segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Prefeita de Iporá enfrenta terceiro pedido de impeachment; dois processos tramitam na Câmara Municipal

 

Prefeita de Iporá enfrenta terceiro pedido de impeachment; dois processos tramitam na Câmara Municipal



Denúncias envolvem supostas irregularidades na administração municipal e ampliam a tensão política entre o Executivo e o Legislativo. Comissão Processante também enfrenta dificuldades para citar a prefeita em processo anterior.

A prefeita de Iporá, Maysa Peres Cunha Peixoto, enfrenta um novo capítulo de tensão política e jurídica. A Câmara Municipal recebeu e aprovou a abertura de um terceiro pedido de impeachment contra a chefe do Executivo nas sessões ordinárias de setembro, no dia 14  Com isso, dois processos de natureza político-administrativa estão em tramitação no Legislativo, enquanto uma primeira denúncia não chegou a ser acolhida pela Casa.

O cenário coloca a administração municipal sob maior pressão e exige da Câmara a condução rigorosa dos procedimentos, com respeito à legislação, ao contraditório e ao direito de defesa da prefeita.

Primeiro pedido não foi levado ao plenário

O primeiro pedido de impedimento foi apresentado pelo advogado João Francisco, na condição de eleitor de Iporá. A denúncia solicitava a apuração de supostas irregularidades que, segundo o autor, poderiam caracterizar infrações político-administrativas atribuídas à prefeita.

Embora o documento tenha sido recebido pela Câmara Municipal, o pedido não foi submetido à apreciação do plenário. Na ocasião, a Presidência, orientada pela assessoria jurídica, decidiu não dar prosseguimento à denúncia.

Dessa forma, a primeira iniciativa não resultou na abertura de um processo de impeachment.

Segundo pedido: denúncia apresentada por Heb Keller

O segundo pedido foi apresentado pela ex-vereadora Heb Keller Fernandes e acabou acolhido pela maioria dos vereadores em sessão realizada em maio de 2026.

A denúncia possui conteúdo semelhante ao primeiro pedido e trata de supostas irregularidades na administração municipal. Após a aprovação, foi realizado o sorteio dos integrantes da Comissão Processante, inicialmente formada pelos vereadores Viviane Specian, Ricardo da Mota Vital e Cássio Douglas Mendes Lara.

A comissão passou a conduzir os trabalhos de apuração, com a responsabilidade de analisar os fatos denunciados, ouvir as partes, examinar documentos e assegurar o direito de defesa da prefeita.

Justiça determina correções no procedimento

O processo enfrentou questionamentos judiciais apresentados pela defesa de Maysa Cunha.

Em agosto, a Justiça autorizou a retomada dos trabalhos da Comissão Processante, mas determinou a anulação de atos realizados anteriormente, incluindo uma reunião e um parecer de 25 de junho, além de atos posteriores diretamente relacionados a eles. A comissão deveria retornar à etapa adequada do procedimento e cumprir as determinações judiciais.

Posteriormente, o Tribunal de Justiça de Goiás negou novo pedido da prefeita para suspender o processo. A decisão permitiu a continuidade dos trabalhos, mas manteve a exigência de que a Câmara respeitasse integralmente as garantias de defesa e refizesse os atos considerados irregulares.

A discussão sobre a contagem do prazo de 90 dias para a conclusão do processo, entretanto, ainda não foi definitivamente resolvida pelo Tribunal.

Comissão relata dificuldade para citar a prefeita

Na sessão da Câmara Municipal realizada nesta segunda-feira, 14 de setembro de 2026, a vereadora Viviane Specian, presidente da Comissão Processante do segundo pedido, informou que os trabalhos continuam seguindo as determinações do Poder Judiciário.

Segundo a parlamentar, a comissão ainda não conseguiu efetivar a citação da prefeita. Viviane afirmou que foram realizadas 28 tentativas de citação e que o procedimento chegou a ficar suspenso por aproximadamente 40 dias em razão de decisão judicial.

A citação é uma etapa fundamental, pois garante que a denunciada seja formalmente comunicada do processo e possa exercer sua defesa. A comissão sustenta que está cumprindo as orientações judiciais, mas enfrenta dificuldades para localizar a prefeita e concluir essa etapa.

A defesa, por sua vez, tem o direito de utilizar os recursos legais disponíveis para questionar atos do procedimento e assegurar o cumprimento das garantias processuais.

Terceiro pedido é apresentado pelo Sindiporá

O terceiro pedido de impeachment partiu do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Iporá — Sindiporá.

A entidade protocolou a denúncia apontando supostas irregularidades relacionadas a descontos efetuados na folha de pagamento dos servidores, incluindo valores de mensalidades sindicais, empréstimos consignados e contribuições destinadas ao Ipasgo. As alegações ainda precisam ser examinadas no âmbito do processo político-administrativo.

