segunda-feira, 8 de junho de 2026

Padre Pablo Henrique utiliza redes sociais para defender catequese mais sólida e posições conservadoras

 

Padre Pablo Henrique utiliza redes sociais para defender catequese mais sólida e posições conservadoras


O padre Pablo Henrique, ordenado sacerdote pela então Diocese de São Luís de Montes Belos — atualmente pertencente à Diocese de Itumbiara — e médico de formação, tornou-se uma das figuras religiosas mais atuantes nas redes sociais da região. Com presença constante no Instagram e Facebook, suas publicações alcançam milhares de pessoas e despertam reações distintas: é amplamente aplaudido por muitos fiéis, mas também alvo de críticas e, por vezes, de incompreensão.

Um dos aspectos mais marcantes de sua trajetória é a decisão de abandonar a carreira médica, tradicionalmente considerada uma profissão de grande estabilidade e boa remuneração, para dedicar-se integralmente ao sacerdócio. A escolha é frequentemente associada ao ideal cristão de renúncia. O bispo que o ordenou, Dom Carmelo Scampa, hoje bispo emérito, costumava relativizar o destaque dado ao fato de Pablo ter deixado a medicina, argumentando que todo padre, ao atender ao chamado vocacional, deixa para trás projetos, bens e oportunidades para servir à Igreja.

Além da atividade evangelizadora, Padre Pablo manifesta posicionamentos públicos sobre temas políticos, culturais e religiosos. Em suas redes sociais, costuma criticar o Partido dos Trabalhadores (PT) e setores da esquerda, associando essas correntes a pautas como a descriminalização do aborto, a discussão sobre identidade de gênero e uma visão de sociedade que, segundo ele, diverge dos princípios tradicionais do catolicismo. Em sentido oposto, representantes e simpatizantes desses grupos rejeitam essa caracterização, sustentando que tais associações fazem parte do embate político e ideológico contemporâneo.

O sacerdote também não evita fazer críticas à própria Igreja quando entende que determinadas práticas precisam ser revistas. Enquanto esteve à frente da Paróquia São Paulo VI, em Iporá, por exemplo, não aderiu à Campanha da Fraternidade, promovida anualmente pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A iniciativa costuma abordar temas sociais e de promoção da dignidade humana, mas, na visão de Padre Pablo, determinadas abordagens podem afastar a atenção da formação doutrinária e sacramental dos fiéis.

Uma de suas publicações mais recentes provocou debates ao abordar a situação da catequese. Nela, o sacerdote questiona uma frase frequentemente repetida nos ambientes pastorais de que "catequese não é aula" e que "catequista não é professor". Em tom crítico, ele pergunta: "Então, o que é?".

Segundo Padre Pablo, um dos grandes problemas enfrentados pela Igreja na atualidade é a falta de conhecimento sobre a própria fé. Em sua análise, muitas pessoas afirmam que a missa é cansativa ou pouco atrativa porque não compreendem seu verdadeiro significado. Para ele, grande parte dos fiéis desconhece a riqueza da liturgia, o sentido das músicas, a dimensão espiritual da celebração e a presença real de Cristo na Eucaristia.

O sacerdote também critica a utilização de recursos teatrais durante as celebrações, argumentando que, em alguns casos, o espetáculo acaba se sobrepondo ao caráter sagrado e sacrificial da missa. Na sua avaliação, quando as pessoas destacam apenas que a celebração foi "bonita" ou divertida, isso revela uma compreensão limitada daquilo que, para a tradição católica, representa o memorial do sacrifício de Cristo.

Na reflexão divulgada, Padre Pablo sustenta que a pequena incidência de conversões profundas decorre justamente da deficiência na formação religiosa. Em sua visão, muitos católicos não sabem participar adequadamente da comunhão nem compreender o sentido espiritual do sacrifício eucarístico.

Ele faz ainda uma comparação com o Antigo Testamento, afirmando que o povo judeu recebia sólida instrução religiosa, embora seus sacrifícios fossem exteriores, baseados na oferta de animais. Já no cristianismo, em que o sacrifício de Cristo é único e definitivo, a participação consciente dos fiéis dependeria de uma catequese consistente, desenvolvida tanto na família quanto na própria comunidade eclesial.

Em uma das passagens que mais repercutiram, Padre Pablo afirma que a atual fragilidade da catequese seria consequência da ação do mal, sustentando que "Satanás destruiu a catequese" ao difundir a ideia de que ela não deve ser encarada como um verdadeiro processo de ensino e aprendizado da fé.

As manifestações do sacerdote reforçam uma característica já conhecida de sua atuação pastoral: a defesa de uma formação religiosa mais tradicional, centrada na doutrina, na liturgia e no aprofundamento do conhecimento da fé católica.

sábado, 6 de junho de 2026

Entre pregadores e influenciadores: a crise da autonomia intelectual.

 

A era dos influenciados

Confesso que às vezes não entendo muito esses tempos atuais. Parece que estamos cercados de pregadores, mentores, coaches, influenciadores e especialistas para tudo. Nas igrejas, multiplicam-se pessoas que afirmam conhecer a vontade de Deus melhor do que qualquer um. Nas redes sociais, surgem diariamente novos "influenciadores", gente que se apresenta como referência para ensinar como viver, pensar, investir, amar, votar ou até mesmo acreditar.

