segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Rádio Rio Claro: quatro décadas acompanhando a transformação do rádio

 

Rádio Rio Claro: quatro décadas acompanhando a transformação do rádio


Por Pedro Claudio

A história da Rádio Rio Claro, de Iporá, Goiás, pioneira na comunicação radiofônica do Oeste Goiano, é também a história da transformação tecnológica do rádio no Brasil. Faço parte dessa história desde 1987 e, ao longo de quase quatro décadas, acompanhei de perto mudanças que transformaram não apenas os equipamentos, mas também a maneira de produzir, transmitir e ouvir rádio.

Criada em 1980, a Rádio Rio Claro começou sua trajetória na faixa AM, inicialmente em 1.580 kHz, passando posteriormente para 760 kHz. Era outro rádio. A operação era predominantemente analógica, muito mais manual e dependente da presença física do profissional em cada etapa da programação.

Não havia a facilidade dos computadores, dos sistemas de automação, da internet ou dos aplicativos. O rádio era feito com equipamentos, discos, fitas, microfones, mesas de áudio e muita operação manual.

A potência da emissora também foi sendo ampliada. Começou com aproximadamente 1 mil watts no AM, posteriormente chegou a 5 mil watts e, anos depois, veio uma das maiores transformações de sua história: a migração para o FM 91,9 MHz.

Agora, a Rádio Rio Claro dá mais um passo importante nessa trajetória.

A emissora está operando com maior alcance e melhor qualidade de sinal, após a elevação de sua classe para A3 e a substituição da antena de transmissão. A licença da Anatel registra a Rádio Rio Claro em 91,9 MHz, canal 220, classe A3, com a estação instalada no Morro da TV, na zona rural de Iporá.

A nova estrutura de transmissão representa mais uma mudança significativa na história da emissora. A antena deixou a região do Lago Pôr do Sol e foi instalada em uma área de maior altitude, em um morro próximo ao aeroporto da cidade.

A estação atualmente possui transmissão omnidirecional, com antena de polarização circular e centro de irradiação a 45 metros, conforme consta na licença de funcionamento.

Mas a evolução da Rádio Rio Claro não aconteceu somente na antena.

Mudou a maneira de produzir rádio. Mudou a maneira de transmitir. E mudou, principalmente, a maneira de ouvir.

Na década de 1980, a programação musical dependia dos tradicionais discos de vinil. Depois vieram as fitas, os CDs, o MiniDisc e, finalmente, os sistemas digitais.

Lembro de uma época em que escolher uma música significava procurar fisicamente o disco ou o CD, colocá-lo no equipamento e acompanhar toda a operação. Hoje, uma biblioteca musical inteira pode estar armazenada em um computador ou servidor e ser acessada com poucos comandos.

A tecnologia trouxe velocidade, praticidade e novas possibilidades.

Hoje, praticamente toda a operação de uma emissora pode estar integrada a computadores, softwares de automação, servidores e sistemas conectados à internet. A programação, os comerciais, as músicas, os boletins e os conteúdos jornalísticos são organizados digitalmente.

E o ouvinte também mudou.

Ele já não precisa estar diante de um aparelho de rádio para ouvir rádio.

Pode estar no carro, em casa, no trabalho ou em qualquer lugar com acesso à internet. Pode acompanhar a programação pelo receptor convencional, pelo computador, pelo celular, por aplicativos, sites e plataformas de streaming.

O rádio deixou de ser apenas um aparelho sobre a mesa.

Hoje, o rádio está onde está o ouvinte.

E essa talvez seja uma das maiores transformações da radiodifusão: a emissora deixou de depender exclusivamente do alcance de sua onda para chegar ao público. O sinal continua sendo fundamental, mas passou a conviver com um universo digital que permite ampliar a presença da rádio para muito além de sua área tradicional de cobertura.

É uma transformação tecnológica, mas também uma transformação cultural.

E agora surge uma nova fronteira: a inteligência artificial.

A IA começa a entrar no universo da comunicação e da radiodifusão, oferecendo possibilidades para produção, organização de conteúdos, edição, transcrição, análise de audiência e diversas outras tarefas.

Mas toda inovação tecnológica também exige responsabilidade.

A tecnologia pode facilitar a comunicação, mas não substitui o conhecimento, a sensibilidade, a ética e a responsabilidade de quem comunica.

Porque, no final das contas, não basta ter equipamentos modernos, um sinal potente, computador de última geração, aplicativo, internet ou inteligência artificial.

É preciso ter o que dizer.

É preciso saber para quem dizer.

E, principalmente, é preciso saber por que dizer.

É aí que começa uma reflexão necessária para todos nós que trabalhamos na Rádio Rio Claro.

