sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Iporá precisa de mais do que boa vontade: precisa de planejamento, números e propostas

 

Iporá precisa de mais do que boa vontade: precisa de planejamento, números e propostas



Por Pedro Claudio

O vice-prefeito de Iporá, Léo Contador, demonstra disposição para participar da vida pública e, ao longo dos últimos meses, passou a fazer críticas e observações sobre a administração municipal. Segundo ele próprio tem deixado transparecer em suas manifestações, existe dificuldade de espaço e de diálogo dentro do governo da prefeita Mayza Cunha.

Não vejo, pelo menos até aqui, um rompimento político formal entre os dois.

Vejo um vice-prefeito que parece estar procurando seu espaço, manifestando opiniões e tentando ser ouvido. E isso não é necessariamente novidade na política. A relação entre prefeitos e vice-prefeitos, em muitos municípios, é marcada justamente por essa dificuldade de definir claramente o papel de quem foi eleito para ser o segundo na linha de comando do Executivo.

O vice não administra diretamente. A responsabilidade constitucional pela condução da Prefeitura é do prefeito. O vice, entretanto, não precisa ser uma figura decorativa. Pode colaborar, fiscalizar politicamente, apresentar ideias, participar do debate público e, principalmente, preparar-se para eventualmente assumir a Prefeitura.

É nesse ponto que acredito que Léo Contador poderia avançar.

Tenho acompanhado algumas de suas manifestações nas redes sociais e percebo críticas e opiniões colocadas, muitas vezes, de maneira cuidadosa. Porém, em minha avaliação, elas ainda permanecem muito no campo das ideias gerais e pouco entram naquilo que realmente interessa ao cidadão: números, prioridades, propostas e caminhos concretos.

E aqui está, talvez, a grande contribuição que um vice-prefeito com formação e conhecimento na área contábil poderia oferecer ao debate.

Cadê os números?

Vamos imaginar uma situação simples.

Se Iporá arrecada, somando transferências constitucionais, FPM, ICMS, receitas próprias, IPTU, ISS, taxas, eventos e demais fontes, determinado volume de recursos durante o ano, quanto efetivamente entra nos cofres municipais?

E quanto a Prefeitura gasta?

Quanto vai para a folha de pagamento?

Quanto custa a saúde?

Quanto custa a educação?

Quanto é destinado à manutenção da cidade?

Quanto está comprometido com contratos, financiamentos, precatórios, fornecedores e outras obrigações?

Existe déficit ou superávit?

Qual é o tamanho da dívida?

Quanto existe de restos a pagar?

Quanto dinheiro está disponível para investimento?

É justamente a partir dessas respostas que se começa a discutir uma administração municipal de maneira séria.

Se existe déficit, por exemplo, a pergunta seguinte não pode ser apenas "quem é o culpado?". É preciso perguntar: onde cortar? O que pode ser reduzido? O que precisa ser renegociado? Onde buscar novos recursos? Quais despesas são indispensáveis? Quais investimentos podem ser adiados? Que recursos podem ser buscados junto ao Governo de Goiás, Governo Federal, deputados, senadores e outras instituições?

Esse é o tipo de debate que Iporá precisa.

Mudança pode ser necessária

Se a situação financeira do município for realmente difícil, talvez seja necessária uma mudança importante na maneira de administrar.

E mudança, muitas vezes, não significa fazer mais. Pode significar gastar melhor, cortar desperdícios, reorganizar estruturas, estabelecer prioridades e, em alguns casos, tomar medidas impopulares.

É preciso ter coragem para fazer aquilo que precisa ser feito para colocar as contas em ordem.

É claro que existe um limite: a Prefeitura não pode deixar de prestar os serviços básicos à população. Saúde, educação, assistência social, limpeza urbana e outros serviços essenciais precisam continuar funcionando.

Mas também não se pode administrar pensando apenas na popularidade do momento.

Populismo pode agradar hoje e produzir uma conta ainda maior amanhã.

Se há um problema financeiro, ele precisa ser enfrentado. Se há dinheiro, é preciso mostrar onde está sendo aplicado. Se não há dinheiro, é preciso explicar por quê.

E a Prefeitura?

Essa cobrança, entretanto, não deve ser dirigida somente ao vice-prefeito.

A prefeita Mayza Cunha também tem responsabilidade de apresentar à população, com clareza, a situação encontrada e os resultados da administração.

A prefeita já afirmou que realizou uma espécie de diagnóstico da Prefeitura, que contratou equipe para analisar a situação administrativa e financeira e que está trabalhando para colocar o município no caminho que considera correto.

Muito bem.

Mas o cidadão precisa saber mais.

Dizer que "Deus está ajudando", que "estamos no caminho certo" ou que "Iporá é o povo que quer" pode fazer parte do discurso político. Mas administração pública precisa ir além das frases de efeito.

É preciso mostrar.

Quanto foi encontrado? Quanto existe hoje? O que foi feito? Quanto custou? O que ainda precisa ser feito? Qual é a meta? Qual é o prazo?

