Amar os filhos sem carregar a vida deles: uma reflexão sobre o papel dos pais
Amar os filhos sem carregar a vida deles:
uma reflexão sobre o papel dos pais
Por Pedro Claudio
Há preocupações que não envelhecem com o passar dos
anos. Os filhos crescem, estudam, conquistam seus diplomas, constroem suas
famílias, assumem responsabilidades e seguem seus próprios caminhos. Ainda
assim, dentro do coração de um pai, permanece aquele desejo de protegê-los, de
vê-los bem e, se possível, de poupá-los dos sofrimentos da vida.
Sou viúvo e pai de dois filhos. Ambos são adultos,
formados, casados e encaminhados na vida. Procuro ajudá-los quando posso,
inclusive financeiramente, porque entendo que o amor paterno não desaparece
quando os filhos deixam a casa dos pais. Entretanto, aprendi que existe uma
diferença importante entre estar disponível para ajudar e querer participar das
decisões que cabem a eles.
Não costumo dar palpites sobre como devem administrar
suas vidas. Afinal, são adultos, têm suas famílias e precisam fazer suas
próprias escolhas. Mesmo assim, preocupo-me. E, às vezes, durante minhas
orações, percebo que essa preocupação pode ultrapassar os limites do cuidado
saudável.
Lembro-me de uma passagem do Evangelho em que uma mãe,
desejando o melhor para seus filhos, pede a Jesus que eles ocupem lugares de
destaque ao seu lado.
O episódio está em Mateus 20, 20-23. A mãe dos filhos
de Zebedeu aproxima-se de Jesus e pede que seus dois filhos se sentem, um à sua
direita e outro à sua esquerda, em seu Reino. Jesus, porém, responde que eles
não sabem o que estão pedindo e os conduz a refletir sobre o caminho que
precisam percorrer.
A passagem fala de uma mãe, não de uma viúva, e não
trata exatamente das preocupações cotidianas de um pai. Mas há nela uma questão
profundamente humana: o desejo de que nossos filhos estejam bem, sejam
protegidos e encontrem um lugar seguro na vida.
Quem ama deseja o melhor. O problema começa quando,
mesmo sem perceber, o amor se transforma em necessidade de controlar os
resultados da vida do outro.
Às vezes, queremos que nossos filhos não sofram as
decepções que sofremos, não cometam os erros que cometemos e não enfrentem as
dificuldades que conhecemos. Desejamos antecipar os perigos, oferecer soluções
e, quando temos condições, ajudar financeiramente. Tudo isso pode ser expressão
legítima de amor. Mas precisamos nos perguntar — e eu me pergunto: estamos
ajudando nossos filhos a caminhar ou tentando caminhar por eles?
A preocupação de um pai não é, por si só, um mal. O
que precisamos observar é o que fazemos com essa preocupação.
Penso que existe uma diferença entre se preocupar e
assumir para si a responsabilidade pela vida de outra pessoa. A primeira
atitude pode ser uma expressão de afeto; a segunda, quando excessiva, pode
gerar ansiedade em quem ajuda e dependência ou desconforto em quem recebe a
ajuda.
Os filhos precisam ter o direito de decidir,
experimentar, acertar e errar. Precisam aprender a lidar com as consequências
das próprias escolhas. Isso não significa que os pais devam fechar os olhos
diante de dificuldades, abandonar os filhos ou negar ajuda quando ela é
necessária. Significa compreender que a autonomia também faz parte da educação
que oferecemos a eles.
A paternidade não termina quando os filhos crescem,
mas muda de forma. Quando pequenos, precisam de nossas mãos para atravessar a
rua. Quando adultos, precisam saber que podem contar conosco, sem que nossas
mãos se transformem em correntes.
Também é preciso compreender que a vida não é
exclusivamente individual. Como se cada pessoa pudesse viver sem vínculos,
compromissos ou solidariedade, temos também responsabilidades. Somos seres
comunitários; nossas decisões afetam quem amamos, e a família continua sendo um
espaço de cuidado, partilha e responsabilidade.
