quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Que tempos estamos vivendo na política brasileira?

 

Que tempos estamos vivendo na política brasileira?



Gente, que tempos estamos vivendo no Brasil? A campanha eleitoral de 2026 começa a colocar diante dos brasileiros um debate que vai muito além da disputa entre esquerda e direita. Estamos falando sobre os limites do poder, o respeito às instituições, a segurança pública, a liberdade individual e, principalmente, sobre que tipo de democracia queremos para o país.

Algumas declarações e propostas de candidatos chamam atenção e merecem ser discutidas com serenidade, sem paixão partidária.

O candidato Renan Santos, do Missão, por exemplo, afirmou que, se eleito, poderia deixar de cumprir decisões do Supremo Tribunal Federal que considerasse ilegais, depois de consultar sua própria equipe jurídica. Também defendeu que o Brasil desenvolva uma bomba atômica e uma política de segurança inspirada no governo de Nayib Bukele, de El Salvador, com uma atuação policial extremamente dura.

A pergunta que fica é: quem decide se uma decisão judicial é legal ou ilegal? O presidente da República? Sua assessoria jurídica? Ou existem mecanismos constitucionais para contestar uma decisão da Justiça?

Porque democracia não significa apenas poder votar. Significa também aceitar as regras do jogo, inclusive quando a decisão judicial contraria aquilo que defendemos.

Outro exemplo é o candidato Romeu Zema, do Novo. Ele criticou a obrigatoriedade da vacinação e defendeu o direito de o cidadão decidir se quer ou não se vacinar. Também defende anistia para condenados pelos atos de 8 de janeiro, mesma tese do candidato Ronaldo Caiado..

Aqui também existe um debate legítimo. Até onde vai a liberdade individual? E em que momento uma escolha individual pode produzir consequências para outras pessoas?

Na segurança pública, o discurso também está cada vez mais duro.

Flávio Bolsonaro, candidato do PL, defende a redução da maioridade penal para 16 anos e, em determinados crimes graves, punição para adolescentes a partir dos 14 anos. Também propõe penas mais duras e uma política de enfrentamento extremamente rigorosa contra criminosos.

Mas existe um capítulo ainda mais delicado nessa discussão: a chamada excludente de ilicitude.

O ex-presidente Jair Bolsonaro defendeu, durante seu governo, a ampliação da proteção jurídica para policiais e militares em determinadas operações. Em 2018, ele e Eduardo Bolsonaro apresentaram projeto para instituir excludente de ilicitude nas ações de agentes públicos em operações policiais. Em 2019, o governo Bolsonaro também enviou ao Congresso proposta sobre o tema.

É importante explicar: excludente de ilicitude não é, juridicamente, um "direito de matar". O Código Penal já estabelece situações como legítima defesa, estado de necessidade e estrito cumprimento do dever legal. E a própria lei determina que o agente pode responder pelo excesso.

O problema político está justamente em saber até onde essa proteção pode ser ampliada.

Críticos das propostas apresentadas durante o governo Bolsonaro argumentaram que uma ampliação excessiva poderia funcionar, na prática, como uma espécie de salvo-conduto para policiais que matassem durante determinadas operações. A própria Agência Câmara registrou essa crítica ao discutir o projeto.

Bolsonaro, por sua vez, rejeitava a ideia de que estivesse defendendo uma autorização para matar e afirmava que o objetivo era proteger policiais que agissem dentro da lei.

E aqui está o ponto que merece reflexão: quando um Estado autoriza ou protege o uso da força letal, quem fiscaliza o limite dessa força?

É legítimo defender que o policial tenha segurança jurídica para agir diante de uma ameaça real. Afinal, o policial também tem direito à vida.

Mas uma coisa é proteger o agente que age dentro da lei para salvar uma vida. Outra, completamente diferente, seria transformar a possibilidade de matar em uma espécie de autorização prévia.

E essa discussão fica ainda mais interessante quando colocamos lado a lado diferentes discursos políticos.

Há candidatos que fazem da defesa da vida e do combate ao aborto uma das principais bandeiras políticas e, ao mesmo tempo, defendem políticas de segurança pública que ampliam a possibilidade do uso da força letal pelo Estado.

Não se trata de dizer que defender segurança pública é errado. Muito pelo contrário. O cidadão tem direito de viver sem medo, e o Estado tem obrigação de proteger a população.

A questão é outra: qual é o limite entre autoridade e violência? Entre legítima defesa e execução? Entre combater o crime e transformar a morte em política de Estado?

E existe uma contradição que merece ser discutida sem paixão partidária.

Como podemos defender que o Estado não deve permitir a interrupção de uma vida em determinada circunstância e, ao mesmo tempo, aceitar com facilidade a ideia de que o Estado possa retirar uma vida em outra circunstância?

É claro que as situações jurídicas são diferentes. Aborto e legítima defesa não são assuntos juridicamente equivalentes. Mas, no campo político e moral, quando um candidato fala tanto em "defesa da vida", o eleitor tem o direito de perguntar: o princípio da defesa da vida vale para quais situações? E quais são as exceções?

