sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Quando a emoção vence a razão

 

Quando a emoção vence a razão



Por Pedro Claudio

Estamos vivendo um dos períodos mais confusos da história política brasileira recente. Não apenas pela quantidade de denúncias, investigações e disputas de poder, mas, principalmente, pela dificuldade que estamos tendo de separar fatos de narrativas, convicções de interesses e, sobretudo, emoção de razão.

Um episódio revelado nesta semana chama a atenção. O ex-banqueiro Daniel Vorcaro afirmou, em uma proposta de delação premiada, que as doações de R$ 3 milhões para a campanha de Jair Bolsonaro e de R$ 2 milhões para a campanha de Tarcísio de Freitas, em 2022, teriam sido, na realidade, propina disfarçada de contribuição eleitoral. Segundo o relato, os recursos estariam relacionados a uma negociação envolvendo a manutenção do Credcesta, serviço de crédito consignado para servidores públicos.

É preciso fazer uma ressalva fundamental: a declaração de Vorcaro é uma acusação, não uma verdade judicialmente comprovada. Sua proposta de delação foi rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República por falta de fatos novos ou provas suficientes. Os citados também negam as acusações.

Mas o episódio levanta uma discussão que vai muito além de Vorcaro, Bolsonaro, Tarcísio ou qualquer outro personagem.

Para que alguém coloca milhões de reais em uma campanha eleitoral?

A resposta pode ser absolutamente legítima: acreditar em um projeto, defender uma determinada visão de país ou apoiar um candidato. E a legislação brasileira reconhece a possibilidade de doações de pessoas físicas, estabelecendo regras e limites. Para as eleições de 2026, por exemplo, o TSE mantém o limite de 10% dos rendimentos brutos do doador no ano anterior à eleição.

Portanto, doação eleitoral não é, por si só, propina.

O problema começa quando uma contribuição financeira deixa de ser uma manifestação legítima de apoio político e passa a funcionar como moeda de troca por uma vantagem futura. Aí estamos diante de algo completamente diferente: dinheiro privado buscando influência sobre decisões públicas.

E talvez seja exatamente aí que esteja uma das grandes doenças da política brasileira: a dificuldade de enxergar que, muitas vezes, quem financia o poder também espera alguma coisa dele.

Mas existe uma questão ainda mais profunda.

O discurso religioso e a prática

Tenho escrito sobre isso porque é algo que me incomoda profundamente como cidadão e como alguém que, durante tantos anos, conviveu diariamente com pessoas, ouvindo suas histórias, suas dores, suas esperanças e suas contradições.

Estamos vendo crescer uma política que utiliza a religião, especialmente o discurso cristão, como instrumento de mobilização.

Não há absolutamente nada de errado em um cristão participar da política. Pelo contrário. A fé também pode inspirar a defesa da justiça, da solidariedade, da honestidade e da dignidade humana.

O problema aparece quando a religião passa a ser utilizada apenas como ferramenta de convencimento, enquanto determinados comportamentos e propostas entram em contradição com os próprios valores que o discurso religioso afirma defender.

É preciso ter coragem para fazer uma pergunta simples:

Será que estamos comparando aquilo que nossos líderes políticos dizem com aquilo que efetivamente defendem e praticam?

Ou estamos apenas aplaudindo aquilo que confirma nossas crenças?

É aí que a emoção pode se tornar perigosa.

Um discurso inflamado, uma frase de efeito, uma passagem bíblica, uma história emocionante ou uma imagem cuidadosamente produzida nas redes sociais podem criar uma identificação tão forte que muitas pessoas deixam de fazer a pergunta mais importante da democracia:

“Isso que estão propondo é realmente bom para mim, para minha família e para o país?”

O paradoxo do pobre que vota contra seus próprios interesses

É uma das contradições que mais me intrigam.

O trabalhador que recebe um salário mínimo — hoje de R$ 1.621 — enfrenta o preço da comida, do aluguel, do transporte, da energia elétrica e dos medicamentos.

E, muitas vezes, esse mesmo trabalhador é convencido a concentrar sua preocupação política exclusivamente em determinadas pautas morais, enquanto questões que interferem diretamente na sua vida — educação, emprego, salário, saúde, aposentadoria, moradia e segurança — ficam em segundo plano.

Não estou dizendo que valores morais não sejam importantes. São.

Estou dizendo que uma sociedade não pode discutir apenas aquilo que provoca indignação emocional e esquecer aquilo que determina a qualidade de vida das pessoas.

Veja o caso da juventude.

Em junho deste ano, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou a admissibilidade de uma proposta que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. A proposta ainda precisa cumprir outras etapas de tramitação e, portanto, não virou lei.

Podemos discutir se um adolescente que comete um crime grave deve ou não responder de maneira diferente. É um debate legítimo.

Mas também deveríamos perguntar:

O que estamos oferecendo a esse jovem antes que ele entre para o crime?

Educação de qualidade?

Formação profissional?

Primeiro emprego?

Esporte?

