quinta-feira, 10 de setembro de 2026

 

CORREMOS O RISCO DE UM GOVERNO TEOCRÁTICO?

Por Pedro Claudio

Estamos vivendo um período de intensa disputa política e eleitoral no Brasil. E, nesse ambiente, há uma questão que merece ser discutida com serenidade, sem preconceito contra nenhuma religião e, ao mesmo tempo, sem ingenuidade: corremos o risco de transformar a fé religiosa em instrumento de poder político?

Muita gente ouve falar em teocracia, mas talvez não saiba exatamente o que significa. De maneira simples, teocracia é um sistema de governo no qual a autoridade política está vinculada à autoridade religiosa, e as decisões do Estado são justificadas ou legitimadas como expressão da vontade de Deus ou de uma autoridade religiosa.

E aqui está uma das grandes questões: quem interpreta a vontade de Deus?

Porque Deus não assina decretos, não participa de eleições e não ocupa uma cadeira no Parlamento. Quem fala em nome de Deus são seres humanos. E seres humanos podem interpretar a fé de maneiras diferentes, de acordo com sua formação, seus interesses, suas convicções e, algumas vezes, até seus projetos de poder.

É preciso reconhecer que a participação de pessoas religiosas na política é legítima. Um cristão, um judeu, um muçulmano, alguém de religião de matriz africana ou de qualquer outra tradição tem o mesmo direito de participar da vida pública.

O problema começa quando alguém passa a dizer: “Eu tenho Deus do meu lado; portanto, quem discorda de mim está contra Deus.”

Nesse momento, a discussão política deixa de ser sobre propostas, políticas públicas e projetos para o país e passa a ser apresentada como uma disputa entre o bem e o mal, entre os escolhidos por Deus e os supostos inimigos de Deus.

A história mostra que isso pode ser extremamente perigoso.

Em diferentes lugares do mundo, grupos políticos e religiosos já justificaram perseguições, violência e até guerras em nome de uma suposta vontade divina. Não é a religião, por si só, que produz a violência. O perigo está quando a fé é transformada em instrumento de dominação e quando alguém se apresenta como dono exclusivo da verdade religiosa.

E no Brasil precisamos estar atentos.

Expressões como “Deus, Pátria e Família” podem representar, para muitas pessoas, valores sinceros. Não há nada de errado em defender Deus, a pátria ou a família. O problema surge quando essas palavras são utilizadas como uma espécie de selo de legitimidade política: como se determinado candidato ou grupo fosse o representante de Deus na Terra e, por consequência, seus adversários fossem inimigos da pátria, da família ou da própria fé.

Uma eleição não pode se transformar em uma guerra santa.

O Brasil é um Estado democrático e constitucionalmente laico. Isso significa que o Estado não pertence a uma religião. Pessoas religiosas têm plena liberdade para professar sua fé, participar da política e defender suas convicções. Mas o Estado deve garantir liberdade também para quem pensa diferente.

E esse cuidado é ainda mais importante quando observamos o crescimento da intolerância religiosa, inclusive contra religiões de matriz africana.

Se somos realmente uma sociedade que acredita na liberdade religiosa, precisamos defendê-la para todos — inclusive para aqueles cuja fé não compreendemos ou com a qual não concordamos.

Eu sou cristão e católico. E acredito que uma sociedade de maioria cristã deveria ser uma sociedade marcada pelo amor ao próximo, pela solidariedade, pelo respeito à dignidade humana e pela preocupação com os pequenos.

É isso que encontro no ensinamento de Cristo.

Mas existe uma contradição que precisa ser enfrentada: muitas vezes, aqueles que falam mais alto em nome de Deus acabam defendendo justamente os interesses dos mais poderosos, enquanto os pobres continuam sendo lembrados principalmente na hora de pedir o voto.

Não podemos aceitar que o cidadão pobre seja tratado apenas como eleitor, como número ou como instrumento de disputa política.

Se a fé cristã deve inspirar alguma coisa na vida pública, que seja o compromisso com a justiça, com os pobres, com os vulneráveis, com a verdade e com o bem comum.

Por isso, neste momento de disputa eleitoral, é preciso muito cuidado.

Não devemos ter medo de quem tem fé. Devemos ter cuidado é com quem transforma a própria interpretação da fé em instrumento absoluto de poder.

Político não é sacerdote. Sacerdote não é político. E nenhum candidato recebe de Deus um mandato para governar acima das instituições, das leis e da Constituição.

Democracia exige limites, respeito ao contraditório, liberdade religiosa, liberdade de consciência e instituições independentes.

Então, gente, o que fazer?

Pensar. Questionar. Estudar. Pesquisar. Ouvir opiniões diferentes. Desconfiar de quem promete soluções fáceis e, principalmente, de quem tenta transformar adversários políticos em inimigos de Deus.

Fé não deve impedir ninguém de pensar.

Ao contrário: uma fé madura pode caminhar lado a lado com a razão, com a ciência, com a democracia e com o respeito à diversidade.

Que cada brasileiro possa votar de acordo com sua consciência.

E que Deus, seja qual for a nossa maneira de compreender Deus, nos ajude a não entregar a ninguém o direito de falar em seu nome como se fosse dono da verdade.

Porque Deus não precisa de donos. E a democracia também não.