Rádio Rio Claro: quatro décadas acompanhando a transformação do rádio
Por Pedro Claudio
A história da Rádio Rio Claro, de Iporá, Goiás,
pioneira na comunicação radiofônica do Oeste Goiano, é também a história da
transformação tecnológica do rádio no Brasil. Faço parte dessa história desde
1987 e, ao longo de quase quatro décadas, acompanhei de perto mudanças que
transformaram não apenas os equipamentos, mas também a maneira de produzir,
transmitir e ouvir rádio.
Criada em 1980, a Rádio Rio Claro começou sua
trajetória na faixa AM, inicialmente em 1.580 kHz, passando
posteriormente para 760 kHz. Era outro rádio. A operação era
predominantemente analógica, muito mais manual e dependente da presença física
do profissional em cada etapa da programação.
Não havia a facilidade dos computadores, dos sistemas
de automação, da internet ou dos aplicativos. O rádio era feito com
equipamentos, discos, fitas, microfones, mesas de áudio e muita operação
manual.
A potência da emissora também foi sendo ampliada.
Começou com aproximadamente 1 mil watts no AM, posteriormente chegou a 5
mil watts e, anos depois, veio uma das maiores transformações de sua
história: a migração para o FM 91,9 MHz.
Agora, a Rádio Rio Claro dá mais um passo importante
nessa trajetória.
A emissora está operando com maior alcance e melhor
qualidade de sinal, após a elevação de sua classe para A3 e a
substituição da antena de transmissão. A licença da Anatel registra a Rádio Rio
Claro em 91,9 MHz, canal 220, classe A3, com a estação instalada no Morro
da TV, na zona rural de Iporá.
A nova estrutura de transmissão representa mais uma
mudança significativa na história da emissora. A antena deixou a região do Lago
Pôr do Sol e foi instalada em uma área de maior altitude, em um morro
próximo ao aeroporto da cidade.
A estação atualmente possui transmissão
omnidirecional, com antena de polarização circular e centro de irradiação a 45
metros, conforme consta na licença de funcionamento.
Mas a evolução da Rádio Rio Claro não aconteceu
somente na antena.
Mudou a maneira de produzir rádio. Mudou a
maneira de transmitir. E mudou, principalmente, a maneira de ouvir.
Na década de 1980, a programação musical dependia dos
tradicionais discos de vinil. Depois vieram as fitas, os CDs, o MiniDisc
e, finalmente, os sistemas digitais.
Lembro de uma época em que escolher uma música
significava procurar fisicamente o disco ou o CD, colocá-lo no equipamento e
acompanhar toda a operação. Hoje, uma biblioteca musical inteira pode estar
armazenada em um computador ou servidor e ser acessada com poucos comandos.
A tecnologia trouxe velocidade, praticidade e novas
possibilidades.
Hoje, praticamente toda a operação de uma emissora
pode estar integrada a computadores, softwares de automação, servidores e
sistemas conectados à internet. A programação, os comerciais, as músicas, os
boletins e os conteúdos jornalísticos são organizados digitalmente.
E o ouvinte também mudou.
Ele já não precisa estar diante de um aparelho de
rádio para ouvir rádio.
Pode estar no carro, em casa, no trabalho ou em
qualquer lugar com acesso à internet. Pode acompanhar a programação pelo
receptor convencional, pelo computador, pelo celular, por aplicativos, sites e
plataformas de streaming.
O rádio deixou de ser apenas um aparelho sobre a mesa.
Hoje, o rádio está onde está o ouvinte.
E essa talvez seja uma das maiores transformações da
radiodifusão: a emissora deixou de depender exclusivamente do alcance de sua
onda para chegar ao público. O sinal continua sendo fundamental, mas passou a
conviver com um universo digital que permite ampliar a presença da rádio para
muito além de sua área tradicional de cobertura.
É uma transformação tecnológica, mas também uma
transformação cultural.
E agora surge uma nova fronteira: a inteligência
artificial.
A IA começa a entrar no universo da comunicação e da
radiodifusão, oferecendo possibilidades para produção, organização de
conteúdos, edição, transcrição, análise de audiência e diversas outras tarefas.
Mas toda inovação tecnológica também exige
responsabilidade.
A tecnologia pode facilitar a comunicação, mas não
substitui o conhecimento, a sensibilidade, a ética e a responsabilidade de quem
comunica.
Porque, no final das contas, não basta ter
equipamentos modernos, um sinal potente, computador de última geração,
aplicativo, internet ou inteligência artificial.
É preciso ter o que dizer.
É preciso saber para quem dizer.
E, principalmente, é preciso saber por que dizer.
É aí que começa uma reflexão necessária para todos nós
que trabalhamos na Rádio Rio Claro.
O que queremos comunicar?