Cultura?

Perspectiva de futuro?

Os números mostram que o problema é muito mais complexo. Segundo o IBGE, em 2024, entre os homens de 15 a 29 anos que abandonaram a escola antes de concluir o ensino médio, a principal razão apontada foi a necessidade de trabalhar.

E existe outro dado que deveria nos fazer pensar: em 2024, o Brasil tinha cerca de 1,65 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil. Entre os adolescentes de 16 e 17 anos, a proporção em situação de trabalho infantil chegou a 15,3%.

Então eu pergunto:

É mais fácil defender que um jovem de 16 anos seja punido como adulto ou construir uma sociedade que ofereça a ele educação, oportunidade e trabalho digno?

Talvez a segunda opção não produza aplausos imediatos.

Talvez não renda vídeos virais.

Talvez não provoque multidões emocionadas.

Mas pode produzir cidadãos.

E o cristianismo nisso tudo?

É aqui que a contradição se torna ainda maior.

Há cristãos que se mobilizam intensamente contra o aborto — uma posição que merece ser respeitada dentro do debate democrático — mas, ao mesmo tempo, defendem discursos de violência e até a ideia de que determinadas pessoas deveriam ter o direito de matar quem considera um inimigo.

Como conciliar essas duas coisas?

Como defender a vida em uma situação e relativizá-la em outra?

Como falar em amor ao próximo e transformar adversários políticos em inimigos?

Como defender a família e, ao mesmo tempo, aceitar a mentira, a corrupção, a intolerância ou a violência simplesmente porque quem pratica essas coisas está do “nosso lado”?

O próprio Evangelho deveria ser utilizado como régua para medir todos — inclusive aqueles de quem gostamos.

Não apenas os adversários.

Talvez este seja o nosso maior problema

Não é apenas a esquerda.

Não é apenas a direita.

Não é Bolsonaro.

Não é Lula.

Não é o Congresso.

Não é o Supremo.

Somos nós também.

Nós, cidadãos, temos responsabilidade quando aceitamos qualquer coisa de nosso grupo e condenamos a mesma coisa quando praticada pelo grupo adversário.

A corrupção do meu político vira “erro”.

A corrupção do adversário vira “crime”.

A mentira do meu candidato vira “estratégia”.

A mentira do outro vira “prova de caráter”.

A violência praticada pelo meu lado é “reação”.

A violência praticada pelo outro é “barbárie”.

Esse comportamento não é defesa da democracia.

É torcida organizada.

E democracia não pode ser torcida.

Democracia exige cidadãos capazes de dizer:

“Meu lado também pode estar errado.”

Talvez precisemos recuperar algo que parece estar desaparecendo: a capacidade de ouvir, desconfiar, conferir, comparar e pensar.

Antes de compartilhar, verificar.

Antes de aplaudir, perguntar.

Antes de condenar, conhecer.

Antes de votar, analisar.

E, principalmente, antes de dizer que alguém representa nossos valores, comparar o discurso dessa pessoa com aquilo que ela efetivamente defende.

Porque quando a emoção vence completamente a razão, deixamos de ser cidadãos críticos e passamos a ser seguidores.

E uma sociedade de seguidores é terreno fértil para qualquer tipo de líder — inclusive para aqueles que, depois de conquistarem o poder, descobrem que podem fazer quase tudo porque seus seguidores continuarão aplaudindo.

A política precisa de convicções, sim.

A religião precisa de fé, sim.

Mas uma democracia precisa, acima de tudo, de consciência.

E consciência exige uma coisa que parece cada vez mais rara:

pensar antes de aplaudir.

Tenho dito.

 


domingo, 30 de agosto de 2026

Entre o pedestal e o serviço: quando a nossa vaidade nos impede de viver o Evangelho

 

Entre o pedestal e o serviço: quando a nossa vaidade nos impede de viver o Evangelho


Pedro Claudio

Há uma contradição muito profunda na experiência humana: nós somos capazes de ler textos sagrados, ouvir sermões, estudar teologia, conhecer os ensinamentos de Jesus e até falar sobre humildade, caridade e serviço — mas, muitas vezes, temos enorme dificuldade de transformar tudo isso em atitudes concretas no cotidiano.

Talvez esse seja um dos grandes dramas da condição humana: compreender uma verdade não significa necessariamente conseguir vivê-la.

A Bíblia está repleta de ensinamentos que confrontam aquilo que naturalmente desejamos. Nós gostamos de reconhecimento, de prestígio, de títulos, de posição, de elogios e de estar próximos de pessoas consideradas importantes. A sociedade constrói hierarquias e nós, muitas vezes, não apenas as aceitamos, mas as alimentamos.

É assim na política, na universidade, nas empresas, nas profissões e também dentro das religiões.

Na Igreja, podemos perceber isso de maneira muito clara. O leigo pode colocar o diácono em um pedestal; o diácono pode colocar o padre; o padre pode colocar o bispo; o bispo pode colocar o Papa. E, nessa escalada de admiração, corremos o risco de esquecer uma coisa fundamental: nenhum título transforma um ser humano em alguém superior diante de Deus.

