Quiçá aconteça um
milagre: entre cruzes e esperanças, um novo ano se anuncia
Por Pedro Cláudio – Jornalista, radialista, estudante de Teologia e História
Final de ano é tempo de
recomeços. É Natal, é virada de calendário, é esperança depositada num novo
ciclo que, talvez, seja mais justo que o anterior. Para muitos, o desejo é de
fartura, paz e prosperidade para si e para os seus. Para outros, é simplesmente
sobreviver. Cada qual carrega sua cruz, e nem todas pesam o mesmo, embora todas
exijam resistência.
No entanto, ao chegar o
fim de 2017, a sensação que paira é de que a tempestade ainda não passou — ou,
quem sabe, apenas começou. O cenário político foi marcado por escândalos
sucessivos, corrupção disseminada, reformas aprovadas a toque de caixa que penalizam
justamente os que mais precisam do Estado. A Previdência, reconfigurada para
excluir os frágeis; a nova legislação trabalhista, que fragiliza os direitos
conquistados com décadas de luta. Até o salário mínimo, em sua essência
protetiva, foi reduzido a uma cifra simbólica, insuficiente para garantir
dignidade.
No campo religioso, o que
se vê também causa espanto. A fé, que deveria consolar, ensinar e transformar,
muitas vezes se transforma em palco de vaidades e exploração. Líderes que
pregam uma coisa, mas vivem de outra forma. “Faça o que eu digo, mas não faça o
que eu faço.” E assim, muitos pastores se ocultam sob mantos de santidade para
manter seus impérios — não espirituais, mas financeiros.
Diante disso, a pergunta
se impõe: quem nos salvará? Um político que se dizia honesto, mas se corrompeu
no poder? Um empresário bem-sucedido que só deseja blindar os seus? Líderes
religiosos que confundem fé com comércio? Em meio à desesperança, reconheçamos:
há, sim, quem ainda luta com ética, fé e dignidade. Mas, como se diz, uma
andorinha só não faz verão.
2018 chega cercado de
incertezas, e talvez só uma revolução profunda — não necessariamente armada,
mas moral, ética e espiritual — possa nos tirar do lamaçal. Que revolução seria
essa? Francesa, russa, cubana? Ou uma silenciosa revolução de consciência, de
escolhas individuais e coletivas que alterem o curso da história?
É preciso sabedoria para
atravessar o mar de lama sem se sujar, como quem caminha sobre águas
turbulentas com os pés firmes na esperança e os olhos voltados ao bem comum. É
preciso carregar a cruz — não como fardo que nos abate, mas como resistência ao
sistema que exclui, oprime e desumaniza.
Como nos ensina o
Evangelho de Mateus (19,16-26), a salvação não está no acúmulo, mas no
desprendimento. Não está no templo luxuoso, mas na prática da justiça. Não está
na aparência da piedade, mas no amor ao próximo. Um jovem rico se entristeceu
ao ouvir que para seguir Jesus teria que repartir seus bens com os pobres. A
cruz do desapego foi demais para ele.
Talvez essa também seja a
cruz da humanidade hoje: a dificuldade de abrir mão dos privilégios em favor de
um bem maior. Como disse Jesus, “Aos homens isso é impossível, mas a Deus tudo
é possível.”
Se ninguém quiser ouvir,
que ao menos se leia. E se ninguém ler, que se grite. Porque, mesmo diante do
silêncio dos poderosos e da surdez dos templos, ainda há os que insistem na
esperança. E quiçá aconteça um milagre.