Sou fruto do efeito
colateral da Pastoral da Juventude
Por Pedro
Claudio
Sou fruto
de um efeito colateral da Pastoral da Juventude (PJ). Um efeito colateral
positivo. Sou alguém que aprendeu, desde cedo, a acreditar na vida, na
dignidade humana e na justiça social.
Era por
volta de 1980. Eu era um adolescente extremamente magro, com o rosto que
denunciava a pobreza. Nossa alimentação era simples: arroz e feijão no almoço e
na janta. Carne era rara. Em compensação, a natureza nos alimentava
generosamente. Na época das chuvas, encontrávamos com facilidade cagaita,
mangaba, mama-cadela, amora, goiaba, manga, mamão, mexerica, laranja e tantas
outras frutas do Cerrado. Algumas eram cultivadas; outras brotavam
espontaneamente. Tudo era sazonal, mas era abundante enquanto durava.
Hoje
percebo que, mesmo vivendo na pobreza, tínhamos uma alimentação muito mais
natural do que a de muitas famílias atualmente. Não existiam pizzas,
hambúrgueres ou a enorme variedade de produtos industrializados à base de trigo
que hoje dominam as mesas. Nossa vida era simples e, de certo modo, saudável.
Foi nesse
contexto que um convite mudou minha maneira de enxergar o mundo.
Fui
participar de uma reunião da Pastoral da Juventude no salão paroquial que
também funcionava como a Creche Chapeuzinho Vermelho. O nome, bastante comum
naquela época, provavelmente não seria utilizado hoje, mas marcou a infância de
muitas crianças da comunidade.
Entrei
naquela reunião movido pela fé que havia recebido de meus pais e avós. Também
carregava a intuição de que os pobres precisavam caminhar juntos. Sem saber,
estava sendo apresentado a uma leitura da fé profundamente comprometida com a
transformação da sociedade.
O texto
que mais me impressionava era o relato da primeira comunidade cristã:
"Todos
os que abraçavam a fé viviam unidos e colocavam tudo em comum." (Atos
2,44)
E mais
adiante:
"Entre
eles ninguém passava necessidade, porque aqueles que possuíam terras ou casas
as vendiam, traziam o valor da venda e o depositavam aos pés dos apóstolos;
depois era distribuído conforme a necessidade de cada um." (Atos 4,34-35)
Essas
passagens sempre me pareceram revolucionárias. Não falavam apenas de oração.
Falavam de partilha, solidariedade e compromisso concreto com quem mais
precisava.
Foi ali
que, mesmo sem compreender conceitos acadêmicos, começou a correr em minhas
veias aquilo que mais tarde conheceria como Teologia da Libertação.
Nunca fui
dirigente da Pastoral da Juventude. Sempre fui um participante comum. Um
daqueles que ajudavam, aprendiam e acreditavam. Eu era mais figurante do que
protagonista. Mas acreditava profundamente no enredo.
Naqueles
anos, o Brasil ainda respirava os últimos tempos da ditadura militar. Havia um
enorme desejo de democracia, participação popular e direitos sociais. Sem
conhecer profundamente a Revolução Francesa ou seus lemas de liberdade, igualdade
e fraternidade, esses ideais já habitavam o coração de muitos jovens cristãos.
Queríamos
combater a injustiça, a concentração de renda, o latifúndio e todas as formas
de exclusão. Era uma luta inspirada pelo Evangelho, que buscava construir uma
sociedade mais humana.
Reconheço
hoje que, junto desse desejo de justiça, muitas vezes surgia também um
sentimento de aversão aos ricos. Talvez fosse fruto das desigualdades que
víamos diariamente. Com o passar dos anos, aprendi que o Evangelho não ensina o
ódio de classes, mas a conversão do coração. Jesus nunca condenou alguém por
possuir bens, mas advertiu contra a idolatria da riqueza e contra a indiferença
diante dos pobres.
Como está
escrito:
"Ninguém
pode servir a dois senhores... Não podeis servir a Deus e ao dinheiro."
(Mateus 6,24)
E também:
"O
Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos
pobres, proclamar a libertação aos presos, devolver a vista aos cegos e
libertar os oprimidos." (Lucas 4,18)
Foi essa
compreensão que amadureceu em mim.
Em 1987,
já adulto, mas ainda com espírito juvenil, iniciei minha trajetória na Rádio
Rio Claro. Em 2026, completo 39 anos de profissão.
A partir
daquele momento, minha relação com a Pastoral da Juventude mudou. De
participante passei a ser observador, incentivador e comunicador. Como repórter
e redator, acompanhei inúmeras atividades pastorais. A emissora possuía uma
linha editorial fortemente voltada para as questões sociais, o que dialogava
com minha formação e minha visão de mundo.
Foi nesse
caminho que conheci pessoas que marcaram minha caminhada, como Divino José —
hoje professor doutor —, o saudoso Natalino Nascimento, além de tantos outros
jovens que ajudaram a construir a história da PJ em nossa região.
Também
entrevistei lideranças importantes da Igreja, como Padre Flores, Padre Wiro Van
Vliet e diversos religiosos comprometidos com a evangelização e a promoção
humana.
Toda essa
vivência despertou em mim uma grande curiosidade: de onde havia surgido essa
maneira de compreender o Evangelho?
Essa
pergunta me acompanhou até a universidade.
Durante o
curso de História na Universidade Estadual de Goiás (UEG), escolhi pesquisar
justamente essa temática em meu Trabalho de Conclusão de Curso. Estudando
documentos, textos históricos e as origens do cristianismo, descobri que muito
do que a Pastoral da Juventude vivia encontrava inspiração direta na vida
histórica de Jesus de Nazaré.
Percebi
que a Teologia da Libertação não nasceu do nada. Ela foi profundamente
influenciada pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), pela Conferência Episcopal
de Medellín (1968), pela Conferência de Puebla (1979) e pela Doutrina Social da
Igreja, especialmente pelas encíclicas Rerum Novarum (1891), Mater et
Magistra (1961), Populorum Progressio (1967) e Laborem Exercens
(1981), documentos que insistem na dignidade do trabalho, na justiça social e
na opção preferencial pelos pobres.
Nesse
caminho surgiram pensadores como Gustavo Gutiérrez, Leonardo Boff, Clodovis
Boff, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Pedro Casaldáliga e tantos outros homens e
mulheres que buscaram aproximar o Evangelho da realidade concreta dos pobres
latino-americanos.
Hoje
compreendo que a Pastoral da Juventude não pretendia formar revolucionários
armados, mas discípulos comprometidos com o Reino de Deus, anunciado por Jesus.
O Reino
que começa quando há pão repartido, justiça, solidariedade, fraternidade e
esperança.
Essa
continua sendo minha maior herança.
Não me
considero um herói dessa história. Fui apenas um jovem que acreditou. Um
figurante que aprendeu com muitos protagonistas.
Mas sei
que, sem a Pastoral da Juventude, talvez eu não tivesse aprendido a olhar o
mundo com os olhos dos pobres e nem compreendido que a fé cristã também possui
uma dimensão social.
Sou, com
orgulho, fruto desse efeito colateral.
E
continuo acreditando que a verdadeira transformação da sociedade começa quando
o Evangelho deixa de ser apenas um livro e passa a orientar nossas escolhas,
nossa maneira de viver e nossa forma de amar o próximo.