Talvez seja justamente aí que esteja o grande problema da política brasileira atual: muitas vezes, nós não analisamos princípios. Analisamos pessoas.

Se é o nosso candidato defendendo uma medida dura, chamamos de coragem.

Se é o adversário, chamamos de autoritarismo.

Se é o nosso candidato questionando uma decisão judicial, dizemos que está defendendo a liberdade.

Se é o adversário, dizemos que está atacando a democracia.

Se o nosso lado fala em anistia, dizemos que é pacificação.

Se o outro lado fala em anistia, dizemos que é impunidade.

Se o nosso candidato defende a força policial, dizemos que está protegendo o cidadão.

Se o adversário faz a mesma coisa, dizemos que está defendendo a violência.

Talvez esteja na hora de o eleitor brasileiro tirar a paixão da frente e colocar a coerência no lugar.

Não precisamos concordar com Lula para defender a democracia. Não precisamos concordar com Flávio Bolsonaro para defender segurança pública. Não precisamos concordar com Renan Santos para defender liberdade individual. Não precisamos concordar com Zema ou Caiado para reconhecer que determinados temas merecem ser debatidos.

O eleitor precisa perguntar a cada candidato:

Você respeitará a Constituição mesmo quando ela contrariar sua vontade?

Aceitará uma decisão judicial enquanto recorre pelos meios legais?

Defenderá a liberdade individual mesmo quando quem exercer essa liberdade for seu adversário?

Combaterá o crime sem transformar a violência estatal em vingança?

Aceitará o resultado das urnas mesmo se perder?

E, principalmente, respeitará o direito de quem pensa diferente?

Talvez essa seja uma pergunta ainda mais importante do que saber quem será o próximo presidente.

Porque o Brasil não precisa apenas de um vencedor da eleição. Precisa de um presidente que saiba que, depois da eleição, ele não será presidente apenas de quem votou nele.

E quanto ao voto obrigatório? Sim, esse também é um debate legítimo.

Se alguém defende liberdade individual para decidir sobre vacina, costumes e tantos outros assuntos, por que não discutir também se o cidadão deve ser obrigado a comparecer às urnas?

Mas acabar com o voto obrigatório não significa acabar com o dever cívico de votar. Uma democracia saudável precisa de participação. Talvez a discussão mais importante seja justamente esta: como fazer o brasileiro votar não porque é obrigado, mas porque acredita que seu voto é importante?

No fim das contas, talvez a pergunta não seja apenas "o que esses candidatos querem?"

A pergunta deveria ser:

Que Brasil nós, eleitores, estamos dispostos a construir e aceitar?

Porque candidatos fazem propostas para conquistar votos.

Mas quem coloca esses candidatos no poder somos nós.

E uma democracia não fica forte quando o nosso lado vence.

Ela fica forte quando aceitamos as regras mesmo quando o nosso lado perde.

 

terça-feira, 25 de agosto de 2026

O Diaconato Permanente: Entre o Chamado Sagrado e a Realidade do Serviço


 

O Diaconato Permanente: Entre o Chamado Sagrado e a Realidade do Serviço

 


A celebração de 10 anos de ordenação diaconal, marcada para o próximo dia 4 de setembro, traz à tona uma reflexão profunda e necessária sobre a vocação. Diante do entusiasmo de muitos leigos que acalentam esse sonho — por vezes movidos por expectativas irreais, vaidade ou desconhecimento —, torna-se essencial alinhar a essência do diaconato àquilo que a Igreja realmente ensina e vivencia.

 

A Identidade e o Papel do Diácono Permanente

 

O diácono permanente é configurado a Cristo Servidor. De acordo com os documentos da Igreja Católica e com a Comissão Nacional dos Diáconos (CND/CNBB), o diaconato é o primeiro grau do Sacramento da Ordem (bispos, presbíteros e diáconos). Ele faz parte do clero, mas não é um "mini-padre" nem um degrau para o presbiterado; sua essência é o serviço.

 

Fundamentação Bíblica: A origem do ministério remonta às primeiras comunidades cristãs, no livro dos Atos dos Apóstolos (At 6, 1-6), quando os apóstolos escolheram sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, para o serviço das mesas e o cuidado dos necessitados.

 

Múnus e Funções: Como ministro ordinário, o diácono preside os sacramentos do Batismo e do Matrimônio, proclama o Evangelho, transporta o Evangeliário na liturgia, faz a homilia, preside exéquias e distribui a Eucaristia.

 

Vínculo com o Bispo: O diácono é ordenado para o serviço do Bispo Diocesano, atuando como seus "olhos, ouvidos e braços" nas periferias existenciais e pastorais onde a presença eclesiástica se faz necessária, em comunhão e colaboração direta com os presbíteros.

