Quando a política desperta
o pior de nós: a humanidade ainda tem muito a aprender
Por Pedro
Claudio — em meio a muitas dúvidas
As
últimas eleições brasileiras nos deixam uma lição que vai muito além da disputa
entre candidatos, partidos e ideologias. Elas nos colocam diante de uma
pergunta incômoda: o que acontece com o ser humano quando alguém ameaça suas
convicções, seus interesses ou a sua maneira de enxergar o mundo?
Em muitos
casos, a resposta aparece nas ruas, nas redes sociais e até dentro das
famílias: a razão cede lugar à emoção, o diálogo transforma-se em confronto e
aquele que pensa diferente deixa de ser visto como semelhante para ser tratado
como inimigo.
Não é uma
impressão isolada nem um fenômeno exclusivamente brasileiro. Basta acompanhar
os registros públicos, as notícias e os relatos históricos para perceber que a
intolerância política, religiosa, racial e ideológica acompanha a humanidade há
séculos. O que muda são as circunstâncias, os discursos e os instrumentos
utilizados para agredir.
Nas
disputas eleitorais brasileiras, encontramos relatos de ameaças, agressões
físicas, ofensas e humilhações motivadas por preferências políticas. Nas redes
sociais, a violência verbal tornou-se parte da rotina. Quem manifesta uma
opinião diferente pode ser chamado de burro, ignorante, vendido, comunista,
fascista ou receber outros insultos, como se o simples fato de discordar retirasse
da pessoa o direito à dignidade.
E há uma
contradição evidente: muitos dizem defender a democracia, mas não aceitam a
liberdade do outro de pensar diferente. Querem o direito de falar, mas não
reconhecem o mesmo direito a quem discorda deles.
A democracia
não é a liberdade de concordar com o meu candidato. É também a capacidade de
conviver com quem escolhe outro caminho, sem transformar a divergência em
motivo de ódio.
O que a psicologia e a sociologia nos ajudam a
compreender?
A
psicologia social oferece algumas pistas. O ser humano procura pertencimento,
identificação e segurança em grupos. Quando passa a enxergar um partido, um
líder ou uma corrente ideológica como parte fundamental da própria identidade,
uma crítica ao grupo pode ser sentida como uma ofensa pessoal.
Nesse
processo, surge a tendência de valorizar as atitudes dos integrantes do próprio
grupo e desconfiar das intenções daqueles que pertencem ao grupo adversário. O
adversário deixa de ser alguém que simplesmente pensa diferente: passa a ser
alguém que, supostamente, representa uma ameaça.
A
psicologia também estuda o chamado viés de confirmação: a tendência de
procurar, valorizar e compartilhar informações que reforçam nossas crenças,
enquanto questionamos ou rejeitamos aquilo que as contradiz. Em ambientes
digitais, esse comportamento pode ser intensificado por conteúdos que provocam
indignação e por comunidades que recompensam a hostilidade com curtidas,
compartilhamentos e aprovação.
Isso não
significa que toda pessoa politicamente engajada se torne violenta, nem que a
emoção seja sempre inimiga da razão. A indignação pode ser legítima diante de
uma injustiça. O problema começa quando a emoção elimina a capacidade de
examinar os fatos, reconhecer os próprios erros e enxergar humanidade no
adversário.
A
sociologia nos convida a olhar além do indivíduo: discursos de lideranças,
relações de poder, desigualdades e normas aceitas dentro de determinados grupos
também influenciam os comportamentos. Quando insultar o adversário passa a ser
considerado demonstração de lealdade, a agressividade pode ganhar legitimidade
social.
É nesse
ponto que precisamos prestar atenção: a violência não começa necessariamente
com um soco ou um disparo. Muitas vezes, começa quando nos convencemos de que o
outro merece ser humilhado.
A história se repete quando transformamos
diferenças em motivos para perseguir
A
história mundial está repleta de exemplos de seres humanos que foram
perseguidos, expulsos ou mortos porque pertenciam a outro povo, professavam
outra religião, tinham determinada origem ou eram considerados inferiores por
algum grupo dominante.
Na
Alemanha nazista, a propaganda antissemita, o racismo e a ideia de
superioridade racial foram utilizados para desumanizar os judeus e outros
grupos perseguidos. Essa construção ideológica contribuiu para o Holocausto, no
qual seis milhões de judeus foram assassinados, além de milhões de outras
vítimas do regime nazista e de seus colaboradores.
O
genocídio não aconteceu simplesmente porque as pessoas discordavam umas das
outras. Foi resultado de uma ideologia racista, da perseguição organizada pelo
Estado, da propaganda, da guerra e da participação ou colaboração de diferentes
setores da sociedade. Compreender essa complexidade é essencial para que a
história não seja reduzida a uma comparação superficial com qualquer disputa
política contemporânea.