Isso vale para a prefeita e vale para o vice-prefeito.

Comunicação também é gestão

Existe ainda outro problema que considero importante: a comunicação da Prefeitura com a população.

Comunicação pública não pode ser apenas divulgação de inaugurações, eventos, obras e ações administrativas.

Comunicação pública também é prestação de contas.

O cidadão precisa saber quais obras estão em andamento, quanto custam, de onde veio o dinheiro, qual é o prazo de conclusão e quais dificuldades estão sendo encontradas.

Precisa saber quais problemas foram identificados na saúde, na educação, na infraestrutura e nas finanças e o que está sendo feito para resolvê-los.

E isso precisa chegar à população não apenas pelas redes sociais oficiais.

A imprensa local continua tendo papel fundamental.

Uma entrevista coletiva, uma prestação de contas periódica, uma conversa aberta com rádios, jornais e outros meios de comunicação poderiam contribuir muito para aproximar a Prefeitura da população.

Uma sugestão ao vice-prefeito

Por isso, como jornalista e também como cidadão que acompanha a vida pública de Iporá há muitos anos, faço uma sugestão ao vice-prefeito Léo Contador.

Se existe uma visão diferente sobre os caminhos da administração municipal, apresente essa visão de maneira concreta à população.

Não precisa ser um documento complicado, cheio de termos técnicos.

Pode ser algo simples:

Qual é o problema?
Qual é a proposta?
Qual é a prioridade?
Quanto custa?
De onde virão os recursos?
Qual é o prazo?
E como a população poderá acompanhar o resultado?

Isso seria muito mais forte do que uma sequência de críticas ou mensagens genéricas nas redes sociais.

E, principalmente, permitiria que a população pudesse avaliar as ideias do vice-prefeito e compará-las com aquilo que está sendo feito pela atual administração.

Começo, meio e fim

Tenho ouvido muito a expressão "começo, meio e fim".

Na administração pública, eu traduziria essa expressão por uma palavra: planejamento.

Planejamento significa saber onde estamos, definir onde queremos chegar, estabelecer prioridades, calcular quanto será necessário investir, definir prazos e, depois, avaliar se o resultado foi alcançado.

Então, quais são hoje, na avaliação do vice-prefeito, os principais problemas de Iporá?

Como melhorar a saúde pública?

Como melhorar a educação?

O que fazer pela infraestrutura urbana e pelas estradas?

Como gerar oportunidades de emprego e renda?

Como melhorar a arrecadação sem simplesmente aumentar impostos?

Como reduzir despesas sem prejudicar os serviços essenciais?

Como recuperar a capacidade de investimento do município?

E, principalmente, qual é o projeto de cidade que está sendo proposto para os próximos anos?

Essas são perguntas que merecem respostas.

Política também é escolha

Apoiar deputados estaduais e federais também faz parte da política. É legítimo que Léo Contador tenha seus candidatos e peça votos para eles.

Mas nós, eleitores, precisamos ir além da escolha de nomes.

Precisamos perguntar:

O que esses deputados podem trazer para Iporá?

Quais recursos serão destinados ao município?

Quais projetos vão defender?

Quais compromissos assumirão?

E qual é o projeto político-administrativo daqueles que pretendem liderar Iporá?

A população não deveria escolher apenas pessoas. Deveria escolher também propostas e projetos.

Por isso, a cobrança que faço aqui não é apenas ao vice-prefeito Léo Contador. É também à prefeita Mayza Cunha, aos vereadores, aos deputados que representam Iporá e a todos aqueles que pretendem exercer algum papel de liderança política no município.

Precisamos sair do discurso abstrato e entrar no terreno dos fatos.

Iporá precisa, sim, de sonhos.

Mas sonho sem planejamento vira promessa.

Precisa de boa vontade.

Mas boa vontade sem ação produz pouca coisa.

Precisa de recursos.

Mas dinheiro sem planejamento pode ser desperdiçado.

E precisa, sobretudo, de transparência para que o cidadão possa acompanhar, cobrar e avaliar.

Se existe um problema financeiro, que se mostrem os números.

Se existem soluções, que sejam apresentadas.

Se é necessário cortar, que se explique onde e por quê.

Se é possível buscar recursos, que se diga onde e como.

Se existem resultados, que sejam demonstrados.

Iporá não precisa apenas de quem diga que quer uma cidade melhor. Precisa de quem consiga explicar, com clareza, como pretende construí-la.

Esse debate não deveria ser uma disputa entre Mayza e Léo.

Deveria ser uma discussão sobre Iporá.

E, nesse debate, a população merece ouvir menos frases prontas e mais números, propostas, planejamento, transparência e resultados.

 


quinta-feira, 10 de setembro de 2026

 

CORREMOS O RISCO DE UM GOVERNO TEOCRÁTICO?

