntar: de que serve conhecer a mensagem do Evangelho se ela não modifica a maneira como tratamos as pessoas?

Jesus ensinou: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Marcos 12,31). Também ensinou: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mateus 5,44).

Essas palavras não são convites à passividade diante da injustiça, nem exigem que alguém aceite abusos em silêncio. Amar o próximo também significa defender a verdade, proteger quem sofre violência e cobrar responsabilidades. Mas significa fazê-lo sem transformar o ódio em método e a vingança em projeto de vida.

O próprio Jesus, no Evangelho de Mateus, adverte contra o julgamento hipócrita: antes de apontar o cisco no olho do irmão, é preciso reconhecer a trave no próprio olho (Mateus 7,3-5).

A pergunta, então, não é se sabemos citar a Bíblia. É se estamos dispostos a permitir que ela questione nossas certezas, nossas preferências eleitorais e nosso comportamento.

Quando a lealdade ao candidato vale mais do que a verdade, quando a defesa do partido vale mais do que a dignidade humana e quando a raiva fala mais alto do que a consciência, a religião corre o risco de se tornar apenas um adorno moral.

O Evangelho não perde seu valor porque as pessoas deixam de praticá-lo. O que fica comprometido é a credibilidade de quem proclama seus ensinamentos, mas se recusa a vivê-los.

A violência também pode não deixar marcas no corpo

Quando falamos em violência, pensamos imediatamente em armas de fogo, facas, socos e agressões físicas. Mas há outras formas de ferir uma pessoa.

Palavras podem humilhar, ameaças podem provocar medo e campanhas de difamação podem destruir reputações. O poder econômico pode ser utilizado para intimidar, excluir e silenciar. A discriminação de gênero pode limitar oportunidades, negar direitos e reduzir pessoas à condição de seres inferiores.

Essas formas de violência não são idênticas e precisam ser analisadas em seus contextos específicos. Ainda assim, todas nos obrigam a refletir sobre o uso do poder para diminuir o outro.

Nem toda crítica é agressão, nem toda discordância é intolerância. Questionar um político, denunciar uma irregularidade, contestar uma religião ou criticar uma ideia são direitos importantes. O limite está em ameaçar, perseguir, discriminar ou tentar retirar do outro sua dignidade e seus direitos.

Uma sociedade livre precisa proteger tanto a possibilidade de discordar quanto a segurança de quem discorda.

Será que um dia aprenderemos a viver em harmonia?

Confesso que, diante de tantas contradições, essa pergunta me acompanha.

Somos uma espécie capaz de produzir ciência, construir hospitais, escrever poemas, desenvolver tecnologias e realizar gestos extraordinários de solidariedade. Ao mesmo tempo, somos capazes de perseguir pessoas por suas crenças, odiar por causa de um voto e justificar atrocidades em nome de causas que consideramos sagradas.

Temos conhecimento acumulado, mas nem sempre sabedoria. Temos acesso a uma quantidade imensa de informações, mas nem sempre disposição para verificar o que recebemos. Falamos em liberdade, mas, por vezes, queremos controlar a consciência alheia.

Talvez a humanidade nunca alcance uma harmonia completa. Os conflitos fazem parte da vida social, porque interesses, valores e necessidades nem sempre coincidem. Mas conflito não precisa significar violência. Discordar é inevitável; desumanizar o adversário é uma escolha que podemos combater.

O caminho exige educação para o diálogo, responsabilidade de quem exerce liderança, instituições capazes de aplicar a lei com imparcialidade, compromisso com os fatos e disposição para reconhecer os próprios erros. Exige também uma prática religiosa que não se limite às palavras e uma participação política que não transforme candidatos em ídolos.

Não precisamos pensar todos da mesma maneira. Precisamos aprender que ninguém tem o monopólio da inteligência, da honestidade, do patriotismo ou de Deus.

E talvez seja essa a grande lição das eleições: elas não revelam apenas quem escolhemos para governar. Também revelam algo sobre a maneira como tratamos aqueles que fizeram uma escolha diferente.