Na região
dos Grandes Lagos africanos, especialmente em Ruanda, em 1994, aproximadamente
800 mil pessoas foram assassinadas durante cerca de cem dias, em sua maioria
tutsis, além de hutus moderados e outros que se opuseram aos massacres. A
violência foi alimentada por extremismo, propaganda, organização política e
décadas de tensões históricas.
É
importante corrigir uma versão que circula de maneira simplificada: não há fundamento
histórico sólido para explicar esse genocídio dizendo que dois povos se mataram
simplesmente porque um tinha o nariz mais largo que o outro. Características
físicas foram usadas em classificações raciais e em discursos de desumanização,
mas as causas do genocídio foram muito mais complexas.
A região
do Congo também viveu e continua vivendo conflitos graves, envolvendo disputas
políticas, étnicas, territoriais e econômicas, entre outros fatores. Não é
correto, porém, atribuir suas guerras a uma suposta diferença no formato do
nariz entre grupos negros. Repetir essa explicação seria substituir a história
por uma caricatura.
O que
esses episódios nos ensinam? Que as diferenças humanas podem ser transformadas
em justificativas para a exclusão e a violência quando discursos de
superioridade, medo e ódio encontram condições para prosperar.
As
Cruzadas, iniciadas no final do século XI, constituem outro capítulo complexo
dessa história. Em nome de objetivos religiosos e políticos, diferentes
campanhas militares provocaram mortes, perseguições e saques. A religião esteve
entre as motivações proclamadas, mas interesses territoriais, dinásticos e
econômicos também tiveram importância. Não se pode resumir toda a história das
Cruzadas a uma única causa.
O
problema, portanto, não está em reconhecer que as pessoas têm crenças,
identidades e convicções. Está em transformar essas convicções em autorização
para retirar do outro o direito de existir, discordar e viver com dignidade.
E no Brasil, o que estamos fazendo com nossas
diferenças?
A
política brasileira tem sido marcada, em diferentes momentos e por diferentes
grupos, por discursos de hostilidade e episódios de violência. Não seria
correto atribuir toda a agressividade a um único campo político sem delimitar
os acontecimentos, os períodos e os dados utilizados para essa conclusão.
Isso não
impede que cada caso seja investigado e que responsabilidades sejam apontadas
quando existem provas. Se os registros de determinado período indicarem maior
participação de integrantes ou apoiadores de um movimento em episódios
específicos, essa informação deve ser apresentada com números, fontes e
critérios claros — não apenas com impressões pessoais.
O
bolsonarismo, o petismo e outras correntes políticas precisam ser examinados à luz
de declarações, comportamentos e acontecimentos documentados. Nenhuma
identidade partidária, por si só, prova que alguém seja violento; da mesma
maneira, nenhuma bandeira política torna uma agressão aceitável.
A questão
central é outra: por que tanta gente parece disposta a relativizar a violência
quando ela é praticada por alguém do próprio lado?
Quando o
adversário agride, exigimos punição. Quando o nosso grupo agride, procuramos
justificativas. Quando o outro espalha uma informação falsa, denunciamos a
mentira. Quando a informação favorece nossas convicções, compartilhamos sem
conferir.
É assim que
os princípios se tornam conveniências.
Defender
a pátria, a família e Deus pode expressar valores legítimos para milhões de
brasileiros. Mas nenhuma dessas palavras deve funcionar como salvo-conduto para
o desrespeito. A defesa da pátria não autoriza perseguir compatriotas; a defesa
da família não justifica humilhar famílias diferentes da nossa; e a fé em Deus
não transforma o próximo em inimigo que precisa ser destruído.
Uma
sociedade democrática precisa avaliar comportamentos concretos, e não apenas slogans.
O discurso público deve ser confrontado com as atitudes de quem o pronuncia.
Quando o Evangelho não chega ao comportamento
Talvez a
contradição mais dolorosa esteja entre aquilo que muitos professam e aquilo que
praticam.
Há
pessoas que frequentam igrejas, conhecem passagens bíblicas, participam de
celebrações e falam constantemente em Deus, mas são incapazes de tolerar uma
opinião diferente. Algumas utilizam a fé como instrumento de superioridade
moral, como se a proximidade com determinada liderança religiosa ou política
lhes concedesse o direito de julgar e condenar os demais.
É preciso
perguntar: de que serve conhecer a mensagem do Evangelho se ela não modifica a
maneira como tratamos as pessoas?
Jesus
ensinou: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Marcos 12,31). Também
ensinou: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”
(Mateus 5,44).
Essas
palavras não são convites à passividade diante da injustiça, nem exigem que
alguém aceite abusos em silêncio. Amar o próximo também significa defender a
verdade, proteger quem sofre violência e cobrar responsabilidades. Mas
significa fazê-lo sem transformar o ódio em método e a vingança em projeto de
vida.