Por Pedro Claudio

Estamos vivendo um período de intensa disputa política e eleitoral no Brasil. E, nesse ambiente, há uma questão que merece ser discutida com serenidade, sem preconceito contra nenhuma religião e, ao mesmo tempo, sem ingenuidade: corremos o risco de transformar a fé religiosa em instrumento de poder político?

Muita gente ouve falar em teocracia, mas talvez não saiba exatamente o que significa. De maneira simples, teocracia é um sistema de governo no qual a autoridade política está vinculada à autoridade religiosa, e as decisões do Estado são justificadas ou legitimadas como expressão da vontade de Deus ou de uma autoridade religiosa.

E aqui está uma das grandes questões: quem interpreta a vontade de Deus?

Porque Deus não assina decretos, não participa de eleições e não ocupa uma cadeira no Parlamento. Quem fala em nome de Deus são seres humanos. E seres humanos podem interpretar a fé de maneiras diferentes, de acordo com sua formação, seus interesses, suas convicções e, algumas vezes, até seus projetos de poder.

É preciso reconhecer que a participação de pessoas religiosas na política é legítima. Um cristão, um judeu, um muçulmano, alguém de religião de matriz africana ou de qualquer outra tradição tem o mesmo direito de participar da vida pública.

O problema começa quando alguém passa a dizer: “Eu tenho Deus do meu lado; portanto, quem discorda de mim está contra Deus.”

Nesse momento, a discussão política deixa de ser sobre propostas, políticas públicas e projetos para o país e passa a ser apresentada como uma disputa entre o bem e o mal, entre os escolhidos por Deus e os supostos inimigos de Deus.

A história mostra que isso pode ser extremamente perigoso.

Em diferentes lugares do mundo, grupos políticos e religiosos já justificaram perseguições, violência e até guerras em nome de uma suposta vontade divina. Não é a religião, por si só, que produz a violência. O perigo está quando a fé é transformada em instrumento de dominação e quando alguém se apresenta como dono exclusivo da verdade religiosa.

E no Brasil precisamos estar atentos.

Expressões como “Deus, Pátria e Família” podem representar, para muitas pessoas, valores sinceros. Não há nada de errado em defender Deus, a pátria ou a família. O problema surge quando essas palavras são utilizadas como uma espécie de selo de legitimidade política: como se determinado candidato ou grupo fosse o representante de Deus na Terra e, por consequência, seus adversários fossem inimigos da pátria, da família ou da própria fé.

Uma eleição não pode se transformar em uma guerra santa.

O Brasil é um Estado democrático e constitucionalmente laico. Isso significa que o Estado não pertence a uma religião. Pessoas religiosas têm plena liberdade para professar sua fé, participar da política e defender suas convicções. Mas o Estado deve garantir liberdade também para quem pensa diferente.

E esse cuidado é ainda mais importante quando observamos o crescimento da intolerância religiosa, inclusive contra religiões de matriz africana.

Se somos realmente uma sociedade que acredita na liberdade religiosa, precisamos defendê-la para todos — inclusive para aqueles cuja fé não compreendemos ou com a qual não concordamos.

Eu sou cristão e católico. E acredito que uma sociedade de maioria cristã deveria ser uma sociedade marcada pelo amor ao próximo, pela solidariedade, pelo respeito à dignidade humana e pela preocupação com os pequenos.

É isso que encontro no ensinamento de Cristo.

Mas existe uma contradição que precisa ser enfrentada: muitas vezes, aqueles que falam mais alto em nome de Deus acabam defendendo justamente os interesses dos mais poderosos, enquanto os pobres continuam sendo lembrados principalmente na hora de pedir o voto.

Não podemos aceitar que o cidadão pobre seja tratado apenas como eleitor, como número ou como instrumento de disputa política.

Se a fé cristã deve inspirar alguma coisa na vida pública, que seja o compromisso com a justiça, com os pobres, com os vulneráveis, com a verdade e com o bem comum.

Por isso, neste momento de disputa eleitoral, é preciso muito cuidado.

Não devemos ter medo de quem tem fé. Devemos ter cuidado é com quem transforma a própria interpretação da fé em instrumento absoluto de poder.

Político não é sacerdote. Sacerdote não é político. E nenhum candidato recebe de Deus um mandato para governar acima das instituições, das leis e da Constituição.

Democracia exige limites, respeito ao contraditório, liberdade religiosa, liberdade de consciência e instituições independentes.

Então, gente, o que fazer?

Pensar. Questionar. Estudar. Pesquisar. Ouvir opiniões diferentes. Desconfiar de quem promete soluções fáceis e, principalmente, de quem tenta transformar adversários políticos em inimigos de Deus.

Fé não deve impedir ninguém de pensar.

Ao contrário: uma fé madura pode caminhar lado a lado com a razão, com a ciência, com a democracia e com o respeito à diversidade.

Que cada brasileiro possa votar de acordo com sua consciência.

E que Deus, seja qual for a nossa maneira de compreender Deus, nos ajude a não entregar a ninguém o direito de falar em seu nome como se fosse dono da verdade.

Porque Deus não precisa de donos. E a democracia também não.