 

Caráter Indelébil e a Seriedade da Decisão

 

A ordenação diaconal confere um caráter sacramental indelével (o sinal de conformação com Cristo). Isso significa que, uma vez ordenado, o homem é diácono para sempre. Mesmo que venha a ser suspenso ou perca o uso da ordem por determinações do direito canônico, sua condição ontológica de diácono jamais é apagada. Trata-se de um compromisso eterno e de extrema gravidade.

 

Orientação aos Vocacionados: Pé no Chão e Coração em Deus

 

Para quem deseja trilhar esse caminho, o testemunho de quem já vive a missão há uma década serve como alerta e guia pastoral:

 

Desapegue do Glamour: O diaconato não é espaço para busca de prestígio social, destaque ou reconhecimento. Fazer parte do clero no papel não garante acolhida ou status comunitário.

 

Pense no Serviço, Não na Posição: A vaidade e a apressada "sede ao pote" cobram um preço alto, levando à frustração e decepção. O altar é consequência do serviço à comunidade e aos pobres, não o destino final da vaidade pessoal.

 

Entenda a Luta Diária: A missão é frutuosa e gratificante para o homem de fé, mas exige renúncia, compromisso pastoral exigente e equilíbrio com a vida familiar e profissional.

 

Servir à Igreja como diácono permanente é abraçar a cruz da disponibilidade silenciosa. Aos que sentem esse chamado, que a motivação seja sempre o serviço humilde a Cristo nos irmãos, sem esperança de aplausos humanitários, mas com o coração ancorado na graça do Sacramento.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

CHEGOU A HORA DA ONÇA BEBER ÁGUA — OU SERÁ GATINHO? QUE TIPO DE ELEITOR VOCÊ É?

 

Antes de escolher, pense: que tipo de político estamos elegendo?





Nós, eleitores, estamos oficialmente sendo torpedeados pela propaganda eleitoral. Desde 16 de agosto, candidatas, candidatos e partidos podem divulgar suas propostas e buscar o voto. O próprio Tribunal Superior Eleitoral lembra que a propaganda deve permitir ao eleitor conhecer a trajetória, as propostas, as mensagens e as realizações de quem disputa uma eleição.

Mas será que propaganda é suficiente para escolher um candidato?

Nem sempre o candidato que mais aparece é a melhor opção. Nem sempre quem fala mais alto tem as melhores ideias. E nem sempre aquele que transforma o adversário em inimigo apresenta um projeto capaz de melhorar a vida da população.

Por isso, talvez seja hora de diminuir o volume da propaganda e aumentar o volume da reflexão.

Cada eleitor tem suas próprias convicções. Há quem escolha um candidato pela defesa de determinadas políticas sociais; há quem valorize posições sobre vacinação, segurança pública, direitos humanos, economia, costumes ou meio ambiente. Tudo isso faz parte do debate democrático.

O problema começa quando deixamos de avaliar ideias e passamos simplesmente a escolher lados.

É preciso olhar o histórico do candidato. O que ele fez quando teve oportunidade de exercer um cargo público? Cumpriu o que prometeu? Como votou? Como administrou? Como tratou o dinheiro público? Apresentou resultados? Prestou contas? Respeitou as instituições? Soube conviver com quem pensa diferente?

E há outra pergunta que merece ser feita: por que alguém quer tanto permanecer na política?

A política deveria ser, antes de tudo, um instrumento para promover o bem coletivo. Mas, quando o mandato passa a ser tratado como patrimônio familiar, a preocupação precisa aumentar.

Não é raro vermos famílias inteiras entrando na política: primeiro um membro, depois a esposa ou o marido, depois os filhos, netos e outros parentes. Não há, evidentemente, nada de errado pelo simples fato de pessoas da mesma família disputarem eleições. O problema surge quando a política deixa de ser serviço público e passa a ser encarada como carreira familiar permanente, sustentada pelo poder, pelos salários e pela estrutura do Estado.

O mandato público não deveria ser um negócio de família.

Também precisamos prestar atenção ao novo papel das redes sociais. Hoje, uma campanha pode transformar alguém em herói e, no mesmo instante, transformar o adversário em vilão. Uma acusação repetida milhares de vezes pode parecer verdade simplesmente porque foi repetida milhares de vezes.

Mas acusação não é prova. Vídeo não é necessariamente verdade. Montagem não é informação. E, nas Eleições 2026, o TSE estabeleceu regras específicas para combater a desinformação e disciplinar o uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral.

Precisamos, portanto, desconfiar do candidato que constrói sua campanha apenas destruindo o adversário.

Quem promete apenas combater, eliminar, destruir ou acabar com o outro está apresentando um projeto de governo ou apenas um projeto de poder?

Onde estão as propostas para a saúde?

Onde estão as propostas para a educação?

Onde está o compromisso com o emprego, a renda, a segurança, a agricultura, o meio ambiente e a melhoria dos serviços públicos?

E, principalmente: como pretende fazer tudo isso?

