segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Israel da Bíblia e Estado de Israel: é preciso separar as coisas

 

Israel da Bíblia e Estado de Israel: é preciso separar as coisas


Por Pedro Claudio

Gente, existe muita confusão quando se fala sobre a guerra entre Israel e Palestina. Muitas vezes, acontecimentos políticos e militares do presente são colocados diretamente dentro de uma narrativa bíblica, como se o Israel mencionado na Bíblia fosse exatamente o mesmo Estado de Israel que existe hoje.

É preciso fazer uma distinção histórica importante.

O Israel da Bíblia pertence ao mundo antigo. A Bíblia fala de Israel como povo, como território e também como reino. A história bíblica registra diferentes períodos e organizações políticas, como os antigos reinos de Israel e Judá.

Já o Estado de Israel moderno foi criado em 14 de maio de 1948, no contexto posterior ao fim do Mandato Britânico na Palestina e de um longo processo político relacionado ao movimento sionista e à história do povo judeu.

Existe, portanto, uma ligação histórica, cultural e religiosa muito forte entre o antigo Israel, o povo judeu e o Estado moderno. Mas isso não significa que sejam a mesma realidade política e histórica.

Israel bíblico não é simplesmente o Estado de Israel de hoje

Essa distinção é importante também para nós, cristãos.

Há pessoas que dizem: "Sou cristão, portanto tenho obrigação de defender Israel". E algumas justificam essa posição recorrendo às promessas feitas por Deus a Abraão na Bíblia.

Um dos textos mais citados é Gênesis 12,3, quando Deus diz a Abraão:

"Abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem."

É uma passagem importante dentro da tradição bíblica e da história da fé judaico-cristã. Mas é preciso perguntar: a quem o texto bíblico está se referindo e em qual contexto histórico e religioso essa promessa foi feita?

O texto está falando da relação de Deus com Abraão e sua descendência dentro da história bíblica da aliança. Não está apresentando uma regra de política internacional para os Estados modernos milhares de anos depois.

Portanto, utilizar automaticamente essa passagem para afirmar que todo cristão tem obrigação religiosa de apoiar qualquer decisão do atual governo de Israel é uma interpretação teológica, não uma conclusão histórica inevitável.

Uma coisa é apoiar Israel; outra é dizer que o cristão é obrigado a fazê-lo

Uma pessoa pode, naturalmente, defender o Estado de Israel, apoiar sua existência, sua segurança e até apoiar determinadas decisões de seu governo.

Assim como outra pessoa pode fazer críticas às políticas do governo israelense e defender os direitos dos palestinos.

Essas são posições políticas que fazem parte do debate democrático.

O problema começa quando alguém afirma:

"Se você é cristão, obrigatoriamente precisa estar a favor do Estado de Israel porque Israel é o povo protegido por Deus na Bíblia."

Essa afirmação mistura diferentes períodos históricos, conceitos religiosos e realidades políticas.

O Israel bíblico, o povo judeu, o judaísmo, o Estado de Israel moderno, o governo de Israel e os israelenses de hoje não são expressões que podem ser usadas como sinônimos.

E o Estado de Israel não é um Estado cristão

Outro ponto que precisa ser esclarecido: Israel não é um Estado cristão.

Sua população é diversificada. Há judeus, muçulmanos, cristãos, drusos e pessoas sem religião, entre outros grupos.

Portanto, também não faz sentido apresentar a guerra atual simplesmente como uma disputa entre "cristãos e inimigos de Deus".

O conflito envolve história, território, nacionalismo, religião, segurança, política regional, direitos nacionais, ocupação, grupos armados e decisões de governos.

É uma realidade muito mais complexa.

Netanyahu não é Israel. Hamas não é o povo palestino.

Também precisamos separar governo de população.

Benjamin Netanyahu é o primeiro-ministro de Israel, mas não é Israel. Suas decisões e as decisões de seu governo podem e devem ser analisadas e criticadas como decisões políticas.

Da mesma forma, Hamas não é sinônimo de todo o povo palestino.

Existem israelenses que discordam do governo. Existem judeus que criticam determinadas políticas de Israel. Existem palestinos que não apoiam o Hamas. E existem cristãos palestinos vivendo naquela região.

Quando transformamos povos inteiros em representantes automáticos de governos ou organizações armadas, perdemos a capacidade de compreender a realidade.

E para o cristão, existe ainda uma questão maior

O cristianismo nasceu no ambiente judaico do primeiro século. Jesus era judeu. Os primeiros discípulos eram judeus. A Bíblia cristã possui suas raízes profundas na história de Israel.

Mas isso não significa que o cristianismo tenha como missão defender automaticamente um Estado moderno específico.

O centro da fé cristã é Cristo e seu ensinamento.

E quando pensamos nas palavras de Jesus, encontramos uma mensagem que também nos obriga a olhar para o sofrimento humano.

No Evangelho de Mateus, por exemplo, Jesus ensina:

"Bem-aventurados os que promovem a paz."
Mateus 5,9

E também:

"Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem."
Mateus 5,44

Isso não elimina o direito de uma pessoa defender Israel, defender a Palestina, defender a segurança de civis ou criticar grupos armados e governos.

Mas nos lembra que o cristão não precisa transformar uma guerra política em uma obrigação religiosa de tomar partido de um governo.

História não pode ser substituída por slogan

É perfeitamente possível reconhecer a importância histórica e religiosa de Israel para o judaísmo e para o cristianismo, reconhecer o direito dos israelenses à segurança e, ao mesmo tempo, reconhecer os direitos e a dignidade do povo palestino.

Também é possível condenar ataques contra civis israelenses sem, por isso, considerar legítima toda e qualquer ação do governo de Israel.

E é possível defender os direitos dos palestinos sem justificar ataques contra civis israelenses.

Uma coisa não precisa obrigatoriamente anular a outra.

O que precisamos evitar é uma tremenda confusão histórica: pegar o Israel da Bíblia, descrito nos textos do Antigo Testamento, e simplesmente transferi-lo para o Estado moderno criado em 1948, como se as duas realidades fossem exatamente a mesma coisa.

A Bíblia pertence a uma história religiosa e antiga. O Estado de Israel pertence à história política contemporânea.

Estudar essa diferença não diminui a importância da Bíblia, nem a importância histórica do povo judeu.

Ao contrário: respeitar a Bíblia também significa respeitar o seu contexto histórico.

E talvez seja justamente isso que precisamos fazer diante de uma guerra: menos slogans religiosos, menos simplificações e mais conhecimento.

Porque fé não precisa ser confundida com política, e solidariedade com um povo não precisa significar apoio automático a todas as decisões de seu governo.