O que significa evangelizar através do
rádio?
Como podemos ser mais atrativos para o
público sem perder nossa identidade?
Estamos conseguindo dialogar com as novas
gerações?
Estamos ouvindo o nosso ouvinte ou apenas
falando para ele?
Essas são perguntas que precisam fazer parte do nosso
cotidiano.
Todos nós, trabalhadores da comunicação, precisamos
estar ligados aos objetivos da emissora, mas também precisamos estar atentos às
mudanças do mundo. O público mudou. Os hábitos mudaram. A linguagem mudou. A
tecnologia mudou.
E se tudo mudou, nós também precisamos mudar.
Não significa abandonar a história ou aquilo que deu
identidade à Rádio Rio Claro. Significa compreender que tradição não pode
ser confundida com imobilismo.
A missão permanece: comunicar, informar e
evangelizar.
Mas a forma de cumprir essa missão precisa acompanhar
o seu tempo.
Existe uma frase que resume uma inquietação que
considero fundamental: nada é mais triste do que existir sem produzir efeito.
Na comunicação, esse efeito precisa aparecer.
É necessário haver feedback, retorno,
participação, resposta.
Uma rádio que fala, mas não sabe se está sendo ouvida,
precisa parar e refletir.
A comunicação não pode ser autoritária. Não pode ser
manipuladora. Não pode simplesmente impor uma visão ao público.
Comunicar é também estabelecer uma relação.
É falar, mas também ouvir.
É informar, mas também permitir o diálogo.
É apresentar ideias, provocar reflexão e, quando
necessário, direcionar para aquilo que consideramos importante, sem retirar do
ouvinte sua capacidade de pensar e decidir.
Caso contrário, corremos o risco de produzir apenas
barulho.
E aqui cabe lembrar a imagem utilizada pelo apóstolo
Paulo ao falar do “sino que soa”: muito ruído, mas sem significado
quando falta aquilo que realmente dá sentido à comunicação.
Esse é um risco que nenhuma emissora pode ignorar.
Não basta ocupar o espaço.
É preciso fazer diferença.
A Rádio Rio Claro tem uma história construída ao longo
de mais de quatro décadas. Uma história feita por profissionais, comunicadores,
técnicos, gestores e tantos colaboradores que ajudaram a construir essa
emissora.
Eu mesmo faço parte dessa caminhada desde 1987.
Por isso, acompanhar mais essa mudança tecnológica não
é apenas observar uma nova antena ou uma melhoria no sinal.
É olhar para trás e perceber o tamanho da
transformação.
Da AM 1.580 para a AM 760.
Da potência inicial aos 5 mil watts.
Do AM para o FM 91,9.
Do vinil para o CD.
Do CD para o MiniDisc.
Do MiniDisc para o computador.
Do rádio convencional para o aplicativo, a internet e
o streaming.
E agora, diante de nós, a inteligência artificial e
uma nova geração de tecnologias que ainda estamos começando a compreender.
São mais de quatro décadas de mudanças, mas uma coisa
permanece: a necessidade humana de comunicação.
O rádio muda.
A tecnologia muda.
Os hábitos do público mudam.
Mas a necessidade de informação, companhia, serviço,
cultura, proximidade e sentido continua.
Por isso, celebrar uma nova etapa tecnológica da Rádio
Rio Claro deve ser também uma oportunidade para olhar para dentro e perguntar:
Que rádio queremos ser daqui para frente?
Uma rádio que apenas transmite?
Ou uma rádio que participa da vida das pessoas?
Uma rádio que fala?
Ou uma rádio que também sabe ouvir?
Uma rádio que acompanha a tecnologia?
Ou uma rádio que compreende as transformações do seu
público?
A nova antena melhora o sinal.
A tecnologia amplia o alcance.
A internet multiplica as possibilidades.
Mas quem realmente amplia o alcance de uma emissora é
a credibilidade, a qualidade do conteúdo e a capacidade de estabelecer
uma relação verdadeira com quem está do outro lado.
Que a Rádio Rio Claro continue fazendo aquilo que
sempre fez: comunicando, informando, evangelizando e participando da vida da
comunidade.
Mas que nunca deixe de fazer a pergunta mais
importante para qualquer meio de comunicação:
Estamos realmente fazendo efeito?
Porque uma emissora não existe apenas para emitir
sinais.
Existe para alcançar pessoas.
E, quando alcança pessoas, precisa deixar alguma
coisa: uma informação, uma reflexão, uma esperança, uma orientação, uma
companhia ou simplesmente a certeza de que alguém está ali.
A Rádio Rio Claro tem história.
Tem memória.
Tem desafios.
E tem futuro.
Uma emissora com mais de quatro décadas de
história, mas que precisa continuar com os olhos e os ouvidos voltados para o
futuro.