O que queremos comunicar?

O que significa evangelizar através do rádio?

Como podemos ser mais atrativos para o público sem perder nossa identidade?

Estamos conseguindo dialogar com as novas gerações?

Estamos ouvindo o nosso ouvinte ou apenas falando para ele?

Essas são perguntas que precisam fazer parte do nosso cotidiano.

Todos nós, trabalhadores da comunicação, precisamos estar ligados aos objetivos da emissora, mas também precisamos estar atentos às mudanças do mundo. O público mudou. Os hábitos mudaram. A linguagem mudou. A tecnologia mudou.

E se tudo mudou, nós também precisamos mudar.

Não significa abandonar a história ou aquilo que deu identidade à Rádio Rio Claro. Significa compreender que tradição não pode ser confundida com imobilismo.

A missão permanece: comunicar, informar e evangelizar.

Mas a forma de cumprir essa missão precisa acompanhar o seu tempo.

Existe uma frase que resume uma inquietação que considero fundamental: nada é mais triste do que existir sem produzir efeito.

Na comunicação, esse efeito precisa aparecer.

É necessário haver feedback, retorno, participação, resposta.

Uma rádio que fala, mas não sabe se está sendo ouvida, precisa parar e refletir.

A comunicação não pode ser autoritária. Não pode ser manipuladora. Não pode simplesmente impor uma visão ao público.

Comunicar é também estabelecer uma relação.

É falar, mas também ouvir.

É informar, mas também permitir o diálogo.

É apresentar ideias, provocar reflexão e, quando necessário, direcionar para aquilo que consideramos importante, sem retirar do ouvinte sua capacidade de pensar e decidir.

Caso contrário, corremos o risco de produzir apenas barulho.

E aqui cabe lembrar a imagem utilizada pelo apóstolo Paulo ao falar do sino que soa: muito ruído, mas sem significado quando falta aquilo que realmente dá sentido à comunicação.

Esse é um risco que nenhuma emissora pode ignorar.

Não basta ocupar o espaço.

É preciso fazer diferença.

A Rádio Rio Claro tem uma história construída ao longo de mais de quatro décadas. Uma história feita por profissionais, comunicadores, técnicos, gestores e tantos colaboradores que ajudaram a construir essa emissora.

Eu mesmo faço parte dessa caminhada desde 1987.

Por isso, acompanhar mais essa mudança tecnológica não é apenas observar uma nova antena ou uma melhoria no sinal.

É olhar para trás e perceber o tamanho da transformação.

Da AM 1.580 para a AM 760.

Da potência inicial aos 5 mil watts.

Do AM para o FM 91,9.

Do vinil para o CD.

Do CD para o MiniDisc.

Do MiniDisc para o computador.

Do rádio convencional para o aplicativo, a internet e o streaming.

E agora, diante de nós, a inteligência artificial e uma nova geração de tecnologias que ainda estamos começando a compreender.

São mais de quatro décadas de mudanças, mas uma coisa permanece: a necessidade humana de comunicação.

O rádio muda.

A tecnologia muda.

Os hábitos do público mudam.

Mas a necessidade de informação, companhia, serviço, cultura, proximidade e sentido continua.

Por isso, celebrar uma nova etapa tecnológica da Rádio Rio Claro deve ser também uma oportunidade para olhar para dentro e perguntar:

Que rádio queremos ser daqui para frente?

Uma rádio que apenas transmite?

Ou uma rádio que participa da vida das pessoas?

Uma rádio que fala?

Ou uma rádio que também sabe ouvir?

Uma rádio que acompanha a tecnologia?

Ou uma rádio que compreende as transformações do seu público?

A nova antena melhora o sinal.

A tecnologia amplia o alcance.

A internet multiplica as possibilidades.

Mas quem realmente amplia o alcance de uma emissora é a credibilidade, a qualidade do conteúdo e a capacidade de estabelecer uma relação verdadeira com quem está do outro lado.

Que a Rádio Rio Claro continue fazendo aquilo que sempre fez: comunicando, informando, evangelizando e participando da vida da comunidade.

Mas que nunca deixe de fazer a pergunta mais importante para qualquer meio de comunicação:

Estamos realmente fazendo efeito?

Porque uma emissora não existe apenas para emitir sinais.

Existe para alcançar pessoas.

E, quando alcança pessoas, precisa deixar alguma coisa: uma informação, uma reflexão, uma esperança, uma orientação, uma companhia ou simplesmente a certeza de que alguém está ali.

A Rádio Rio Claro tem história.

Tem memória.

Tem desafios.

E tem futuro.

Uma emissora com mais de quatro décadas de história, mas que precisa continuar com os olhos e os ouvidos voltados para o futuro.

 


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