 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Rádio Rio Claro: quatro décadas acompanhando a transformação do rádio

 

Rádio Rio Claro: quatro décadas acompanhando a transformação do rádio


Por Pedro Claudio

A história da Rádio Rio Claro, de Iporá, Goiás, pioneira na comunicação radiofônica do Oeste Goiano, é também a história da transformação tecnológica do rádio no Brasil. Faço parte dessa história desde 1987 e, ao longo de quase quatro décadas, acompanhei de perto mudanças que transformaram não apenas os equipamentos, mas também a maneira de produzir, transmitir e ouvir rádio.

Criada em 1980, a Rádio Rio Claro começou sua trajetória na faixa AM, inicialmente em 1.580 kHz, passando posteriormente para 760 kHz. Era outro rádio. A operação era predominantemente analógica, muito mais manual e dependente da presença física do profissional em cada etapa da programação.

Não havia a facilidade dos computadores, dos sistemas de automação, da internet ou dos aplicativos. O rádio era feito com equipamentos, discos, fitas, microfones, mesas de áudio e muita operação manual.

A potência da emissora também foi sendo ampliada. Começou com aproximadamente 1 mil watts no AM, posteriormente chegou a 5 mil watts e, anos depois, veio uma das maiores transformações de sua história: a migração para o FM 91,9 MHz.

Agora, a Rádio Rio Claro dá mais um passo importante nessa trajetória.

A emissora está operando com maior alcance e melhor qualidade de sinal, após a elevação de sua classe para A3 e a substituição da antena de transmissão. A licença da Anatel registra a Rádio Rio Claro em 91,9 MHz, canal 220, classe A3, com a estação instalada no Morro da TV, na zona rural de Iporá.

A nova estrutura de transmissão representa mais uma mudança significativa na história da emissora. A antena deixou a região do Lago Pôr do Sol e foi instalada em uma área de maior altitude, em um morro próximo ao aeroporto da cidade.

A estação atualmente possui transmissão omnidirecional, com antena de polarização circular e centro de irradiação a 45 metros, conforme consta na licença de funcionamento.

Mas a evolução da Rádio Rio Claro não aconteceu somente na antena.

Mudou a maneira de produzir rádio. Mudou a maneira de transmitir. E mudou, principalmente, a maneira de ouvir.

Na década de 1980, a programação musical dependia dos tradicionais discos de vinil. Depois vieram as fitas, os CDs, o MiniDisc e, finalmente, os sistemas digitais.

Lembro de uma época em que escolher uma música significava procurar fisicamente o disco ou o CD, colocá-lo no equipamento e acompanhar toda a operação. Hoje, uma biblioteca musical inteira pode estar armazenada em um computador ou servidor e ser acessada com poucos comandos.

A tecnologia trouxe velocidade, praticidade e novas possibilidades.

Hoje, praticamente toda a operação de uma emissora pode estar integrada a computadores, softwares de automação, servidores e sistemas conectados à internet. A programação, os comerciais, as músicas, os boletins e os conteúdos jornalísticos são organizados digitalmente.

E o ouvinte também mudou.

Ele já não precisa estar diante de um aparelho de rádio para ouvir rádio.

Pode estar no carro, em casa, no trabalho ou em qualquer lugar com acesso à internet. Pode acompanhar a programação pelo receptor convencional, pelo computador, pelo celular, por aplicativos, sites e plataformas de streaming.

O rádio deixou de ser apenas um aparelho sobre a mesa.

Hoje, o rádio está onde está o ouvinte.

E essa talvez seja uma das maiores transformações da radiodifusão: a emissora deixou de depender exclusivamente do alcance de sua onda para chegar ao público. O sinal continua sendo fundamental, mas passou a conviver com um universo digital que permite ampliar a presença da rádio para muito além de sua área tradicional de cobertura.

É uma transformação tecnológica, mas também uma transformação cultural.

E agora surge uma nova fronteira: a inteligência artificial.

A IA começa a entrar no universo da comunicação e da radiodifusão, oferecendo possibilidades para produção, organização de conteúdos, edição, transcrição, análise de audiência e diversas outras tarefas.

Mas toda inovação tecnológica também exige responsabilidade.

A tecnologia pode facilitar a comunicação, mas não substitui o conhecimento, a sensibilidade, a ética e a responsabilidade de quem comunica.

Porque, no final das contas, não basta ter equipamentos modernos, um sinal potente, computador de última geração, aplicativo, internet ou inteligência artificial.

É preciso ter o que dizer.

É preciso saber para quem dizer.

E, principalmente, é preciso saber por que dizer.

É aí que começa uma reflexão necessária para todos nós que trabalhamos na Rádio Rio Claro.

O que queremos comunicar?

O que significa evangelizar através do rádio?

Como podemos ser mais atrativos para o público sem perder nossa identidade?

Estamos conseguindo dialogar com as novas gerações?

Estamos ouvindo o nosso ouvinte ou apenas falando para ele?

Essas são perguntas que precisam fazer parte do nosso cotidiano.

