sábado, 26 de setembro de 2026

Cine Riviera: quando Iporá tinha cinema, filmes e até programa de rádio ao vivo

 

Cine Riviera: quando Iporá tinha cinema, filmes e até programa de rádio ao vivo

Por Pedro Claudio



Quem olha para esta fotografia talvez veja apenas uma antiga fachada, marcada pelo tempo. Mas as grandes letras “CINE” revelam muito mais: ali está uma parte da memória cultural de Iporá.

Sim, Iporá teve cinema — e a história é mais recente do que muitos imaginam.

Na época registrada pela fotografia, o cinema funcionava na Rua Esmerindo Pereira e era propriedade de Aytubes Diniz, empresário de uma família que teve participação importante na história econômica e comercial da cidade. Entre os empreendimentos ligados à família estava também o Esplanada Hotel , que ficava na esquina próxima ao cinema.

O cinema era Cine Riviera e não se limitava às sessões de filmes. O espaço também fazia parte da vida cultural e artística de Iporá.

Um dos exemplos era o programa “Roda de Violeiros”, transmitido pela Rádio Rio Claro, que acontecia nas manhãs de domingo. O programa reunia música, violeiros e a participação da comunidade, criando uma ligação interessante entre cinema, rádio e cultura popular.

Era outro tempo.

Antes da televisão por assinatura, da internet, das plataformas de streaming e dos smartphones, o cinema era um dos espaços de encontro da população. Ir ao Cine Riviera significava muito mais do que assistir a um filme. Era uma oportunidade de encontrar amigos, namorar, conversar e participar da vida cultural da cidade.

Os filmes também fazem parte da memória

A fotografia ajuda a recuperar um pouco daquela época. Os cartazes espalhados pela fachada anunciam as atrações que estavam em cartaz e registram nomes e produções que faziam parte do cotidiano dos frequentadores.

Hoje, esses cartazes podem parecer apenas propaganda antiga. Para quem viveu aquele período, entretanto, eles podem despertar lembranças: qual filme foi assistido? Com quem? Quanto custava o ingresso? Como era a sala? Quem trabalhava no cinema?

São detalhes que normalmente desaparecem com o passar dos anos, mas que ajudam a reconstruir a história de uma cidade.

O Cine Riviera e a Rádio Rio Claro

Há ainda um detalhe particularmente interessante nessa história: um cinema que também servia como espaço para a produção de um programa de rádio.

O Roda de Violeiros, transmitido pela Rádio Rio Claro nas manhãs de domingo, mostra como os meios de comunicação e os espaços culturais estavam interligados.

A rádio levava a voz dos artistas para os ouvintes e o cinema oferecia um espaço físico para a realização do programa. Era uma forma de aproximar rádio, música, cultura sertaneja e comunidade.

Para quem trabalha ou trabalhou no rádio em Iporá, essa memória ganha ainda mais significado.

Uma fotografia que merece ser preservada

A imagem do antigo Cine Riviera não é apenas uma fotografia de uma construção. É um registro de uma época em que Iporá tinha seus próprios espaços de entretenimento e cultura.

Hoje, talvez muita gente mais jovem nem imagine que naquela rua existiu um cinema, que os filmes eram anunciados nas paredes e que, nas manhãs de domingo, dali também se fazia rádio.

A história de uma cidade não está somente nos grandes acontecimentos. Ela também está nos cinemas, nos programas de rádio, nos hotéis, nas praças, nas lojas e nos lugares onde as pessoas viveram seus pequenos e grandes momentos.

E o Cine Riviera, ligado à história de Aytubes Diniz, da família Diniz, do Hotel Esplanada e da Rádio Rio Claro, é uma dessas histórias que Iporá precisa preservar.

Quem viveu essa época certamente tem muito mais para contar.

Pedro Claudio – jornalista e radialista



Quando a democracia vira um campo de batalha

 

Quando a democracia vira um campo de batalha



Por Pedro Claudio

Tempo de campanha política. Infelizmente, um dos períodos de maior desafio para a democracia.

É justamente quando deveríamos estar discutindo projetos, propostas e o futuro da sociedade que aparecem, com preocupante naturalidade, discursos que relativizam a liberdade, defendem a concentração de poder e até flertam com ideias autoritárias, com a ditadura e, em casos extremos, com o próprio nazismo.

E há algo ainda mais preocupante: a naturalização da ideia de que o mais forte deve se sobrepor ao mais fraco.

Como se quem possui mais dinheiro tivesse, por isso, mais direitos. Como se o poder econômico desse ao patrão o direito de impor sua vontade ao trabalhador. Como se as relações de trabalho pudessem ser resolvidas exclusivamente pela negociação individual, sem regras, sem proteção social e sem a presença reguladora do Estado.

Até o salário mínimo, uma conquista histórica de proteção ao trabalhador, passa a ser apresentado por alguns como algo que deveria simplesmente ser "negociado" entre patrão e empregado.