Fico pensando se, em algum momento, perdemos a capacidade de tirar nossas próprias conclusões.

Sou de um tempo em que as pessoas liam livros, jornais, estudavam nas escolas, frequentavam bibliotecas, conversavam nas praças ou nas academias e, a partir disso, construíam suas próprias opiniões. Havia divergências, claro, mas cada um era responsável pelo próprio julgamento. A independência intelectual era quase um valor.

Hoje, parece que muita gente prefere terceirizar o pensamento. Em vez de analisar um fato, espera que alguém faça a interpretação por ela. E há quem tenha descoberto que isso pode ser um excelente negócio. Afinal, quanto maior a dependência do público, maior a audiência, maior a influência e, consequentemente, maior o lucro.

Isso fica ainda mais delicado quando entra no campo da fé. Pessoas pegam textos sagrados, interpretam conforme seus interesses e, não raras vezes, fecham os olhos e dizem: "Deus está me revelando que...". O problema não é a espiritualidade, nem a crença. O problema é quando alguém usa o nome de Deus para transformar opiniões pessoais em verdades absolutas.

E o mais impressionante é que sempre existe quem esteja disposto a seguir, sem questionar, sem refletir, sem confrontar aquilo com a própria consciência ou com aquilo que está escrito.

Talvez a maior crise do nosso tempo não seja a falta de informação. Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento. A verdadeira crise pode ser a falta de autonomia para pensar.

Influenciar pessoas não é necessariamente algo ruim. Professores influenciam, pais influenciam, líderes religiosos influenciam, jornalistas influenciam. O problema começa quando a influência substitui o pensamento crítico.

A liberdade não está apenas em poder falar. Está, principalmente, em poder pensar por conta própria. E isso talvez seja uma das coisas mais valiosas que uma sociedade pode preservar. 

Por Pedro Claudio

sexta-feira, 5 de junho de 2026

A fé que transforma

 

A fé que transforma

Por Pedro Claudio Rosa


Caros amigos de fé,

Manifestar a religiosidade é importante. Para nós, cristãos, especialmente os católicos, participar das celebrações, dos sacramentos e da vida comunitária não é apenas uma tradição, mas um compromisso assumido diante de Deus e da própria consciência.

Entretanto, entre estar presente e ser verdadeiramente participante existe uma distância que merece reflexão.

Posso estar na igreja com o corpo, mas ausente no espírito. Da mesma forma, alguém pode, por circunstâncias da vida, não estar fisicamente presente, mas demonstrar em suas atitudes diárias uma profunda vivência dos valores do Evangelho. Afinal, a fé não se mede apenas pela frequência aos cultos, mas pelos frutos que ela produz.

O próprio Cristo advertiu sobre isso ao condenar a hipocrisia dos fariseus, que exibiam práticas religiosas impecáveis, mas esqueciam da justiça, da misericórdia e do amor ao próximo.

Tenho muitos questionamentos, e posso até estar errado em alguns deles. Mas me pergunto se, às vezes, não damos importância excessiva ao que aparece. Fazemos o melhor para Deus: vestes bonitas, templos ornamentados, objetos sagrados valiosos. Tudo isso pode ter seu significado e sua beleza. Contudo, quando a forma se torna mais importante que o conteúdo, corre-se o risco de alimentar apenas o orgulho humano.

Quantas vezes aquilo que deveria aproximar-nos de Deus acaba fortalecendo o ego? Quantas vezes a prática religiosa é usada como símbolo de superioridade moral, como se quem participa dos ritos estivesse automaticamente acima do bem e do mal?

A filosofia ajuda a pensar essas questões.

Platão ensinava que o mundo sensível, aquilo que vemos e tocamos, é apenas uma sombra da verdadeira realidade, que está no campo das ideias e das virtudes. Em outras palavras, a aparência nunca deve substituir a essência.

Seu discípulo, Aristóteles afirmava que a virtude nasce do hábito. Não basta conhecer o bem; é preciso praticá-lo continuamente. A ética, para ele, não está no discurso, mas na ação.

Séculos depois, Santo Agostinho escreveu que "a medida do amor é amar sem medida". O verdadeiro encontro com Deus não se revela pela exibição pública da fé, mas pela capacidade de amar.

Já São Tomás de Aquino defendia que a fé e a razão caminham juntas. Uma religião sem reflexão pode cair no fanatismo; uma razão sem valores pode perder a humanidade.

Entre os pensadores contemporâneos, Marilena Chaui nos alerta para o perigo das aparências e das ideologias que mascaram a realidade. Muitas vezes, construímos imagens de nós mesmos para sermos admirados, quando deveríamos estar preocupados em sermos melhores.

Também vale recordar as palavras de Friedrich Nietzsche, um crítico severo da moral religiosa quando ela se torna mera formalidade. Sua provocação não era necessariamente contra Deus, mas contra a hipocrisia daqueles que usam a religião como instrumento de poder e superioridade.

