sábado, 26 de setembro de 2026

Cine Riviera: quando Iporá tinha cinema, filmes e até programa de rádio ao vivo

 

Cine Riviera: quando Iporá tinha cinema, filmes e até programa de rádio ao vivo

Por Pedro Claudio



Quem olha para esta fotografia talvez veja apenas uma antiga fachada, marcada pelo tempo. Mas as grandes letras “CINE” revelam muito mais: ali está uma parte da memória cultural de Iporá.

Sim, Iporá teve cinema — e a história é mais recente do que muitos imaginam.

Na época registrada pela fotografia, o cinema funcionava na Rua Esmerindo Pereira e era propriedade de Aytubes Diniz, empresário de uma família que teve participação importante na história econômica e comercial da cidade. Entre os empreendimentos ligados à família estava também o Esplanada Hotel , que ficava na esquina próxima ao cinema.

O cinema era Cine Riviera e não se limitava às sessões de filmes. O espaço também fazia parte da vida cultural e artística de Iporá.

Um dos exemplos era o programa “Roda de Violeiros”, transmitido pela Rádio Rio Claro, que acontecia nas manhãs de domingo. O programa reunia música, violeiros e a participação da comunidade, criando uma ligação interessante entre cinema, rádio e cultura popular.

Era outro tempo.

Antes da televisão por assinatura, da internet, das plataformas de streaming e dos smartphones, o cinema era um dos espaços de encontro da população. Ir ao Cine Riviera significava muito mais do que assistir a um filme. Era uma oportunidade de encontrar amigos, namorar, conversar e participar da vida cultural da cidade.

Os filmes também fazem parte da memória

A fotografia ajuda a recuperar um pouco daquela época. Os cartazes espalhados pela fachada anunciam as atrações que estavam em cartaz e registram nomes e produções que faziam parte do cotidiano dos frequentadores.

Hoje, esses cartazes podem parecer apenas propaganda antiga. Para quem viveu aquele período, entretanto, eles podem despertar lembranças: qual filme foi assistido? Com quem? Quanto custava o ingresso? Como era a sala? Quem trabalhava no cinema?

São detalhes que normalmente desaparecem com o passar dos anos, mas que ajudam a reconstruir a história de uma cidade.

O Cine Riviera e a Rádio Rio Claro

Há ainda um detalhe particularmente interessante nessa história: um cinema que também servia como espaço para a produção de um programa de rádio.

O Roda de Violeiros, transmitido pela Rádio Rio Claro nas manhãs de domingo, mostra como os meios de comunicação e os espaços culturais estavam interligados.

A rádio levava a voz dos artistas para os ouvintes e o cinema oferecia um espaço físico para a realização do programa. Era uma forma de aproximar rádio, música, cultura sertaneja e comunidade.

Para quem trabalha ou trabalhou no rádio em Iporá, essa memória ganha ainda mais significado.

Uma fotografia que merece ser preservada

A imagem do antigo Cine Riviera não é apenas uma fotografia de uma construção. É um registro de uma época em que Iporá tinha seus próprios espaços de entretenimento e cultura.

Hoje, talvez muita gente mais jovem nem imagine que naquela rua existiu um cinema, que os filmes eram anunciados nas paredes e que, nas manhãs de domingo, dali também se fazia rádio.

A história de uma cidade não está somente nos grandes acontecimentos. Ela também está nos cinemas, nos programas de rádio, nos hotéis, nas praças, nas lojas e nos lugares onde as pessoas viveram seus pequenos e grandes momentos.

E o Cine Riviera, ligado à história de Aytubes Diniz, da família Diniz, do Hotel Esplanada e da Rádio Rio Claro, é uma dessas histórias que Iporá precisa preservar.

Quem viveu essa época certamente tem muito mais para contar.

Pedro Claudio – jornalista e radialista



Quando a democracia vira um campo de batalha

 

Quando a democracia vira um campo de batalha



Por Pedro Claudio

Tempo de campanha política. Infelizmente, um dos períodos de maior desafio para a democracia.

É justamente quando deveríamos estar discutindo projetos, propostas e o futuro da sociedade que aparecem, com preocupante naturalidade, discursos que relativizam a liberdade, defendem a concentração de poder e até flertam com ideias autoritárias, com a ditadura e, em casos extremos, com o próprio nazismo.