Mas negociação entre desiguais nem sempre significa liberdade. Quando um lado tem o capital, o poder de contratação e a possibilidade de dizer "aceite ou procure outro emprego", enquanto o outro precisa trabalhar para sobreviver, a relação de forças não é exatamente a mesma.

E, em época de eleição, vemos também outra cena conhecida: candidatos fazendo dancinhas, abraçando crianças, comendo pastel, apertando mãos e tentando demonstrar uma proximidade com o povo que, muitas vezes, desaparece depois que termina a campanha.

O cidadão simples vira personagem durante alguns meses. Depois, volta a ser apenas eleitor — quando não é esquecido.

Por isso, este é um momento que exige atenção.

Democracia não pode ser transformada em um simples "salve-se quem puder". Porque, quando cada um passa a cuidar apenas de si e os mais fortes ficam livres para impor sua vontade, quem normalmente paga a conta é justamente a maioria que tem menos poder econômico, político e social.

A história já nos mostrou isso.

Antes da Revolução Francesa, a sociedade europeia estava organizada em uma estrutura de ordens e privilégios. No chamado Antigo Regime, o clero e a nobreza ocupavam posições privilegiadas, enquanto o chamado Terceiro Estado reunia a grande maioria da população, incluindo burgueses, trabalhadores, camponeses e outros grupos que sustentavam grande parte dos encargos da sociedade.

Era uma sociedade profundamente desigual.

E talvez devêssemos prestar atenção quando algumas ideias contemporâneas começam a tratar desigualdade como algo natural, pobreza como culpa individual e direitos sociais como privilégios.

O mais curioso — e preocupante — é que quem questiona essa lógica muitas vezes é imediatamente chamado de "comunista".

Defender salário digno, direitos trabalhistas, saúde pública, educação, igualdade perante a lei e proteção para quem está em situação de vulnerabilidade não deveria ser uma questão de esquerda ou direita. São questões de cidadania e de dignidade humana.

Não se trata de defender um partido.

Não se trata de escolher um candidato.

Trata-se de perguntar que tipo de sociedade queremos construir.

Uma sociedade em que o poder econômico determina quem pode mais?

Uma sociedade em que o trabalhador precisa aceitar qualquer condição porque não tem outra alternativa?

Uma sociedade em que o cidadão só é lembrado durante a campanha?

Ou uma sociedade em que liberdade venha acompanhada de responsabilidade, direitos sejam acompanhados de deveres e todos sejam tratados com dignidade?

A democracia é imperfeita. Dá trabalho. Exige diálogo, contraditório, respeito às diferenças e, principalmente, participação consciente.

Por isso, em tempo de eleição, talvez a pergunta mais importante não seja "quem está fazendo a melhor propaganda?", mas:

Que ideias estão sendo defendidas? Que sociedade essas ideias podem produzir? E quem ganha e quem perde quando elas são colocadas em prática?

Liberdade não pode existir somente para os mais fortes.

Igualdade não significa que todos sejam iguais em tudo, mas que ninguém seja considerado inferior por sua condição social.

E fraternidade significa reconhecer que uma sociedade não pode ser construída contra o outro, mas com o outro.

São valores que atravessaram séculos e continuam atuais:

Liberté, Égalité, Fraternité.

Liberdade, igualdade e fraternidade.

Talvez seja justamente disso que este nosso tempo esteja precisando: menos idolatria política, menos culto ao poder e mais consciência de que democracia não é apenas o direito de votar.

Democracia é também o compromisso permanente de impedir que alguém se torne poderoso demais para se colocar acima dos demais.


“Não basta dizer que somos cristãos: o que nossas atitudes revelam?”

 

A Lista de Schindler e a pergunta que precisa ser feita a nós mesmos



Lendo a obra A Lista de Schindler e assistindo ao filme, é impossível não olhar para a história e perguntar: como o ser humano foi capaz de chegar a tamanha desumanidade?

O Holocausto nos causa indignação. A perseguição, a discriminação, a separação entre pessoas, a ideia de que alguns seres humanos seriam superiores a outros e, portanto, teriam o direito de decidir quem deveria viver ou morrer.

Mas, depois de olhar para tudo isso, talvez seja necessário fazer uma pergunta ainda mais difícil:

E eu? Como estou sendo como ser humano?

É muito fácil condenar os erros do passado. É fácil olhar para a história e dizer: “Eu jamais faria uma coisa dessas”. Mas será que não existem, em nosso cotidiano, pequenas atitudes de exclusão, preconceito, julgamento e separação?

Será que, ao me declarar cristão, estou realmente olhando para minhas próprias atitudes?

Será que, algumas vezes, não me coloco em uma posição de superioridade diante de outras pessoas? Será que não faço uma divisão silenciosa entre “os bons” e “os pecadores”? Entre aqueles que frequentam o templo e aqueles que estão fora dele?

Será que não penso, mesmo sem perceber: “Ele é pecador; eu sou diferente, porque frequento a igreja”?

E aqui está uma contradição que precisa nos fazer pensar.