Talvez a maior lição venha de Mahatma Gandhi, que dizia: "A melhor maneira de encontrar a si mesmo é perder-se no serviço aos outros."

No fim das contas, a fé verdadeira talvez seja menos visível do que imaginamos. Ela aparece no respeito ao diferente, na honestidade, na solidariedade silenciosa, no cuidado com quem sofre, na capacidade de perdoar e de reconhecer os próprios erros.

Frequentar a igreja é importante. Participar da comunidade é necessário. Mas a religião não pode ser um palco para a vaidade ou um certificado de superioridade moral.

Ninguém é melhor que o outro porque reza mais, canta mais alto ou ocupa um lugar de destaque no templo. A verdadeira grandeza espiritual talvez esteja justamente em quem serve sem aparecer.

Afinal, como ensinou Jesus, "pelos seus frutos os conhecereis".

Que a nossa fé não seja apenas vista, mas sentida. Que não seja apenas proclamada, mas vivida. E que, antes de apontarmos as falhas do próximo, tenhamos a coragem de examinar o próprio coração.

Iporá, 05 de junho de 2026 

 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

O eleitor que aceita ser massa de manobra

 

O eleitor que aceita ser massa de manobra


Chega a temporada mais previsível da política brasileira. É o momento em que muitos candidatos vestem a fantasia de santo, de salvador da pátria, de herói incorruptível, enquanto pintam o adversário como a própria encarnação do mal. A política vira novela barata, com mocinhos e vilões cuidadosamente construídos por marqueteiros.

Nas novelas, o roteiro é fictício. O vilão manipula, mente, engana, e mesmo quando todos enxergam suas artimanhas, ele continua conquistando espaço porque a trama precisa de audiência. Na política, infelizmente, a história se repete. A diferença é que o enredo afeta a vida de milhões de pessoas.

Boa parte dos políticos conhece perfeitamente a fragilidade emocional do eleitorado. Sabem que a paixão política cega, ensurdece e emburrece. O sujeito deixa de analisar propostas, esquece o histórico dos candidatos e passa a agir como torcedor fanático. Não importa o que seu político faça; para ele, sempre haverá uma justificativa. Já o adversário, mesmo quando acerta, será tratado como inimigo.

É assustador perceber o quanto nos deixamos manipular. Um pretenso candidato cria uma crise, joga a responsabilidade no colo do outro e, com a maior cara de pau, faz um discurso moralista, quase sorrindo da ingenuidade dos seus seguidores. E eles aplaudem. Aplaudem porque não querem ouvir a verdade; querem apenas confirmar suas próprias crenças.

A paixão, quando entra na política, costuma expulsar a razão. Quem já se apaixonou sabe disso. Fazemos sacrifícios, ignoramos defeitos e defendemos o indefensável. O problema é que, na política, essa paixão destrói amizades, separa famílias e cria inimigos onde deveriam existir apenas opiniões diferentes.

Enquanto o povo se agride nas redes sociais e nas rodas de conversa, muitos daqueles que alimentam essa guerra dividem a mesma mesa, apertam as mesmas mãos e negociam os mesmos interesses. O cidadão comum vira soldado de uma batalha que não é sua.

Somos, muitas vezes, uma sociedade de memória curta e senso crítico atrofiado. Aceitamos discursos prontos, frases de efeito e falsas narrativas sem o mínimo esforço para questionar. Viramos massa de manobra voluntária, manipulados por quem domina a arte da propaganda e da divisão.

Nenhum político, de qualquer lado, merece que você destrua amizades, rompa laços familiares ou carregue ódio no coração. Ideias devem ser debatidas; pessoas não precisam ser inimigas.

O Brasil não precisa de torcidas organizadas da política. Precisa de cidadãos atentos, críticos e inteligentes. Eleitores capazes de desconfiar de promessas milagrosas, de discursos exageradamente moralistas e daqueles que sempre apontam o dedo para os outros, mas nunca assumem seus próprios erros.

Chegou a hora de deixar a paixão de lado e recuperar a lucidez. O Brasil merece ser tratado com seriedade. E o eleitor também.

Por Pedro Claudio

domingo, 31 de maio de 2026

Fé, Gênesis e as Perguntas que Atravessam os Séculos

 


Por Pedro Claudio Rosa

Há perguntas que acompanham a humanidade desde o início dos tempos. Algumas delas surgem ainda na infância, quando a curiosidade natural das crianças desafia os adultos a encontrar respostas para temas complexos. Durante muito tempo, ao serem questionados sobre a origem dos bebês, muitos pais recorriam à conhecida história da cegonha. Era uma forma simples de adiar uma explicação mais profunda sobre a sexualidade humana.

Com o passar dos anos, as perguntas mudam de dimensão, mas nem sempre se tornam mais fáceis de responder. Entre elas estão aquelas relacionadas à origem do mundo, da vida e do próprio ser humano. Como surgiu a humanidade? Como interpretar os relatos da criação presentes no livro do Gênesis? O dilúvio aconteceu exatamente como está descrito? Adão e Eva existiram como personagens históricos ou representam uma verdade espiritual mais profunda?