A Igreja Católica possui, evidentemente, uma estrutura hierárquica e reconhece diferentes ministérios. Bispos, presbíteros e diáconos possuem responsabilidades distintas. Mas a própria doutrina católica afirma que todos os fiéis possuem igual dignidade como filhos de Deus e que a hierarquia existe para servir o povo de Deus. O ministério ordenado não é apresentado como uma plataforma de superioridade pessoal, mas como serviço.

O problema começa quando a função passa a ser confundida com o valor da pessoa.

Um Papa continua sendo um ser humano.

Um bispo continua sendo um ser humano.

Um padre continua sendo um ser humano.

Um diácono continua sendo um ser humano.

E também é ser humano aquele homem simples que acorda cedo, trabalha, sustenta sua família, ajuda um vizinho, cuida de um doente, divide o pouco que possui e ninguém conhece.

Talvez esse homem jamais receba um título religioso, jamais suba a um altar e jamais seja aplaudido por uma multidão. Mas isso não significa que sua vida tenha menos valor diante de Deus.

Deus não mede as pessoas pelo tamanho do palco em que elas estão, mas pela verdade do coração e pela maneira como vivem.

Jesus foi particularmente duro com a necessidade humana de aparecer.

No Evangelho, ele critica aqueles que gostam dos primeiros lugares, dos cumprimentos e das posições de destaque. E estabelece uma lógica completamente diferente: entre seus discípulos, quem quiser ser grande deve tornar-se servidor.

Essa lógica é revolucionária porque inverte a nossa escala de valores.

Nós frequentemente pensamos:

maior cargo = maior importância.

O Evangelho propõe:

maior responsabilidade = maior serviço.

Filipenses 2 apresenta justamente essa lógica ao combater a ambição egoísta e a vaidade e colocar diante do cristão o exemplo de Cristo, que se esvazia de si mesmo e assume a condição de servo.

E aqui está uma pergunta que talvez todos nós devêssemos fazer:

Se Jesus aparecesse hoje entre nós, quem seria realmente considerado importante?

Seria o homem poderoso?

O religioso famoso?

O político influente?

O empresário rico?

O teólogo conhecido?

O sacerdote que reúne multidões?

Ou seria aquela pessoa que ninguém percebe, mas que passa a vida servindo?

Não temos como responder por Deus. Mas o Evangelho nos dá pistas suficientes para perceber que a lógica divina não coincide necessariamente com a lógica social do prestígio.

O perigo do pedestal

Existe ainda outro problema: quando colocamos alguém em um pedestal, deixamos de enxergar essa pessoa como ela realmente é.

Começamos a atribuir a ela uma espécie de superioridade moral automática.

Se fala um padre, pensamos: "ele sabe mais".

Se fala um bispo: "ele sabe ainda mais".

Se fala o Papa: "então deve estar certo".

Mas isso pode produzir um perigoso atalho mental: em vez de avaliarmos aquilo que foi dito, avaliamos quem disse.

A psicologia identifica fenômenos relacionados à autoridade, ao status e à admiração que podem influenciar nosso julgamento. Pessoas percebidas como competentes ou importantes tendem a receber maior deferência, e a admiração pode contribuir para a manutenção das hierarquias sociais.

Isso não significa desrespeitar autoridades.

Significa compreender que respeito não é idolatria; obediência não é cegueira; admiração não é submissão intelectual.

O cristão pode respeitar o Papa sem transformar o Papa em Cristo.

Pode respeitar o bispo sem transformar o bispo em Cristo.

Pode respeitar o padre sem transformar o padre em Cristo.

Pode respeitar o diácono sem transformar o diácono em Cristo.

Porque o centro do cristianismo não é a pessoa que ocupa o cargo. É Cristo.

O problema não está na hierarquia; está na vaidade

É importante não confundir as coisas.

Uma organização pode precisar de autoridade.

Uma Igreja precisa de ministros.

Uma comunidade precisa de responsabilidades diferentes.

Uma família possui funções diferentes.

Uma sociedade possui autoridades.

O problema não está necessariamente na existência dessas diferenças.

O problema aparece quando a diferença de função se transforma em diferença de dignidade.

O Catecismo da Igreja Católica é muito claro ao afirmar que a autoridade deve ser exercida como serviço e que aqueles que exercem autoridade devem buscar o bem da comunidade, e não o próprio interesse.

Essa deveria ser uma pergunta permanente para qualquer pessoa que exerça algum tipo de poder:

Estou aqui para ser servido ou para servir?

Essa pergunta vale para o Papa.

Vale para o bispo.

Vale para o padre.

Vale para o diácono.

Vale para o prefeito.

Vale para o professor.

Vale para o empresário.

Vale para o jornalista.

Vale para o pai e para a mãe.

E vale para cada um de nós.

O cristão precisa descer do pedestal

Talvez uma das maiores conversões que precisamos realizar não seja mudar de religião, mudar de comunidade ou aprender mais doutrina.