Qual é o sentido de frequentar um templo, participar de uma comunidade religiosa, ouvir a Palavra de Deus, rezar, cantar, receber os sacramentos e professar uma fé, se tudo isso não produz em nós um esforço sincero para sermos pessoas melhores?

Não melhores do que os outros.

Melhores do que nós mesmos fomos ontem.

Talvez essa seja uma das grandes perguntas que a fé deveria provocar em nossa vida.

Não se trata de construir uma aparência de santidade. Não se trata de apontar o dedo para quem erra. Não se trata de criar muros entre os que consideramos “certos” e os que consideramos “errados”.

Trata-se de olhar para dentro.

Porque também podemos separar pessoas com palavras. Podemos afastá-las com nossos julgamentos. Podemos promover distanciamento social com nossos preconceitos. Podemos transformar a religião em uma espécie de fronteira: de um lado, os que consideramos dignos; do outro, aqueles que julgamos indignos.

E talvez seja justamente aí que nossa fé esteja sendo colocada à prova.

O cristianismo não deveria nos ensinar a olhar de cima para baixo. Deveria nos ensinar a olhar para o outro como alguém que também é filho de Deus.

Isso não significa concordar com tudo. Não significa abandonar princípios, convicções ou valores. Significa não transformar nossas convicções em instrumentos para humilhar, excluir ou desumanizar o outro.

A história nos mostra até onde a humanidade pode chegar quando começa a retirar do outro sua dignidade.

Por isso, talvez a grande reflexão de A Lista de Schindler não esteja apenas naquilo que aconteceu ontem.

Ela também está naquilo que fazemos hoje.

Como tratamos quem pensa diferente?

Como tratamos quem errou?

Como tratamos quem não frequenta nossa igreja?

Como tratamos o pobre, o dependente químico, o preso, o imigrante, o adversário político, aquele que vive de maneira diferente da nossa?

E, principalmente: como tratamos aqueles de quem não precisamos de nada?

Talvez seja aí que descobrimos quem realmente somos.

A fé não deveria servir para nos colocar acima de ninguém. Deveria nos colocar diante de Deus com humildade.

Não sou melhor que ninguém.

Também não sou pior.

Sou gente.

Tenho erros, tenho limitações, tenho contradições e tenho muito a aprender.

Sou filho de Deus e estou tentando melhorar.

Quero aprender a ouvir mais. Julgar menos. Perdoar mais. Amar mais. Reconhecer meus próprios erros. E, quando eu cair, ter humildade para recomeçar.

Talvez a grande vitória da vida não seja convencer o mundo de que somos santos.

Talvez seja permitir que Deus transforme, silenciosamente, aquilo que ainda precisa ser transformado dentro de nós.

Deixar Deus agir.

Ouvir o sussurro do Espírito Santo.

E encontrar força para continuar a caminhada.

Porque, no final, a pergunta mais importante talvez não seja:

“Eu sou melhor do que os outros?”

Mas:

“Hoje, eu estou sendo uma pessoa melhor do que fui ontem?”

E talvez seja justamente nessa caminhada — imperfeita, humana e sincera — que a nossa fé começa a fazer sentido.

 

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O vencedor antes das urnas

 

O vencedor antes das urnas



Por Pedro Claudio

Se as pesquisas estiverem captando corretamente o momento eleitoral, há uma constatação que merece reflexão: independentemente do resultado das urnas, Flávio Bolsonaro já conseguiu algo politicamente importante — transformar o sobrenome Bolsonaro em uma força eleitoral capaz de chegar novamente ao centro da disputa presidencial.

A pesquisa Datafolha divulgada em 21 de setembro mostra Lula com 39% e Flávio Bolsonaro com 36% no primeiro turno. No segundo turno, aparecem com 46% e 44%, respectivamente. Em ambos os casos, a diferença está dentro da margem de erro.

Isso não significa antecipar resultado. Pesquisa não é urna. Mas revela alguma coisa sobre o eleitor brasileiro: uma parcela expressiva do país continua disposta a votar no projeto político associado ao bolsonarismo.

E aqui começa a questão que considero mais importante.

Como explicar que, depois de tantos episódios controversos, tantas acusações, investigações, disputas institucionais e críticas acumuladas ao longo dos últimos anos, uma parcela significativa do eleitorado continue mantendo uma preferência tão resistente?

Talvez a resposta esteja menos nos candidatos individualmente e mais na profunda polarização política brasileira.

O bolsonarismo construiu sua identidade em oposição frontal ao PT e à esquerda. Seus adversários, por sua vez, construíram boa parte de sua mobilização política em oposição ao bolsonarismo.

É uma guerra política que parece ter criado dois grandes campos de pertencimento.

De um lado, o discurso de que o PT representa corrupção, aparelhamento do Estado, radicalismo ideológico e ameaça a valores tradicionais. De outro, a denúncia de que o bolsonarismo representa autoritarismo, intolerância, ataques aos direitos humanos e resistência ao reconhecimento de problemas sociais e ambientais.

Cada lado enxerga com enorme facilidade os defeitos do outro — e enorme dificuldade para reconhecer os seus próprios.

