sexta-feira, 5 de junho de 2026

A fé que transforma

 

A fé que transforma

Por Pedro Claudio Rosa


Caros amigos de fé,

Manifestar a religiosidade é importante. Para nós, cristãos, especialmente os católicos, participar das celebrações, dos sacramentos e da vida comunitária não é apenas uma tradição, mas um compromisso assumido diante de Deus e da própria consciência.

Entretanto, entre estar presente e ser verdadeiramente participante existe uma distância que merece reflexão.

Posso estar na igreja com o corpo, mas ausente no espírito. Da mesma forma, alguém pode, por circunstâncias da vida, não estar fisicamente presente, mas demonstrar em suas atitudes diárias uma profunda vivência dos valores do Evangelho. Afinal, a fé não se mede apenas pela frequência aos cultos, mas pelos frutos que ela produz.

O próprio Cristo advertiu sobre isso ao condenar a hipocrisia dos fariseus, que exibiam práticas religiosas impecáveis, mas esqueciam da justiça, da misericórdia e do amor ao próximo.

Tenho muitos questionamentos, e posso até estar errado em alguns deles. Mas me pergunto se, às vezes, não damos importância excessiva ao que aparece. Fazemos o melhor para Deus: vestes bonitas, templos ornamentados, objetos sagrados valiosos. Tudo isso pode ter seu significado e sua beleza. Contudo, quando a forma se torna mais importante que o conteúdo, corre-se o risco de alimentar apenas o orgulho humano.

Quantas vezes aquilo que deveria aproximar-nos de Deus acaba fortalecendo o ego? Quantas vezes a prática religiosa é usada como símbolo de superioridade moral, como se quem participa dos ritos estivesse automaticamente acima do bem e do mal?

A filosofia ajuda a pensar essas questões.

Platão ensinava que o mundo sensível, aquilo que vemos e tocamos, é apenas uma sombra da verdadeira realidade, que está no campo das ideias e das virtudes. Em outras palavras, a aparência nunca deve substituir a essência.

Seu discípulo, Aristóteles afirmava que a virtude nasce do hábito. Não basta conhecer o bem; é preciso praticá-lo continuamente. A ética, para ele, não está no discurso, mas na ação.

Séculos depois, Santo Agostinho escreveu que "a medida do amor é amar sem medida". O verdadeiro encontro com Deus não se revela pela exibição pública da fé, mas pela capacidade de amar.

Já São Tomás de Aquino defendia que a fé e a razão caminham juntas. Uma religião sem reflexão pode cair no fanatismo; uma razão sem valores pode perder a humanidade.

Entre os pensadores contemporâneos, Marilena Chaui nos alerta para o perigo das aparências e das ideologias que mascaram a realidade. Muitas vezes, construímos imagens de nós mesmos para sermos admirados, quando deveríamos estar preocupados em sermos melhores.

Também vale recordar as palavras de Friedrich Nietzsche, um crítico severo da moral religiosa quando ela se torna mera formalidade. Sua provocação não era necessariamente contra Deus, mas contra a hipocrisia daqueles que usam a religião como instrumento de poder e superioridade.

Talvez a maior lição venha de Mahatma Gandhi, que dizia: "A melhor maneira de encontrar a si mesmo é perder-se no serviço aos outros."

No fim das contas, a fé verdadeira talvez seja menos visível do que imaginamos. Ela aparece no respeito ao diferente, na honestidade, na solidariedade silenciosa, no cuidado com quem sofre, na capacidade de perdoar e de reconhecer os próprios erros.

Frequentar a igreja é importante. Participar da comunidade é necessário. Mas a religião não pode ser um palco para a vaidade ou um certificado de superioridade moral.

Ninguém é melhor que o outro porque reza mais, canta mais alto ou ocupa um lugar de destaque no templo. A verdadeira grandeza espiritual talvez esteja justamente em quem serve sem aparecer.

Afinal, como ensinou Jesus, "pelos seus frutos os conhecereis".

Que a nossa fé não seja apenas vista, mas sentida. Que não seja apenas proclamada, mas vivida. E que, antes de apontarmos as falhas do próximo, tenhamos a coragem de examinar o próprio coração.

Iporá, 05 de junho de 2026