São questionamentos que atravessam séculos e que provavelmente continuarão acompanhando a humanidade por muito tempo.

Pessoalmente, creio que Deus criou o mundo e o ser humano. No entanto, compreendo os primeiros capítulos de Gênesis como uma linguagem teológica e simbólica utilizada para transmitir verdades fundamentais sobre Deus e sobre a condição humana, e não necessariamente como uma descrição científica dos mecanismos pelos quais a criação ocorreu.

Esse debate não pode ser reduzido à falsa oposição entre "crer" e "não crer". A questão envolve diferentes formas de interpretar a Bíblia, distintas tradições cristãs e também o diálogo entre fé e ciência.

Dentro do cristianismo, é possível identificar pelo menos três grandes correntes de interpretação.

A primeira é a leitura literalista, bastante presente em setores do protestantismo conservador. Nessa compreensão, Adão teria sido criado diretamente do barro, Eva surgido da costela de Adão, toda a humanidade descenderia biologicamente desse casal e o dilúvio teria atingido toda a Terra. Em geral, essa visão rejeita ou limita fortemente a teoria da evolução biológica.

A segunda é a leitura simbólica ou teológica, adotada por muitos católicos, ortodoxos e protestantes históricos. Nessa perspectiva, o objetivo dos relatos da criação não é ensinar biologia, genética ou geologia, mas responder questões fundamentais: quem criou o mundo, qual é a dignidade do ser humano, por que existe o mal e qual é a relação entre Deus e a humanidade. O foco está na mensagem espiritual e não nos detalhes científicos.

A terceira corresponde à posição oficial da Igreja Católica. Desde meados do século XX, especialmente após a encíclica Humani Generis, do Papa Pio XII, e posteriormente pelos ensinamentos de João Paulo II, a Igreja reconhece que a evolução biológica pode ser estudada e considerada uma explicação científica válida para o desenvolvimento do corpo humano. O que a fé preserva é a convicção de que Deus é o criador de todas as coisas e que o ser humano possui uma dimensão espiritual que transcende a mera explicação biológica.

Os estudos bíblicos modernos também trouxeram contribuições importantes para essa reflexão. Pesquisadores identificaram semelhanças entre os relatos do Gênesis e antigas narrativas do Oriente Médio, incluindo tradições da Mesopotâmia e histórias de dilúvio presentes em outros povos da antiguidade. Isso não diminui o valor da Bíblia nem a transforma em ficção. Apenas demonstra que os autores sagrados utilizaram recursos literários e culturais de sua época para comunicar verdades religiosas profundas.

Afinal, ninguém exige que as parábolas de Jesus sejam entendidas como reportagens históricas para reconhecer nelas ensinamentos eternos.

Outro ponto frequentemente debatido é a questão da consanguinidade. Os defensores da leitura literal argumentam que Adão e Eva teriam sido criados em perfeitas condições e, por isso, seus descendentes poderiam casar entre si sem consequências genéticas negativas. A ciência, por sua vez, trabalha com evidências que apontam para uma diversidade genética incompatível com a origem de toda a humanidade a partir de apenas dois indivíduos.

Nesse caso, o conflito muitas vezes surge quando se tenta utilizar métodos científicos para provar afirmações teológicas ou, inversamente, utilizar pressupostos religiosos para invalidar descobertas científicas. São campos distintos do conhecimento humano, ainda que possam dialogar.

Talvez o caminho mais produtivo não seja o da confrontação, mas o da reflexão. Perguntas simples podem abrir portas para conversas mais profundas: toda passagem bíblica deve ser interpretada literalmente? Como identificar uma linguagem simbólica? Quando Jesus afirma "Eu sou a porta", está falando de forma literal ou figurada? O objetivo de Gênesis é ensinar ciência ou revelar quem é Deus?

Curiosamente, essa discussão não começou com Darwin nem com a teoria da evolução. Séculos antes, Santo Agostinho já alertava que os cristãos deveriam ter cautela ao insistir em interpretações literais que entrassem em conflito com conhecimentos sólidos sobre a natureza. Para ele, uma leitura equivocada da Escritura poderia até mesmo prejudicar o testemunho da fé.

Diante disso, talvez a posição mais equilibrada seja reconhecer que fé e ciência não precisam ser inimigas. A ciência busca compreender os mecanismos pelos quais o universo funciona. A fé procura responder por que existimos, qual o sentido da vida e qual é nossa relação com Deus.

É possível acreditar na criação divina sem transformar a Bíblia em um manual de biologia. É possível valorizar a ciência sem abrir mão da transcendência. E é possível admitir que algumas das maiores perguntas da humanidade talvez jamais recebam respostas definitivas.

Mas isso não diminui sua importância. Pelo contrário. São justamente essas perguntas que continuam impulsionando a busca humana pela verdade, pelo conhecimento e por Deus.

POLÍTICA DA CRÍTICA OU POLÍTICA DAS PROPOSTAS?

 




Uma característica cada vez mais presente na política brasileira é a concentração de esforços em apontar erros, defeitos e fragilidades dos adversários. Em um ambiente marcado pela polarização, muitos militantes e até mesmo candidatos parecem dedicar mais tempo a atacar o outro lado do que a apresentar suas próprias ideias.