Talvez seja simplesmente descer do pedestal.

Descer do pedestal do cargo.

Do conhecimento.

Da experiência.

Da idade.

Do dinheiro.

Da posição social.

Da função religiosa.

Da própria importância.

Porque existe uma forma muito sofisticada de vaidade: a vaidade de achar que somos humildes.

Podemos dizer que servimos enquanto, secretamente, esperamos reconhecimento.

Podemos falar sobre humildade enquanto queremos ser tratados como pessoas especiais.

Podemos defender a igualdade enquanto fazemos distinção entre pessoas importantes e pessoas comuns.

Podemos falar que todos são filhos de Deus enquanto tratamos melhor aquele que tem poder do que aquele que não tem nada para nos oferecer.

E talvez seja justamente aí que o Evangelho começa a nos incomodar.

Como viver isso na prática?

Talvez seja necessário transformar a grandeza do Evangelho em pequenas atitudes.

Quando encontrar uma pessoa simples, não a trate como alguém inferior.

Quando alguém que ocupa um cargo importante falar com você, respeite a função, mas não abandone sua capacidade de pensar.

Quando receber um elogio, agradeça sem acreditar que você se tornou superior aos outros.

Quando exercer alguma autoridade, pergunte quem será beneficiado pela sua decisão.

Quando estiver em uma posição de destaque, procure quem está escondido e esquecido.

Quando perceber alguém sendo humilhado, não participe da humilhação apenas porque todos estão fazendo isso.

Quando alguém cometer um erro, lembre-se de que você também é capaz de errar.

Quando alguém simples fizer algo extraordinário, tenha humildade para reconhecer.

Quando ninguém estiver olhando, faça o bem mesmo assim.

E, principalmente, quando perceber que está admirando excessivamente uma pessoa, faça uma pausa e pergunte:

Estou admirando o caráter dessa pessoa ou apenas o poder que ela possui?

Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes.

O verdadeiro tamanho de uma pessoa

Talvez precisemos aprender a medir as pessoas por outro critério.

Não pelo título.

Não pela roupa.

Não pelo cargo.

Não pelo número de seguidores.

Não pelo dinheiro.

Não pelo lugar que ocupa na hierarquia.

Mas pela capacidade de amar, servir, perdoar, repartir, ouvir, reconhecer o próprio erro, proteger o vulnerável e fazer o bem sem precisar ser aplaudido.

Porque, no fim das contas, uma pessoa pode ocupar o lugar mais alto de uma instituição e continuar pequena diante de Deus; e outra pode ocupar o último lugar na sociedade e possuir uma grandeza que ninguém consegue enxergar.

Não cabe a nós determinar quem é maior diante de Deus.

Mas cabe a nós viver de maneira que nossa grandeza não dependa de sermos maiores que ninguém.

Jesus não ensinou seus discípulos a procurar o primeiro lugar.

Ensinou-os a servir.

E talvez essa seja a grande dificuldade do cristianismo: não é tão difícil aprender a falar como cristão; difícil é aprender a viver como Cristo.

A fé deixa de ser apenas conhecimento quando modifica nossas relações.

Quando começamos a respeitar o pequeno da mesma maneira que respeitamos o poderoso.

Quando conseguimos ouvir quem pensa diferente.

Quando deixamos de procurar aplausos.

Quando exercemos autoridade sem humilhar.

Quando fazemos o bem sem precisar contar para ninguém.

Quando entendemos que nossa função não determina nosso valor.

E quando finalmente percebemos que, diante de Deus, não somos chamados a construir pedestais para seres humanos, mas a construir uma vida de serviço.

Talvez a verdadeira humildade não seja dizer:

"Eu não sou importante."

Talvez seja dizer:

"Eu não preciso ser mais importante que ninguém."

E talvez seja exatamente aí que começamos a compreender, não apenas com a inteligência, mas com a vida, aquilo que o Evangelho tenta nos ensinar há dois mil anos.

Pedro Claudio em 30 de agosto de 2026


quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Que tempos estamos vivendo na política brasileira?

 

Que tempos estamos vivendo na política brasileira?



Gente, que tempos estamos vivendo no Brasil? A campanha eleitoral de 2026 começa a colocar diante dos brasileiros um debate que vai muito além da disputa entre esquerda e direita. Estamos falando sobre os limites do poder, o respeito às instituições, a segurança pública, a liberdade individual e, principalmente, sobre que tipo de democracia queremos para o país.

Algumas declarações e propostas de candidatos chamam atenção e merecem ser discutidas com serenidade, sem paixão partidária.

O candidato Renan Santos, do Missão, por exemplo, afirmou que, se eleito, poderia deixar de cumprir decisões do Supremo Tribunal Federal que considerasse ilegais, depois de consultar sua própria equipe jurídica. Também defendeu que o Brasil desenvolva uma bomba atômica e uma política de segurança inspirada no governo de Nayib Bukele, de El Salvador, com uma atuação policial extremamente dura.

