CORREMOS O RISCO DE UM GOVERNO TEOCRÁTICO?
Por Pedro Claudio
Estamos vivendo um período de intensa disputa política
e eleitoral no Brasil. E, nesse ambiente, há uma questão que merece ser
discutida com serenidade, sem preconceito contra nenhuma religião e, ao mesmo
tempo, sem ingenuidade: corremos o risco de transformar a fé religiosa em
instrumento de poder político?
Muita gente ouve falar em teocracia, mas talvez não
saiba exatamente o que significa. De maneira simples, teocracia é um sistema de
governo no qual a autoridade política está vinculada à autoridade religiosa, e
as decisões do Estado são justificadas ou legitimadas como expressão da vontade
de Deus ou de uma autoridade religiosa.
E aqui está uma das grandes questões: quem
interpreta a vontade de Deus?
Porque Deus não assina decretos, não participa de
eleições e não ocupa uma cadeira no Parlamento. Quem fala em nome de Deus são
seres humanos. E seres humanos podem interpretar a fé de maneiras diferentes,
de acordo com sua formação, seus interesses, suas convicções e, algumas vezes,
até seus projetos de poder.
É preciso reconhecer que a participação de pessoas
religiosas na política é legítima. Um cristão, um judeu, um muçulmano, alguém
de religião de matriz africana ou de qualquer outra tradição tem o mesmo
direito de participar da vida pública.
O problema começa quando alguém passa a dizer: “Eu
tenho Deus do meu lado; portanto, quem discorda de mim está contra Deus.”
Nesse momento, a discussão política deixa de ser sobre
propostas, políticas públicas e projetos para o país e passa a ser apresentada
como uma disputa entre o bem e o mal, entre os escolhidos por Deus e os
supostos inimigos de Deus.
A história mostra que isso pode ser extremamente
perigoso.
Em diferentes lugares do mundo, grupos políticos e
religiosos já justificaram perseguições, violência e até guerras em nome de uma
suposta vontade divina. Não é a religião, por si só, que produz a violência. O
perigo está quando a fé é transformada em instrumento de dominação e quando
alguém se apresenta como dono exclusivo da verdade religiosa.
E no Brasil precisamos estar atentos.
Expressões como “Deus, Pátria e Família” podem
representar, para muitas pessoas, valores sinceros. Não há nada de errado em
defender Deus, a pátria ou a família. O problema surge quando essas palavras
são utilizadas como uma espécie de selo de legitimidade política: como se
determinado candidato ou grupo fosse o representante de Deus na Terra e, por
consequência, seus adversários fossem inimigos da pátria, da família ou da
própria fé.
Uma eleição não pode se transformar em uma guerra
santa.
O Brasil é um Estado democrático e constitucionalmente
laico. Isso significa que o Estado não pertence a uma religião. Pessoas
religiosas têm plena liberdade para professar sua fé, participar da política e
defender suas convicções. Mas o Estado deve garantir liberdade também para quem
pensa diferente.
E esse cuidado é ainda mais importante quando
observamos o crescimento da intolerância religiosa, inclusive contra religiões
de matriz africana.
Se somos realmente uma sociedade que acredita na
liberdade religiosa, precisamos defendê-la para todos — inclusive para aqueles
cuja fé não compreendemos ou com a qual não concordamos.
Eu sou cristão e católico. E acredito que uma
sociedade de maioria cristã deveria ser uma sociedade marcada pelo amor ao
próximo, pela solidariedade, pelo respeito à dignidade humana e pela
preocupação com os pequenos.
É isso que encontro no ensinamento de Cristo.
Mas existe uma contradição que precisa ser enfrentada:
muitas vezes, aqueles que falam mais alto em nome de Deus acabam defendendo
justamente os interesses dos mais poderosos, enquanto os pobres continuam sendo
lembrados principalmente na hora de pedir o voto.
Não podemos aceitar que o cidadão pobre seja tratado
apenas como eleitor, como número ou como instrumento de disputa política.
Se a fé cristã deve inspirar alguma coisa na vida
pública, que seja o compromisso com a justiça, com os pobres, com os
vulneráveis, com a verdade e com o bem comum.
Por isso, neste momento de disputa eleitoral, é
preciso muito cuidado.
Não devemos ter medo de quem tem fé. Devemos ter
cuidado é com quem transforma a própria interpretação da fé em instrumento
absoluto de poder.
Político não é sacerdote. Sacerdote não é político. E
nenhum candidato recebe de Deus um mandato para governar acima das
instituições, das leis e da Constituição.
Democracia exige limites, respeito ao contraditório,
liberdade religiosa, liberdade de consciência e instituições independentes.
Então, gente, o que fazer?
Pensar. Questionar. Estudar. Pesquisar.
Ouvir opiniões diferentes. Desconfiar de quem promete soluções fáceis e,
principalmente, de quem tenta transformar adversários políticos em inimigos de
Deus.
Fé não deve impedir ninguém de pensar.
Ao contrário: uma fé madura pode caminhar lado a lado
com a razão, com a ciência, com a democracia e com o respeito à diversidade.
Que cada brasileiro possa votar de acordo com sua
consciência.
E que Deus, seja qual for a nossa maneira de
compreender Deus, nos ajude a não entregar a ninguém o direito de falar em seu
nome como se fosse dono da verdade.
Porque Deus não precisa de donos. E a democracia
também não.