Porque prometer é fácil. Difícil é apresentar um caminho possível, explicar de onde virão os recursos e depois prestar contas do que foi realizado.

Também precisamos abandonar a ideia de que política é simplesmente escolher "o menos pior". Talvez seja necessário reconhecer que o voto não deveria ser apenas uma obrigação eleitoral, mas uma oportunidade de participar das decisões que afetam a nossa própria vida.

O Tribunal Superior Eleitoral mantém, inclusive, um guia destinado a orientar o eleitor na escolha consciente de representantes, com informações sobre as funções dos cargos, as atribuições dos Poderes e as formas de fiscalização.

Então, antes de votar, vale fazer algumas perguntas simples:

Eu conheço o passado desse candidato?

Conheço suas propostas ou apenas suas críticas aos adversários?

Ele apresenta soluções ou apenas inimigos?

Já exerceu cargo público? O que realizou?

Como se comportou diante do dinheiro público?

Tem disposição para prestar contas?

Defende o interesse coletivo ou principalmente seus próprios interesses políticos?

Quero escolher alguém porque acredito em seu projeto ou porque fui convencido de que o outro é pior?

Talvez essa seja uma das maiores responsabilidades do eleitor: não permitir que o marketing pense por nós.

Não precisamos votar em quem grita mais. Não precisamos votar em quem tem mais seguidores. Não precisamos transformar candidato em ídolo nem adversário em inimigo.

Precisamos escolher representantes.

E representante é aquele que recebe temporariamente uma parcela do poder que pertence à sociedade.

Por isso, antes de apertar as teclas da urna, vale pensar: será que estamos elegendo alguém para servir à população ou estamos, ano após ano, sustentando pessoas que descobriram na política uma maneira de sustentar a si mesmas e aos seus?

A resposta é individual.

O voto também.

Pense nisso. Pesquise. Compare. Questione. E vote consciente.

 


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Quando o canto emociona, mas não transforma

 

Quando o canto emociona, mas não transforma






Por Pedro Claudio

Gosto sempre de pensar e contribuir, de alguma forma, para que a gente possa viver melhor. E hoje quero compartilhar uma percepção que, embora eu tenha convivido durante muitos anos com a música na Igreja, somente agora consigo enxergar com mais clareza.

São as músicas que cantamos nas celebrações religiosas.

Na Igreja Católica, a música litúrgica há muito tempo é motivo de estudos, debates e orientações. Existe uma compreensão muito bonita: a música deve ajudar a oração, favorecer a reflexão e conduzir a pessoa ao encontro com Deus. Ela não deve, porém, ocupar o lugar da Palavra, da celebração ou da própria mensagem que a Igreja deseja transmitir.

O cantor, dentro da celebração, não está ali para ser artista. O canto não deveria ser apresentado como um espetáculo. Existe cuidado com a melodia, com as notas, com o tom, com o volume e, principalmente, com a finalidade daquele momento.

Durante muito tempo, inclusive, algumas comunidades e dioceses fizeram escolhas mais contidas em relação aos instrumentos utilizados nas celebrações, justamente para evitar que a música se transformasse em atração e que os músicos ocupassem um espaço maior do que deveriam.

Mas hoje encontramos, em algumas celebrações religiosas, verdadeiros grandes shows musicais. São grupos numerosos, instrumentos sofisticados, vozes muito bem preparadas e apresentações capazes de causar admiração e até inveja a grandes grupos profissionais.

E é preciso reconhecer: há muita coisa bonita nisso. Existem músicas com letras profundas, melodias que tocam o coração, vozes que emocionam e momentos musicais que realmente podem ajudar uma pessoa a rezar.

O problema não está necessariamente na qualidade da música.

A pergunta que faço é outra: o que acontece depois da emoção?

A música me emocionou. Mas ela me levou a uma mudança?

O canto me fez chorar. Mas me fez olhar diferente para quem sofre?

A celebração me envolveu. Mas, ao sair da igreja, eu me tornei mais paciente, mais solidário, mais disposto a perdoar e a amar?

São perguntas difíceis, mas necessárias.

São Paulo, na Carta aos Romanos, capítulo 13, nos lembra que o amor ao próximo resume a lei: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. E acrescenta que o amor não pratica o mal contra o próximo; por isso, o amor é o cumprimento da lei.

Talvez esteja aí uma das maiores medidas da nossa experiência religiosa.

Podemos cantar muito, cantar bonito, nos emocionar, levantar as mãos, aplaudir e sentir arrepios. Mas, se tudo isso não produzir algum movimento dentro de nós em direção ao outro, precisamos perguntar qual foi o verdadeiro resultado daquela experiência.

É como um sino.

O sino faz barulho. O sino chama. O sino desperta a atenção. Mas o sino, sozinho, não muda a vida de ninguém.

Quem precisa mudar somos nós.

Por isso, talvez seja necessário pensar na música religiosa não apenas como aquilo que ouvimos, mas como aquilo que nos ajuda a fazer.

