O RÁDIO NA ATUALIDADE: ENTRE A
CONCORRÊNCIA, OS DESAFIOS E A SOBREVIVÊNCIA
Por Pedro Claudio.
Desde que nasci, o rádio faz parte da minha vida. Na
infância, já o ouvia e tive a oportunidade de acompanhar aquilo que muitos
chamam de “era de ouro” desse meio de comunicação. O tempo passou, a tecnologia
avançou, a televisão ganhou espaço, depois vieram a internet, os portais de
notícias, as redes sociais, os podcasts e tantas outras formas de comunicação.
Mesmo assim, o rádio continua presente. Resiste, adapta-se e insiste em cumprir
seu papel.
Mas qual é, afinal, o papel do rádio nos tempos
atuais? E quais são os caminhos para sua sobrevivência diante de uma
concorrência cada vez maior?
Na minha visão, algumas emissoras tradicionais ainda
possuem um patrimônio que não se compra e não se transfere: a confiança do
público. Essa confiança é construída ao longo de décadas, no contato diário
com o ouvinte, na presença da emissora na comunidade, na capacidade de ouvir,
questionar, informar e, muitas vezes, dar voz a quem não encontra espaço em
outros lugares.
O rádio que pretende sobreviver não pode ser apenas um
transmissor de música, publicidade ou informações prontas. Precisa ser um rádio
vivo. Um rádio que interage, que pergunta, que escuta, que debate, que provoca
e que também sabe reconhecer quando erra.
A história nos mostra que a participação dos ouvintes
sempre foi uma das grandes forças desse veículo. Tornar a comunidade parte da
pauta é fundamental. Debater os problemas da cidade, sem medo e sem
preconceitos, buscar os fatos, confrontar versões, ouvir os envolvidos e tornar
público aquilo que interessa à população é uma das maiores responsabilidades do
rádio.
Em Iporá, por exemplo, lembro-me de uma época,
especialmente na década de 1980, em que se discutia praticamente de tudo. Havia
provocações, discordâncias, concordâncias e debates. A rádio participava da
vida da cidade. Não era apenas um aparelho colocado em cima de uma mesa para
transmitir uma programação. Era um espaço de convivência, discussão e
manifestação da comunidade.
E talvez esteja aí uma das respostas para a
sobrevivência do rádio: a capacidade de fazer parte da vida das pessoas.
Nossas rádios — digo “nossas” porque, embora tenham
proprietários e sejam administradas por grupos ou instituições, também
pertencem simbolicamente à comunidade que as ouve — têm uma história construída
junto com a população.
Uma rádio verdadeiramente viva interage com outros
veículos de comunicação, transmite, retransmite, repercute, discute e
rediscute. Um fato pode nascer em uma entrevista, ganhar repercussão nas redes
sociais, voltar para o rádio, provocar uma manifestação pública e, finalmente,
transformar-se em atitude, decisão ou até em uma política pública.
Pode parecer pretensioso pensar dessa maneira, mas
acredito que, em determinados momentos, a imprensa local influenciou e
contribuiu para mudanças importantes. Ajudou a discutir leis, cobrou sua
execução, questionou administrações públicas, defendeu interesses da comunidade
e, em alguns casos, contribuiu para a manutenção de conquistas sociais.
Lembro-me, por exemplo, do saudoso juiz Benedito
Silva e Souza. Ele fazia questão de valorizar a imprensa. Não dispensava o
tratamento de “doutor”, mas também fazia questão de reconhecer a importância do
jornalista e do repórter. Em determinado júri popular, chegou a solicitar a
presença deste repórter nas proximidades dos serventuários para que tudo
pudesse ser registrado. Para ele, a imprensa tinha importância institucional e
social.
Ele costumava tratar a imprensa como o “quarto
poder”.
É importante compreender o significado dessa
expressão. Os chamados três poderes constituídos são o Executivo, o Legislativo
e o Judiciário. A imprensa, embora não seja formalmente um poder da República,
recebeu historicamente a denominação de “quarto poder” justamente por sua
capacidade de fiscalizar, informar, questionar e influenciar a opinião pública.
E isso tem relação direta com a democracia.
A palavra democracia vem do grego: demos, povo,
e kratos, poder ou governo. Democracia, portanto, significa, em sua
origem, poder do povo. E não existe democracia forte sem informação, sem
liberdade de expressão e sem uma imprensa capaz de exercer sua função com
responsabilidade.
Mas, ao pensar no rádio, sua relevância e sua
importância, precisamos também fazer algumas perguntas incômodas.
Quem está por trás de uma rádio?
Geralmente existe um proprietário, uma empresa, uma
instituição, uma coordenação ou um grupo responsável por sua administração. E
esse grupo possui objetivos. É justamente aí que entra uma das questões mais
importantes: qual é a linha editorial da emissora?
Tenho uma rádio apenas para faturar, obter retorno
financeiro e recuperar o investimento?
Ou tenho uma rádio também para gerar conhecimento,
informar, formar cidadãos, conscientizar, prestar serviço e oferecer
entretenimento?
Não existe nada de errado em uma emissora buscar
sustentabilidade financeira. Pelo contrário. Uma rádio precisa pagar
funcionários, equipamentos, energia, manutenção, impostos e todos os custos
necessários para continuar funcionando.
O problema aparece quando o interesse econômico passa
a determinar completamente aquilo que pode ou não ser informado.