E há algo ainda mais preocupante: a naturalização da ideia de que o mais forte deve se sobrepor ao mais fraco.

Como se quem possui mais dinheiro tivesse, por isso, mais direitos. Como se o poder econômico desse ao patrão o direito de impor sua vontade ao trabalhador. Como se as relações de trabalho pudessem ser resolvidas exclusivamente pela negociação individual, sem regras, sem proteção social e sem a presença reguladora do Estado.

Até o salário mínimo, uma conquista histórica de proteção ao trabalhador, passa a ser apresentado por alguns como algo que deveria simplesmente ser "negociado" entre patrão e empregado.

Mas negociação entre desiguais nem sempre significa liberdade. Quando um lado tem o capital, o poder de contratação e a possibilidade de dizer "aceite ou procure outro emprego", enquanto o outro precisa trabalhar para sobreviver, a relação de forças não é exatamente a mesma.

E, em época de eleição, vemos também outra cena conhecida: candidatos fazendo dancinhas, abraçando crianças, comendo pastel, apertando mãos e tentando demonstrar uma proximidade com o povo que, muitas vezes, desaparece depois que termina a campanha.

O cidadão simples vira personagem durante alguns meses. Depois, volta a ser apenas eleitor — quando não é esquecido.

Por isso, este é um momento que exige atenção.

Democracia não pode ser transformada em um simples "salve-se quem puder". Porque, quando cada um passa a cuidar apenas de si e os mais fortes ficam livres para impor sua vontade, quem normalmente paga a conta é justamente a maioria que tem menos poder econômico, político e social.

A história já nos mostrou isso.

Antes da Revolução Francesa, a sociedade europeia estava organizada em uma estrutura de ordens e privilégios. No chamado Antigo Regime, o clero e a nobreza ocupavam posições privilegiadas, enquanto o chamado Terceiro Estado reunia a grande maioria da população, incluindo burgueses, trabalhadores, camponeses e outros grupos que sustentavam grande parte dos encargos da sociedade.

Era uma sociedade profundamente desigual.

E talvez devêssemos prestar atenção quando algumas ideias contemporâneas começam a tratar desigualdade como algo natural, pobreza como culpa individual e direitos sociais como privilégios.

O mais curioso — e preocupante — é que quem questiona essa lógica muitas vezes é imediatamente chamado de "comunista".

Defender salário digno, direitos trabalhistas, saúde pública, educação, igualdade perante a lei e proteção para quem está em situação de vulnerabilidade não deveria ser uma questão de esquerda ou direita. São questões de cidadania e de dignidade humana.

Não se trata de defender um partido.

Não se trata de escolher um candidato.

Trata-se de perguntar que tipo de sociedade queremos construir.

Uma sociedade em que o poder econômico determina quem pode mais?

Uma sociedade em que o trabalhador precisa aceitar qualquer condição porque não tem outra alternativa?

Uma sociedade em que o cidadão só é lembrado durante a campanha?

Ou uma sociedade em que liberdade venha acompanhada de responsabilidade, direitos sejam acompanhados de deveres e todos sejam tratados com dignidade?

A democracia é imperfeita. Dá trabalho. Exige diálogo, contraditório, respeito às diferenças e, principalmente, participação consciente.

Por isso, em tempo de eleição, talvez a pergunta mais importante não seja "quem está fazendo a melhor propaganda?", mas:

Que ideias estão sendo defendidas? Que sociedade essas ideias podem produzir? E quem ganha e quem perde quando elas são colocadas em prática?

Liberdade não pode existir somente para os mais fortes.

Igualdade não significa que todos sejam iguais em tudo, mas que ninguém seja considerado inferior por sua condição social.

E fraternidade significa reconhecer que uma sociedade não pode ser construída contra o outro, mas com o outro.

São valores que atravessaram séculos e continuam atuais:

Liberté, Égalité, Fraternité.

Liberdade, igualdade e fraternidade.

Talvez seja justamente disso que este nosso tempo esteja precisando: menos idolatria política, menos culto ao poder e mais consciência de que democracia não é apenas o direito de votar.

Democracia é também o compromisso permanente de impedir que alguém se torne poderoso demais para se colocar acima dos demais.


“Não basta dizer que somos cristãos: o que nossas atitudes revelam?”

 

A Lista de Schindler e a pergunta que precisa ser feita a nós mesmos



Lendo a obra A Lista de Schindler e assistindo ao filme, é impossível não olhar para a história e perguntar: como o ser humano foi capaz de chegar a tamanha desumanidade?