Todos nós, trabalhadores da comunicação, precisamos estar ligados aos objetivos da emissora, mas também precisamos estar atentos às mudanças do mundo. O público mudou. Os hábitos mudaram. A linguagem mudou. A tecnologia mudou.

E se tudo mudou, nós também precisamos mudar.

Não significa abandonar a história ou aquilo que deu identidade à Rádio Rio Claro. Significa compreender que tradição não pode ser confundida com imobilismo.

A missão permanece: comunicar, informar e evangelizar.

Mas a forma de cumprir essa missão precisa acompanhar o seu tempo.

Existe uma frase que resume uma inquietação que considero fundamental: nada é mais triste do que existir sem produzir efeito.

Na comunicação, esse efeito precisa aparecer.

É necessário haver feedback, retorno, participação, resposta.

Uma rádio que fala, mas não sabe se está sendo ouvida, precisa parar e refletir.

A comunicação não pode ser autoritária. Não pode ser manipuladora. Não pode simplesmente impor uma visão ao público.

Comunicar é também estabelecer uma relação.

É falar, mas também ouvir.

É informar, mas também permitir o diálogo.

É apresentar ideias, provocar reflexão e, quando necessário, direcionar para aquilo que consideramos importante, sem retirar do ouvinte sua capacidade de pensar e decidir.

Caso contrário, corremos o risco de produzir apenas barulho.

E aqui cabe lembrar a imagem utilizada pelo apóstolo Paulo ao falar do sino que soa: muito ruído, mas sem significado quando falta aquilo que realmente dá sentido à comunicação.

Esse é um risco que nenhuma emissora pode ignorar.

Não basta ocupar o espaço.

É preciso fazer diferença.

A Rádio Rio Claro tem uma história construída ao longo de mais de quatro décadas. Uma história feita por profissionais, comunicadores, técnicos, gestores e tantos colaboradores que ajudaram a construir essa emissora.

Eu mesmo faço parte dessa caminhada desde 1987.

Por isso, acompanhar mais essa mudança tecnológica não é apenas observar uma nova antena ou uma melhoria no sinal.

É olhar para trás e perceber o tamanho da transformação.

Da AM 1.580 para a AM 760.

Da potência inicial aos 5 mil watts.

Do AM para o FM 91,9.

Do vinil para o CD.

Do CD para o MiniDisc.

Do MiniDisc para o computador.

Do rádio convencional para o aplicativo, a internet e o streaming.

E agora, diante de nós, a inteligência artificial e uma nova geração de tecnologias que ainda estamos começando a compreender.

São mais de quatro décadas de mudanças, mas uma coisa permanece: a necessidade humana de comunicação.

O rádio muda.

A tecnologia muda.

Os hábitos do público mudam.

Mas a necessidade de informação, companhia, serviço, cultura, proximidade e sentido continua.

Por isso, celebrar uma nova etapa tecnológica da Rádio Rio Claro deve ser também uma oportunidade para olhar para dentro e perguntar:

Que rádio queremos ser daqui para frente?

Uma rádio que apenas transmite?

Ou uma rádio que participa da vida das pessoas?

Uma rádio que fala?

Ou uma rádio que também sabe ouvir?

Uma rádio que acompanha a tecnologia?

Ou uma rádio que compreende as transformações do seu público?

A nova antena melhora o sinal.

A tecnologia amplia o alcance.

A internet multiplica as possibilidades.

Mas quem realmente amplia o alcance de uma emissora é a credibilidade, a qualidade do conteúdo e a capacidade de estabelecer uma relação verdadeira com quem está do outro lado.

Que a Rádio Rio Claro continue fazendo aquilo que sempre fez: comunicando, informando, evangelizando e participando da vida da comunidade.

Mas que nunca deixe de fazer a pergunta mais importante para qualquer meio de comunicação:

Estamos realmente fazendo efeito?

Porque uma emissora não existe apenas para emitir sinais.

Existe para alcançar pessoas.

E, quando alcança pessoas, precisa deixar alguma coisa: uma informação, uma reflexão, uma esperança, uma orientação, uma companhia ou simplesmente a certeza de que alguém está ali.

A Rádio Rio Claro tem história.

Tem memória.

Tem desafios.

E tem futuro.

Uma emissora com mais de quatro décadas de história, mas que precisa continuar com os olhos e os ouvidos voltados para o futuro.

 


domingo, 6 de setembro de 2026

O Fenômeno Neopentecostal e a Mercantilização da Fé

 


O Fenômeno Neopentecostal e a Mercantilização da Fé

Por Pedro Claudio

A relação entre religião, economia e poder político no Brasil passou por uma transformação radical nas últimas décadas. O avanço das denominações neopentecostais ressignificou a dogmática tradicional, dando lugar à Teologia da Prosperidade. Sob essa lógica, a prosperidade material deixa de ser encarada como tentação e passa a ser divulgada como prova direta de bênção divina.