Continuo com dúvidas. Às vezes, parece que a humanidade está condenada a repetir seus erros e que, no fim, resta apenas o velho “salve-se quem puder”.

Mas, se desistirmos de acreditar na possibilidade de aprender, estaremos entregando a vitória justamente àquilo que criticamos: à intolerância, ao egoísmo e à indiferença.

Por isso, mesmo sem ter respostas definitivas, fica uma pergunta para cada um de nós:

De que adianta vencer uma eleição, defender uma ideologia ou proclamar uma fé se, no caminho, perdemos a capacidade de reconhecer no outro um ser humano como nós?

Talvez a mudança comece quando deixarmos de perguntar apenas quem está certo e quem está errado e passarmos a perguntar também: que tipo de pessoa estou me tornando ao defender aquilo em que acredito?

É uma pergunta que vale para a política, para a religião, para a família e para a vida inteira.

Pedro Claudio — em meio a muitas dúvidas.

 

sábado, 24 de outubro de 2026

MEMÓRIA, HISTÓRIA E COMPROMISSO SOCIAL: UMA EXPERIÊNCIA QUE MARCOU MINHA VIDA ACADÊMICA

 

MEMÓRIA, HISTÓRIA E COMPROMISSO SOCIAL: UMA EXPERIÊNCIA QUE MARCOU MINHA VIDA ACADÊMICA



Por Pedro Claudio Rosa

Gosto de recordar e compartilhar experiências que marcaram minha trajetória, não apenas para evitar que caiam no esquecimento, mas também para preservar a memória de um tempo de aprendizado, descobertas e transformação pessoal.

Foi assim durante minha passagem pela Universidade Estadual de Goiás (UEG), então Campus de Iporá, onde cursei História. Um período muito produtivo, que ampliou meus horizontes, abriu minha mente para novas perspectivas e me permitiu compreender melhor as relações entre a história, a sociedade, a política e a religião.

Recordo com satisfação a elaboração e a apresentação do meu trabalho de conclusão de curso, uma pesquisa acadêmica que me proporcionou a oportunidade de aprofundar conhecimentos e investigar um tema que considero importante para a história regional: a Pastoral da Juventude e a militância política na Diocese de São Luís de Montes Belos, entre 1980 e 1990.

O trabalho foi apresentado à banca examinadora e aprovado com nota próxima de 100, resultado que representou uma conquista pessoal e acadêmica. Mais do que a avaliação, porém, guardo o valor da pesquisa, das leituras, das entrevistas e das reflexões que me ajudaram a compreender como a formação religiosa também pode contribuir para a consciência cidadã e a participação social.

Minha pesquisa procurou compreender como a Pastoral da Juventude, inspirada pelo Evangelho, pela opção preferencial pelos pobres e pelas reflexões da Teologia da Libertação, contribuiu para a formação humana, social e política de jovens na região Oeste de Goiás durante um período marcado pela redemocratização do Brasil.

Naquele contexto, a Igreja Católica vivenciava importantes mudanças, impulsionadas pelo Concílio Vaticano II e pelas conferências episcopais latino-americanas de Medellín e Puebla. Em diversas comunidades, a fé passou a ser vivenciada de maneira cada vez mais ligada à realidade concreta das pessoas, especialmente das populações pobres e marginalizadas.

Na Diocese de São Luís de Montes Belos, a organização dos grupos de jovens, a formação comunitária e a metodologia do ver, julgar, agir e avaliar ajudaram a aproximar a reflexão cristã dos desafios sociais. A experiência pastoral, para muitos jovens, tornou-se também um espaço de aprendizado sobre cidadania, participação comunitária e compromisso com a transformação da sociedade.

Ao ouvir pessoas que vivenciaram aquele período, pude perceber como essas experiências deixaram marcas em suas trajetórias. A formação recebida na Pastoral da Juventude contribuiu, em diferentes graus e de diferentes maneiras, para a atuação de antigos participantes em movimentos sociais, sindicatos, espaços comunitários, instituições públicas e partidos políticos.

Essa constatação reforçou uma das principais reflexões da pesquisa: a educação, a fé e a participação social podem caminhar juntas, sem que isso signifique transformar a religião em instrumento de um partido ou reduzir a experiência cristã a uma disputa ideológica.

