sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Euforia no plenário revela crise simbólica da representação política no Brasil

 


Euforia no plenário revela crise simbólica da representação política no Brasil

Por Pedro Claudio

A cena registrada no plenário da Câmara dos Deputados nesta semana — um grupo de parlamentares comemorando efusivamente o livramento da cassação da deputada Carla Zambelli, atualmente presa na Itália após fugir do Brasil — é, no mínimo, um retrato curioso da política brasileira contemporânea. Interessante, intrigante e, para alguns, até hilário. Mas também revelador.

O episódio em si envolvendo a deputada não é novidade. Problemas de saúde já foram admitidos por ela e por aliados, e seu histórico recente inclui atitudes publicamente reprováveis, como perseguir um jornalista armada pelas ruas — gesto que permanece sem explicação convincente. A pergunta “o que será que ela queria?” ainda ecoa.

No entanto, o foco aqui não é a parlamentar, mas o comportamento de seus colegas. Deputados pulando, vibrando, celebrando como torcedores diante de um gol decisivo. A pergunta que se impõe é: o que exatamente foi comemorado? Uma vitória contra a Justiça? Uma vitória da oposição sobre o governo? Ou a vitória de um grupo político sobre o bom senso?

Para quem insiste em pensar com independência, a cena oferece uma oportunidade de reflexão sociológica sobre o estado da política nacional. Não é exagero dizer que o comportamento exibido é quase um símbolo da desconexão entre representantes e representados. Parece faltar um parafuso — não individualmente, mas na cabeça coletiva de parte do Parlamento.

Nos últimos anos, o país assiste à defesa pública de práticas que antes eram vistas como inaceitáveis. Parlamentares que, em nome de uma liberdade mal interpretada, justificam e incentivam a propagação de fake news como se mentir fosse um direito constitucional. Outros atacam figuras que se dedicam a quem mais precisa, como o trabalho humanitário do padre Júlio Lancellotti. Há ainda aqueles que chegam ao ponto de defender medidas que prejudicariam o próprio Brasil, como no caso da disputa comercial envolvendo os Estados Unidos e a taxação de produtos estrangeiros.

Essas iniciativas, quase sempre de vida curta, ainda assim produzem efeitos profundos. Plantam na sociedade a ideia de que o errado pode ser certo; que a desinformação é opinião; que o absurdo merece espaço. Alimentam, pouco a pouco, uma espécie de ruptura coletiva, cultural e moral.

Opinar é um direito. Liberdade é essencial. Mas liberdade sem responsabilidade é só caos disfarçado de bravura.

A comemoração sem sentido que tomou conta do plenário é, no fundo, um espelho incômodo. Mostra o vazio que algumas lideranças insistem em festejar — e revela, com nitidez, o desafio de reconstruir no Brasil um ambiente político guiado por seriedade, racionalidade e compromisso com o interesse público.

Porque, no final das contas, estavam comemorando o quê? O país ainda não sabe. Mas a cena fala por si.