A denúncia ocorre em um contexto de outras controvérsias envolvendo os repasses de valores descontados dos servidores. Em agosto, o Ministério Público de Goiás informou o ajuizamento de uma ação de improbidade administrativa contra a prefeita, relacionada a atrasos no repasse de contribuições ao Ipasgo Saúde. A ação teve origem em apurações iniciadas após representação do Sindiporá.

É importante destacar que a existência de uma denúncia ou de uma ação judicial não significa, por si só, que houve comprovação de irregularidades ou que a prefeita tenha sido condenada. Os fatos precisam ser apurados pelas instituições competentes, com garantia de defesa.

Câmara aprova abertura do novo processo

O pedido apresentado pelo Sindiporá foi submetido à votação no plenário da Câmara Municipal de Iporá. O resultado foi de sete votos favoráveis e quatro contrários. O vereador Keilo Pereira Borges estava ausente.

Votaram contra a abertura do processo:

  • Cláudia Ribeiro de Lima;
  • Ronis Aparecida da Silva — Suavinha;
  • Wenio Lima de Jesus;
  • Samuel Martins de Queiroz.

Votaram favoravelmente:

  • Ricardo da Mota Vital;
  • Cássio Douglas Mendes Lara;
  • Carlos Henrique dos Anjos Barbosa;
  • Rafael Junio Neves de Souza;
  • Rangel Araújo Pimenta;
  • Suélio Gomes da Silva;
  • Viviane de Leão Duarte Specian.

Nova Comissão Processante

Após a aprovação da denúncia do Sindiporá, foi realizado sorteio para definir os integrantes da nova Comissão Processante.

Segundo as informações apresentadas, a comissão será formada por:

  • Cássio Douglas Mendes Lara;
  • Ricardo da Mota Vital;
  • Wenio Lima de Jesus.

A comissão deverá analisar o conteúdo da denúncia, verificar a existência de elementos que justifiquem o prosseguimento da apuração, ouvir os envolvidos e produzir um parecer. Ao final, caberá ao plenário da Câmara deliberar sobre o resultado do processo, observadas as regras legais aplicáveis.

O que está em jogo

A abertura de um novo processo amplia a pressão sobre a prefeita Maysa Cunha e demonstra que a relação entre o Executivo e parte do Legislativo continua marcada por divergências.

Entretanto, pedido de impeachment não equivale a afastamento automático nem representa condenação antecipada. A Câmara precisa investigar os fatos, garantir o direito de defesa e fundamentar suas decisões.

Do outro lado, a prefeita e sua defesa têm o direito de contestar as acusações e recorrer ao Poder Judiciário quando entenderem que houve violação das regras do procedimento.

O desafio do Legislativo será conduzir os dois processos com transparência, responsabilidade e respeito às instituições. Para a população de Iporá, o que importa é que as denúncias sejam esclarecidas, que eventuais responsabilidades sejam apuradas e que a administração municipal continue funcionando em benefício do interesse público.

A crise política está instalada, mas o desfecho ainda depende do andamento dos processos, das decisões judiciais e das conclusões das Comissões Processantes.



Cultura, estudo e pesquisa: antídotos contra a ignorância e a visão míope

 


Cultura, estudo e pesquisa: antídotos contra a ignorância e a visão míope

Por Pedro Claudio

Hoje me peguei pensando sobre a importância da cultura, do estudo, da pesquisa e da capacidade de enxergar o mundo para além das fronteiras das nossas próprias convicções. A reflexão surgiu ao observar diversas publicações nas redes sociais relacionadas às atividades religiosas de algumas pessoas.

Não se trata de questionar a fé de ninguém, muito menos de desvalorizar a religião. A fé é uma dimensão importante da vida humana. O problema começa quando a convicção pessoal se transforma em certeza absoluta, quando alguém passa a acreditar que está acima do bem e do mal e que tudo aquilo que pensa, diz ou defende deve ser aceito como verdade.

Uma fé que não admite perguntas pode se transformar em instrumento de controle.

Em determinados ambientes religiosos, percebe-se uma forte identificação com o grupo, com seus símbolos, suas vestimentas, seus discursos e seus líderes. Essa identificação, quando vivida de maneira saudável, pode fortalecer a comunidade e promover solidariedade. Entretanto, quando acompanhada da incapacidade de dialogar com quem pensa diferente, pode produzir uma visão estreita da realidade.

A pessoa passa a enxergar o mundo por uma única janela. Tudo o que está do lado de fora é visto com desconfiança, suspeita ou até como ameaça.

Quando pensar deixa de ser uma escolha

O estudo, a cultura e a pesquisa têm uma função fundamental: ampliar horizontes. Eles nos ajudam a compreender que a realidade é complexa, que a história possui diferentes interpretações e que nenhuma pessoa ou grupo detém o monopólio do conhecimento.