A emoção pode ser o começo. A transformação precisa ser o passo seguinte.

Não se trata de condenar quem canta, quem toca ou quem se emociona. Muito menos de dizer que uma música bonita não tem valor. Pelo contrário. A música tem uma força extraordinária. Ela pode tocar lugares dentro de nós onde muitas palavras não conseguem chegar.

Mas uma coisa precisa conduzir à outra.

Se a música me aproxima de Deus, que essa aproximação também me aproxime das pessoas.

Se o canto fala de amor, que eu pratique o amor.

Se fala de perdão, que eu aprenda a perdoar.

Se fala de solidariedade, que eu seja solidário.

Se fala de Cristo, que eu procure viver aquilo que Cristo ensinou.

Talvez essa seja uma boa reflexão para fazermos na próxima vez que estivermos dentro de uma assembleia, entoando um canto.

Não pense apenas se a música é bonita.

Pergunte também:

O que essa música está fazendo dentro de mim?

E, principalmente:

O que eu vou fazer com aquilo que senti quando a música terminar?

Porque cantar pode emocionar.

Mas é o amor vivido que pode transformar.

 


domingo, 9 de agosto de 2026

A Ilusão do Inimigo: Como a Ignorância e a Manipulação Cimentam a Servidão Voluntária

 

A Ilusão do Inimigo: Como a Ignorância e a Manipulação Cimentam a Servidão Voluntária


A divisão política no Brasil entre “esquerda” e “direita” há muito deixou de ser um debate saudável de ideias para se tornar uma guerra de torcidas cegas. O que se observa hoje no extremo de ambos os lados não é a defesa fundamentada de um projeto de país, mas uma mistura perigosa de ignorância intelectual e manipulação deliberada, onde o divergente deixa de ser um adversário político e passa a ser tratado como um inimigo a ser destruído.

Para compreender esse fenômeno, é preciso olhar além das paixões de torcida e encarar o mecanismo que move essa engrenagem.


1. A Origem da Divisão e o Esquecimento das Pautas Reais

A polarização moderna importou rótulos e reduziu conceitos complexos a slogans simplistas. O debate sobre o papel do Estado, a liberdade individual e a justiça social foi substituído por uma caricatura moral: de um lado, rotula-se tudo como "ameaça à família e à liberdade"; do outro, como "falta de empatia e opressão".

O resultado? Uma massa de cidadãos combatendo fantasmas enquanto as verdadeiras estruturas de poder permanecem intactas.


2. O Jogo dos Interesses Econômicos

A manipulação raramente é ingênua; ela costuma ser estratégica e financiada. Histórica e estruturalmente, setores de grande poder econômico enxergam certas pautas sociais — como a democratização do acesso à universidade pública, o combate à concentração de renda e a garantia de direitos trabalhistas — como ameaças diretas à sua posição de privilégio.

Para que um sistema baseado em mão de obra barata e dependente funcione, é preciso que haja um exército de reserva: pessoas que precisem trabalhar por qualquer valor para garantir o sustento básico de suas famílias. Quando a população mais vulnerável ganha autonomia econômica e educacional, o poder de negociação da classe trabalhadora aumenta — o que desagrada quem sempre se beneficiou da escassez do outro.


3. A Tragédia do Trabalhador que Defende o Patrão

O aspecto mais sutil — e perverso — dessa dinâmica ocorre quando o próprio trabalhador, o "peão", adota e defende com unhas e dentes a ideologia que o precariza.

Por falta de acesso a um letramento político e histórico crítico, muitos são induzidos a acreditar que políticas de proteção social são "danosas" ou "imorais". Convencidos por discursos alarmistas, defendem os interesses daqueles que os exploram, sem perceber que estão pavimentando o próprio caminho rumo a uma servidão moderna: um ciclo onde não se busca qualidade de vida, dignidade ou lazer, mas apenas as migalhas diárias necessárias para a sobrevivência familiar.

O ápice da alienação ocorre quando o oprimido abraça o discurso do opressor, acreditando estar defendendo a própria liberdade.


4. A Engenharia da Desinformação e o Culto a Líderes

Do lado de quem manipula, o pensamento é frio e calculado. Fabrica-se a imagem do "líder messiânico", adornado com adjetivos quase sagrados, capaz de salvar a nação de um mal fictício.

Para sustentar essa narrativa, o vale-tudo informativo virou regra:

  • Notícias falsas (fake news) são produzidas e espalhadas em massa para alimentar o medo e a raiva.
  • A verdade torna-se irrelevante, desde que a mentira cumpra o papel de desgastar o lado oposto.
  • A divergência é criminalizada, impedindo o diálogo e o contraditório.

E essa estratégia tem funcionado. O ódio mobiliza muito mais rápido do que a reflexão complexa.


Conclusão: O Desafio de Voltar a Pensar

Enquanto a população continuar presa nessa dicotomia rasa, alimentando guerras culturais inflamadas por quem detém o poder econômico e político, o resultado continuará o mesmo: o povo divide as dores e as perdas, enquanto a elite colhe os lucros da divisão.