A pergunta que fica é: quem decide se uma decisão judicial é legal ou ilegal? O presidente da República? Sua assessoria jurídica? Ou existem mecanismos constitucionais para contestar uma decisão da Justiça?

Porque democracia não significa apenas poder votar. Significa também aceitar as regras do jogo, inclusive quando a decisão judicial contraria aquilo que defendemos.

Outro exemplo é o candidato Romeu Zema, do Novo. Ele criticou a obrigatoriedade da vacinação e defendeu o direito de o cidadão decidir se quer ou não se vacinar. Também defende anistia para condenados pelos atos de 8 de janeiro, mesma tese do candidato Ronaldo Caiado..

Aqui também existe um debate legítimo. Até onde vai a liberdade individual? E em que momento uma escolha individual pode produzir consequências para outras pessoas?

Na segurança pública, o discurso também está cada vez mais duro.

Flávio Bolsonaro, candidato do PL, defende a redução da maioridade penal para 16 anos e, em determinados crimes graves, punição para adolescentes a partir dos 14 anos. Também propõe penas mais duras e uma política de enfrentamento extremamente rigorosa contra criminosos.

Mas existe um capítulo ainda mais delicado nessa discussão: a chamada excludente de ilicitude.

O ex-presidente Jair Bolsonaro defendeu, durante seu governo, a ampliação da proteção jurídica para policiais e militares em determinadas operações. Em 2018, ele e Eduardo Bolsonaro apresentaram projeto para instituir excludente de ilicitude nas ações de agentes públicos em operações policiais. Em 2019, o governo Bolsonaro também enviou ao Congresso proposta sobre o tema.

É importante explicar: excludente de ilicitude não é, juridicamente, um "direito de matar". O Código Penal já estabelece situações como legítima defesa, estado de necessidade e estrito cumprimento do dever legal. E a própria lei determina que o agente pode responder pelo excesso.

O problema político está justamente em saber até onde essa proteção pode ser ampliada.

Críticos das propostas apresentadas durante o governo Bolsonaro argumentaram que uma ampliação excessiva poderia funcionar, na prática, como uma espécie de salvo-conduto para policiais que matassem durante determinadas operações. A própria Agência Câmara registrou essa crítica ao discutir o projeto.

Bolsonaro, por sua vez, rejeitava a ideia de que estivesse defendendo uma autorização para matar e afirmava que o objetivo era proteger policiais que agissem dentro da lei.

E aqui está o ponto que merece reflexão: quando um Estado autoriza ou protege o uso da força letal, quem fiscaliza o limite dessa força?

É legítimo defender que o policial tenha segurança jurídica para agir diante de uma ameaça real. Afinal, o policial também tem direito à vida.

Mas uma coisa é proteger o agente que age dentro da lei para salvar uma vida. Outra, completamente diferente, seria transformar a possibilidade de matar em uma espécie de autorização prévia.

E essa discussão fica ainda mais interessante quando colocamos lado a lado diferentes discursos políticos.

Há candidatos que fazem da defesa da vida e do combate ao aborto uma das principais bandeiras políticas e, ao mesmo tempo, defendem políticas de segurança pública que ampliam a possibilidade do uso da força letal pelo Estado.

Não se trata de dizer que defender segurança pública é errado. Muito pelo contrário. O cidadão tem direito de viver sem medo, e o Estado tem obrigação de proteger a população.

A questão é outra: qual é o limite entre autoridade e violência? Entre legítima defesa e execução? Entre combater o crime e transformar a morte em política de Estado?

E existe uma contradição que merece ser discutida sem paixão partidária.

Como podemos defender que o Estado não deve permitir a interrupção de uma vida em determinada circunstância e, ao mesmo tempo, aceitar com facilidade a ideia de que o Estado possa retirar uma vida em outra circunstância?

É claro que as situações jurídicas são diferentes. Aborto e legítima defesa não são assuntos juridicamente equivalentes. Mas, no campo político e moral, quando um candidato fala tanto em "defesa da vida", o eleitor tem o direito de perguntar: o princípio da defesa da vida vale para quais situações? E quais são as exceções?

Talvez seja justamente aí que esteja o grande problema da política brasileira atual: muitas vezes, nós não analisamos princípios. Analisamos pessoas.

Se é o nosso candidato defendendo uma medida dura, chamamos de coragem.

Se é o adversário, chamamos de autoritarismo.

Se é o nosso candidato questionando uma decisão judicial, dizemos que está defendendo a liberdade.

Se é o adversário, dizemos que está atacando a democracia.

Se o nosso lado fala em anistia, dizemos que é pacificação.

Se o outro lado fala em anistia, dizemos que é impunidade.

Se o nosso candidato defende a força policial, dizemos que está protegendo o cidadão.

Se o adversário faz a mesma coisa, dizemos que está defendendo a violência.

Talvez esteja na hora de o eleitor brasileiro tirar a paixão da frente e colocar a coerência no lugar.