É preocupante quando alguém abre mão da própria capacidade de pensar e passa a depender integralmente das conclusões de um líder. Não há problema em ouvir orientações, respeitar autoridades ou buscar aconselhamento. O perigo está em aceitar tudo sem questionar, sem pesquisar e sem considerar outras perspectivas.

A inteligência não se mede pela quantidade de frases decoradas, pela capacidade de falar com segurança ou pela habilidade de convencer multidões. Pensar exige humildade para reconhecer que podemos estar errados.

Uma pessoa pode se expressar muito bem, demonstrar grande confiança e parecer intelectualmente forte. No entanto, essa aparência pode esconder uma fragilidade diante de argumentos diferentes daqueles que está acostumada a ouvir.

É justamente por isso que a educação e a cultura são tão importantes. Elas nos ensinam a distinguir opinião de fato, convicção de conhecimento e discurso persuasivo de argumento consistente.

A religião não deveria ser uma fronteira

No campo religioso, essa reflexão ganha ainda mais importância.

Há pessoas tão envolvidas com sua denominação que passam a acreditar que somente o seu grupo está no caminho certo. A roupa, a linguagem, os costumes e as interpretações particulares tornam-se critérios para julgar o comportamento e até a dignidade dos outros.

Quem pensa diferente é considerado equivocado. Quem frequenta outra igreja é visto com desconfiança. Quem interpreta a Bíblia de outra maneira pode ser tratado como alguém que não conhece a verdade.

Mas será que a fé cristã pode ser reduzida a uma denominação, a um estilo de vestir ou à obediência irrestrita a um líder?

Jesus Cristo ensinou o amor ao próximo, a misericórdia, a humildade e o cuidado com os mais vulneráveis. Não parece coerente defender esses ensinamentos enquanto se transforma o outro em inimigo apenas porque ele pensa, veste-se ou acredita de maneira diferente.

A história do cristianismo, aliás, é marcada por diferentes interpretações, movimentos, tradições e comunidades. Conhecer essa história não diminui a fé. Ao contrário, pode ajudar a compreendê-la com mais profundidade.

A pesquisa não precisa destruir a fé. Ela pode libertá-la da ingenuidade.

A fragilidade por trás das certezas

Vivemos um tempo em que discursos religiosos, políticos e ideológicos conseguem mobilizar multidões com grande facilidade. As redes sociais ampliaram essa capacidade de influência. Uma frase de efeito, uma interpretação isolada ou uma afirmação repetida muitas vezes pode parecer uma verdade incontestável.

Nesse ambiente, é preciso ter cuidado.

Pessoas que aparentam muita segurança podem ser frágeis diante de qualquer argumento que confirme aquilo em que já acreditam. Em vez de avaliar criticamente uma informação, aceitam-na porque foi apresentada por alguém de sua confiança.

Esse comportamento não é exclusividade de um grupo religioso. Pode ocorrer em igrejas, partidos políticos, movimentos sociais, ambientes acadêmicos e em qualquer comunidade que transforme suas próprias ideias em verdades intocáveis.

O problema não está em pertencer a um grupo. Está em perder a liberdade de pensar fora dele.

Fé, humildade e responsabilidade

Como cristão, acredito na importância de permanecer firme na fé em Jesus Cristo e em seus ensinamentos. Mas essa firmeza não deveria ser confundida com arrogância espiritual ou com a pretensão de possuir todas as respostas.

A imagem bíblica da casa construída sobre a rocha nos convida à solidez. Uma fé verdadeiramente amadurecida não se sustenta apenas na emoção, no entusiasmo coletivo ou na repetição de palavras. Ela precisa resistir às dúvidas, às perguntas e aos desafios da realidade.

Quem estuda, pesquisa e conhece outras culturas e tradições não necessariamente abandona suas convicções. Muitas vezes, passa a compreender melhor aquilo em que acredita e aprende a respeitar o direito dos outros de também buscar a verdade.

Ninguém deveria se considerar proprietário da salvação. Podemos testemunhar nossa fé, anunciar o Evangelho e procurar viver os ensinamentos de Cristo, mas o julgamento definitivo sobre a salvação pertence a Deus.

Não cabe a nós estabelecer, com arrogância, quem está dentro ou fora do alcance da misericórdia divina.

Que venham novos ares!

Precisamos de uma sociedade que valorize mais a leitura, a educação, a cultura, a pesquisa e o diálogo. Precisamos de pessoas dispostas a ouvir antes de julgar, investigar antes de compartilhar e refletir antes de condenar.

Precisamos de uma fé que não tenha medo do conhecimento, de uma religião que não se transforme em instrumento de exclusão e de líderes que ensinem seus seguidores a pensar, e não apenas a obedecer.

Que venham novos ares!

Que possamos permanecer firmes na fé em Jesus Cristo, sem perder a humildade para reconhecer que não somos donos da verdade e muito menos os únicos destinatários da salvação.

A verdadeira sabedoria talvez comece quando descobrimos que, por mais que saibamos, ainda temos muito a aprender.

Por Pedro Claudio