Fé madura: mais
conhecimento, menos rótulos
Vivemos um tempo em que
muitos debates entre católicos acabam sendo marcados mais por opiniões pessoais
do que pelo conhecimento da própria Igreja. Em diversas ocasiões, discussões
acaloradas surgem por desconhecimento da riqueza doutrinária construída ao
longo de mais de dois mil anos de história.
A Igreja Católica possui
um patrimônio extraordinário de ensinamentos. O Código de Direito Canônico, o
Catecismo da Igreja Católica, o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, os
documentos do Concílio Vaticano II, as encíclicas, exortações apostólicas e tantos
outros textos do Magistério oferecem orientação segura para a vida cristã, a
organização pastoral, os direitos e deveres dos fiéis, a disciplina e a missão
evangelizadora. Antes de emitir julgamentos, talvez fosse prudente recorrer a
essas fontes.
Um dos temas que
frequentemente desperta polêmicas é a chamada Teologia da Libertação. Muitos a
condenam sem sequer conhecer seus fundamentos ou distinguir suas diferentes
correntes. É verdade que algumas interpretações, sobretudo nas décadas de 1970
e 1980, foram objeto de correções pela Igreja quando incorporaram análises
incompatíveis com a fé cristã. A própria Congregação para a Doutrina da Fé,
então presidida pelo Cardeal Joseph Ratzinger, publicou documentos esclarecendo
esses limites.
Entretanto, seria
igualmente equivocado afirmar que a libertação não faz parte da mensagem
cristã. Basta abrir os Evangelhos. Jesus libertou pessoas da exclusão, da
doença, do pecado, da opressão, do medo e da injustiça. Anunciou a Boa-Nova aos
pobres, acolheu os marginalizados e denunciou a hipocrisia e toda forma de
exploração. O próprio Catecismo ensina que Cristo veio libertar o ser humano,
antes de tudo da escravidão do pecado, mas essa libertação também produz
consequências sociais, chamando os cristãos a promoverem a dignidade humana, a
justiça e a solidariedade.
Da mesma forma, merece
reflexão a chamada "teologia da prosperidade", muito difundida em
alguns ambientes religiosos. A ideia de que a fé, por si só, garante riqueza
material ou sucesso financeiro não encontra fundamento na tradição católica. Deus
não promete prêmios financeiros nem indica números de loteria. O Evangelho
convida ao trabalho, à responsabilidade, à administração prudente dos bens e à
confiança na Providência, mas nunca transforma a fé em um contrato de
enriquecimento. É verdade que muitas pessoas, ao encontrarem um sentido para
suas vidas, tornam-se mais disciplinadas, organizadas e perseverantes,
alcançando melhores resultados. Contudo, isso decorre da mudança de atitude e
não de uma promessa automática de prosperidade.
Outro ponto que sempre me
faz refletir é a expressão "Missa de Cura e Libertação". Compreendo
seu objetivo pastoral, mas, pessoalmente, acredito que toda Santa Missa é, por
essência, uma celebração de cura e libertação. Em cada Eucaristia, Cristo se
faz presente, perdoa, fortalece, alimenta espiritualmente e convida à
conversão. A Palavra proclamada ilumina a consciência; a comunhão fortalece a
alma; a bênção envia o cristão em missão. Não existem missas mais importantes
ou menos importantes. Cada celebração do sacrifício de Cristo possui a mesma
dignidade e o mesmo valor salvífico.
A verdadeira
transformação acontece quando o fiel sai da igreja disposto a viver aquilo que
ouviu. A Missa não termina com a bênção final; ela continua na família, no
trabalho, na política, na comunidade e em todas as relações humanas. Participar
da Eucaristia significa permitir que morra o homem velho para nascer uma
criatura renovada em Cristo.
É compreensível que
determinadas estratégias pastorais procurem aproximar pessoas da Igreja. Porém,
quando certos rótulos ou expressões passam a dividir mais do que unir, ou criam
a impressão de que existem categorias superiores de celebrações ou de espiritualidade,
corre-se o risco de enfraquecer a própria unidade eclesial.
Talvez o maior desafio da
Igreja hoje seja formar cristãos de fé madura, sólida e perseverante, e não
apenas pessoas movidas pela emoção do momento. Jesus foi claro ao afirmar que o
homem prudente constrói sua casa sobre a rocha (Mt 7,24-27). Essa rocha é a
Palavra de Deus vivida, a tradição da Igreja, o ensinamento dos Apóstolos e a
fidelidade ao Evangelho.
Mais do que criar rótulos
ou alimentar disputas internas, somos chamados a conhecer melhor a nossa fé,
estudar os ensinamentos da Igreja e viver o Evangelho com coerência. Uma fé bem
formada não teme perguntas, não vive de modismos e não se deixa levar por
extremismos. Ela permanece firme porque está alicerçada em Cristo.

