domingo, 17 de maio de 2026

Minha história, minha vida

 

Pedro Claudio Rosa e sua vida 




Era o final da década de 1980. O Brasil saía lentamente das sombras da censura imposta pela ditadura militar. As redações, os artistas, os jornalistas e as emissoras de rádio começavam novamente a respirar liberdade. A informação voltava a circular com menos medo. O povo reaprendia a debater política, ouvir opiniões diferentes e participar da vida democrática do país.

No rádio do interior, isso também era sentido. O jornalismo ganhava força, ampliava espaço para notícias e debates, enquanto a população buscava informação confiável em um tempo de profundas transformações. O país vivia o clima da abertura política iniciada após o fim do regime militar, consolidada com a eleição indireta de Tancredo Neves e, após sua morte, com a posse de José Sarney, conduzindo a transição democrática.

Pouco depois da minha chegada ao rádio, o mundo assistiria a um dos acontecimentos mais simbólicos do século XX: a Queda do Muro de Berlim, em 1989. A derrubada do muro simbolizou o enfraquecimento do comunismo no Leste Europeu e anunciava o fim da Guerra Fria. Em seguida viria o desaparecimento da União Soviética, mudando completamente a geopolítica mundial.

Enquanto isso, aqui no Brasil, o país promulgava a Constituição Federal de 1988, chamada de Constituição Cidadã, garantindo direitos, ampliando liberdades e consolidando o processo de redemocratização.

Foi justamente nesse tempo de abertura, transformação e reconstrução democrática que comecei minha caminhada no rádio, aprendendo que a notícia não era apenas informação: era também serviço, memória e compromisso com a verdade.

Foi nesse cenário que um jovem de 21 anos, aprendiz de mecânico em uma oficina de Iporá, começou, sem imaginar, uma trajetória que atravessaria décadas da história mundial e do rádio brasileiro.

Na oficina, entre fuscas, brasílias, caminhonetes e peças de motor espalhadas sobre bancadas engorduradas, eu aprendia um ofício. Desmontava motores, organizava ferramentas, identificava peças para reposição, sempre sob o olhar atento dos profissionais mais experientes. Era um trabalho duro, honesto e de aprendizado diário.

Mas, naquela manhã de 1987, algo mudou.

Pelo rádio da oficina ecoou um anúncio da Rádio Rio Claro: a emissora abria vagas para seleção de locutores. Exigia-se responsabilidade e que o candidato estivesse concluindo o 2º grau — o atual ensino médio.

Naquele tempo, estudar aos 21 anos não era atraso. Eu cursava Técnico em Contabilidade, gostava de ler e tinha um hábito curioso: lia jornais em voz alta, imaginando-me locutor de rádio. Os colegas percebiam. Diziam que minha voz era boa. A professora de português, Cleuza Rocha, certa vez praticamente profetizou:

— Você ainda vai ser locutor.

Eu era tímido, mas gostava da palavra falada.

Na oficina, um conselho mudaria minha vida. O senhor Jerônimo, lanterneiro experiente, ouviu o anúncio e me disse:

— Se eu fosse você, iria.

Eu fui.

Naquele tempo, o rádio era tudo. Em cidades do interior como Iporá, era praticamente o único grande meio de comunicação de massa. Havia o serviço de som da igreja, onde o Padre Wiro transmitia avisos por uma corneta instalada próxima ao sino. Existia o Boletim Comunitário da paróquia, um carro de propaganda volante e o serviço de som da rodoviária. Mas notícia mesmo, informação forte, prestação de serviço e cobertura dos fatos importantes vinham do rádio. Quando algo acontecia na cidade, todos paravam para ouvir a emissora.

Foram 117 inscritos.

Quem colheu meus dados na recepção foi Rosangela Maria Eduardo, que pouco tempo depois se tornaria minha colega de trabalho. Voltei para casa sem muita esperança. No dia seguinte, fui conferir o mural da emissora. Meu nome estava lá.

Primeiro veio a prova escrita: redação, interpretação e conhecimentos gerais. Para quem estava mergulhado nos estudos finais do curso técnico, aquilo parecia natural. Depois veio o maior desafio: o teste de locução.

O coração disparava.

Na minha frente estava o diretor Olívio Lemos Pereira Filho. Homem de olhar sério, daqueles que pareciam enxergar até os pensamentos da gente. Deu-me um texto sobre o Banco do Brasil, cheio de palavras difíceis. Pediu que eu treinasse.

Depois da leitura, mandou repetir.

Mais uma vez.

E outra.

Enquanto o cheiro de cigarro se misturava ao café quente que ele tomava, ouvi a frase que talvez tenha mudado meu destino:

— Gostei. Sua voz é boa. Precisa ser educada, mas você desenvolveu bem a leitura.

Voltei para casa feliz.