Nas redes sociais, qualquer fato acaba sendo utilizado para associar adversários políticos a algo negativo. O fenômeno não está restrito a um único grupo ideológico. Ele pode ser observado em diferentes correntes políticas, da esquerda à direita.

O problema é que essa estratégia tem limites. Quando a comunicação se resume a críticas, ataques e acusações, o eleitor passa a ter dificuldade para identificar quais são as propostas, os projetos e as soluções apresentadas para os problemas reais da população.

A crítica ao adversário faz parte da democracia e da disputa eleitoral. É natural que candidatos questionem decisões, posicionamentos e resultados de seus concorrentes. No entanto, quando o ataque se torna o centro da campanha, corre-se o risco de transmitir uma imagem de ressentimento, revanchismo ou falta de conteúdo próprio.

O eleitor atento costuma querer respostas para questões concretas: como melhorar a saúde, a educação, a segurança, a infraestrutura e a geração de empregos. Nesse contexto, propostas consistentes tendem a ser mais importantes do que uma sucessão interminável de ataques.

Talvez a política brasileira ganhasse mais qualidade se os candidatos gastassem menos energia falando dos adversários e mais tempo explicando suas ideias, seus planos e a forma como pretendem governar. Afinal, eleições deveriam ser uma disputa de projetos e não apenas uma competição para definir quem consegue criticar mais o outro lado.

sábado, 30 de maio de 2026

Entre perguntas e respostas: o que o comportamento de políticos e jornalistas revela sobre a qualidade da informação?


 


A experiência acumulada ao longo de décadas na comunicação, os anos de atividade profissional, os estudos e o período dedicado à academia me levam a uma reflexão que considero importante para quem acompanha a vida pública e o trabalho da imprensa.

Por que será que alguns políticos, ao serem questionados sobre temas de interesse coletivo, respondem com irritação, agressividade ou tentam desqualificar quem faz a pergunta?

O que isso revela? Seria um sinal de desconforto diante do tema? Falta de argumentos? Estratégia de comunicação? Ou simplesmente a reação a uma pergunta considerada inadequada ou tendenciosa?

Não existe uma resposta única. Cada situação possui suas particularidades e deve ser analisada com equilíbrio e senso crítico. No entanto, em uma democracia, agentes públicos têm o dever de prestar esclarecimentos à sociedade. Perguntas difíceis, muitas vezes, fazem parte do processo de fiscalização e transparência.

Da mesma forma, merece atenção a postura de quem evita responder objetivamente, muda de assunto, transfere a discussão para outros temas ou procura transformar o questionamento em um embate pessoal. Em muitos casos, a forma como alguém reage pode dizer tanto quanto suas próprias palavras.

Ao assistir a uma entrevista ou acompanhar uma reportagem, o cidadão pode observar diversos elementos. O entrevistado responde com clareza? Apresenta dados e fatos? Demonstra segurança em seus argumentos? Mantém o equilíbrio diante de questionamentos? Ou prefere fugir do assunto e atacar quem pergunta?

Mas essa reflexão não deve se limitar aos entrevistados.

Ela também precisa alcançar os profissionais da comunicação, atividade da qual faço parte há mais de três décadas.

Questionar é uma obrigação do jornalista. Saber perguntar, confrontar informações, insistir quando necessário e buscar respostas de interesse público faz parte da essência da profissão. Contudo, isso deve ocorrer sem armadilhas, sem espetacularização e sem transformar a reportagem em instrumento de promoção pessoal.

O ambiente das redes sociais ampliou o acesso à informação, mas também trouxe desafios. Hoje, qualquer pessoa pode produzir conteúdo, emitir opiniões e influenciar audiências. Isso é positivo sob muitos aspectos, mas também exige responsabilidade.

Observa-se, em alguns casos, entrevistas conduzidas com a intenção de provocar conflitos, perguntas formuladas mais como acusações do que como questionamentos e reportagens que parecem servir a interesses particulares. Em outros momentos, o foco deixa de ser a informação e passa a ser a autopromoção de quem comunica.

O bom jornalismo não existe para agradar nem para perseguir. Sua missão principal é informar com responsabilidade, permitindo que a sociedade tenha acesso aos fatos e forme suas próprias conclusões.

Não se deve conduzir uma pauta para atender interesses pessoais. Não se deve transformar uma entrevista em disputa política. Não se deve utilizar a atividade jornalística como palco para vaidades. O compromisso maior deve ser sempre com a coletividade e com o direito à informação de qualidade.

Diante da multiplicação de comunicadores, influenciadores e produtores de conteúdo, cabe também ao público desenvolver um olhar crítico. Nem toda pergunta dura é sinal de independência. Nem toda entrevista cordial representa conivência. Há perguntas que se aproximam mais de um ataque político do que de uma investigação jornalística. Há reportagens conduzidas por interesses que vão além da busca pelos fatos.

Por isso, o ouvinte, o telespectador, o leitor e o internauta precisam observar não apenas quem responde, mas também quem pergunta. É importante analisar argumentos, verificar informações, identificar contextos e compreender os interesses que podem existir em cada narrativa.