A história nos ensina que as pessoas são formadas também pelas experiências coletivas de seu tempo. Por isso, recuperar a memória da Pastoral da Juventude é reconhecer a contribuição de homens e mulheres que, a partir de suas comunidades, procuraram compreender a realidade e encontrar caminhos para uma sociedade mais justa.

Hoje, ao recordar esse trabalho, percebo que a universidade não me ofereceu apenas conhecimentos acadêmicos. Ofereceu-me instrumentos para olhar a realidade com mais atenção, questionar explicações simplistas, valorizar a pesquisa e compreender que a história é construída por pessoas, grupos e movimentos que nem sempre recebem o devido reconhecimento.

Como jornalista e radialista, essa formação também dialoga com minha compreensão do papel da comunicação: informar exige responsabilidade, contextualização, respeito aos fatos e disposição para ouvir diferentes vozes. Conhecer a história ajuda a compreender o presente e a evitar que a memória coletiva seja reduzida ao esquecimento ou a versões incompletas dos acontecimentos.

Compartilho, portanto, parte desse trabalho não como uma celebração individual, mas como uma contribuição à memória histórica e social de nossa região. Que as novas gerações possam conhecer essas experiências, refletir sobre seus significados e reconhecer a importância da participação cidadã na construção da democracia.

Estudar História foi também aprender que o passado não está morto. Ele permanece nas experiências, nas escolhas e nos caminhos que continuamos construindo no presente.

Pedro Claudio Rosa
Jornalista e radialista — DRT-GO 1530
Graduado em História pela Universidade Estadual de Goiás (UEG), Campus de Iporá.

 


sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Entre a liberdade de publicar e o compromisso de informar

 

Entre a liberdade de publicar e o compromisso de informar




Crônica jornalística — Por Pedro Claudio

Vivemos um tempo em que todos podem falar, publicar, opinar e disputar a atenção do público. Nunca foi tão fácil comunicar. Paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão necessário aprender a distinguir informação, opinião, propaganda e jornalismo.

As redes sociais democratizaram a comunicação. Deram voz a cidadãos que antes dependiam dos meios tradicionais para tornar públicas suas ideias, críticas e reivindicações. Isso representa um avanço importante para a liberdade de expressão e para a participação democrática. Entretanto, essa transformação também trouxe um desafio: estamos aprendendo a conviver com uma infinidade de informações, interesses, preferências e posicionamentos, nem sempre acompanhados da responsabilidade que a comunicação exige.

Em períodos eleitorais, esse cenário fica ainda mais evidente. A política ocupa as conversas, mobiliza paixões, divide opiniões e transforma cada manifestação pública em motivo para disputas. As páginas nas redes sociais ganham protagonismo, os vídeos circulam rapidamente e os acontecimentos passam a ser avaliados não apenas pelo que representam, mas também por quem os divulga e por quem se beneficia de sua repercussão.

É nesse ambiente que surge uma confusão que considero preocupante: comparar indistintamente a atuação de páginas pessoais, portais independentes e veículos de imprensa profissional, como se todos exercessem a mesma atividade e estivessem sujeitos às mesmas responsabilidades.

Não é bem assim.

Uma pessoa pode criar um perfil no Instagram, uma página no Facebook ou um canal em qualquer outra plataforma e divulgar conteúdos de acordo com suas convicções políticas, preferências e interesses. Pode apoiar um candidato, criticar um governo, defender uma causa ou escolher os assuntos que deseja destacar. A liberdade de expressão protege esse espaço, dentro dos limites da lei.

A imprensa profissional, porém, tem outra natureza e outros compromissos. O jornalismo pressupõe apuração, verificação dos fatos, responsabilidade editorial, respeito ao contraditório e disposição para ouvir os diferentes lados de uma questão. No rádio e na televisão, existem também obrigações legais específicas, cuja aplicação depende das normas pertinentes a cada situação, especialmente no contexto eleitoral.

