Se esta vida não tem sentido, então como
devemos vivê-la?
Por Pedro Claudio
Tenho ouvido uma afirmação religiosa que merece, ao menos, uma reflexão: “Esta vida não tem sentido sem Deus. Este mundo só serve para escolher quem terá a vida eterna. Não tem sentido viver se não houver vida eterna. Sem Deus nada somos.” O argumento ainda relaciona o afastamento de Deus ao crescimento da depressão.
Antes de continuar, é preciso fazer uma distinção. A
Igreja Católica possui, sim, preceitos e orientações que, segundo sua própria
doutrina, fazem parte da vida cristã de quem foi batizado e deseja viver em
comunhão com a Igreja. Entre os preceitos estão a participação na Missa aos
domingos e dias santos de guarda, a observância de determinadas normas
litúrgicas e morais e a acolhida das verdades de fé ensinadas pela Igreja.
Entre essas verdades estão, por exemplo, a crença em
Deus Uno e Trino, na encarnação de Jesus Cristo, na ressurreição, na vida
eterna e, dentro da doutrina mariana, na Imaculada Conceição e na maternidade
divina de Maria. A Igreja também recomenda fortemente a leitura e meditação da
Bíblia, a oração, a reza do terço, a participação na comunidade, a prática da
caridade e a vivência dos sacramentos.
Tudo isso tem seu lugar e sua importância para quem
professa a fé católica. A questão que proponho aqui é outra: cumprir
práticas religiosas significa necessariamente considerar a vida presente como
algo sem sentido próprio, uma espécie de passagem provisória cujo único
objetivo seria determinar quem ganhará ou não a vida eterna?
É uma afirmação que pode parecer profundamente
religiosa, mas me provoca uma pergunta: se este mundo serve apenas como
passagem para outro, como devemos viver enquanto estamos aqui?
Devemos nos afastar dos prazeres da vida? Desconfiar
da felicidade? Renunciar aos bens materiais? Considerar o trabalho, a cultura,
a ciência, a amizade, o amor, a família, a sexualidade, a arte e a própria
natureza como distrações perigosas? Devemos viver como miseráveis para provar
que desejamos o céu?
Creio que essa conclusão não corresponde
necessariamente ao cristianismo.
Uma coisa é afirmar que a vida humana encontra em Deus
uma dimensão transcendente. Outra, muito diferente, é dizer que a vida
presente não possui sentido próprio.
Se acreditamos que Deus é o criador, então o mundo
criado não pode ser simplesmente um lugar sem importância. A tradição bíblica
começa afirmando que a criação é boa. E, no cristianismo, Deus não permanece
distante da realidade humana: a própria encarnação de Jesus significa entrar na
história, assumir um corpo, viver entre pessoas, experimentar alegrias, dores,
amizades, conflitos, trabalho, sofrimento e morte.
Jesus não ensinou seus seguidores a abandonar a
realidade. Ao contrário: falou de fome, pão, justiça, perdão, dinheiro,
pobreza, doença, solidariedade, relações humanas e cuidado com o próximo.
Quando Jesus diz que veio para que todos tenham vida,
e vida em abundância, seria estranho interpretar essa mensagem como se a
existência presente fosse apenas um corredor sem importância que precisamos
atravessar até chegar ao verdadeiro destino.
O problema, talvez, esteja em transformar a esperança
da vida eterna em desvalorização da vida presente.
Uma fé madura não precisa dizer: “não aproveite esta
vida porque a verdadeira vida será depois”.
Pode dizer: “viva esta vida com profundidade porque
ela é o lugar concreto onde você ama, sofre, aprende, trabalha, cria, perdoa,
cuida e constrói o bem.”
O prazer também não precisa ser visto como pecado
simplesmente porque é prazer. Comer uma boa refeição, ouvir música, viajar,
conversar com amigos, apaixonar-se, contemplar uma paisagem, praticar esporte,
estudar, produzir conhecimento ou simplesmente rir não são necessariamente
sinais de afastamento de Deus.