O PT também carrega sua história. O mensalão, as condenações e os personagens daquele período permanecem na memória política brasileira. José Dirceu, Delúbio Soares e outros dirigentes tornaram-se símbolos de um dos maiores desgastes da história do partido.

Durante anos, a cobertura jornalística sobre os escândalos de corrupção ajudou a fixar no imaginário popular uma associação entre PT e corrupção. Manchetes, imagens e denúncias foram repetidas à exaustão.

Depois vieram as redes sociais.

E as redes mudaram a maneira como o eleitor recebe informação.

Hoje, cada cidadão pode construir sua própria realidade política a partir dos conteúdos que escolhe acompanhar. O algoritmo entrega mais daquilo que prende nossa atenção. Quem acredita em um lado recebe mais argumentos daquele lado. Quem rejeita o outro recebe mais razões para rejeitá-lo.

A política deixou de ser apenas uma disputa por votos. Tornou-se também uma disputa pela realidade que cada eleitor enxerga.

É nesse ambiente que o bolsonarismo continua forte.

E talvez esteja aí a explicação para o que parece, à primeira vista, contraditório: quanto mais uma parte do eleitorado é convencida de que Bolsonaro e seus aliados representam uma ameaça, mais outra parte pode interpretar os mesmos ataques como perseguição política.

O mesmo acontecimento pode produzir conclusões completamente diferentes.

E isso nos leva ao outro lado dessa história: o PT e seus aliados.

Mesmo diante dos problemas e das controvérsias que atingem seus adversários, o campo petista continua encontrando dificuldade para transformar essas críticas em uma maioria política incontestável.

Isso também deveria provocar reflexão dentro do próprio PT.

Por que uma parcela do eleitorado continua desconfiando do partido mesmo depois de tantos anos?

Por que denúncias contra adversários nem sempre se transformam em votos para o PT?

Talvez porque a memória política não desapareça simplesmente. Ela permanece.

E, quando o eleitor já possui uma imagem formada sobre determinado partido ou grupo político, novas informações são frequentemente interpretadas a partir dessa imagem.

É assim que chegamos a uma situação preocupante.

Enquanto Bolsonaro e Lula disputam a preferência do eleitor, o debate sobre projetos para o país muitas vezes fica em segundo plano.

A discussão sobre saúde, educação, segurança, emprego, desigualdade, equilíbrio das contas públicas, meio ambiente e qualidade dos serviços públicos acaba sendo frequentemente substituída pela velha pergunta:

“Você é Lula ou Bolsonaro?”

E talvez essa seja a maior derrota da política brasileira.

Porque o eleitor não deveria ser obrigado a escolher entre duas identidades políticas.

Deveria poder escolher entre projetos.

Deveria cobrar resultados.

Deveria perguntar quanto custa cada proposta, de onde virá o dinheiro, quem será beneficiado, quais serão as consequências e quem será responsabilizado se der errado.

Flávio Bolsonaro pode ganhar ou perder a eleição. Lula pode ganhar ou perder. Outros candidatos podem crescer.

Mas existe uma questão maior que permanecerá depois da eleição:

o que o Brasil terá aprendido com essa polarização?

Se continuarmos transformando adversários em inimigos, se continuarmos tratando política como torcida organizada e se continuarmos aceitando qualquer argumento apenas porque confirma aquilo em que já acreditamos, quem perde não é Lula nem Flávio.

Quem perde é o cidadão.

E talvez seja justamente essa a reflexão que deveríamos fazer antes de entrar novamente na cabine de votação:

Não perguntar apenas “contra quem eu voto?”

Mas, principalmente:

“O que este candidato pretende fazer, como pretende fazer, quanto vai custar e quem vai fiscalizá-lo?”

Porque democracia não deveria ser uma guerra entre dois grupos.

Deveria ser uma escolha consciente de uma sociedade sobre o seu próprio futuro.

 


domingo, 20 de setembro de 2026

QUAL É O SENTIDO DA VIDA — E COMO VIVÊ-LA ENQUANTO BUSCAMOS A RESPOSTA?

 

Se esta vida não tem sentido, então como devemos vivê-la?


Por Pedro Claudio

Tenho ouvido uma afirmação religiosa que merece, ao menos, uma reflexão: “Esta vida não tem sentido sem Deus. Este mundo só serve para escolher quem terá a vida eterna. Não tem sentido viver se não houver vida eterna. Sem Deus nada somos.” O argumento ainda relaciona o afastamento de Deus ao crescimento da depressão.

Antes de continuar, é preciso fazer uma distinção. A Igreja Católica possui, sim, preceitos e orientações que, segundo sua própria doutrina, fazem parte da vida cristã de quem foi batizado e deseja viver em comunhão com a Igreja. Entre os preceitos estão a participação na Missa aos domingos e dias santos de guarda, a observância de determinadas normas litúrgicas e morais e a acolhida das verdades de fé ensinadas pela Igreja.