Não precisamos concordar com Lula para defender a democracia. Não precisamos concordar com Flávio Bolsonaro para defender segurança pública. Não precisamos concordar com Renan Santos para defender liberdade individual. Não precisamos concordar com Zema ou Caiado para reconhecer que determinados temas merecem ser debatidos.

O eleitor precisa perguntar a cada candidato:

Você respeitará a Constituição mesmo quando ela contrariar sua vontade?

Aceitará uma decisão judicial enquanto recorre pelos meios legais?

Defenderá a liberdade individual mesmo quando quem exercer essa liberdade for seu adversário?

Combaterá o crime sem transformar a violência estatal em vingança?

Aceitará o resultado das urnas mesmo se perder?

E, principalmente, respeitará o direito de quem pensa diferente?

Talvez essa seja uma pergunta ainda mais importante do que saber quem será o próximo presidente.

Porque o Brasil não precisa apenas de um vencedor da eleição. Precisa de um presidente que saiba que, depois da eleição, ele não será presidente apenas de quem votou nele.

E quanto ao voto obrigatório? Sim, esse também é um debate legítimo.

Se alguém defende liberdade individual para decidir sobre vacina, costumes e tantos outros assuntos, por que não discutir também se o cidadão deve ser obrigado a comparecer às urnas?

Mas acabar com o voto obrigatório não significa acabar com o dever cívico de votar. Uma democracia saudável precisa de participação. Talvez a discussão mais importante seja justamente esta: como fazer o brasileiro votar não porque é obrigado, mas porque acredita que seu voto é importante?

No fim das contas, talvez a pergunta não seja apenas "o que esses candidatos querem?"

A pergunta deveria ser:

Que Brasil nós, eleitores, estamos dispostos a construir e aceitar?

Porque candidatos fazem propostas para conquistar votos.

Mas quem coloca esses candidatos no poder somos nós.

E uma democracia não fica forte quando o nosso lado vence.

Ela fica forte quando aceitamos as regras mesmo quando o nosso lado perde.

 

terça-feira, 25 de agosto de 2026

O Diaconato Permanente: Entre o Chamado Sagrado e a Realidade do Serviço


 

O Diaconato Permanente: Entre o Chamado Sagrado e a Realidade do Serviço

 


A celebração de 10 anos de ordenação diaconal, marcada para o próximo dia 4 de setembro, traz à tona uma reflexão profunda e necessária sobre a vocação. Diante do entusiasmo de muitos leigos que acalentam esse sonho — por vezes movidos por expectativas irreais, vaidade ou desconhecimento —, torna-se essencial alinhar a essência do diaconato àquilo que a Igreja realmente ensina e vivencia.

 

A Identidade e o Papel do Diácono Permanente

 

O diácono permanente é configurado a Cristo Servidor. De acordo com os documentos da Igreja Católica e com a Comissão Nacional dos Diáconos (CND/CNBB), o diaconato é o primeiro grau do Sacramento da Ordem (bispos, presbíteros e diáconos). Ele faz parte do clero, mas não é um "mini-padre" nem um degrau para o presbiterado; sua essência é o serviço.

 

Fundamentação Bíblica: A origem do ministério remonta às primeiras comunidades cristãs, no livro dos Atos dos Apóstolos (At 6, 1-6), quando os apóstolos escolheram sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, para o serviço das mesas e o cuidado dos necessitados.

 

Múnus e Funções: Como ministro ordinário, o diácono preside os sacramentos do Batismo e do Matrimônio, proclama o Evangelho, transporta o Evangeliário na liturgia, faz a homilia, preside exéquias e distribui a Eucaristia.

 

Vínculo com o Bispo: O diácono é ordenado para o serviço do Bispo Diocesano, atuando como seus "olhos, ouvidos e braços" nas periferias existenciais e pastorais onde a presença eclesiástica se faz necessária, em comunhão e colaboração direta com os presbíteros.

 

Caráter Indelébil e a Seriedade da Decisão

 

A ordenação diaconal confere um caráter sacramental indelével (o sinal de conformação com Cristo). Isso significa que, uma vez ordenado, o homem é diácono para sempre. Mesmo que venha a ser suspenso ou perca o uso da ordem por determinações do direito canônico, sua condição ontológica de diácono jamais é apagada. Trata-se de um compromisso eterno e de extrema gravidade.

 

Orientação aos Vocacionados: Pé no Chão e Coração em Deus

 

Para quem deseja trilhar esse caminho, o testemunho de quem já vive a missão há uma década serve como alerta e guia pastoral:

 

Desapegue do Glamour: O diaconato não é espaço para busca de prestígio social, destaque ou reconhecimento. Fazer parte do clero no papel não garante acolhida ou status comunitário.

 

Pense no Serviço, Não na Posição: A vaidade e a apressada "sede ao pote" cobram um preço alto, levando à frustração e decepção. O altar é consequência do serviço à comunidade e aos pobres, não o destino final da vaidade pessoal.