A verdadeira libertação não virá da escolha cega por um lado do espectro político, mas sim do resgate do pensamento crítico. É preciso questionar: a quem interessa o meu ódio pelo meu vizinho? A quem beneficia a perda dos meus direitos em nome de uma bandeira?

Sem a capacidade de pensar de forma autônoma, a sociedade continuará trocando a promessa de um futuro digno pela ilusão de estar do "lado certo" da história.

 

sábado, 8 de agosto de 2026

O RÁDIO NA ATUALIDADE: ENTRE A CONCORRÊNCIA, OS DESAFIOS E A SOBREVIVÊNCIA

 

O RÁDIO NA ATUALIDADE: ENTRE A CONCORRÊNCIA, OS DESAFIOS E A SOBREVIVÊNCIA



Por Pedro Claudio.

Desde que nasci, o rádio faz parte da minha vida. Na infância, já o ouvia e tive a oportunidade de acompanhar aquilo que muitos chamam de “era de ouro” desse meio de comunicação. O tempo passou, a tecnologia avançou, a televisão ganhou espaço, depois vieram a internet, os portais de notícias, as redes sociais, os podcasts e tantas outras formas de comunicação. Mesmo assim, o rádio continua presente. Resiste, adapta-se e insiste em cumprir seu papel.

Mas qual é, afinal, o papel do rádio nos tempos atuais? E quais são os caminhos para sua sobrevivência diante de uma concorrência cada vez maior?

Na minha visão, algumas emissoras tradicionais ainda possuem um patrimônio que não se compra e não se transfere: a confiança do público. Essa confiança é construída ao longo de décadas, no contato diário com o ouvinte, na presença da emissora na comunidade, na capacidade de ouvir, questionar, informar e, muitas vezes, dar voz a quem não encontra espaço em outros lugares.

O rádio que pretende sobreviver não pode ser apenas um transmissor de música, publicidade ou informações prontas. Precisa ser um rádio vivo. Um rádio que interage, que pergunta, que escuta, que debate, que provoca e que também sabe reconhecer quando erra.

A história nos mostra que a participação dos ouvintes sempre foi uma das grandes forças desse veículo. Tornar a comunidade parte da pauta é fundamental. Debater os problemas da cidade, sem medo e sem preconceitos, buscar os fatos, confrontar versões, ouvir os envolvidos e tornar público aquilo que interessa à população é uma das maiores responsabilidades do rádio.

Em Iporá, por exemplo, lembro-me de uma época, especialmente na década de 1980, em que se discutia praticamente de tudo. Havia provocações, discordâncias, concordâncias e debates. A rádio participava da vida da cidade. Não era apenas um aparelho colocado em cima de uma mesa para transmitir uma programação. Era um espaço de convivência, discussão e manifestação da comunidade.

E talvez esteja aí uma das respostas para a sobrevivência do rádio: a capacidade de fazer parte da vida das pessoas.

Nossas rádios — digo “nossas” porque, embora tenham proprietários e sejam administradas por grupos ou instituições, também pertencem simbolicamente à comunidade que as ouve — têm uma história construída junto com a população.

Uma rádio verdadeiramente viva interage com outros veículos de comunicação, transmite, retransmite, repercute, discute e rediscute. Um fato pode nascer em uma entrevista, ganhar repercussão nas redes sociais, voltar para o rádio, provocar uma manifestação pública e, finalmente, transformar-se em atitude, decisão ou até em uma política pública.

Pode parecer pretensioso pensar dessa maneira, mas acredito que, em determinados momentos, a imprensa local influenciou e contribuiu para mudanças importantes. Ajudou a discutir leis, cobrou sua execução, questionou administrações públicas, defendeu interesses da comunidade e, em alguns casos, contribuiu para a manutenção de conquistas sociais.

Lembro-me, por exemplo, do saudoso juiz Benedito Silva e Souza. Ele fazia questão de valorizar a imprensa. Não dispensava o tratamento de “doutor”, mas também fazia questão de reconhecer a importância do jornalista e do repórter. Em determinado júri popular, chegou a solicitar a presença deste repórter nas proximidades dos serventuários para que tudo pudesse ser registrado. Para ele, a imprensa tinha importância institucional e social.

Ele costumava tratar a imprensa como o “quarto poder”.

É importante compreender o significado dessa expressão. Os chamados três poderes constituídos são o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. A imprensa, embora não seja formalmente um poder da República, recebeu historicamente a denominação de “quarto poder” justamente por sua capacidade de fiscalizar, informar, questionar e influenciar a opinião pública.

E isso tem relação direta com a democracia.

A palavra democracia vem do grego: demos, povo, e kratos, poder ou governo. Democracia, portanto, significa, em sua origem, poder do povo. E não existe democracia forte sem informação, sem liberdade de expressão e sem uma imprensa capaz de exercer sua função com responsabilidade.