O Holocausto nos causa indignação. A perseguição, a discriminação, a separação entre pessoas, a ideia de que alguns seres humanos seriam superiores a outros e, portanto, teriam o direito de decidir quem deveria viver ou morrer.

Mas, depois de olhar para tudo isso, talvez seja necessário fazer uma pergunta ainda mais difícil:

E eu? Como estou sendo como ser humano?

É muito fácil condenar os erros do passado. É fácil olhar para a história e dizer: “Eu jamais faria uma coisa dessas”. Mas será que não existem, em nosso cotidiano, pequenas atitudes de exclusão, preconceito, julgamento e separação?

Será que, ao me declarar cristão, estou realmente olhando para minhas próprias atitudes?

Será que, algumas vezes, não me coloco em uma posição de superioridade diante de outras pessoas? Será que não faço uma divisão silenciosa entre “os bons” e “os pecadores”? Entre aqueles que frequentam o templo e aqueles que estão fora dele?

Será que não penso, mesmo sem perceber: “Ele é pecador; eu sou diferente, porque frequento a igreja”?

E aqui está uma contradição que precisa nos fazer pensar.

Qual é o sentido de frequentar um templo, participar de uma comunidade religiosa, ouvir a Palavra de Deus, rezar, cantar, receber os sacramentos e professar uma fé, se tudo isso não produz em nós um esforço sincero para sermos pessoas melhores?

Não melhores do que os outros.

Melhores do que nós mesmos fomos ontem.

Talvez essa seja uma das grandes perguntas que a fé deveria provocar em nossa vida.

Não se trata de construir uma aparência de santidade. Não se trata de apontar o dedo para quem erra. Não se trata de criar muros entre os que consideramos “certos” e os que consideramos “errados”.

Trata-se de olhar para dentro.

Porque também podemos separar pessoas com palavras. Podemos afastá-las com nossos julgamentos. Podemos promover distanciamento social com nossos preconceitos. Podemos transformar a religião em uma espécie de fronteira: de um lado, os que consideramos dignos; do outro, aqueles que julgamos indignos.

E talvez seja justamente aí que nossa fé esteja sendo colocada à prova.

O cristianismo não deveria nos ensinar a olhar de cima para baixo. Deveria nos ensinar a olhar para o outro como alguém que também é filho de Deus.

Isso não significa concordar com tudo. Não significa abandonar princípios, convicções ou valores. Significa não transformar nossas convicções em instrumentos para humilhar, excluir ou desumanizar o outro.

A história nos mostra até onde a humanidade pode chegar quando começa a retirar do outro sua dignidade.

Por isso, talvez a grande reflexão de A Lista de Schindler não esteja apenas naquilo que aconteceu ontem.

Ela também está naquilo que fazemos hoje.

Como tratamos quem pensa diferente?

Como tratamos quem errou?

Como tratamos quem não frequenta nossa igreja?

Como tratamos o pobre, o dependente químico, o preso, o imigrante, o adversário político, aquele que vive de maneira diferente da nossa?

E, principalmente: como tratamos aqueles de quem não precisamos de nada?

Talvez seja aí que descobrimos quem realmente somos.

A fé não deveria servir para nos colocar acima de ninguém. Deveria nos colocar diante de Deus com humildade.

Não sou melhor que ninguém.

Também não sou pior.

Sou gente.

Tenho erros, tenho limitações, tenho contradições e tenho muito a aprender.

Sou filho de Deus e estou tentando melhorar.

Quero aprender a ouvir mais. Julgar menos. Perdoar mais. Amar mais. Reconhecer meus próprios erros. E, quando eu cair, ter humildade para recomeçar.

Talvez a grande vitória da vida não seja convencer o mundo de que somos santos.

Talvez seja permitir que Deus transforme, silenciosamente, aquilo que ainda precisa ser transformado dentro de nós.

Deixar Deus agir.

Ouvir o sussurro do Espírito Santo.

E encontrar força para continuar a caminhada.

Porque, no final, a pergunta mais importante talvez não seja:

“Eu sou melhor do que os outros?”

Mas:

“Hoje, eu estou sendo uma pessoa melhor do que fui ontem?”

E talvez seja justamente nessa caminhada — imperfeita, humana e sincera — que a nossa fé começa a fazer sentido.