 

Entenda a Luta Diária: A missão é frutuosa e gratificante para o homem de fé, mas exige renúncia, compromisso pastoral exigente e equilíbrio com a vida familiar e profissional.

 

Servir à Igreja como diácono permanente é abraçar a cruz da disponibilidade silenciosa. Aos que sentem esse chamado, que a motivação seja sempre o serviço humilde a Cristo nos irmãos, sem esperança de aplausos humanitários, mas com o coração ancorado na graça do Sacramento.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

CHEGOU A HORA DA ONÇA BEBER ÁGUA — OU SERÁ GATINHO? QUE TIPO DE ELEITOR VOCÊ É?

 

Antes de escolher, pense: que tipo de político estamos elegendo?





Nós, eleitores, estamos oficialmente sendo torpedeados pela propaganda eleitoral. Desde 16 de agosto, candidatas, candidatos e partidos podem divulgar suas propostas e buscar o voto. O próprio Tribunal Superior Eleitoral lembra que a propaganda deve permitir ao eleitor conhecer a trajetória, as propostas, as mensagens e as realizações de quem disputa uma eleição.

Mas será que propaganda é suficiente para escolher um candidato?

Nem sempre o candidato que mais aparece é a melhor opção. Nem sempre quem fala mais alto tem as melhores ideias. E nem sempre aquele que transforma o adversário em inimigo apresenta um projeto capaz de melhorar a vida da população.

Por isso, talvez seja hora de diminuir o volume da propaganda e aumentar o volume da reflexão.

Cada eleitor tem suas próprias convicções. Há quem escolha um candidato pela defesa de determinadas políticas sociais; há quem valorize posições sobre vacinação, segurança pública, direitos humanos, economia, costumes ou meio ambiente. Tudo isso faz parte do debate democrático.

O problema começa quando deixamos de avaliar ideias e passamos simplesmente a escolher lados.

É preciso olhar o histórico do candidato. O que ele fez quando teve oportunidade de exercer um cargo público? Cumpriu o que prometeu? Como votou? Como administrou? Como tratou o dinheiro público? Apresentou resultados? Prestou contas? Respeitou as instituições? Soube conviver com quem pensa diferente?

E há outra pergunta que merece ser feita: por que alguém quer tanto permanecer na política?

A política deveria ser, antes de tudo, um instrumento para promover o bem coletivo. Mas, quando o mandato passa a ser tratado como patrimônio familiar, a preocupação precisa aumentar.

Não é raro vermos famílias inteiras entrando na política: primeiro um membro, depois a esposa ou o marido, depois os filhos, netos e outros parentes. Não há, evidentemente, nada de errado pelo simples fato de pessoas da mesma família disputarem eleições. O problema surge quando a política deixa de ser serviço público e passa a ser encarada como carreira familiar permanente, sustentada pelo poder, pelos salários e pela estrutura do Estado.

O mandato público não deveria ser um negócio de família.

Também precisamos prestar atenção ao novo papel das redes sociais. Hoje, uma campanha pode transformar alguém em herói e, no mesmo instante, transformar o adversário em vilão. Uma acusação repetida milhares de vezes pode parecer verdade simplesmente porque foi repetida milhares de vezes.

Mas acusação não é prova. Vídeo não é necessariamente verdade. Montagem não é informação. E, nas Eleições 2026, o TSE estabeleceu regras específicas para combater a desinformação e disciplinar o uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral.

Precisamos, portanto, desconfiar do candidato que constrói sua campanha apenas destruindo o adversário.

Quem promete apenas combater, eliminar, destruir ou acabar com o outro está apresentando um projeto de governo ou apenas um projeto de poder?

Onde estão as propostas para a saúde?

Onde estão as propostas para a educação?

Onde está o compromisso com o emprego, a renda, a segurança, a agricultura, o meio ambiente e a melhoria dos serviços públicos?

E, principalmente: como pretende fazer tudo isso?

Porque prometer é fácil. Difícil é apresentar um caminho possível, explicar de onde virão os recursos e depois prestar contas do que foi realizado.

Também precisamos abandonar a ideia de que política é simplesmente escolher "o menos pior". Talvez seja necessário reconhecer que o voto não deveria ser apenas uma obrigação eleitoral, mas uma oportunidade de participar das decisões que afetam a nossa própria vida.

O Tribunal Superior Eleitoral mantém, inclusive, um guia destinado a orientar o eleitor na escolha consciente de representantes, com informações sobre as funções dos cargos, as atribuições dos Poderes e as formas de fiscalização.

Então, antes de votar, vale fazer algumas perguntas simples:

Eu conheço o passado desse candidato?

Conheço suas propostas ou apenas suas críticas aos adversários?

Ele apresenta soluções ou apenas inimigos?

Já exerceu cargo público? O que realizou?

Como se comportou diante do dinheiro público?

Tem disposição para prestar contas?

Defende o interesse coletivo ou principalmente seus próprios interesses políticos?

Quero escolher alguém porque acredito em seu projeto ou porque fui convencido de que o outro é pior?