Isso não significa que todo veículo profissional seja necessariamente imparcial, nem que toda página independente seja irresponsável. Há bons trabalhos jornalísticos fora das grandes empresas, assim como há veículos tradicionais que precisam ser questionados por suas escolhas editoriais. O que precisamos compreender é que liberdade para publicar e compromisso profissional de informar são coisas diferentes.

Tomemos como exemplo uma manifestação política. Um grupo realiza uma passeata, reúne apoiadores e ganha espaço nas páginas locais. Outro grupo, de orientação política diferente, promove atos semelhantes e reclama da falta de divulgação. A indignação pode ser legítima e merece ser examinada. Afinal, quem comunica também faz escolhas, e essas escolhas podem revelar preferências, prioridades ou interesses.

Mas há uma pergunta que precisa anteceder qualquer julgamento: estamos falando de um veículo comprometido com critérios jornalísticos ou de uma página que publica aquilo que considera relevante, interessante ou conveniente?

A distinção não elimina a necessidade de cobrar responsabilidade de quem divulga informações. Tampouco transforma a omissão de acontecimentos relevantes em algo irrelevante. Significa apenas que precisamos avaliar cada situação de acordo com a natureza do canal, seus compromissos declarados e sua atuação concreta.

Também é preciso reconhecer que a própria imprensa não está acima de críticas. Pelo contrário: deve estar aberta ao questionamento público, à correção de erros e à cobrança por transparência. A credibilidade não se impõe pelo nome de um veículo, por sua tradição ou por uma concessão de funcionamento. Conquista-se diariamente, com trabalho, coerência e responsabilidade.

Talvez, nessa corrida por audiência, curtidas, compartilhamentos e seguidores, estejamos deixando em segundo plano a importância da produção jornalística. O rádio, por exemplo, continua exercendo uma função pública relevante, especialmente nas comunidades do interior, onde a informação local ajuda o cidadão a acompanhar decisões políticas, fiscalizar a administração e compreender os problemas que afetam sua vida.

A produção de uma notícia exige trabalho. É preciso buscar a fonte, conferir documentos, ouvir os envolvidos, contextualizar os acontecimentos e organizar as informações para que o público compreenda o que está em discussão. Uma publicação pode ser feita em segundos; uma reportagem responsável pode exigir horas ou dias de apuração.

É justamente essa diferença que não podemos perder de vista.

O Brasil atravessa uma transformação profunda na maneira de pensar, agir, participar da política e consumir informação. A modernidade tecnológica abriu possibilidades extraordinárias, enquanto as mudanças culturais e sociais alteraram a relação entre cidadãos, instituições e meios de comunicação. Estamos diante de uma realidade que não será revertida simplesmente pela saudade de um tempo em que poucos controlavam os canais de divulgação.

Não se trata de condenar as redes sociais, muito menos de defender privilégios para a imprensa tradicional. Trata-se de reconhecer que a democracia precisa tanto da liberdade de expressão quanto de informação confiável para que as pessoas possam fazer suas escolhas com consciência.

Não sei se esse modelo de comunicação vai mudar tão cedo. Talvez não estejamos diante de um modismo passageiro, mas de uma transformação estrutural. O que pode mudar, e precisa mudar, é a nossa capacidade de compreender esse novo ambiente, avaliar as fontes e cobrar responsabilidade de acordo com o papel que cada um desempenha.

Acredito que ainda estamos em processo de aprendizado. O cidadão precisa aprender a desconfiar de informações sem origem identificada, o comunicador deve compreender o alcance de suas publicações e o jornalista precisa reafirmar, todos os dias, o valor de sua responsabilidade profissional.

No fim das contas, não basta perguntar quem publicou, quantas pessoas curtiram ou qual grupo político foi beneficiado. É necessário perguntar: o fato foi apurado? Os envolvidos foram ouvidos? Há tratamento igualitário, equânime? Há interesse público? A informação está contextualizada? Existe disposição para corrigir um erro?

São perguntas simples, mas fundamentais para a saúde da democracia.

Depois de tantos anos trabalhando no rádio, continuo acreditando que comunicar é muito mais do que ocupar um espaço e conquistar audiência. É assumir uma responsabilidade perante a sociedade.