Em tempos de excesso de informação, a capacidade de analisar criticamente tornou-se uma das ferramentas mais importantes da cidadania.

Por Pedro Claudio
No jornalismo radiofônico desde 1987, em Iporá, Goiás.

 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Romaria de Nossa Senhora Auxiliadora mantém tradição de fé e devoção em Iporá

 




A tradicional Romaria e Festa de Nossa Senhora Auxiliadora voltou a reunir milhares de fiéis em Iporá, no Oeste de Goiás, reafirmando uma das mais importantes manifestações religiosas e culturais do Estado. Em 2026, a programação foi realizada entre os dias 3 de abril e 23 de maio, com o tema “De mãos dadas com Maria Auxiliadora vivemos 80 anos de comunhão, fé e devoção”.

A celebração foi conduzida pelos religiosos passionistas da Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora, liderados pelo pároco padre Tarcílio José da Maia, juntamente com os vigários paroquiais padres Leonardo Luiz da Cruz e Rodrigo Alves Ferreira. A festa reuniu católicos das três paróquias de Iporá — Nossa Senhora Auxiliadora, São Paulo VI e Imaculada Conceição — em comunhão com toda a Diocese de São Luís de Montes Belos, presidida por Dom Lindomar Rocha Mota.

Embora neste ano a comunidade tenha celebrado simbolicamente os 80 anos da romaria, registros históricos apontam que a devoção em honra a Nossa Senhora Auxiliadora começou antes mesmo desse período. A tradição religiosa foi trazida para a região por padres salesianos vindos da antiga Prelazia do Registro do Araguaia, no Mato Grosso, ainda nas primeiras décadas da formação do município. Ao longo do tempo, a devoção consolidou-se como um dos principais marcos religiosos do interior goiano.

Patrimônio religioso e cultural de Goiás

Mais do que uma manifestação exclusivamente religiosa, a tradicional Festa de Maio integra a identidade cultural da população iporaense e da região Oeste de Goiás. A existência das tradicionais barraquinhas, quermesses e confraternizações populares mantém forte vínculo com o calendário devocional católico, preservando elementos da religiosidade popular transmitidos entre gerações.

A romaria e sua dimensão festiva são consideradas importantes marcadores da identidade católica regional, constituindo patrimônio cultural e religioso reconhecido em Goiás. A chamada “Festa de Maio” foi incluída oficialmente no Calendário Cívico Cultural do Estado por meio da Lei nº 17.247/2011.

A Festa de Nossa Senhora Auxiliadora é considerada uma das maiores manifestações religiosas de Goiás, ficando atrás apenas da Romaria do Divino Pai Eterno, em Trindade, e da Romaria de Nossa Senhora d’Abadia do Muquém, em Niquelândia. O diferencial da celebração iporaense está na longa duração da peregrinação e da programação religiosa.

Neste ano de 2026, a programação festiva ocorreu de 23 de abril a 24 de maio. Como o dia 24 coincidiu com a celebração de Pentecostes, o encerramento festivo foi antecipado, ocasião em que também foram anunciados os próximos festeiros, representados pela Pastoral da Acolhida.

Peregrinação diária reúne milhares de fiéis

A essência da festa permanece praticamente inalterada ao longo das décadas. Todas as noites, entre mil e 1,5 mil pessoas percorrem diversos bairros da cidade em peregrinação, acompanhando a imagem de Nossa Senhora Auxiliadora.

A programação inclui a reza do terço, momentos de espiritualidade popular, leitura bíblica, reflexão da Palavra e confraternização entre os participantes. Após os momentos religiosos, as comunidades promovem quermesses com prendas e doações arrecadadas para a manutenção da Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora.

Com o crescimento da festa e o aumento da participação popular, a paróquia passou a incluir missas em datas específicas, especialmente às quartas-feiras e domingos. Nesses dias, o terço é antecipado para possibilitar a celebração eucarística.

Um dos aspectos mais marcantes da romaria é a fidelidade dos participantes. Grande parte do público acompanha a programação diariamente durante todo o período festivo, mantendo viva uma tradição religiosa e cultural que atravessa gerações.

Leilão de gado integra programação festiva

A programação social da festa continua no dia 11 de julho, com a realização do tradicional Leilão de Gado no recinto do GJ Leilões, a partir das 14 horas.

O evento reúne produtores rurais e colaboradores da comunidade católica, que realizam doações de animais e prendas. O leilão tornou-se uma importante fonte de arrecadação para a manutenção das atividades paroquiais e também um momento de confraternização entre famílias da cidade e da zona rural.

Segundo a organização, a realização do leilão fora do calendário principal da festa facilita a logística e amplia a participação dos colaboradores e produtores da região.

Comunidade católica mantém forte tradição religiosa

De acordo com dados do IBGE, Iporá possui população estimada em pouco mais de 31 mil habitantes, sendo a maioria formada por católicos.

A cidade conta atualmente com três paróquias: a Paróquia São Paulo VI, conduzida pelo padre Geraldo Pereira Neto; a Paróquia Imaculada Conceição, sob responsabilidade do padre José Moreira; e a Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora, administrada pelo padre Tarcílio José da Maia.

A Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora pertence à Diocese de São Luís de Montes Belos e é assistida pelos religiosos passionistas, congregação que mantém presença histórica na evangelização da região oeste goiana.

O mundo envelheceu antes da consciência humana amadurecer.

 

Indicativo de Pedro Claudio — Sempre pensando pra existir

Vivemos um tempo estranho. Talvez o mais avançado da história humana. Talvez também um dos mais confusos.

A humanidade consegue olhar para o céu e imaginar cidades em Marte. Criamos inteligência artificial, fazemos cirurgias à distância, conversamos em tempo real com pessoas do outro lado do planeta e carregamos no bolso aparelhos mais poderosos do que computadores que levaram o homem à Lua. A tecnologia domina o nosso tempo, nossa rotina e até nossa forma de pensar.

Mas, ao mesmo tempo, parecemos presos em discussões pequenas, repetitivas e cansativas. O mundo gira em torno de guerras políticas, disputas ideológicas e brigas de torcidas. Lula, Bolsonaro, Trump e tantos outros nomes ocupam as mesas, os celulares e as redes sociais como se fossem o centro absoluto da existência humana. Enquanto isso, questões fundamentais parecem esquecidas.

Quem realmente controla o mundo hoje?

Não são exatamente os produtores de alimentos. Não são os cientistas que buscam a cura das doenças. Não são os agricultores que sustentam a vida. Nem os religiosos que antigamente orientavam moralmente a sociedade. Deus talvez continue no coração humano, mas muitas vezes já não está presente nas decisões que comandam o planeta.

Hoje, o poder está concentrado em outro lugar.

Nos gigantes da tecnologia. Nos donos das redes sociais. Nos investidores invisíveis. Nos banqueiros. Nos especialistas em algoritmos. Nos criadores de conteúdo. Nos donos da informação. O homem mais rico do mundo não ficou rico plantando arroz ou salvando vidas em hospitais. Ficou rico dominando tecnologia, comunicação e influência.

As redes sociais transformaram atenção em moeda. O conteúdo virou produto. O comportamento humano virou dado. E nós mesmos, sem perceber, muitas vezes viramos mercadoria dentro desse sistema.

É estranho perceber que água, oxigênio, alimentos e natureza — aquilo que realmente mantém a vida — perderam espaço no imaginário da sociedade moderna. Hoje se valoriza mais um celular novo do que uma nascente preservada. Mais um aplicativo do que uma árvore. Mais seguidores do que sabedoria.

Talvez estejamos vivendo uma era onde a humanidade evoluiu tecnologicamente mais rápido do que espiritualmente.

Criamos máquinas inteligentes, mas ainda temos dificuldade de conviver uns com os outros. Falamos em colonizar outros planetas enquanto destruímos o nosso. Produzimos excesso de informação, mas falta entendimento. Estamos hiperconectados, porém emocionalmente distantes.

E assim seguimos: entre festas e tragédias, entre evolução e retrocesso, entre esperança e medo.

O ser humano nunca teve tanto poder nas mãos. E talvez nunca tenha estado tão perdido sobre o que fazer com ele.

Pensar o mundo atual exige coragem. Coragem para perceber que progresso não é apenas tecnologia. Progresso também deveria significar humanidade, consciência, equilíbrio e sentido para existir.

Porque no final, talvez a maior pergunta não seja como conquistar outros planetas.

Mas como salvar a nós mesmos.

 

terça-feira, 26 de maio de 2026

Credenciamento da comunicação pública em Iporá gera debate sobre legalidade, transparência e uso de recursos públicos


A publicação do edital de credenciamento/chamada pública nº 12/2025 pela Prefeitura de Iporá, destinado à contratação de serviços de comunicação social, ampliou o debate político e jurídico no município sobre os limites da publicidade institucional e a forma de aplicação de recursos públicos na divulgação das ações da administração municipal.

 

O edital prevê o credenciamento de pessoas físicas e jurídicas para prestação de serviços de divulgação dos atos e ações da gestão municipal, incluindo emissoras de rádio, fundações educativas, portais digitais e perfis em redes sociais. A proposta abriu questionamentos sobre critérios técnicos, alcance de mídia e distinção entre jornalismo, publicidade institucional e promoção governamental.

 

Especialistas em direito administrativo observam que a Constituição Federal, no artigo 37, parágrafo primeiro, determina que a publicidade dos atos públicos deve possuir caráter educativo, informativo ou de orientação social, vedando promoção pessoal de autoridades e agentes públicos. Nesse contexto, o uso da expressão “divulgação dos feitos da gestão” passou a ser alvo de interpretações distintas entre apoiadores e críticos do modelo adotado.

 

Outro ponto discutido envolve a aplicação da Lei Federal nº 14.133/2021, a nova Lei de Licitações e Contratos Administrativos, que admite o credenciamento quando houver inviabilidade de competição. No entanto, juristas apontam que a modalidade exige critérios objetivos, impessoais e transparentes para evitar favorecimentos ou contratações sem parâmetros técnicos definidos.