Mas, ao pensar no rádio, sua relevância e sua importância, precisamos também fazer algumas perguntas incômodas.

Quem está por trás de uma rádio?

Geralmente existe um proprietário, uma empresa, uma instituição, uma coordenação ou um grupo responsável por sua administração. E esse grupo possui objetivos. É justamente aí que entra uma das questões mais importantes: qual é a linha editorial da emissora?

Tenho uma rádio apenas para faturar, obter retorno financeiro e recuperar o investimento?

Ou tenho uma rádio também para gerar conhecimento, informar, formar cidadãos, conscientizar, prestar serviço e oferecer entretenimento?

Não existe nada de errado em uma emissora buscar sustentabilidade financeira. Pelo contrário. Uma rádio precisa pagar funcionários, equipamentos, energia, manutenção, impostos e todos os custos necessários para continuar funcionando.

O problema aparece quando o interesse econômico passa a determinar completamente aquilo que pode ou não ser informado.

Também existem emissoras adquiridas ou administradas por pessoas com objetivos políticos. Nesse caso, existe o risco de a pauta ser construída para enaltecer determinado grupo, apresentar seus feitos, construir uma imagem positiva e, ao mesmo tempo, desmerecer adversários.

Há também situações em que interesses empresariais podem influenciar a pauta. Aquilo que atinge um anunciante importante pode deixar de ser abordado. Um problema que contraria determinado interesse econômico pode ser ignorado. E, assim, a informação passa a ser condicionada por relações que o ouvinte muitas vezes desconhece.

Existem ainda emissoras ligadas a grupos religiosos ou ideológicos. Isso também não significa, automaticamente, falta de credibilidade. Uma orientação religiosa pode estabelecer princípios éticos e valores importantes para a comunicação. Mas, novamente, tudo depende de quem está à frente, de como administra e de como compreende sua responsabilidade diante da sociedade.

Por isso, a linha editorial é tão importante.

No caso de uma rádio de inspiração cristã, por exemplo, é possível defender princípios cristãos sem transformar a emissora em instrumento de preferência partidária. É possível defender valores, dignidade humana, justiça, solidariedade e respeito sem escolher previamente quem merece ser elogiado ou criticado.

Essa é uma preocupação que considero fundamental a partir da minha própria experiência em uma equipe de pauta livre: ter liberdade para informar, questionar e investigar, sem ferir os princípios que orientam a instituição, mas também sem transformar o jornalismo em instrumento de partido ou de projeto político.

Outro aspecto que precisa ser lembrado é que uma emissora de rádio não funciona simplesmente como uma página pessoal de rede social.

A radiodifusão depende de concessão ou autorização pública, está sujeita à legislação e a obrigações específicas. As emissoras precisam cumprir regras, transmitir determinados conteúdos oficiais, reservar espaço para a propaganda eleitoral quando determinada pela legislação e atender a outras responsabilidades previstas para o serviço de radiodifusão.

Isso é importante porque a frequência utilizada pelo rádio é um bem público. A emissora recebe autorização para utilizá-la e, por isso, existe uma responsabilidade que vai além dos interesses particulares de seus proprietários.

Não significa que uma rádio não possa ter opinião. Significa que essa opinião deve conviver com a responsabilidade pública que acompanha a atividade de radiodifusão.

E talvez essa seja uma das grandes diferenças entre o rádio profissional e aquilo que hoje encontramos em boa parte das redes sociais.

Nas redes sociais, qualquer pessoa pode publicar uma informação verdadeira, uma opinião, uma mentira, uma manipulação ou uma acusação sem necessariamente assumir as mesmas responsabilidades de um veículo profissional de comunicação.

É uma espécie de território sem fronteiras, onde a velocidade muitas vezes vence a apuração.

Por isso, considero perigoso comparar simplesmente uma emissora de rádio ou televisão profissional com aquilo que circula nas redes sociais. O rádio possui uma estrutura, profissionais, responsáveis, legislação e, principalmente, uma história de relação com o público.

Isso não significa que o rádio seja infalível. Não é.

Jornalistas erram. Emissoras erram. Profissionais podem interpretar equivocadamente um fato. Mas existe uma diferença fundamental: o jornalismo profissional precisa ter responsabilidade pelo que publica.

O rádio do futuro, portanto, não será necessariamente aquele que tentar competir com as redes sociais na velocidade. Será aquele que souber oferecer aquilo que as redes muitas vezes não conseguem entregar: credibilidade, proximidade, contexto, apuração e responsabilidade.

O rádio precisa continuar ouvindo.

Precisa continuar perguntando.

Precisa continuar incomodando quando for necessário.

Precisa continuar dando voz à comunidade.

Precisa continuar fiscalizando o poder.

Precisa continuar reconhecendo seus próprios erros.

E, acima de tudo, precisa compreender que sua maior riqueza não está apenas nos equipamentos, na frequência, na audiência ou no faturamento publicitário.