Todos têm o direito de falar. Todos podem participar do debate público. Mas a sociedade precisa saber distinguir quem expressa uma opinião, quem defende um interesse e quem assume o compromisso profissional de fazer jornalismo.

Essa distinção não restringe a liberdade. Ao contrário: ajuda a protegê-la.

Pedro Claudio

 


quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Amar os filhos sem carregar a vida deles: uma reflexão sobre o papel dos pais

 

Amar os filhos sem carregar a vida deles: uma reflexão sobre o papel dos pais



Amar os filhos sem carregar a vida deles: uma reflexão sobre o papel dos pais

Por Pedro Claudio

Há preocupações que não envelhecem com o passar dos anos. Os filhos crescem, estudam, conquistam seus diplomas, constroem suas famílias, assumem responsabilidades e seguem seus próprios caminhos. Ainda assim, dentro do coração de um pai, permanece aquele desejo de protegê-los, de vê-los bem e, se possível, de poupá-los dos sofrimentos da vida.

Sou viúvo e pai de dois filhos. Ambos são adultos, formados, casados e encaminhados na vida. Procuro ajudá-los quando posso, inclusive financeiramente, porque entendo que o amor paterno não desaparece quando os filhos deixam a casa dos pais. Entretanto, aprendi que existe uma diferença importante entre estar disponível para ajudar e querer participar das decisões que cabem a eles.

Não costumo dar palpites sobre como devem administrar suas vidas. Afinal, são adultos, têm suas famílias e precisam fazer suas próprias escolhas. Mesmo assim, preocupo-me. E, às vezes, durante minhas orações, percebo que essa preocupação pode ultrapassar os limites do cuidado saudável.

Lembro-me de uma passagem do Evangelho em que uma mãe, desejando o melhor para seus filhos, pede a Jesus que eles ocupem lugares de destaque ao seu lado.

O episódio está em Mateus 20, 20-23. A mãe dos filhos de Zebedeu aproxima-se de Jesus e pede que seus dois filhos se sentem, um à sua direita e outro à sua esquerda, em seu Reino. Jesus, porém, responde que eles não sabem o que estão pedindo e os conduz a refletir sobre o caminho que precisam percorrer.

A passagem fala de uma mãe, não de uma viúva, e não trata exatamente das preocupações cotidianas de um pai. Mas há nela uma questão profundamente humana: o desejo de que nossos filhos estejam bem, sejam protegidos e encontrem um lugar seguro na vida.

Quem ama deseja o melhor. O problema começa quando, mesmo sem perceber, o amor se transforma em necessidade de controlar os resultados da vida do outro.

Às vezes, queremos que nossos filhos não sofram as decepções que sofremos, não cometam os erros que cometemos e não enfrentem as dificuldades que conhecemos. Desejamos antecipar os perigos, oferecer soluções e, quando temos condições, ajudar financeiramente. Tudo isso pode ser expressão legítima de amor. Mas precisamos nos perguntar — e eu me pergunto: estamos ajudando nossos filhos a caminhar ou tentando caminhar por eles?

A preocupação de um pai não é, por si só, um mal. O que precisamos observar é o que fazemos com essa preocupação.

Penso que existe uma diferença entre se preocupar e assumir para si a responsabilidade pela vida de outra pessoa. A primeira atitude pode ser uma expressão de afeto; a segunda, quando excessiva, pode gerar ansiedade em quem ajuda e dependência ou desconforto em quem recebe a ajuda.

Os filhos precisam ter o direito de decidir, experimentar, acertar e errar. Precisam aprender a lidar com as consequências das próprias escolhas. Isso não significa que os pais devam fechar os olhos diante de dificuldades, abandonar os filhos ou negar ajuda quando ela é necessária. Significa compreender que a autonomia também faz parte da educação que oferecemos a eles.

A paternidade não termina quando os filhos crescem, mas muda de forma. Quando pequenos, precisam de nossas mãos para atravessar a rua. Quando adultos, precisam saber que podem contar conosco, sem que nossas mãos se transformem em correntes.