 

A inclusão de perfis de redes sociais ao lado de veículos tradicionais de comunicação também provocou questionamentos sobre métricas de audiência, regularidade jurídica, responsabilidade editorial e comprovação de alcance real das publicações. Para analistas da área de comunicação pública, a ausência de indicadores claros de desempenho pode comprometer a efetividade da política de divulgação institucional.

 

No campo da comunicação, especialistas destacam ainda a diferença entre atividade jornalística e publicidade institucional. Enquanto o jornalismo pressupõe independência editorial e liberdade de apuração, a publicidade possui vínculo comercial e finalidade promocional. A falta de clareza nessa distinção pode gerar dúvidas no público sobre a natureza dos conteúdos divulgados.

 

No caso das fundações educativas e emissoras sem fins lucrativos, o debate ganha dimensão adicional. Essas instituições possuem finalidade educativa e cultural definida em legislação específica, o que exige cautela quanto à veiculação de publicidade remunerada para não desvirtuar sua função institucional.

 

Nos bastidores políticos de Iporá, o assunto repercute entre lideranças locais, profissionais da comunicação e representantes da sociedade civil. A discussão também pode alcançar órgãos de fiscalização e controle, como o Tribunal de Contas dos Municípios do Estado de Goiás e o Ministério Público de Goiás, responsáveis por acompanhar a legalidade dos contratos públicos e o cumprimento dos princípios constitucionais da administração pública.

 

O caso reacende uma discussão mais ampla sobre comunicação pública no Brasil: até que ponto informar a população sobre ações governamentais atende ao interesse coletivo e em que momento a divulgação institucional pode se aproximar de estratégia política ou promocional.

 

Em meio ao debate, permanece o desafio das administrações públicas de construir políticas de comunicação transparentes, eficientes e alinhadas aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência previstos na Constituição Federal.


O mistério da vida, a saudade e a esperança no futuro eterno

 


Por Pedro Claudio

A saudade talvez seja uma das marcas mais profundas da existência humana. Há nuances no luto que nunca vão embora. Quando se ama de verdade, quem parte continua presente de alguma forma na memória, nos gestos, nas lembranças e até no silêncio. O tempo passa, a correria do dia a dia ocupa espaço, a distância dos acontecimentos ameniza certas dores, porque a vida dos que ficam precisa seguir. Mas algumas ausências jamais deixam completamente o coração.

Muitas vezes surge a pergunta que acompanha a humanidade desde sempre: para onde vão aqueles que partiram? Há inúmeras teses, religiões, doutrinas e interpretações tentando responder ao grande mistério da vida após a morte. Mas a verdade é que ninguém voltou para contar, exceto Jesus Cristo, segundo a fé cristã, que ressuscitou e deixou sua mensagem sobre a eternidade.

No Evangelho de João, na versão da CNBB, Jesus diz:

“Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós.”
João 14,2

É uma das passagens mais consoladoras da Bíblia, porque transmite a ideia de continuidade, acolhimento e esperança além da existência terrena.

No livro do Apocalipse também aparecem imagens simbólicas sobre a eternidade e a presença divina. Um dos textos mais conhecidos descreve a cidade santa iluminada pela glória de Deus:

“A cidade não precisa de sol nem de lua que a iluminem, pois a glória de Deus é a sua luz, e sua lâmpada é o Cordeiro.”
Apocalipse 21,23

Há ainda a imagem da humanidade sendo conduzida para junto de Deus, numa caminhada espiritual rumo à eternidade, acompanhada pela presença celestial e pela esperança de uma nova morada.

A vida, no entanto, continua sendo uma grande incógnita. O futuro sempre será incerto. E talvez uma das maiores lições da existência seja justamente perceber que, diante de Deus e do tempo, todos têm o mesmo destino. Ricos e pobres, pretos e brancos, poderosos e humildes, ninguém permanece para sempre nesta terra. O que fica são lembranças, histórias, marcas e afetos, que também vão se apagando lentamente na memória das gerações.

As religiões tentam oferecer respostas. Algumas trazem conforto verdadeiro. Outras, em certos momentos, parecem transformar a fé em instrumento de controle humano, estabelecendo regras e promessas de salvação eterna. É compreensível que existam normas e princípios, porque uma sociedade sem limites pode mergulhar no caos. Ainda assim, muitas dúvidas permanecem.

Quem tem fé costuma olhar com preocupação para quem não compartilha da mesma crença. Há os que se dizem plenamente convencidos da verdade que professam. Eu, porém, acredito na ação de Deus na construção humana, na presença divina que inspira o amor, a justiça e a bondade. Mas também carrego dúvidas sobre intenções humanas quando alguns, do púlpito, transformam a fé em espetáculo, em premonições ou em instrumentos de manipulação.

Talvez muitos dos que pregam estejam sinceramente convencidos daquilo que anunciam. Talvez outros usem a mensagem divina como proteção, influência ou poder nesta vida terrena. No fim, o coração humano sempre será um território difícil de decifrar.

Por isso, a sabedoria dos antigos continua atual. Como dizia minha mãe: confiar sempre… desconfiando.

 Iporá Goiás, 26 de maio de 2026