Entre essas verdades estão, por exemplo, a crença em Deus Uno e Trino, na encarnação de Jesus Cristo, na ressurreição, na vida eterna e, dentro da doutrina mariana, na Imaculada Conceição e na maternidade divina de Maria. A Igreja também recomenda fortemente a leitura e meditação da Bíblia, a oração, a reza do terço, a participação na comunidade, a prática da caridade e a vivência dos sacramentos.

Tudo isso tem seu lugar e sua importância para quem professa a fé católica. A questão que proponho aqui é outra: cumprir práticas religiosas significa necessariamente considerar a vida presente como algo sem sentido próprio, uma espécie de passagem provisória cujo único objetivo seria determinar quem ganhará ou não a vida eterna?

 

É uma afirmação que pode parecer profundamente religiosa, mas me provoca uma pergunta: se este mundo serve apenas como passagem para outro, como devemos viver enquanto estamos aqui?

Devemos nos afastar dos prazeres da vida? Desconfiar da felicidade? Renunciar aos bens materiais? Considerar o trabalho, a cultura, a ciência, a amizade, o amor, a família, a sexualidade, a arte e a própria natureza como distrações perigosas? Devemos viver como miseráveis para provar que desejamos o céu?

Creio que essa conclusão não corresponde necessariamente ao cristianismo.

Uma coisa é afirmar que a vida humana encontra em Deus uma dimensão transcendente. Outra, muito diferente, é dizer que a vida presente não possui sentido próprio.

Se acreditamos que Deus é o criador, então o mundo criado não pode ser simplesmente um lugar sem importância. A tradição bíblica começa afirmando que a criação é boa. E, no cristianismo, Deus não permanece distante da realidade humana: a própria encarnação de Jesus significa entrar na história, assumir um corpo, viver entre pessoas, experimentar alegrias, dores, amizades, conflitos, trabalho, sofrimento e morte.

Jesus não ensinou seus seguidores a abandonar a realidade. Ao contrário: falou de fome, pão, justiça, perdão, dinheiro, pobreza, doença, solidariedade, relações humanas e cuidado com o próximo.

Quando Jesus diz que veio para que todos tenham vida, e vida em abundância, seria estranho interpretar essa mensagem como se a existência presente fosse apenas um corredor sem importância que precisamos atravessar até chegar ao verdadeiro destino.

O problema, talvez, esteja em transformar a esperança da vida eterna em desvalorização da vida presente.

Uma fé madura não precisa dizer: “não aproveite esta vida porque a verdadeira vida será depois”.

Pode dizer: “viva esta vida com profundidade porque ela é o lugar concreto onde você ama, sofre, aprende, trabalha, cria, perdoa, cuida e constrói o bem.”

O prazer também não precisa ser visto como pecado simplesmente porque é prazer. Comer uma boa refeição, ouvir música, viajar, conversar com amigos, apaixonar-se, contemplar uma paisagem, praticar esporte, estudar, produzir conhecimento ou simplesmente rir não são necessariamente sinais de afastamento de Deus.

O problema não está no prazer, mas naquilo que fazemos dele.

Quando o prazer se transforma em dependência, exploração, egoísmo ou destruição de outras pessoas, ele pode nos escravizar. Mas quando uma experiência proporciona alegria, convivência, descanso, beleza e gratidão, por que necessariamente deveria ser considerada inimiga da espiritualidade?

Também precisamos ter cuidado com a afirmação de que “sem Deus nada somos”.

Do ponto de vista da fé, alguém pode dizer que a existência humana encontra sua origem e seu fundamento em Deus. Mas isso não significa que uma pessoa sem fé seja um ser sem valor, sem dignidade ou sem capacidade de amar.

Uma pessoa pode não acreditar em Deus e ainda assim dedicar a vida à família, à ciência, à justiça, à solidariedade, à educação, à defesa da natureza ou ao cuidado de quem sofre.

E aqui aparece outra questão importante: não devemos atribuir automaticamente o aumento da depressão à falta de Deus.

A depressão é uma condição complexa, relacionada a fatores psicológicos, biológicos, sociais e ambientais. Solidão, perdas, violência, dificuldades econômicas, traumas, doenças, relações familiares, predisposição individual e muitas outras circunstâncias podem participar desse processo.

A espiritualidade pode ser, para muitas pessoas, uma importante fonte de sentido, esperança, comunidade e apoio. Mas isso não significa que a ausência de religião seja a explicação para todo sofrimento psicológico.

Aliás, dizer a alguém deprimido que sua tristeza existe porque está longe de Deus pode produzir ainda mais culpa: “Estou sofrendo porque minha fé é insuficiente.”

E isso pode ser profundamente doloroso.

Talvez seja mais saudável compreender a relação entre fé e existência de outra maneira.

Não precisamos escolher entre viver plenamente este mundo e esperar a eternidade.

Para quem acredita, uma coisa pode estar ligada à outra.

