Quaresma:
entre a norma e o encontro
Por Pedro Claudio
A Igreja entra novamente no tempo da Quaresma,
uma caminhada espiritual de 40 dias que, na tradição cristã católica, convida à
conversão, à oração, ao jejum e à caridade. Mais do que um calendário
litúrgico, trata-se de um período que provoca perguntas profundas e necessárias
sobre a vivência da fé em nossos dias. A participação é consciente ou apenas
ritual? A fé nasce do encontro com Deus ou da correta observância das normas
religiosas?
Essas questões ganham relevo quando se observam
debates recentes dentro da própria Igreja Católica. Religiosos
bem-intencionados, mas excessivamente focados nas questões dogmáticas, ajudam
ou atrapalham a experiência de fé? Por que receber as cinzas? Como viver o
sacramento da confissão? Qual o lugar dos casais em segunda união na comunidade
cristã? São temas sensíveis, especialmente neste tempo quaresmal, e exigem
reflexão serena, teológica e pastoral.
A tradição cristã sempre ensinou que a doutrina
não é um fim em si mesma. Ela é um meio pedagógico,
destinado a conduzir a pessoa ao encontro com Deus. O problema surge quando a
norma deixa de iluminar o caminho e passa a funcionar como uma barreira,
afastando em vez de aproximar. Nesse cenário, a fé corre o risco de se reduzir
a um sistema moral rígido, incapaz de dialogar com a fragilidade humana e com
as complexidades da vida real.
Quando um padre alerta que não se deve ir à
missa apenas “para receber as cinzas” ou questiona a participação em romarias
de pessoas em situação considerada “irregular”, ele não está se colocando no
lugar de Deus, mas falando a partir de uma interpretação institucional da
Igreja. Como instituição, a Igreja possui regras sacramentais e orientações
morais construídas ao longo da história. O ponto crítico não é a existência
dessas normas, mas a forma como elas são
comunicadas: sem discernimento pastoral, a regra pode parecer
mais importante que a pessoa.
Após o Concílio Vaticano II, a Igreja
reafirmou que a fé é um caminho progressivo. A participação nos ritos — mesmo
imperfeita, mesmo motivada por tradições populares — pode ser uma porta de
entrada para uma conversão mais profunda, e não um erro a ser reprimido. As
cinzas, nesse sentido, não são um “prêmio espiritual”, mas um sinal de
humildade: recordam a condição humana, frágil, limitada e sempre necessitada de
mudança.
No caso dos casais em segunda união, a tensão
entre doutrina e pastoral torna-se ainda mais visível. A posição oficial da
Igreja sobre o matrimônio permanece clara. No entanto, a pastoral
contemporânea, especialmente sob o magistério do Papa Francisco, insiste que
ninguém deve ser tratado como alguém fora do alcance da misericórdia. A
pergunta central deixa de ser apenas “a pessoa está em regra?” e passa a ser “como ajudá-la a crescer na fé possível hoje, nas condições concretas em
que vive?”.
Algo semelhante ocorre no sacramento da
confissão. O papel do confessor é orientar, ajudar no discernimento, e não
substituir a consciência do fiel. Quando o sacerdote aponta pecados como se já
soubesse tudo o que a pessoa irá dizer, corre-se o risco de transformar a
confissão em um procedimento mecânico. Na teologia moral cristã, a consciência
bem formada é o lugar primeiro do encontro com Deus, onde a graça atua de modo
pessoal e livre.
A própria história das religiões mostra que
aquelas que permanecem vivas e significativas são as que conseguem equilibrar norma e misericórdia. Onde existe apenas regra, nasce o
medo. Onde há apenas permissividade, perde-se o sentido. A fé cristã vive
justamente dessa tensão: verdade e amor, exigência e acolhida, justiça e
compaixão.
Religiosos bem-intencionados ajudam a fé
quando ensinam sem humilhar, corrigem sem excluir e recordam a doutrina como
caminho, não como arma. Atrapalham quando falam mais em nome da instituição do
que do Evangelho, esquecendo uma lição central da própria tradição cristã: o
sábado foi feito para o ser humano, e não o ser humano para o sábado.
No
fim das contas, a pergunta decisiva desta Quaresma não é se alguém está
plenamente “apto” a se aproximar de Deus, mas se a Igreja está conseguindo ser
sinal desse Deus que se aproxima primeiro,
que chama, acolhe e caminha com o ser humano, mesmo — e sobretudo — em suas
fragilidades.
“Onde há graça, o perdão é abundante; onde há perdão, há o sinal do cristão.”
Do ponto de vista da fé cristã, a graça é sempre iniciativa de Deus, nunca
mérito humano. Quando a graça é acolhida, ela não se manifesta primeiro em
regras, mas em misericórdia concreta.
Por isso, o perdão não aparece como exceção, mas como consequência natural. Um
coração tocado pela graça aprende a perdoar porque antes se reconhece perdoado.
O perdão,
nesse sentido, torna-se critério visível da autenticidade cristã. Não é apenas
um gesto moral elevado, mas um sinal,
quase um sacramento cotidiano, que revela a presença do Evangelho na vida das
pessoas e das comunidades. Onde o perdão é negado, substituído pelo julgamento
ou pela exclusão, algo essencial do cristianismo se perde.
A frase também provoca a Igreja e seus
ministros: se a graça é abundante, por que o perdão às vezes é administrado com
escassez? Se o perdão é o sinal do cristão, então comunidades marcadas pelo
medo, pela rigidez e pela condenação silenciosa precisam se perguntar se ainda
estão comunicando o coração da fé.
Em
tempos como a Quaresma, essa afirmação funciona como um exame de consciência
coletivo. Ela recorda que a verdadeira conversão não se mede apenas por
práticas religiosas, mas pela capacidade de reconciliar, acolher e recomeçar. Onde a graça é
reconhecida, o perdão floresce. E onde o perdão floresce, ali o cristianismo se
torna visível, humano e credível.