Para compreender essa engrenagem complexa, é necessário analisar as dinâmicas sociais, financeiras e partidárias que moldam o ecossistema religioso atual. Em A Ética Protestante e o "Espírito" do Capitalismo, Max Weber (2004) expõe a gênese da relação entre fé e economia, demonstrando como o ascetismo do protestantismo de matriz calvinista via o trabalho árduo como vocação e dever, encarando a riqueza como fruto indireto dessa disciplina religiosa, mas condenando o luxo e o gozo ostentoso. No neopentecostalismo contemporâneo, no entanto, essa concepção original é subvertida: a riqueza descola-se da ética do trabalho e transforma-se no próprio objeto de fé e em barganha divina (Mariano, 1999).


1. A Visibilidade dos Grandes Templos e o Luxo das Lideranças

A construção de megatemplos de arquitetura suntuosa cumpre um papel estratégico: serve como vitrine corporativa de poder e prosperidade. O espetáculo do gigantismo funciona como validação do discurso religioso — a imponência do templo sugere o sucesso da doutrina.

Da mesma forma, o estilo de vida ostentoso de certas lideranças (veículos de luxo, vestuários de grife e mansões) é apresentado aos fiéis não como desvio, mas como o resultado prático da fé que pregam. O líder atua como o modelo do que o crente pode vir a alcançar se mantiver suas contribuições em dia, operando dentro daquilo que o sociólogo Ricardo Mariano (1999) define como a transação mágica da Teologia da Prosperidade, em que as doações financeiras tomam a forma de "sementes" para a colheita de milagres materiais.

2. A Realidade Demográfica: Quem Realmente Frequenta as Igrejas?

Diferente da percepção de que o cristianismo de mercado atrai majoritariamente elites, dados demográficos do IBGE e de pesquisas sociológicas indicam o oposto. A expansão evangélica no Brasil ocorre com mais força nas periferias urbanas, entre a população de menor renda, mulheres e pessoas negras.

  • Perfil socioeconômico: As igrejas de bairro crescem justamente onde o Estado é ausente, preenchendo lacunas de infraestrutura e serviços básicos (Machado, 2006).
  • Rede de apoio: Como observa a antropóloga Christina Vital da Cunha (2015), esses espaços oferecem pertencimento, acolhimento comunitário, auxílio social direto e redes de solidariedade para famílias em situação de vulnerabilidade.
  • A ilusão da atração das elites: Embora a alta cúpula acumule riqueza e capital político, a base de fiéis permanece predominantemente trabalhadora e de baixa renda.

3. Instituições Financeiras e a Formação de Impérios Econômicos

A criação de estruturas financeiras, meios de comunicação e bancos ligados a grandes grupos religiosos reflete a profissionalização do setor. Diante de movimentações bilionárias provenientes de dízimos, ofertas e doações, a criação de serviços financeiros próprios reduz custos bancários, garante sigilo na gestão de ativos e permite rentabilizar o capital arrecadado. O templo deixa de atuar apenas como espaço de culto e passa a operar nos moldes de uma holding empresarial (Campos, 1997).

4. A Bancada Evangélica e a Ocupação da Política

A presença massiva de lideranças religiosas em cargos legislativos e executivos responde a dois objetivos centrais:

  • Proteção de interesses corporativos: Garantia da manutenção de imunidades tributárias, facilitação de outorgas de rádio e TV e defesa do patrimônio das instituições (Lacerda, 2018).
  • Pauta de costumes: Mobilização do eleitorado de base através de pânicos morais e agendas conservadoras, convertendo o capital espiritual do púlpito em votos nas urnas.

A Alienação na Era Digital e as Lições da História

A ascensão dos impérios da fé evidencia como certas estruturas instrumentalizaram as necessidades das classes populares para consolidar um projeto de poder financeiro e político. Enquanto a base busca amparo espiritual e econômico diante das incertezas da vida diária, a cúpula converte a fé em um mercado altamente rentável e influente.

Nestes novos tempos, a grande massa de fiéis consome conteúdos fragmentados em redes sociais (Facebook, Instagram, TikTok e grupos de WhatsApp). Esse ecossistema digital torna-se a chave de acesso para manipuladores. Sem uma leitura crítica da realidade e dos textos sagrados, multidões são facilmente convencidas de que infortúnios financeiros ou pessoais são "pecados" resultantes da falta de dízimos e ofertas.

Esse cenário de alienação em que a população aplaude seus próprios exploradores remete à clássica política do Panem et Circenses (Pão e Circo), formulada pelo poeta romano Juvenal em suas Sátiras (Sátira X), referente ao controle das massas mediante distrações superficiais e migalhas materiais em vez de cidadania real.

Historicamente, o acúmulo desmedido de privilégios e a exploração da fé e da miséria costumam gerar rupturas. Como demonstrado por historiadores como Eric Hobsbawm (1996) e Georges Lefebvre (1989), a Revolução Francesa (1789) eclodiu justamente em resposta aos abusos da nobreza e ao peso dos impostos sobre o Terceiro Estado, enquanto o Primeiro Estado (o Clero) mantinha terras, isenções e dízimos compulsórios.