A esperança cristã não deveria produzir desprezo pela Terra, mas responsabilidade diante dela. Se acredito na vida eterna, isso não me autoriza a tratar esta vida como descartável. Pelo contrário: deveria aumentar minha responsabilidade por aquilo que faço enquanto estou aqui.

Se acredito em Deus, como trato o ser humano que está diante de mim?

Como trato minha família?

Como trato quem pensa diferente?

Como trato o pobre?

Como trato quem não acredita?

Como trato a natureza?

Como exerço minha profissão?

Como uso o dinheiro?

Como trato o meu próprio corpo?

Como enfrento a injustiça?

Como lido com o poder?

Talvez seja justamente aí que a fé deixe de ser apenas discurso sobre o céu e se transforme em prática concreta na Terra.

O cristianismo não deveria ensinar uma fuga da realidade, mas uma maneira diferente de habitá-la.

Não precisamos viver como miseráveis para provar que queremos o céu. Também não precisamos transformar os prazeres do mundo em nosso único objetivo.

Podemos trabalhar sem fazer do dinheiro um deus.

Podemos desfrutar sem transformar o prazer em escravidão.

Podemos conquistar bens sem sermos possuídos por eles.

Podemos estudar e questionar sem perder a espiritualidade.

Podemos amar a ciência sem abandonar a fé.

Podemos celebrar a vida sem esquecer a morte.

Podemos reconhecer nossos limites sem deixar de sonhar.

E podemos acreditar na eternidade sem desprezar o presente.

Talvez a pergunta mais importante não seja “esta vida tem sentido sem Deus?”

Para quem acredita, a pergunta pode ser outra:

“Se Deus nos deu esta vida, o que estamos fazendo com ela?”

Porque, se existe uma eternidade, ela não deveria servir para diminuir o valor do presente.

Deveria nos tornar ainda mais responsáveis pela maneira como vivemos o presente.

A vida não precisa ser uma sala de espera para o céu.

Pode ser o lugar onde aprendemos a amar.

 


sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Quando o algoritmo escolhe o que devemos enxergar Gente, vamos pensar um pouco?

 

Quando o algoritmo escolhe o que devemos enxergar

Gente, vamos pensar um pouco?



Por que tantas pessoas aderem a ideias que parecem contrariar seus próprios interesses?

Por que, às vezes, um trabalhador defende uma proposta que outros consideram prejudicial aos trabalhadores? Por que alguém pode apoiar uma ideia que, analisada por outro ângulo, parece não favorecer a sua própria condição de vida?

O pobre defende a ideia do rico? A vítima aplaude o seu agressor?

Parece estranho. Mas acontece.

E talvez a pergunta mais importante seja: como chegamos a pensar dessa maneira?

Tenho defendido aqui, há algum tempo, a importância do jornalismo diante da crescente preferência das pessoas pelas redes sociais como principal fonte de informação.

E não se trata de demonizar as redes. Elas são ferramentas extraordinárias de comunicação, aproximam pessoas, democratizam a publicação de conteúdos e permitem que uma informação percorra o mundo em poucos segundos.

Mas existe uma questão que merece nossa atenção:

Quem está escolhendo o que nós vemos?

Quando navegamos pelas redes sociais, os algoritmos utilizam sinais de nossas próprias atividades — como curtidas, visualizações e outras interações — para personalizar aquilo que aparece em nossa tela. A própria Meta descreve esse processo ao explicar como recomenda e classifica conteúdos.

Parece conveniente. E é.

O problema começa quando a comodidade substitui a curiosidade.

Você pensa de determinada maneira e pode passar a receber cada vez mais conteúdos relacionados aos seus interesses. Concorda com determinada posição política? É possível que apareçam mais conteúdos daquele universo. Tem determinada visão religiosa? O sistema aprende suas preferências e procura conteúdos considerados relevantes para você.

Pouco a pouco, podemos deixar de encontrar o diferente.

E aí está o perigo.

Como vamos testar nossas convicções se quase nunca somos confrontados com outras ideias?

Uma sociedade que deixa de estudar, pesquisar, comparar e ouvir o contraditório corre o risco de confundir convicção com conhecimento.

E atenção: não estou dizendo que exista uma conspiração para transformar todos nós em alguma coisa. A realidade é mais complexa. Pesquisas sobre os chamados “filtros-bolha” apresentam resultados diferentes conforme a plataforma, o contexto e o tipo de conteúdo analisado. Há estudos que identificam maior exposição a conteúdos semelhantes, enquanto outros encontram também aumento da diversidade de fontes quando as pessoas usam mecanismos de busca e redes para se informar.

Mas uma coisa é inegável: o conteúdo que chega até nós não é apresentado de forma completamente aleatória.

E existe uma consequência preocupante quando confundimos o nosso feed com a realidade:

podemos começar a acreditar que aquilo que aparece na nossa tela representa o mundo inteiro.

Não representa.

É apenas uma parte dele.

É aí que entra o jornalismo.

O jornalismo profissional não deveria existir para dizer ao cidadão aquilo que ele quer ouvir. Sua função é informar, investigar, contextualizar, ouvir versões diferentes, confrontar informações, apresentar fatos e permitir que o público forme sua própria opinião.