Também existem emissoras adquiridas ou administradas
por pessoas com objetivos políticos. Nesse caso, existe o risco de a pauta ser
construída para enaltecer determinado grupo, apresentar seus feitos, construir
uma imagem positiva e, ao mesmo tempo, desmerecer adversários.
Há também situações em que interesses empresariais
podem influenciar a pauta. Aquilo que atinge um anunciante importante pode
deixar de ser abordado. Um problema que contraria determinado interesse
econômico pode ser ignorado. E, assim, a informação passa a ser condicionada
por relações que o ouvinte muitas vezes desconhece.
Existem ainda emissoras ligadas a grupos religiosos ou
ideológicos. Isso também não significa, automaticamente, falta de
credibilidade. Uma orientação religiosa pode estabelecer princípios éticos e
valores importantes para a comunicação. Mas, novamente, tudo depende de quem
está à frente, de como administra e de como compreende sua responsabilidade
diante da sociedade.
Por isso, a linha editorial é tão importante.
No caso de uma rádio de inspiração cristã, por
exemplo, é possível defender princípios cristãos sem transformar a emissora em
instrumento de preferência partidária. É possível defender valores, dignidade
humana, justiça, solidariedade e respeito sem escolher previamente quem merece
ser elogiado ou criticado.
Essa é uma preocupação que considero fundamental a
partir da minha própria experiência em uma equipe de pauta livre: ter
liberdade para informar, questionar e investigar, sem ferir os princípios que
orientam a instituição, mas também sem transformar o jornalismo em instrumento
de partido ou de projeto político.
Outro aspecto que precisa ser lembrado é que uma
emissora de rádio não funciona simplesmente como uma página pessoal de rede
social.
A radiodifusão depende de concessão ou autorização
pública, está sujeita à legislação e a obrigações específicas. As emissoras
precisam cumprir regras, transmitir determinados conteúdos oficiais, reservar
espaço para a propaganda eleitoral quando determinada pela legislação e atender
a outras responsabilidades previstas para o serviço de radiodifusão.
Isso é importante porque a frequência utilizada pelo
rádio é um bem público. A emissora recebe autorização para utilizá-la e, por
isso, existe uma responsabilidade que vai além dos interesses particulares de
seus proprietários.
Não significa que uma rádio não possa ter opinião.
Significa que essa opinião deve conviver com a responsabilidade pública que
acompanha a atividade de radiodifusão.
E talvez essa seja uma das grandes diferenças entre o
rádio profissional e aquilo que hoje encontramos em boa parte das redes
sociais.
Nas redes sociais, qualquer pessoa pode publicar uma
informação verdadeira, uma opinião, uma mentira, uma manipulação ou uma
acusação sem necessariamente assumir as mesmas responsabilidades de um veículo
profissional de comunicação.
É uma espécie de território sem fronteiras, onde a
velocidade muitas vezes vence a apuração.
Por isso, considero perigoso comparar simplesmente uma
emissora de rádio ou televisão profissional com aquilo que circula nas redes
sociais. O rádio possui uma estrutura, profissionais, responsáveis, legislação
e, principalmente, uma história de relação com o público.
Isso não significa que o rádio seja infalível. Não é.
Jornalistas erram. Emissoras erram. Profissionais
podem interpretar equivocadamente um fato. Mas existe uma diferença
fundamental: o jornalismo profissional precisa ter responsabilidade pelo que
publica.
O rádio do futuro, portanto, não será necessariamente
aquele que tentar competir com as redes sociais na velocidade. Será aquele que
souber oferecer aquilo que as redes muitas vezes não conseguem entregar: credibilidade,
proximidade, contexto, apuração e responsabilidade.
O rádio precisa continuar ouvindo.
Precisa continuar perguntando.
Precisa continuar incomodando quando for necessário.
Precisa continuar dando voz à comunidade.
Precisa continuar fiscalizando o poder.
Precisa continuar reconhecendo seus próprios erros.
E, acima de tudo, precisa compreender que sua maior
riqueza não está apenas nos equipamentos, na frequência, na audiência ou no
faturamento publicitário.
Está na confiança construída ao longo do tempo.
Eu ainda acredito no rádio.
Acredito porque cresci ouvindo rádio. Acredito porque
vi sua importância na vida das pessoas. Acredito porque testemunhei debates,
discordâncias, denúncias, entrevistas, informações e histórias que ajudaram a
construir a memória de uma comunidade.
E acredito que, enquanto houver uma população querendo
saber, perguntar, participar e ser ouvida, haverá espaço para uma rádio que
compreenda sua verdadeira missão.
Porque uma rádio pode ser apenas uma empresa.
Pode ser apenas um negócio.
Pode ser instrumento de interesses.
Mas também pode ser muito mais do que isso.
Pode ser uma instituição a serviço da
comunidade, um espaço de democracia e uma voz permanente do cidadão.
E talvez seja justamente aí que esteja o caminho para
sua sobrevivência.
Não competir para ser mais rápida que a internet.
Mas ser mais confiável.
Não tentar gritar mais alto que as redes sociais.
Mas saber falar com responsabilidade.
Não apenas transmitir.
Participar da vida da comunidade.
Esse, para mim, continua sendo o grande papel do
rádio.
Por Pedro Claudio, vivendo a história construindo a história como você que teve paciência para ler esse texto até o fim.
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