Na atualidade, a ausência de reflexão crítica, aliada à desinformação das redes sociais, anestesia a sociedade para que continue reverenciando seus próprios algozes, esquecendo-se de que o acúmulo descontrolado de poder e riqueza em nome do sagrado é uma fórmula histórica de opressão.


Referências Bibliográficas Sugeridas

  • CAMPOS, Leonildo Silveira. Teatro, Templo e Mercado: organização e marketing de um empreendimento neopentecostal. Petrópolis: Vozes, 1997.
  • CUNHA, Christina Vital da. Oração de Traficante: religião e poder na periferia do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Garamond, 2015.
  • HOBSBAWM, Eric. A Era das Revoluções: 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
  • JUVENAL. Sátiras. (Sátira X — sobre a expressão "Pão e Circo").
  • LACERDA, Fabio. Evangélicos na Política Brasileira: representação e diversidade. São Paulo: Alameda, 2018.
  • LEFEBVRE, Georges. A Revolução Francesa. São Paulo: IBRASA, 1989.
  • MACHADO, Maria das Dores Campos. Política e Religião: a participação dos evangélicos nas eleições. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2006.
  • MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: Sociologia do novo pentecostalisno no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 1999.
  • WEBER, Max. A Ética Protestante e o "Espírito" do Capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Quando a emoção vence a razão

 

Quando a emoção vence a razão



Por Pedro Claudio

Estamos vivendo um dos períodos mais confusos da história política brasileira recente. Não apenas pela quantidade de denúncias, investigações e disputas de poder, mas, principalmente, pela dificuldade que estamos tendo de separar fatos de narrativas, convicções de interesses e, sobretudo, emoção de razão.

Um episódio revelado nesta semana chama a atenção. O ex-banqueiro Daniel Vorcaro afirmou, em uma proposta de delação premiada, que as doações de R$ 3 milhões para a campanha de Jair Bolsonaro e de R$ 2 milhões para a campanha de Tarcísio de Freitas, em 2022, teriam sido, na realidade, propina disfarçada de contribuição eleitoral. Segundo o relato, os recursos estariam relacionados a uma negociação envolvendo a manutenção do Credcesta, serviço de crédito consignado para servidores públicos.

É preciso fazer uma ressalva fundamental: a declaração de Vorcaro é uma acusação, não uma verdade judicialmente comprovada. Sua proposta de delação foi rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República por falta de fatos novos ou provas suficientes. Os citados também negam as acusações.

Mas o episódio levanta uma discussão que vai muito além de Vorcaro, Bolsonaro, Tarcísio ou qualquer outro personagem.

Para que alguém coloca milhões de reais em uma campanha eleitoral?

A resposta pode ser absolutamente legítima: acreditar em um projeto, defender uma determinada visão de país ou apoiar um candidato. E a legislação brasileira reconhece a possibilidade de doações de pessoas físicas, estabelecendo regras e limites. Para as eleições de 2026, por exemplo, o TSE mantém o limite de 10% dos rendimentos brutos do doador no ano anterior à eleição.

Portanto, doação eleitoral não é, por si só, propina.

O problema começa quando uma contribuição financeira deixa de ser uma manifestação legítima de apoio político e passa a funcionar como moeda de troca por uma vantagem futura. Aí estamos diante de algo completamente diferente: dinheiro privado buscando influência sobre decisões públicas.

E talvez seja exatamente aí que esteja uma das grandes doenças da política brasileira: a dificuldade de enxergar que, muitas vezes, quem financia o poder também espera alguma coisa dele.

Mas existe uma questão ainda mais profunda.

O discurso religioso e a prática

Tenho escrito sobre isso porque é algo que me incomoda profundamente como cidadão e como alguém que, durante tantos anos, conviveu diariamente com pessoas, ouvindo suas histórias, suas dores, suas esperanças e suas contradições.

Estamos vendo crescer uma política que utiliza a religião, especialmente o discurso cristão, como instrumento de mobilização.

Não há absolutamente nada de errado em um cristão participar da política. Pelo contrário. A fé também pode inspirar a defesa da justiça, da solidariedade, da honestidade e da dignidade humana.

O problema aparece quando a religião passa a ser utilizada apenas como ferramenta de convencimento, enquanto determinados comportamentos e propostas entram em contradição com os próprios valores que o discurso religioso afirma defender.

É preciso ter coragem para fazer uma pergunta simples:

Será que estamos comparando aquilo que nossos líderes políticos dizem com aquilo que efetivamente defendem e praticam?

Ou estamos apenas aplaudindo aquilo que confirma nossas crenças?

É aí que a emoção pode se tornar perigosa.

Um discurso inflamado, uma frase de efeito, uma passagem bíblica, uma história emocionante ou uma imagem cuidadosamente produzida nas redes sociais podem criar uma identificação tão forte que muitas pessoas deixam de fazer a pergunta mais importante da democracia:

“Isso que estão propondo é realmente bom para mim, para minha família e para o país?”