Talvez essa seja uma das maiores responsabilidades do eleitor: não permitir que o marketing pense por nós.

Não precisamos votar em quem grita mais. Não precisamos votar em quem tem mais seguidores. Não precisamos transformar candidato em ídolo nem adversário em inimigo.

Precisamos escolher representantes.

E representante é aquele que recebe temporariamente uma parcela do poder que pertence à sociedade.

Por isso, antes de apertar as teclas da urna, vale pensar: será que estamos elegendo alguém para servir à população ou estamos, ano após ano, sustentando pessoas que descobriram na política uma maneira de sustentar a si mesmas e aos seus?

A resposta é individual.

O voto também.

Pense nisso. Pesquise. Compare. Questione. E vote consciente.

 


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Quando o canto emociona, mas não transforma

 

Quando o canto emociona, mas não transforma






Por Pedro Claudio

Gosto sempre de pensar e contribuir, de alguma forma, para que a gente possa viver melhor. E hoje quero compartilhar uma percepção que, embora eu tenha convivido durante muitos anos com a música na Igreja, somente agora consigo enxergar com mais clareza.

São as músicas que cantamos nas celebrações religiosas.

Na Igreja Católica, a música litúrgica há muito tempo é motivo de estudos, debates e orientações. Existe uma compreensão muito bonita: a música deve ajudar a oração, favorecer a reflexão e conduzir a pessoa ao encontro com Deus. Ela não deve, porém, ocupar o lugar da Palavra, da celebração ou da própria mensagem que a Igreja deseja transmitir.

O cantor, dentro da celebração, não está ali para ser artista. O canto não deveria ser apresentado como um espetáculo. Existe cuidado com a melodia, com as notas, com o tom, com o volume e, principalmente, com a finalidade daquele momento.

Durante muito tempo, inclusive, algumas comunidades e dioceses fizeram escolhas mais contidas em relação aos instrumentos utilizados nas celebrações, justamente para evitar que a música se transformasse em atração e que os músicos ocupassem um espaço maior do que deveriam.

Mas hoje encontramos, em algumas celebrações religiosas, verdadeiros grandes shows musicais. São grupos numerosos, instrumentos sofisticados, vozes muito bem preparadas e apresentações capazes de causar admiração e até inveja a grandes grupos profissionais.

E é preciso reconhecer: há muita coisa bonita nisso. Existem músicas com letras profundas, melodias que tocam o coração, vozes que emocionam e momentos musicais que realmente podem ajudar uma pessoa a rezar.

O problema não está necessariamente na qualidade da música.

A pergunta que faço é outra: o que acontece depois da emoção?

A música me emocionou. Mas ela me levou a uma mudança?

O canto me fez chorar. Mas me fez olhar diferente para quem sofre?

A celebração me envolveu. Mas, ao sair da igreja, eu me tornei mais paciente, mais solidário, mais disposto a perdoar e a amar?

São perguntas difíceis, mas necessárias.

São Paulo, na Carta aos Romanos, capítulo 13, nos lembra que o amor ao próximo resume a lei: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. E acrescenta que o amor não pratica o mal contra o próximo; por isso, o amor é o cumprimento da lei.

Talvez esteja aí uma das maiores medidas da nossa experiência religiosa.

Podemos cantar muito, cantar bonito, nos emocionar, levantar as mãos, aplaudir e sentir arrepios. Mas, se tudo isso não produzir algum movimento dentro de nós em direção ao outro, precisamos perguntar qual foi o verdadeiro resultado daquela experiência.

É como um sino.

O sino faz barulho. O sino chama. O sino desperta a atenção. Mas o sino, sozinho, não muda a vida de ninguém.

Quem precisa mudar somos nós.

Por isso, talvez seja necessário pensar na música religiosa não apenas como aquilo que ouvimos, mas como aquilo que nos ajuda a fazer.

A emoção pode ser o começo. A transformação precisa ser o passo seguinte.

Não se trata de condenar quem canta, quem toca ou quem se emociona. Muito menos de dizer que uma música bonita não tem valor. Pelo contrário. A música tem uma força extraordinária. Ela pode tocar lugares dentro de nós onde muitas palavras não conseguem chegar.

Mas uma coisa precisa conduzir à outra.

Se a música me aproxima de Deus, que essa aproximação também me aproxime das pessoas.

Se o canto fala de amor, que eu pratique o amor.

Se fala de perdão, que eu aprenda a perdoar.

Se fala de solidariedade, que eu seja solidário.

Se fala de Cristo, que eu procure viver aquilo que Cristo ensinou.

Talvez essa seja uma boa reflexão para fazermos na próxima vez que estivermos dentro de uma assembleia, entoando um canto.

Não pense apenas se a música é bonita.

Pergunte também:

O que essa música está fazendo dentro de mim?

E, principalmente:

O que eu vou fazer com aquilo que senti quando a música terminar?

Porque cantar pode emocionar.

Mas é o amor vivido que pode transformar.