O próprio
Jesus, no Evangelho de Mateus, adverte contra o julgamento hipócrita: antes de
apontar o cisco no olho do irmão, é preciso reconhecer a trave no próprio olho
(Mateus 7,3-5).
A
pergunta, então, não é se sabemos citar a Bíblia. É se estamos dispostos a
permitir que ela questione nossas certezas, nossas preferências eleitorais e
nosso comportamento.
Quando a
lealdade ao candidato vale mais do que a verdade, quando a defesa do partido
vale mais do que a dignidade humana e quando a raiva fala mais alto do que a
consciência, a religião corre o risco de se tornar apenas um adorno moral.
O Evangelho
não perde seu valor porque as pessoas deixam de praticá-lo. O que fica
comprometido é a credibilidade de quem proclama seus ensinamentos, mas se
recusa a vivê-los.
A violência também pode não deixar marcas no corpo
Quando
falamos em violência, pensamos imediatamente em armas de fogo, facas, socos e
agressões físicas. Mas há outras formas de ferir uma pessoa.
Palavras
podem humilhar, ameaças podem provocar medo e campanhas de difamação podem
destruir reputações. O poder econômico pode ser utilizado para intimidar,
excluir e silenciar. A discriminação de gênero pode limitar oportunidades,
negar direitos e reduzir pessoas à condição de seres inferiores.
Essas
formas de violência não são idênticas e precisam ser analisadas em seus
contextos específicos. Ainda assim, todas nos obrigam a refletir sobre o uso do
poder para diminuir o outro.
Nem toda
crítica é agressão, nem toda discordância é intolerância. Questionar um
político, denunciar uma irregularidade, contestar uma religião ou criticar uma
ideia são direitos importantes. O limite está em ameaçar, perseguir,
discriminar ou tentar retirar do outro sua dignidade e seus direitos.
Uma
sociedade livre precisa proteger tanto a possibilidade de discordar quanto a
segurança de quem discorda.
Será que um dia aprenderemos a viver em harmonia?
Confesso
que, diante de tantas contradições, essa pergunta me acompanha.
Somos uma
espécie capaz de produzir ciência, construir hospitais, escrever poemas,
desenvolver tecnologias e realizar gestos extraordinários de solidariedade. Ao
mesmo tempo, somos capazes de perseguir pessoas por suas crenças, odiar por
causa de um voto e justificar atrocidades em nome de causas que consideramos
sagradas.
Temos
conhecimento acumulado, mas nem sempre sabedoria. Temos acesso a uma quantidade
imensa de informações, mas nem sempre disposição para verificar o que
recebemos. Falamos em liberdade, mas, por vezes, queremos controlar a
consciência alheia.
Talvez a
humanidade nunca alcance uma harmonia completa. Os conflitos fazem parte da
vida social, porque interesses, valores e necessidades nem sempre coincidem.
Mas conflito não precisa significar violência. Discordar é inevitável;
desumanizar o adversário é uma escolha que podemos combater.
O caminho
exige educação para o diálogo, responsabilidade de quem exerce liderança,
instituições capazes de aplicar a lei com imparcialidade, compromisso com os
fatos e disposição para reconhecer os próprios erros. Exige também uma prática
religiosa que não se limite às palavras e uma participação política que não
transforme candidatos em ídolos.
Não
precisamos pensar todos da mesma maneira. Precisamos aprender que ninguém tem o
monopólio da inteligência, da honestidade, do patriotismo ou de Deus.
E talvez
seja essa a grande lição das eleições: elas não revelam apenas quem escolhemos
para governar. Também revelam algo sobre a maneira como tratamos aqueles que
fizeram uma escolha diferente.
Continuo
com dúvidas. Às vezes, parece que a humanidade está condenada a repetir seus
erros e que, no fim, resta apenas o velho “salve-se quem puder”.
Mas, se
desistirmos de acreditar na possibilidade de aprender, estaremos entregando a
vitória justamente àquilo que criticamos: à intolerância, ao egoísmo e à
indiferença.
Por isso,
mesmo sem ter respostas definitivas, fica uma pergunta para cada um de nós:
De que
adianta vencer uma eleição, defender uma ideologia ou proclamar uma fé se, no
caminho, perdemos a capacidade de reconhecer no outro um ser humano como nós?
Talvez a
mudança comece quando deixarmos de perguntar apenas quem está certo e quem está
errado e passarmos a perguntar também: que tipo de pessoa estou me tornando ao
defender aquilo em que acredito?
É uma
pergunta que vale para a política, para a religião, para a família e para a
vida inteira.
Pedro
Claudio — em meio a muitas dúvidas.