O jornalismo pode nos apresentar uma notícia com a qual concordamos e, no minuto seguinte, outra com a qual discordamos.

E isso é saudável.

Porque democracia não se constrói apenas com a confirmação daquilo que já pensamos.

Precisamos do contraditório.

Precisamos sair, de vez em quando, da nossa zona de conforto intelectual. Precisamos ler aquilo que questiona nossas certezas. Precisamos ouvir quem pensa diferente. Precisamos estudar antes de repetir. Precisamos pesquisar antes de compartilhar.

Uma sociedade que deixa de estudar e passa a consumir apenas aquilo que confirma suas crenças pode ficar mais confortável, mas também mais vulnerável.

Talvez o problema não seja simplesmente dizer que “as redes sociais nos emburrecem”.

O problema é permitir que elas pensem por nós.

Porque ser inteligente não é ter certeza de tudo.

É ter coragem de perguntar:

E se eu estiver errado?

Antes de curtir, compartilhar, condenar alguém ou aderir a uma ideia, vale uma pausa:

Eu cheguei a essa conclusão porque pesquisei, comparei e pensei — ou porque o algoritmo percebeu que era exatamente isso que eu gostaria de ouvir?

Gente, vamos pensar.

Pense.

Por Pedro Claudio



quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A riqueza de uma frase que muitas vezes passa despercebida na Liturgia das Horas

 

A riqueza de uma frase que muitas vezes passa despercebida na Liturgia das Horas


Por Pedro Claudio

Na Liturgia das Horas, especialmente nas Laudes, há textos que repetimos diariamente e que, justamente pela frequência, correm o risco de passar despercebidos. Dizemos as palavras, rezamos os salmos, seguimos a oração e, às vezes, não paramos para perguntar o que aquela pequena introdução realmente está querendo nos dizer.

Um desses textos aparece antes do Salmo 142 (143), na numeração da liturgia cristã:

“Ninguém é justificado por observar a Lei de Moisés, mas por crer em Jesus Cristo.”
(cf. Gl 2,16)

É uma frase pequena, mas carrega uma das questões fundamentais da teologia de São Paulo: como o ser humano é justificado diante de Deus?

E aqui vale a pena parar um pouco.

O que Paulo está dizendo? Que devemos ignorar a Lei de Moisés? Que os Dez Mandamentos perderam seu valor? Que, depois de Cristo, cada pessoa pode fazer o que quiser simplesmente porque acredita em Jesus?

Não é isso.

A frase precisa ser entendida dentro do contexto em que Paulo escreveu e também dentro da compreensão cristã da relação entre a antiga e a nova Aliança.

Afinal, o que é a Lei de Moisés?

Quando falamos em Lei de Moisés, estamos falando principalmente da Torá, os cinco primeiros livros da Bíblia — Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio — e do conjunto de mandamentos e prescrições que estruturavam a vida religiosa, moral e comunitária de Israel.

Não se trata simplesmente de uma lista de regras.

A Lei fazia parte da Aliança de Deus com Israel. Ela orientava a relação com Deus, a vida comunitária, a justiça, o culto, a alimentação, a pureza ritual, o sábado, a circuncisão e muitas outras dimensões da existência do povo judeu.

Dentro desse conjunto estão também os Dez Mandamentos, que ocupam lugar fundamental na tradição bíblica e cristã.

O Catecismo da Igreja Católica explica que a Lei antiga é o primeiro estágio da Lei revelada e que suas prescrições morais estão resumidas no Decálogo. Para a Igreja, portanto, a Lei de Moisés não é algo simplesmente descartável ou sem valor. Ela faz parte da história da salvação e prepara para o Evangelho.

Então por que São Paulo diz que ninguém é justificado pelas obras da Lei?

Aqui está o ponto que muitas vezes pode causar confusão.

São Paulo está enfrentando uma questão muito concreta das primeiras comunidades cristãs: é necessário assumir as práticas da Lei judaica para pertencer plenamente ao povo de Deus e alcançar a salvação em Cristo?

Paulo responde que não.

Em sua compreensão, a pessoa não se torna justa diante de Deus simplesmente por cumprir exteriormente determinadas prescrições da Lei. A justificação é dom da graça de Deus, recebida pela fé em Jesus Cristo.

Em uma catequese dedicada justamente a esse tema, Bento XVI explicou que, para São Paulo, a palavra “Lei” (Torah) abrangia a totalidade da Lei de Moisés e que o debate envolvia especialmente práticas como circuncisão, normas alimentares, pureza ritual e observância do sábado. Bento XVI também advertiu que isso não significa libertação da prática do bem ou da ética.

Essa observação é importante.

Fé não significa ausência de responsabilidade.

Não é: “Acredito em Jesus, portanto posso fazer qualquer coisa.”

A fé cristã verdadeira conduz a uma vida transformada.

Jesus aboliu a Lei?

Também não.

