segunda-feira, 20 de julho de 2026

Trocar de religião é como trocar de time de futebol?

 

Trocar de religião é como trocar de time de futebol?

Por Pedro Claudio Rosa


Às vezes me pergunto: trocar de religião é o mesmo que trocar de time de futebol? Para algumas pessoas, parece que sim. Para outras, certamente não. A fé é algo muito mais profundo. Ela envolve história, formação, experiências, convicções, afetos, família e, sobretudo, a maneira como cada pessoa compreende sua relação com Deus.

Falo a partir da minha própria experiência. Sou católico e, sinceramente, nem consigo imaginar deixar a Igreja Católica para ingressar em outra denominação cristã. Não consigo imaginar, por exemplo, deixar de venerar Maria como Mãe de Jesus, Santa e Imaculada, ou olhar para os santos, que sempre considerei testemunhas e exemplos de vida cristã, e passar a enxergá-los apenas como personagens históricos sem o significado espiritual que hoje têm para mim.

Isso me leva a uma pergunta: como alguém que viveu uma fé, bebeu de uma fonte, acreditou nela durante anos e, muitas vezes, serviu intensamente em sua comunidade, consegue mudar de caminho religioso? A história mostra que isso acontece. Há ex-catequistas, ex-ministros extraordinários da Comunhão Eucarística, religiosos, diáconos e até padres que decidiram seguir outra tradição cristã. Muitos afirmam que foi ali que "encontraram Jesus".

Essa afirmação sempre me faz refletir. Será que antes não conheciam Jesus? Ou encontraram uma forma diferente de vivenciar a fé? Como cada um elabora internamente essa mudança? São perguntas que merecem respeito, mais do que julgamentos.

Quando penso em futebol, a comparação logo perde força. Sou torcedor do Vasco da Gama e do Vila Nova. Nem por isso deixo de torcer pelo Flamengo quando representa o Brasil em competições internacionais ou pelo Goiás em determinadas circunstâncias. Tenho minhas preferências, mas consigo reconhecer e respeitar os demais.

Com a fé, porém, é diferente. Religião não é torcida organizada. Não deveria ser motivo para rivalidade, hostilidade ou divisão entre as pessoas.

Não sou inimigo de quem frequenta outra denominação cristã. Ao contrário, acredito no ecumenismo e no diálogo inter-religioso. Reconheço que não conheço profundamente os aspectos doutrinários de todas as religiões, mas acredito que a convivência respeitosa é um caminho necessário em um mundo cada vez mais polarizado.

Também não deixo de fazer questionamentos à minha própria Igreja. Existem aspectos com os quais posso não concordar, como acontece em qualquer instituição humana. Ainda assim, continuo me reconhecendo como católico. Fui batizado, crismado e recebi o sacramento da Ordem. A Igreja ensina que esses sacramentos imprimem um caráter indelével, uma marca espiritual que não se apaga. Professo um só batismo e continuo encontrando nele o fundamento da minha caminhada.

Pessoalmente, penso que muitas mudanças religiosas podem estar ligadas a uma catequese insuficiente, a crises pessoais, a decepções, a conflitos ou a acontecimentos que provocaram uma profunda ruptura na vida da pessoa. Cada história é única e não cabe a mim julgá-la.

Defendo a liberdade religiosa. Defendo que cada pessoa possa professar sua fé sem violência, sem manipulação, sem aproveitamento das fragilidades humanas e sem proselitismo agressivo. Cada um deve poder buscar a Deus segundo sua consciência.

Mais importante do que vencer disputas religiosas é permitir que a fé conduza o ser humano ao encontro do Transcendente, daquele que continua realizando o maior dos milagres: o dom da vida, renovado a cada dia, e todas as graças que dela decorrem.

Permaneço firme em Cristo. Procuro construir minha casa sobre a rocha, como ensina o Evangelho, mas sem condenar quem faz escolhas diferentes das minhas. Acredito que testemunhar a própria fé com respeito vale muito mais do que tentar impor convicções aos outros.

Que cada religião seja, antes de tudo, um caminho de amor, de paz, de justiça e de encontro sincero com Deus.