Mas a vida comunitária não significa que uma pessoa
deva carregar permanentemente a cruz da outra. Ajudar alguém a suportar uma
dificuldade é diferente de assumir toda a responsabilidade por ela. Nem o
individualismo, que nos torna indiferentes ao sofrimento alheio, nem a
dependência, que nos faz viver a vida do outro como se fosse nossa, representam
o equilíbrio que buscamos.
A própria espiritualidade cristã nos ajuda a
compreender essa diferença. Em Gálatas 6,2, Paulo recomenda: “Levai as cargas
uns dos outros”. Pouco adiante, em Gálatas 6,5, afirma que cada um deverá levar
a própria carga. Não há contradição necessária entre os dois ensinamentos:
podemos apoiar uns aos outros sem retirar de cada pessoa a responsabilidade por
sua própria caminhada.
Talvez seja essa uma das tarefas mais difíceis da
paternidade: continuar amando sem invadir, ajudar sem dominar, aconselhar sem
impor e respeitar sem se tornar indiferente.
Para quem ficou viúvo, penso e sinto que essa
experiência pode ganhar contornos particulares. A ausência da pessoa com quem
dividíamos as preocupações, os sonhos e as responsabilidades pode fazer com que
o olhar sobre os filhos adquira ainda mais intensidade. Não é preciso
transformar isso em culpa, mas vale reconhecer quando a preocupação está
ocupando um espaço excessivo em nossa vida.
Como encontrar, então, um caminho saudável?
- Primeiro,
reconhecer que nossos filhos são pessoas inteiras, com suas próprias
histórias, capacidades e responsabilidades; eles têm identidade própria e
uma impressão digital única.
- Segundo,
oferecer ajuda sem criar obrigações emocionais. A ajuda financeira, por
exemplo, deve respeitar as possibilidades de quem oferece, sem comprometer
a própria segurança e sem se transformar em instrumento de controle.
- Terceiro,
aprender a ouvir antes de aconselhar. Perguntar se o filho deseja uma
opinião pode ser mais respeitoso do que oferecer soluções sem que elas
tenham sido solicitadas.
- Quarto,
aceitar que nem todas as escolhas serão iguais às nossas e que nem todo
erro poderá ser evitado. O amor não nos concede o poder de eliminar todas
as dificuldades da vida de quem amamos.
- Quinto,
cuidar também da própria existência. Cultivar amizades, interesses,
espiritualidade, saúde, atividades e projetos pessoais ajuda a impedir que
a vida dos filhos se torne o único centro de nossas preocupações.
- E,
finalmente, levar essas inquietações à oração,
não apenas para pedir que Deus proteja nossos filhos, mas também para
pedir sabedoria para respeitar a liberdade deles e serenidade para aceitar
aquilo que não podemos controlar.
Talvez a oração mais madura de um pai não seja
somente: “Senhor, proteja meus filhos de todos os perigos”. Talvez seja também:
“Senhor, acompanhe meus filhos nos caminhos que escolherem. Dê-lhes sabedoria, discernimento
para decidir, coragem para enfrentar as dificuldades e humildade para
reconhecer quando precisarem de ajuda. E conceda-me sabedoria para estar
presente sem ocupar o lugar que pertence a eles”.
Porque amar não é impedir que o outro enfrente a vida.
É oferecer-lhe raízes, valores e acolhimento para que possa caminhar com os
próprios pés — algo que acredito ter propiciado.
Faça a sua parte. Ame, ajude, acolha e aconselhe
quando houver espaço para isso. Mas respeite os limites, cuide de si mesmo e
permita que seus filhos sejam protagonistas da própria história. Afinal, você,
pai, também tem sua vida, também precisa se reencontrar, reescrever e mapear um
novo caminho.
A sabedoria está em compreender que não somos
responsáveis por controlar todos os capítulos da vida daqueles que amamos.
Somos responsáveis pela maneira como participamos dela.
E, às vezes, a maior prova de amor de um pai é
permanecer por perto, com as mãos abertas, pronto para ajudar, mas sem impedir
que os filhos sigam adiante.
Que Deus nos conceda essa sabedoria: amar sem
aprisionar, ajudar sem substituir e confiar sem abandonar.