O próprio Jesus, no Evangelho de Mateus, afirma que não veio abolir a Lei e os Profetas, mas levá-los à plenitude.

É exatamente nessa direção que a Igreja Católica compreende a relação entre a antiga e a nova Lei.

O Catecismo afirma que a Lei evangélica cumpre, ultrapassa e leva à perfeição a Lei antiga. A novidade não está simplesmente em trocar uma lista de regras por outra. Está na transformação do coração.

A Lei antiga mostra o caminho.

Cristo leva esse caminho à sua plenitude.

E o Espírito Santo torna possível viver essa novidade.

Por isso o Catecismo chama a Nova Lei de lei de amor, de graça e de liberdade.

A diferença está entre cumprir uma regra e viver uma relação com Deus

Talvez aqui esteja uma das riquezas da pequena frase que aparece antes do Salmo.

Uma pessoa pode cumprir uma regra exteriormente e, ainda assim, permanecer distante de Deus.

Pode cumprir o ritual e não ter misericórdia.

Pode conhecer a norma e não amar o próximo.

Pode apresentar-se como religioso e manter o coração fechado.

O cristianismo introduz uma mudança profunda: não basta saber o que é certo; é necessário deixar-se transformar por dentro.

É justamente isso que encontramos no ensinamento de Jesus.

O mandamento do amor a Deus e ao próximo não elimina a dimensão moral da existência. Ao contrário: dá-lhe uma profundidade maior.

Não é apenas “não matar”.

É também aprender a respeitar a vida.

Não é apenas “não roubar”.

É também aprender a ser justo.

Não é apenas cumprir uma obrigação religiosa.

É permitir que a fé transforme a maneira como tratamos as pessoas.

Por isso, a fé em Cristo não é uma espécie de salvo-conduto contra a responsabilidade moral.

A fé que justifica é uma fé que produz frutos.

A Lei mostra, mas a graça transforma

O Catecismo usa uma imagem muito bonita para explicar a Lei antiga: ela funciona como um pedagogo. Mostra o caminho, denuncia o pecado, orienta o ser humano e prepara para o Evangelho. Mas, por si mesma, não comunica a força interior da graça para realizar plenamente aquilo que ela ensina.

Aqui podemos compreender melhor São Paulo.

A questão não é simplesmente Lei contra fé.

É compreender que a salvação não é uma conquista humana acumulada pelo cumprimento exterior de regras.

A salvação é graça.

E a graça recebida pela fé produz uma vida nova.

É por isso que São Paulo pode falar de fé e, ao mesmo tempo, insistir na caridade.

A fé não elimina a prática do bem.

A fé verdadeira conduz ao amor.

E o Salmo 142?

É justamente interessante que essa frase seja colocada como introdução ao Salmo 142 (143), uma “Prece na aflição”.

O salmista não se apresenta diante de Deus como alguém que tem uma ficha perfeita e exige reconhecimento pelos seus méritos.

Ao contrário, ele clama por misericórdia.

É a oração de alguém que reconhece sua fragilidade e coloca sua esperança em Deus.

Isso dá ainda mais sentido à frase que introduz o salmo:

“Ninguém é justificado por observar a Lei de Moisés, mas por crer em Jesus Cristo.”

É como se a liturgia nos lembrasse diariamente de algo que facilmente esquecemos: não somos salvos porque somos perfeitos. Somos chamados a viver da graça de Deus.

E isso vale também para quem exerce um ministério.

A Liturgia das Horas como escola diária

Talvez seja justamente por isso que a Liturgia das Horas seja tão rica.

Para quem tem a obrigação canônica de rezá-la, como os ministros ordenados, ela não deveria ser apenas mais uma obrigação a ser cumprida.

E para os demais cristãos, a oração das Horas pode ser uma preciosa fonte de espiritualidade.

As Laudes, especialmente, colocam o início do dia diante de Deus.

Salmos, leituras, antífonas, preces e hinos vão formando uma espécie de escola espiritual diária.

Mas é preciso tempo.

É preciso não apenas pronunciar as palavras.

É preciso, algumas vezes, parar.

Perguntar.

Pesquisar.

Voltar ao texto bíblico.

Conhecer seu contexto.

E perceber que uma frase que parece pequena pode esconder séculos de reflexão teológica.

A Liturgia diária é muito mais rica do que simplesmente rezar textos porque eles estão previstos no livro.

Ela pode fortalecer o ministro ordenado, o missionário, o religioso, a religiosa e todo cristão que procura viver sua fé no cotidiano.

Talvez uma das grandes riquezas da oração seja justamente esta: ela nos faz parar para compreender aquilo que estamos dizendo.

E, no caso dessa pequena frase antes do Salmo 142, a pergunta continua atual: 

Estou tentando conquistar Deus pelo cumprimento exterior das regras ou estou permitindo que a fé em Cristo transforme meu coração e minha maneira de viver?

Talvez seja uma boa pergunta para começar o dia.

Por Pedro Claudio
Reflexão sobre a Liturgia das Horas, a Lei de Moisés, a fé e a justificação em São Paulo.