Também é preciso compreender que a vida não é exclusivamente individual. Como se cada pessoa pudesse viver sem vínculos, compromissos ou solidariedade, temos também responsabilidades. Somos seres comunitários; nossas decisões afetam quem amamos, e a família continua sendo um espaço de cuidado, partilha e responsabilidade.

Mas a vida comunitária não significa que uma pessoa deva carregar permanentemente a cruz da outra. Ajudar alguém a suportar uma dificuldade é diferente de assumir toda a responsabilidade por ela. Nem o individualismo, que nos torna indiferentes ao sofrimento alheio, nem a dependência, que nos faz viver a vida do outro como se fosse nossa, representam o equilíbrio que buscamos.

A própria espiritualidade cristã nos ajuda a compreender essa diferença. Em Gálatas 6,2, Paulo recomenda: “Levai as cargas uns dos outros”. Pouco adiante, em Gálatas 6,5, afirma que cada um deverá levar a própria carga. Não há contradição necessária entre os dois ensinamentos: podemos apoiar uns aos outros sem retirar de cada pessoa a responsabilidade por sua própria caminhada.

Talvez seja essa uma das tarefas mais difíceis da paternidade: continuar amando sem invadir, ajudar sem dominar, aconselhar sem impor e respeitar sem se tornar indiferente.

Para quem ficou viúvo, penso e sinto que essa experiência pode ganhar contornos particulares. A ausência da pessoa com quem dividíamos as preocupações, os sonhos e as responsabilidades pode fazer com que o olhar sobre os filhos adquira ainda mais intensidade. Não é preciso transformar isso em culpa, mas vale reconhecer quando a preocupação está ocupando um espaço excessivo em nossa vida.

Como encontrar, então, um caminho saudável?

  • Primeiro, reconhecer que nossos filhos são pessoas inteiras, com suas próprias histórias, capacidades e responsabilidades; eles têm identidade própria e uma impressão digital única.
  • Segundo, oferecer ajuda sem criar obrigações emocionais. A ajuda financeira, por exemplo, deve respeitar as possibilidades de quem oferece, sem comprometer a própria segurança e sem se transformar em instrumento de controle.
  • Terceiro, aprender a ouvir antes de aconselhar. Perguntar se o filho deseja uma opinião pode ser mais respeitoso do que oferecer soluções sem que elas tenham sido solicitadas.
  • Quarto, aceitar que nem todas as escolhas serão iguais às nossas e que nem todo erro poderá ser evitado. O amor não nos concede o poder de eliminar todas as dificuldades da vida de quem amamos.
  • Quinto, cuidar também da própria existência. Cultivar amizades, interesses, espiritualidade, saúde, atividades e projetos pessoais ajuda a impedir que a vida dos filhos se torne o único centro de nossas preocupações.
  • E, finalmente, levar essas inquietações à oração, não apenas para pedir que Deus proteja nossos filhos, mas também para pedir sabedoria para respeitar a liberdade deles e serenidade para aceitar aquilo que não podemos controlar.

Talvez a oração mais madura de um pai não seja somente: “Senhor, proteja meus filhos de todos os perigos”. Talvez seja também: “Senhor, acompanhe meus filhos nos caminhos que escolherem. Dê-lhes sabedoria, discernimento para decidir, coragem para enfrentar as dificuldades e humildade para reconhecer quando precisarem de ajuda. E conceda-me sabedoria para estar presente sem ocupar o lugar que pertence a eles”.

Porque amar não é impedir que o outro enfrente a vida. É oferecer-lhe raízes, valores e acolhimento para que possa caminhar com os próprios pés — algo que acredito ter propiciado.

Faça a sua parte. Ame, ajude, acolha e aconselhe quando houver espaço para isso. Mas respeite os limites, cuide de si mesmo e permita que seus filhos sejam protagonistas da própria história. Afinal, você, pai, também tem sua vida, também precisa se reencontrar, reescrever e mapear um novo caminho.

A sabedoria está em compreender que não somos responsáveis por controlar todos os capítulos da vida daqueles que amamos. Somos responsáveis pela maneira como participamos dela.

