domingo, 23 de novembro de 2025

MOMENTO HISTÓRICO ESTRANHO: A Banalização das Decisões Judiciais e a Politização das Instituições

 

Análise Política: A Banalização das Decisões Judiciais e a Politização das Instituições

 

Nos últimos anos, especialmente com o fortalecimento do grupo político alinhado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, observamos um fenômeno preocupante: o questionamento público e constante do poder Judiciário. Antes, prevalecia uma máxima quase sagrada no Estado de Direito: decisão judicial não se discute, cumpre-se — e eventuais discordâncias eram tratadas nos autos, dentro do próprio sistema de justiça.

Hoje, entretanto, essa relação institucional parece profundamente abalada. Não é simples identificar exatamente onde começou o erro ou quem é o principal responsável. O que é evidente, porém, é que o atual ambiente é nocivo para a democracia.

Criticar decisões judiciais não é, por si só, um problema — faz parte de uma sociedade plural. O perigo está na forma como essa crítica tem sido feita:

ataques pessoais a juízes e ministros,

desqualificação de suas funções,

desacato travestido de opinião,

e a tentativa sistemática de colocar a população contra as instituições.

Esse tipo de ataque público, impulsionado por redes sociais e por discursos inflamados, alimenta a ideia de que o cumprimento da lei pode ser relativizado conforme a conveniência política de cada grupo. 

Ao mesmo tempo, há outro desequilíbrio em curso: a politização crescente do próprio Judiciário, especialmente na instância máxima, o STF. Ministros concedem entrevistas, fazem juízos de valor abertos sobre casos em andamento e se tornam figuras públicas disputadas por apoiadores e detratores. Esse protagonismo excessivo cria a percepção de que juízes se comportam como atores políticos — algo que fragiliza a confiança no sistema.

O resultado é um cenário em que tudo parece deslocado. Como tentar mudar o placar depois que o jogo terminou: essa inversão de lógica conduz à insegurança jurídica e à instabilidade social.

Importante destacar: não se trata de defender esquerda ou direita, Lula ou Bolsonaro, mas de constatar que estamos banalizando o papel das decisões judiciais. O juiz, que deveria representar a última palavra em um conflito — dentro da legalidade — passa a ser tratado pior do que um árbitro de futebol de base, cuja autoridade é constantemente posta em dúvida.

Defender a democracia passa, necessariamente, pelo fortalecimento das instituições.

O Judiciário precisa ser respeitado e exercer sua função sem estrelismo.

O Ministério Público deve atuar com autonomia firme e responsável.

As polícias — Federal, Civil e Militar — precisam ser fortes, técnicas e com mecanismos rigorosos de controle e correção de condutas.

E resta a grande pergunta: onde vamos parar se governadores, senadores, deputados e prefeitos passam a querer o papel de juiz? Se cada autoridade tentar reescrever a lei de acordo com seus interesses, o sistema perde coerência — e com ele, a democracia perde seu chão.

O momento exige menos ataques e protagonismos e mais prudência, moderação e respeito institucional. Sem isso, continuaremos alimentando uma crise que não interessa à sociedade e não fortalece a Justiça — apenas o caos.

Cristo Rei: O Julgar de Deus e o Julgar dos Homens

 

Cristo Rei: O Julgar de Deus e o Julgar dos Homens


Por Pedro Claudio Rosa — Festa de Cristo Rei, 2025

É sempre instigante comparar a mente humana, com suas percepções limitadas e juízos de valor influenciados pela cultura, pela moral e pelos costumes, com aquilo que Deus nos revela nas Sagradas Escrituras. Muitas vezes, ao confrontarmos nossos critérios com a Palavra divina, percebemos o quanto somos pequenos diante do mistério de Deus.

Neste domingo, dia 23, a Igreja Católica encerra o Ano Litúrgico com a Solenidade de Cristo Rei do Universo — uma espécie de “31 de dezembro espiritual”. É o momento em que olhamos para Cristo como o Senhor do tempo, da história e do destino humano.

O Evangelho proposto hoje, Lucas 23,35-43, nos apresenta um paradoxo desconcertante:
Como pode o Rei do Universo passar por humilhações?
A cena da cruz, onde Cristo é insultado, ferido e ridicularizado, confronta nossa ideia humana de poder. Queremos um rei forte, dominador, capaz de impor sua força. Mas Cristo reina servindo, salva perdoando, governa amando.

A liturgia de Cristo Rei  nos faz recordar o Domingo de Ramos, quando se canta:
“Esperavam um grande Rei que fosse forte, dominador...”
E, no entanto, Ele entra humilde, montado num jumentinho, contrariando expectativas e desafiando a lógica humana.

Outra passagem que nos provoca reflexão é Mateus 20,1-16, a parábola do Reino dos Céus. Ali, Jesus derruba nossos critérios de mérito e recompensa: os últimos recebem como os primeiros, e o dono da vinha pergunta:
“Estás com inveja porque eu sou bom?”
O Reino de Deus, portanto, não se molda ao nosso senso de justiça limitada, mas à justiça misericordiosa de Deus.

É por isso que, embora seres humanos, Igreja e cristãos julguem uns aos outros, ninguém possui a certeza do julgamento de Deus. Ele vê o que nós não vemos, conhece o que não conhecemos.

Sim, existem trechos da Escritura que iluminam a autoridade dada à Igreja, como Mateus 16,19 e Mateus 18,18, onde Jesus fala do poder de ligar e desligar. Contudo, mesmo com essa autoridade, permanece o risco de o homem apropriar-se do que é divino, julgando, condenando e, às vezes, executando sem misericórdia.

No entanto, o julgador também será julgado.
A pena que hoje se cumpre na terra pode ter reflexos em outras dimensões da existência — como acreditam cristãos e muitos que, mesmo não sendo cristãos, reconhecem a existência de uma divindade.

Em resumo:
O julgamento feito “em nome de Deus” por instituições religiosas ou por seus membros pode ser equivocado. Mesmo estudando, relendo e aprofundando-se nas Escrituras, a visão humana jamais alcança a totalidade do olhar divino.

Diante disso, penso que cada pessoa deve viver segundo sua consciência, mas com um compromisso claro:
– não prejudicar o outro;
– não destruir reputações;
– não tirar alguém de seu caminho;
– não tentar ser dono do destino alheio.

Não somos senhores do destino de ninguém.

Que tenhamos sabedoria para viver a liberdade como Deus deseja:
liberdade para escolher o bem, para proteger a vida, para seguir o propósito divino.

Ao encerrarmos mais um ano espiritual nesta semana, é tempo de olhar para trás, reconhecer erros e assumir o compromisso de não repeti-los. Que 2026 seja um tempo novo — e não apenas “remendo novo em pano velho”, como alerta o Evangelho.

Que venha até nós uma nova era:
uma era de paz, de consciência, de reconciliação e de fidelidade ao que Deus sonha para nós.

Feliz Ano Novo Litúrgico. Feliz 2026.

Por Pedro Claudio Rosa — 23 de novembro de 2025