Está na confiança construída ao longo do tempo.

Eu ainda acredito no rádio.

Acredito porque cresci ouvindo rádio. Acredito porque vi sua importância na vida das pessoas. Acredito porque testemunhei debates, discordâncias, denúncias, entrevistas, informações e histórias que ajudaram a construir a memória de uma comunidade.

E acredito que, enquanto houver uma população querendo saber, perguntar, participar e ser ouvida, haverá espaço para uma rádio que compreenda sua verdadeira missão.

Porque uma rádio pode ser apenas uma empresa.

Pode ser apenas um negócio.

Pode ser instrumento de interesses.

Mas também pode ser muito mais do que isso.

Pode ser uma instituição a serviço da comunidade, um espaço de democracia e uma voz permanente do cidadão.

E talvez seja justamente aí que esteja o caminho para sua sobrevivência.

Não competir para ser mais rápida que a internet.

Mas ser mais confiável.

Não tentar gritar mais alto que as redes sociais.

Mas saber falar com responsabilidade.

Não apenas transmitir.

Participar da vida da comunidade.

Esse, para mim, continua sendo o grande papel do rádio.

Por Pedro Claudio, vivendo a história construindo a história como você que teve paciência para ler esse texto até o fim.


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

De olho nas eleições

 Por Pedro Claudio a partir de informações recebidas, de acompanhamento nas mídias sociais e fruto de análise de muitos pensadores. Eis um resumo das preocupações.


As eleições de 2026 se aproximam e, mais uma vez, o Brasil se prepara para uma disputa política que deverá mobilizar paixões, convicções e, também, muita desinformação.

Mas o que realmente estará em jogo nas urnas? Será apenas uma disputa entre candidatos e partidos? Ou estamos diante de algo maior, envolvendo os limites da democracia, o respeito às instituições e a própria soberania nacional?

É preciso olhar além da propaganda eleitoral.

Existe um fenômeno que ganhou força nos últimos anos e que merece a atenção do eleitor: a chamada monetização do ódio.

A expressão parte da ideia de que, nas redes sociais, conteúdos que provocam medo, indignação, raiva e conflito podem alcançar muito mais pessoas. E quanto maior o engajamento, maior pode ser o retorno financeiro e político para quem produz esse conteúdo.

Nesse ambiente, a chamada guerra cultural deixa de ser apenas uma disputa de ideias e pode também funcionar como estratégia de comunicação e marketing político.

É nesse contexto que ganha importância a análise do professor João Cezar de Castro Rocha, pesquisador que estuda o extremismo político e a radicalização no Brasil.

Entre os conceitos discutidos por ele está o chamado “caos cognitivo”: uma situação em que o cidadão é submetido diariamente a tantas informações, versões, acusações e contradições que se torna cada vez mais difícil distinguir fato, opinião, propaganda e manipulação.

E há uma pergunta que precisa ser feita: quem ganha dinheiro e poder quando a sociedade permanece permanentemente dividida?

Nas redes sociais, o conflito pode virar produto. A indignação pode virar audiência. A audiência pode virar dinheiro. E o dinheiro pode financiar mais conteúdo, mais conflito e mais audiência.

É uma lógica que alguns analistas comparam a uma espécie de “esquema Ponzi” aplicado à política: o sistema precisa produzir continuamente novas emoções, novos inimigos e novas controvérsias para continuar funcionando.

Essa discussão aparece também nas análises sobre líderes como Donald Trump, Jair Bolsonaro, Javier Milei, Nayib Bukele e, no Brasil, nomes como Nikolas Ferreira.

Isso não significa dizer que todos sejam iguais ou que suas propostas sejam idênticas. Significa perguntar se existe, entre diferentes experiências políticas, um modelo de comunicação baseado na confrontação permanente, na mobilização emocional e na criação de um ambiente político cada vez mais polarizado.

E aqui está o ponto principal: o eleitor não pode terceirizar sua capacidade de pensar.

Em 2026, cada cidadão terá diante de si vídeos, discursos, memes, mensagens de WhatsApp, cortes de entrevistas e milhares de publicações nas redes sociais.

Antes de compartilhar, vale perguntar: quem produziu isso? Qual é a fonte? Existe evidência? Estou diante de uma informação ou de uma tentativa de provocar uma reação emocional?

A democracia não depende apenas do voto. Depende também da capacidade de uma sociedade discutir ideias sem transformar o adversário em inimigo.

Por isso, talvez uma das maiores disputas de 2026 não esteja apenas entre candidatos.

Ela esteja dentro da cabeça de cada eleitor.

Entre a informação e a manipulação. Entre o argumento e o ataque. Entre o pensamento crítico e o ódio.

Porque quando o ódio vira mercadoria, quem perde não é apenas um lado da política.

Quem pode perder é a própria capacidade de uma sociedade pensar coletivamente sobre o futuro do país.

Pedro Claudio para o Jornal RDR.