O problema não está no prazer, mas naquilo que fazemos
dele.
Quando o prazer se transforma em dependência,
exploração, egoísmo ou destruição de outras pessoas, ele pode nos escravizar.
Mas quando uma experiência proporciona alegria, convivência, descanso, beleza e
gratidão, por que necessariamente deveria ser considerada inimiga da
espiritualidade?
Também precisamos ter cuidado com a afirmação de que “sem
Deus nada somos”.
Do ponto de vista da fé, alguém pode dizer que a
existência humana encontra sua origem e seu fundamento em Deus. Mas isso não
significa que uma pessoa sem fé seja um ser sem valor, sem dignidade ou sem
capacidade de amar.
Uma pessoa pode não acreditar em Deus e ainda assim
dedicar a vida à família, à ciência, à justiça, à solidariedade, à educação, à
defesa da natureza ou ao cuidado de quem sofre.
E aqui aparece outra questão importante: não
devemos atribuir automaticamente o aumento da depressão à falta de Deus.
A depressão é uma condição complexa, relacionada a
fatores psicológicos, biológicos, sociais e ambientais. Solidão, perdas,
violência, dificuldades econômicas, traumas, doenças, relações familiares,
predisposição individual e muitas outras circunstâncias podem participar desse
processo.
A espiritualidade pode ser, para muitas pessoas, uma
importante fonte de sentido, esperança, comunidade e apoio. Mas isso não
significa que a ausência de religião seja a explicação para todo sofrimento
psicológico.
Aliás, dizer a alguém deprimido que sua tristeza
existe porque está longe de Deus pode produzir ainda mais culpa: “Estou
sofrendo porque minha fé é insuficiente.”
E isso pode ser profundamente doloroso.
Talvez seja mais saudável compreender a relação entre
fé e existência de outra maneira.
Não precisamos escolher entre viver
plenamente este mundo e esperar a eternidade.
Para quem acredita, uma coisa pode estar ligada à
outra.
A esperança cristã não deveria produzir desprezo pela
Terra, mas responsabilidade diante dela. Se acredito na vida eterna, isso não
me autoriza a tratar esta vida como descartável. Pelo contrário: deveria
aumentar minha responsabilidade por aquilo que faço enquanto estou aqui.
Se acredito em Deus, como trato o ser humano que está
diante de mim?
Como trato minha família?
Como trato quem pensa diferente?
Como trato o pobre?
Como trato quem não acredita?
Como trato a natureza?
Como exerço minha profissão?
Como uso o dinheiro?
Como trato o meu próprio corpo?
Como enfrento a injustiça?
Como lido com o poder?
Talvez seja justamente aí que a fé deixe de ser apenas
discurso sobre o céu e se transforme em prática concreta na Terra.
O cristianismo não deveria ensinar uma fuga da
realidade, mas uma maneira diferente de habitá-la.
Não precisamos viver como miseráveis para provar que
queremos o céu. Também não precisamos transformar os prazeres do mundo em nosso
único objetivo.
Podemos trabalhar sem fazer do dinheiro um deus.
Podemos desfrutar sem transformar o prazer em
escravidão.
Podemos conquistar bens sem sermos possuídos por eles.
Podemos estudar e questionar sem perder a
espiritualidade.
Podemos amar a ciência sem abandonar a fé.
Podemos celebrar a vida sem esquecer a morte.
Podemos reconhecer nossos limites sem deixar de
sonhar.
E podemos acreditar na eternidade sem desprezar o
presente.
Talvez a pergunta mais importante não seja “esta
vida tem sentido sem Deus?”
Para quem acredita, a pergunta pode ser outra:
“Se Deus nos deu esta vida, o que estamos
fazendo com ela?”
Porque, se existe uma eternidade, ela não deveria
servir para diminuir o valor do presente.
Deveria nos tornar ainda mais responsáveis pela
maneira como vivemos o presente.
A vida não precisa ser uma sala de espera para o céu.
Pode ser o lugar onde aprendemos a amar.
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