E, às vezes, a maior prova de amor de um pai é permanecer por perto, com as mãos abertas, pronto para ajudar, mas sem impedir que os filhos sigam adiante.

Que Deus nos conceda essa sabedoria: amar sem aprisionar, ajudar sem substituir e confiar sem abandonar.


segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Crônicas da Política Iporaense: A Instabilidade do Poder e o Julgamento Histórico na Câmara Municipal

 

Crônicas da Política Iporaense: A Instabilidade do Poder e o Julgamento Histórico na Câmara Municipal




A crônica política iporaense ganha mais um capítulo de forte tensão nesta terça-feira, 20 de outubro, a partir das 18h. A Câmara Municipal de Iporá realiza sessão extraordinária para julgar o processo político-administrativo instaurado contra a prefeita Mayza Peres Cunha Peixoto. Ao final dos debates e votações, o plenário decidirá pelo arquivamento da denúncia ou pela cassação definitiva do mandato da chefe do Executivo.

Os Trâmites da Comissão Processante

O julgamento coroa a conclusão dos trabalhos da Comissão Processante, constituída originariamente em 18 de maio. O colegiado é conduzido pela vereadora Viviane de Leão Duarte Specian (PT) na presidência, tendo Ricardo da Mota Vita (PODE) como relator e Cassio Douglas Mendes Lara (CIDADANIA) como membro.

O relatório final foi entregue à presidência da Casa de Leis, que convocou os treze parlamentares para a deliberação soberana em plenário. O escopo da apuração concentra-se em duas denúncias principais:

  1. O suposto não repasse às instituições financeiras dos valores descontados diretamente dos vencimentos dos servidores municipais para a quitação de empréstimos consignados.
  2. O alegado não repasse das contribuições destinadas ao Instituto de Assistência dos Servidores Públicos de Goiás (IPASGO).

Vale ressaltar que tais apontamentos integram o escopo do processo político-administrativo e dependem do crivo soberano do plenário para qualquer conclusão jurídica definitiva.

Batalha Jurídica e Quórum Qualificado

O rito processual não transcorreu sem percalços. Os trabalhos da comissão chegaram a ficar suspensos por 40 dias em virtude de mandado de segurança impetrado pela defesa da gestora. Superado o entrave judicial, os trabalhos foram retomados até o desfecho.

Diante da impossibilidade de localização pessoal da prefeita para alguns atos do procedimento, segundo a comissão, a convocação para a defesa ocorreu por meio de editais. A defesa jurídica seguiu acionando os tribunais na tentativa de barrar o julgamento, cabendo o monitoramento constante de eventuais limusines de última hora.

Conforme as diretrizes do Decreto-Lei nº 201/1967, a decretação da cassação de um prefeito exige quórum qualificado de dois terços dos membros da casa legislativa. Como a Câmara de Iporá é composta por 13 vereadores, são exigidos, no mínimo, 9 votos favoráveis para que a cassação seja consumada.

A Linha Sucessória

Caso a condenação política seja efetivada pelo plenário, os trâmites legais preveem a imediata formalização da decisão pela Mesa Diretora. Nessa hipótese, o vice-prefeito eleito, Leonardo César Lima Araújo (conhecido como Léo Contador), deverá ser convocado para assumir o comando da prefeitura, com eventual posse tramitando sob a responsabilidade institucional da Câmara.

O Papel da Imprensa: O Compromisso com a Verdade

Como repórter e editor responsável pelo Jornal Falado RDR, da Rádio Rio Claro (Rede Diocesana de Rádio), procurei ouvir todas as partes envolvidas. No dia 16 de outubro, solicitei formalmente à prefeita Mayza Cunha um posicionamento acerca das acusações, do andamento do processo e das teses de sua defesa sem retorno e emissora aguarda o retorno, permanecendo o espaço inteiramente aberto para o contraditório e a ampla defesa da gestora e de sua assessoria jurídica.

Fica aqui registrado, para a posteridade e para a consulta das futuras gerações, mais um momento emblemático da nossa democracia local — acompanhado, analisado e documentado pelo jornalismo que não se omite diante dos fatos.