quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Destempero que pode levar a ruína Artigo de opinião – com base em fatos noticiados pela imprensa

Artigo de opinião – com base em fatos noticiados pela imprensa
E agora Jair?


Jair Messias Bolsonaro, então presidente da República, comporta-se muitas vezes como um peixe fisgado: quanto mais se debate, mais expõe suas fragilidades. Trata-se de uma postura típica de quem não compreende plenamente o peso dos fatos ou, ainda, de quem não se deixa assessorar de forma adequada. Na política, especialmente no exercício da Presidência, o destempero não fortalece; ao contrário, amplia crises e gera dúvidas.

Um exemplo emblemático foi o episódio envolvendo a vereadora Marielle Franco, ocorrido em outubro de 2019, a partir de reportagem exibida no Jornal Nacional, da TV Globo, no dia 29 daquele mês. A matéria trouxe informações obtidas no curso das investigações policiais sobre o assassinato da parlamentar, citando o nome do presidente em razão de registros relacionados a um dos suspeitos do crime. A reportagem, como amplamente reconhecido à época, tomou o cuidado de contextualizar os fatos e, inclusive, de registrar um possível álibi do então presidente.

Mesmo não havendo, naquele momento, qualquer imputação direta de culpa, a reação presidencial foi marcada por agressividade e falta de autocontrole. Não foi o conteúdo jornalístico, em si, que gerou maior desgaste, mas a resposta desproporcional e intempestiva. A dúvida que se instalou na opinião pública não nasceu da reportagem, mas do comportamento de quem ocupa o mais alto cargo da República e deveria demonstrar serenidade diante de questionamentos legítimos.

Sem fazer a defesa da emissora — que, aliás, não necessita disso — é preciso reconhecer que o jornalismo profissional se ateve aos fatos disponíveis, agiu com responsabilidade e cumpriu seu papel de informar. A reação exaltada do presidente, por sua vez, revelou dificuldade em lidar com as consequências naturais da vida pública e com o escrutínio permanente que o cargo impõe.

Na minha visão, reações intempestivas apenas evidenciam a fragilidade de quem tenta sustentar a imagem de homem forte e inatingível. O peixe fisgado pode até resistir: se for um bagre africano, respira fora d’água e busca outra poça; se for um lambari, debate-se até agonizar. A metáfora ilustra bem que quanto mais se luta contra a realidade dos fatos, mais se corre o risco de sucumbir politicamente.

Para o bem do Brasil que o elegeu, teria sido desejável que o presidente recompusesse as forças, revisse comportamentos e adotasse maior sutileza nas declarações públicas. Não nadar contra a correnteza, não transformar forças críticas em inimigas, mas compreendê-las como parte do jogo democrático e como fontes legítimas de questionamentos a serem esclarecidos. Se não há culpa, a serenidade é sempre a melhor resposta. Se há, então, a intempestividade encontra sua explicação — ainda que jamais sua justificativa.

Pedro Claudio
Licenciado em História – UEG
32 anos de radiojornalismo comunitário
Texto escrito em 30/10/2019