domingo, 5 de julho de 2026

Sou fruto do efeito colateral da Pastoral da Juventude

 

Sou fruto do efeito colateral da Pastoral da Juventude

Por Pedro Claudio



Sou fruto de um efeito colateral da Pastoral da Juventude (PJ). Um efeito colateral positivo. Sou alguém que aprendeu, desde cedo, a acreditar na vida, na dignidade humana e na justiça social.

Era por volta de 1980. Eu era um adolescente extremamente magro, com o rosto que denunciava a pobreza. Nossa alimentação era simples: arroz e feijão no almoço e na janta. Carne era rara. Em compensação, a natureza nos alimentava generosamente. Na época das chuvas, encontrávamos com facilidade cagaita, mangaba, mama-cadela, amora, goiaba, manga, mamão, mexerica, laranja e tantas outras frutas do Cerrado. Algumas eram cultivadas; outras brotavam espontaneamente. Tudo era sazonal, mas era abundante enquanto durava.

Hoje percebo que, mesmo vivendo na pobreza, tínhamos uma alimentação muito mais natural do que a de muitas famílias atualmente. Não existiam pizzas, hambúrgueres ou a enorme variedade de produtos industrializados à base de trigo que hoje dominam as mesas. Nossa vida era simples e, de certo modo, saudável.

Foi nesse contexto que um convite mudou minha maneira de enxergar o mundo.

Fui participar de uma reunião da Pastoral da Juventude no salão paroquial que também funcionava como a Creche Chapeuzinho Vermelho. O nome, bastante comum naquela época, provavelmente não seria utilizado hoje, mas marcou a infância de muitas crianças da comunidade.

Entrei naquela reunião movido pela fé que havia recebido de meus pais e avós. Também carregava a intuição de que os pobres precisavam caminhar juntos. Sem saber, estava sendo apresentado a uma leitura da fé profundamente comprometida com a transformação da sociedade.

O texto que mais me impressionava era o relato da primeira comunidade cristã:

"Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e colocavam tudo em comum." (Atos 2,44)

E mais adiante:

"Entre eles ninguém passava necessidade, porque aqueles que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o valor da venda e o depositavam aos pés dos apóstolos; depois era distribuído conforme a necessidade de cada um." (Atos 4,34-35)

Essas passagens sempre me pareceram revolucionárias. Não falavam apenas de oração. Falavam de partilha, solidariedade e compromisso concreto com quem mais precisava.

Foi ali que, mesmo sem compreender conceitos acadêmicos, começou a correr em minhas veias aquilo que mais tarde conheceria como Teologia da Libertação.

Nunca fui dirigente da Pastoral da Juventude. Sempre fui um participante comum. Um daqueles que ajudavam, aprendiam e acreditavam. Eu era mais figurante do que protagonista. Mas acreditava profundamente no enredo.

Naqueles anos, o Brasil ainda respirava os últimos tempos da ditadura militar. Havia um enorme desejo de democracia, participação popular e direitos sociais. Sem conhecer profundamente a Revolução Francesa ou seus lemas de liberdade, igualdade e fraternidade, esses ideais já habitavam o coração de muitos jovens cristãos.

Queríamos combater a injustiça, a concentração de renda, o latifúndio e todas as formas de exclusão. Era uma luta inspirada pelo Evangelho, que buscava construir uma sociedade mais humana.

Reconheço hoje que, junto desse desejo de justiça, muitas vezes surgia também um sentimento de aversão aos ricos. Talvez fosse fruto das desigualdades que víamos diariamente. Com o passar dos anos, aprendi que o Evangelho não ensina o ódio de classes, mas a conversão do coração. Jesus nunca condenou alguém por possuir bens, mas advertiu contra a idolatria da riqueza e contra a indiferença diante dos pobres.

Como está escrito:

"Ninguém pode servir a dois senhores... Não podeis servir a Deus e ao dinheiro." (Mateus 6,24)

E também:

"O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres, proclamar a libertação aos presos, devolver a vista aos cegos e libertar os oprimidos." (Lucas 4,18)

Foi essa compreensão que amadureceu em mim.

Em 1987, já adulto, mas ainda com espírito juvenil, iniciei minha trajetória na Rádio Rio Claro. Em 2026, completo 39 anos de profissão.

A partir daquele momento, minha relação com a Pastoral da Juventude mudou. De participante passei a ser observador, incentivador e comunicador. Como repórter e redator, acompanhei inúmeras atividades pastorais. A emissora possuía uma linha editorial fortemente voltada para as questões sociais, o que dialogava com minha formação e minha visão de mundo.

Foi nesse caminho que conheci pessoas que marcaram minha caminhada, como Divino José — hoje professor doutor —, o saudoso Natalino Nascimento, além de tantos outros jovens que ajudaram a construir a história da PJ em nossa região.

Também entrevistei lideranças importantes da Igreja, como Padre Flores, Padre Wiro Van Vliet e diversos religiosos comprometidos com a evangelização e a promoção humana.

Toda essa vivência despertou em mim uma grande curiosidade: de onde havia surgido essa maneira de compreender o Evangelho?

Essa pergunta me acompanhou até a universidade.

Durante o curso de História na Universidade Estadual de Goiás (UEG), escolhi pesquisar justamente essa temática em meu Trabalho de Conclusão de Curso. Estudando documentos, textos históricos e as origens do cristianismo, descobri que muito do que a Pastoral da Juventude vivia encontrava inspiração direta na vida histórica de Jesus de Nazaré.

Percebi que a Teologia da Libertação não nasceu do nada. Ela foi profundamente influenciada pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), pela Conferência Episcopal de Medellín (1968), pela Conferência de Puebla (1979) e pela Doutrina Social da Igreja, especialmente pelas encíclicas Rerum Novarum (1891), Mater et Magistra (1961), Populorum Progressio (1967) e Laborem Exercens (1981), documentos que insistem na dignidade do trabalho, na justiça social e na opção preferencial pelos pobres.

Nesse caminho surgiram pensadores como Gustavo Gutiérrez, Leonardo Boff, Clodovis Boff, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Pedro Casaldáliga e tantos outros homens e mulheres que buscaram aproximar o Evangelho da realidade concreta dos pobres latino-americanos.

Hoje compreendo que a Pastoral da Juventude não pretendia formar revolucionários armados, mas discípulos comprometidos com o Reino de Deus, anunciado por Jesus.

O Reino que começa quando há pão repartido, justiça, solidariedade, fraternidade e esperança.

Essa continua sendo minha maior herança.

Não me considero um herói dessa história. Fui apenas um jovem que acreditou. Um figurante que aprendeu com muitos protagonistas.

Mas sei que, sem a Pastoral da Juventude, talvez eu não tivesse aprendido a olhar o mundo com os olhos dos pobres e nem compreendido que a fé cristã também possui uma dimensão social.

Sou, com orgulho, fruto desse efeito colateral.

E continuo acreditando que a verdadeira transformação da sociedade começa quando o Evangelho deixa de ser apenas um livro e passa a orientar nossas escolhas, nossa maneira de viver e nossa forma de amar o próximo.