Entre mais de cem candidatos, fiquei entre os quarenta selecionados na primeira etapa. Depois vieram novos testes no estúdio, gravações analisadas pelos profissionais da emissora: Donizete Pontes, Vilton Pereira, Valdeci Borges, Roberto Lopes, Diney Nunes, Altamiro, Geiuso Batista, Ademir Lima e tantos outros que formavam um verdadeiro exército do rádio regional.

Havia também os bastidores invisíveis que sustentavam a magia da transmissão: Edson Rodrigues, office-boy e aprendiz; seu Manoel Nobre, vigia noturno; Barbosinha, no transmissor; o cheiro do café da madrugada; o entra e sai de fitas, discos, papéis e máquinas de escrever.

Passei.

Dos 117, restaram 17.

Depois, apenas três.

Vieram meses de estágio sem salário. Primeiro, apenas ouvindo os locutores. Depois, lendo comerciais simples: venda de milho, avisos comunitários, comunicados fúnebres. Até que um dia recebi autorização para ler o noticiário ao vivo.

Finalmente fui contratado.

Um salário mínimo.

Parecia um tesouro.

A família quase não acreditava: havia um locutor em casa.

E o tempo passou.

Enquanto eu crescia dentro do rádio, o mundo mudava diante dos microfones.

Em 1987, o Brasil assistia assustado ao acidente radiológico de Goiânia, a maior tragédia nuclear da história brasileira. As notícias atravessavam o país pelas ondas do rádio, e nós as levávamos ao povo.

Poucos anos depois, em 1989, o país realizou sua primeira eleição presidencial direta após a ditadura. Fernando Collor de Mello venceu a disputa prometendo modernidade. Mas, em 1992, viria sua queda, em meio ao impeachment que paralisou o Brasil e lotou as ruas de “caras-pintadas”.

No cenário mundial, testemunhamos o fim da União Soviética, em 1991, encerrando a Guerra Fria e redesenhando a geopolítica do planeta. A Tchecoslováquia também deixava de existir, dividindo-se pacificamente em República Tcheca e Eslováquia. O mundo mudava rapidamente, e o rádio narrava cada transformação.

Também acompanhei a história da Igreja Católica atravessar diferentes pontificados. Em 1987, o papa era João Paulo II, figura marcante do século XX. Depois vieram Bento XVI, Francisco e agora Leão XIV, enquanto eu seguia diante dos microfones acompanhando a história do mundo e da minha cidade.

Na Diocese de São Luís de Montes Belos, acompanhei o primeiro bispo, Dom Stanislau Van Melis; depois, Dom Washington Cruz. Foi nesse período que me aproximei ainda mais da missão pastoral, envolvendo-me em diversas atividades da Igreja, até ser ordenado diácono permanente por Dom Carmelo Scampa. Mais recentemente, acompanhei a chegada de Dom Lindomar, atual bispo da diocese.

Na paróquia, convivi com Padre Wiro e muitos religiosos passionistas que por aqui passaram. Entre eles, Padre Daniel, diocesano,  que residiu com Padre Wiro em sua primeira paróquia e hoje atua em Adelândia.

Na rádio, fui praticamente tudo:

Repórter policial.
Repórter esportivo.
Narrador.
Comentarista.
Editor de jornalismo.
Apresentador.
Operador de áudio.
Redator.
Rádio-escuta.

Na era do rádio AM, fui o “Repórter 1580”. Depois, no 760 AM, enfrentei jornadas intensas: entradas ao vivo de meia em meia hora, das 6h30 da manhã até as 18h30. O trabalho exigia ouvir emissoras de outras cidades, transcrever notícias em máquinas de escrever, datilografar textos, preparar boletins e ainda apresentar programas. Me qualifiquei, com diversos cursos, fui para a academia, agreguei informação.

Era um jornalismo artesanal.

Humano.

Feito no ouvido, no papel e na coragem.

Ao longo dessa caminhada, o rádio não foi apenas profissão. Foi cenário da própria vida.

Ali vivi paqueras, namoro e casamento.

Casei-me com Marlene Eva, companheira de 29 anos de união. Vieram os filhos, Yure e Tauã, ambos formados, trabalhando e construindo seus caminhos. Em 2022 veio a dor da despedida e do luto, quando fiquei viúvo.

Mas a vida continuou.

Hoje, ao lado de Eva Maria, minha segunda Eva, sigo escrevendo novos capítulos.

E assim chego a 2026.

Já não sou o jovem tímido de 21 anos da oficina mecânica. Aos 60 anos, continuo na mesma empresa onde entrei sonhando apenas em testar a própria voz. São quase quatro décadas acompanhando o mundo mudar diante de um microfone.

Vi governos nascerem e caírem.

Vi moedas desaparecerem.

Vi o AM perder espaço para o digital.

Vi a internet transformar a comunicação.

Vi a notícia deixar o papel e chegar instantaneamente às telas dos celulares.

Mas uma coisa permaneceu:

a paixão pelo rádio.

Porque o rádio não é apenas tecnologia.

O rádio é companhia.

É memória.

É testemunha da história.

E, de certa forma, também foi testemunha da minha própria vida.

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