O paradoxo do pobre que vota contra seus próprios interesses

É uma das contradições que mais me intrigam.

O trabalhador que recebe um salário mínimo — hoje de R$ 1.621 — enfrenta o preço da comida, do aluguel, do transporte, da energia elétrica e dos medicamentos.

E, muitas vezes, esse mesmo trabalhador é convencido a concentrar sua preocupação política exclusivamente em determinadas pautas morais, enquanto questões que interferem diretamente na sua vida — educação, emprego, salário, saúde, aposentadoria, moradia e segurança — ficam em segundo plano.

Não estou dizendo que valores morais não sejam importantes. São.

Estou dizendo que uma sociedade não pode discutir apenas aquilo que provoca indignação emocional e esquecer aquilo que determina a qualidade de vida das pessoas.

Veja o caso da juventude.

Em junho deste ano, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou a admissibilidade de uma proposta que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. A proposta ainda precisa cumprir outras etapas de tramitação e, portanto, não virou lei.

Podemos discutir se um adolescente que comete um crime grave deve ou não responder de maneira diferente. É um debate legítimo.

Mas também deveríamos perguntar:

O que estamos oferecendo a esse jovem antes que ele entre para o crime?

Educação de qualidade?

Formação profissional?

Primeiro emprego?

Esporte?

Cultura?

Perspectiva de futuro?

Os números mostram que o problema é muito mais complexo. Segundo o IBGE, em 2024, entre os homens de 15 a 29 anos que abandonaram a escola antes de concluir o ensino médio, a principal razão apontada foi a necessidade de trabalhar.

E existe outro dado que deveria nos fazer pensar: em 2024, o Brasil tinha cerca de 1,65 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil. Entre os adolescentes de 16 e 17 anos, a proporção em situação de trabalho infantil chegou a 15,3%.

Então eu pergunto:

É mais fácil defender que um jovem de 16 anos seja punido como adulto ou construir uma sociedade que ofereça a ele educação, oportunidade e trabalho digno?

Talvez a segunda opção não produza aplausos imediatos.

Talvez não renda vídeos virais.

Talvez não provoque multidões emocionadas.

Mas pode produzir cidadãos.

E o cristianismo nisso tudo?

É aqui que a contradição se torna ainda maior.

Há cristãos que se mobilizam intensamente contra o aborto — uma posição que merece ser respeitada dentro do debate democrático — mas, ao mesmo tempo, defendem discursos de violência e até a ideia de que determinadas pessoas deveriam ter o direito de matar quem considera um inimigo.

Como conciliar essas duas coisas?

Como defender a vida em uma situação e relativizá-la em outra?

Como falar em amor ao próximo e transformar adversários políticos em inimigos?

Como defender a família e, ao mesmo tempo, aceitar a mentira, a corrupção, a intolerância ou a violência simplesmente porque quem pratica essas coisas está do “nosso lado”?

O próprio Evangelho deveria ser utilizado como régua para medir todos — inclusive aqueles de quem gostamos.

Não apenas os adversários.

Talvez este seja o nosso maior problema

Não é apenas a esquerda.

Não é apenas a direita.

Não é Bolsonaro.

Não é Lula.

Não é o Congresso.

Não é o Supremo.

Somos nós também.

Nós, cidadãos, temos responsabilidade quando aceitamos qualquer coisa de nosso grupo e condenamos a mesma coisa quando praticada pelo grupo adversário.

A corrupção do meu político vira “erro”.

A corrupção do adversário vira “crime”.

A mentira do meu candidato vira “estratégia”.

A mentira do outro vira “prova de caráter”.

A violência praticada pelo meu lado é “reação”.

A violência praticada pelo outro é “barbárie”.

Esse comportamento não é defesa da democracia.

É torcida organizada.

E democracia não pode ser torcida.

Democracia exige cidadãos capazes de dizer:

“Meu lado também pode estar errado.”

Talvez precisemos recuperar algo que parece estar desaparecendo: a capacidade de ouvir, desconfiar, conferir, comparar e pensar.

Antes de compartilhar, verificar.

Antes de aplaudir, perguntar.

Antes de condenar, conhecer.

Antes de votar, analisar.

E, principalmente, antes de dizer que alguém representa nossos valores, comparar o discurso dessa pessoa com aquilo que ela efetivamente defende.

Porque quando a emoção vence completamente a razão, deixamos de ser cidadãos críticos e passamos a ser seguidores.

E uma sociedade de seguidores é terreno fértil para qualquer tipo de líder — inclusive para aqueles que, depois de conquistarem o poder, descobrem que podem fazer quase tudo porque seus seguidores continuarão aplaudindo.

A política precisa de convicções, sim.

A religião precisa de fé, sim.

Mas uma democracia precisa, acima de tudo, de consciência.

E consciência exige uma coisa que parece cada vez mais rara:

pensar antes de aplaudir.

Tenho dito.