sábado, 24 de outubro de 2026

MEMÓRIA, HISTÓRIA E COMPROMISSO SOCIAL: UMA EXPERIÊNCIA QUE MARCOU MINHA VIDA ACADÊMICA

 

MEMÓRIA, HISTÓRIA E COMPROMISSO SOCIAL: UMA EXPERIÊNCIA QUE MARCOU MINHA VIDA ACADÊMICA



Por Pedro Claudio Rosa

Gosto de recordar e compartilhar experiências que marcaram minha trajetória, não apenas para evitar que caiam no esquecimento, mas também para preservar a memória de um tempo de aprendizado, descobertas e transformação pessoal.

Foi assim durante minha passagem pela Universidade Estadual de Goiás (UEG), então Campus de Iporá, onde cursei História. Um período muito produtivo, que ampliou meus horizontes, abriu minha mente para novas perspectivas e me permitiu compreender melhor as relações entre a história, a sociedade, a política e a religião.

Recordo com satisfação a elaboração e a apresentação do meu trabalho de conclusão de curso, uma pesquisa acadêmica que me proporcionou a oportunidade de aprofundar conhecimentos e investigar um tema que considero importante para a história regional: a Pastoral da Juventude e a militância política na Diocese de São Luís de Montes Belos, entre 1980 e 1990.

O trabalho foi apresentado à banca examinadora e aprovado com nota próxima de 100, resultado que representou uma conquista pessoal e acadêmica. Mais do que a avaliação, porém, guardo o valor da pesquisa, das leituras, das entrevistas e das reflexões que me ajudaram a compreender como a formação religiosa também pode contribuir para a consciência cidadã e a participação social.

Minha pesquisa procurou compreender como a Pastoral da Juventude, inspirada pelo Evangelho, pela opção preferencial pelos pobres e pelas reflexões da Teologia da Libertação, contribuiu para a formação humana, social e política de jovens na região Oeste de Goiás durante um período marcado pela redemocratização do Brasil.

Naquele contexto, a Igreja Católica vivenciava importantes mudanças, impulsionadas pelo Concílio Vaticano II e pelas conferências episcopais latino-americanas de Medellín e Puebla. Em diversas comunidades, a fé passou a ser vivenciada de maneira cada vez mais ligada à realidade concreta das pessoas, especialmente das populações pobres e marginalizadas.

Na Diocese de São Luís de Montes Belos, a organização dos grupos de jovens, a formação comunitária e a metodologia do ver, julgar, agir e avaliar ajudaram a aproximar a reflexão cristã dos desafios sociais. A experiência pastoral, para muitos jovens, tornou-se também um espaço de aprendizado sobre cidadania, participação comunitária e compromisso com a transformação da sociedade.

Ao ouvir pessoas que vivenciaram aquele período, pude perceber como essas experiências deixaram marcas em suas trajetórias. A formação recebida na Pastoral da Juventude contribuiu, em diferentes graus e de diferentes maneiras, para a atuação de antigos participantes em movimentos sociais, sindicatos, espaços comunitários, instituições públicas e partidos políticos.

Essa constatação reforçou uma das principais reflexões da pesquisa: a educação, a fé e a participação social podem caminhar juntas, sem que isso signifique transformar a religião em instrumento de um partido ou reduzir a experiência cristã a uma disputa ideológica.

A história nos ensina que as pessoas são formadas também pelas experiências coletivas de seu tempo. Por isso, recuperar a memória da Pastoral da Juventude é reconhecer a contribuição de homens e mulheres que, a partir de suas comunidades, procuraram compreender a realidade e encontrar caminhos para uma sociedade mais justa.

Hoje, ao recordar esse trabalho, percebo que a universidade não me ofereceu apenas conhecimentos acadêmicos. Ofereceu-me instrumentos para olhar a realidade com mais atenção, questionar explicações simplistas, valorizar a pesquisa e compreender que a história é construída por pessoas, grupos e movimentos que nem sempre recebem o devido reconhecimento.

Como jornalista e radialista, essa formação também dialoga com minha compreensão do papel da comunicação: informar exige responsabilidade, contextualização, respeito aos fatos e disposição para ouvir diferentes vozes. Conhecer a história ajuda a compreender o presente e a evitar que a memória coletiva seja reduzida ao esquecimento ou a versões incompletas dos acontecimentos.

Compartilho, portanto, parte desse trabalho não como uma celebração individual, mas como uma contribuição à memória histórica e social de nossa região. Que as novas gerações possam conhecer essas experiências, refletir sobre seus significados e reconhecer a importância da participação cidadã na construção da democracia.

Estudar História foi também aprender que o passado não está morto. Ele permanece nas experiências, nas escolhas e nos caminhos que continuamos construindo no presente.

Pedro Claudio Rosa
Jornalista e radialista — DRT-GO 1530
Graduado em História pela Universidade Estadual de Goiás (UEG), Campus de Iporá.