Pedro Claudio e sua história
Ao final de 2025, olho para trás e me permito
refletir.
Antes de tudo, constato algo simples e profundo: eu ainda estou aqui.

Ao final
de 2025, olho para trás e faço um exercício simples — e profundo. Constato que
ainda estou aqui. Pode parecer pouco, mas não é. Em tempos de tanta pressa,
tanto esquecimento e tanta substituição, permanecer é quase um ato de
resistência.
Cheguei à
Rádio Rio Claro de Iporá em abril de 1987. O rádio ainda era feito de botões,
discos, cartucheiras e vozes. Não havia internet, nem computador, nem essa
pressa elétrica que hoje nos atropela. A notícia chegava pelo telefone, pelo
rádio de ondas curtas, pelas fitas gravadas. O mundo era ouvido antes de ser
visto.
Iporá
também era outra. A cidade vivia seus próprios ciclos políticos, suas
instabilidades e reinvenções. Prefeitos iam e vinham, mandatos eram
interrompidos, intervenções aconteciam. O poder mudava de mãos, mas o rádio
permanecia. Sempre ali, testemunha silenciosa — e falante — do cotidiano.
Enquanto
isso, o mundo dava voltas rápidas. A União Soviética ainda existia e Mikhail
Gorbachev anunciava o fim de uma era. O Brasil se assustava com o Césio-137 em
Goiânia, respirava os últimos ares da ditadura, recuperava a liberdade de
imprensa, elegia Tancredo Neves, chorava sua morte e aprendia a conviver com a
democracia sob José Sarney. Em 1988, a Constituição nascia — e eu já estava no
rádio, contando tudo isso do jeito que dava.
Entrei na
emissora por meio de um concurso anunciado no ar. Pediam experiência, estudo,
segurança. Eu não tinha tudo isso, mas tinha vontade. Disputei a vaga com mais
de cem candidatos. Passei. Fiquei. Trabalhei meses sem carteira assinada, até
que em maio de 1988, aos 23 anos, me tornei oficialmente parte da casa. E nunca
mais saí.
Vi o
rádio mudar de roupa muitas vezes. Do vinil ao CD, do MiniDisc ao digital. Vi o
improviso virar técnica, a curiosidade virar método, a intuição virar
responsabilidade. Fiz de tudo um pouco: locução, reportagem, edição, pauta,
operação de áudio. Arrisquei até narrar futebol — erro prontamente corrigido
por um conselho sábio de um tio que hoje mora na saudade. O rádio também ensina
a reconhecer limites.
Com o
microfone na mão, acompanhei histórias duras e histórias humanas. Atentados,
crimes, tragédias, disputas políticas, quedas e ascensões. Estive em
Israelândia, Amorinópolis, Arenópolis, Piranhas, Jaupaci. Vi prefeitos
surgirem, caírem, se reinventarem. Vi cidades crescerem, sofrerem, resistirem.
Vi o Oeste goiano escrever sua própria história — e tentei narrá-la com o
cuidado de quem sabe que palavras ficam.
Nesse
caminho, vivi a vida. Namorei, casei, tive filhos. Fiquei viúvo — uma dor que
não se explica, apenas se carrega. Casei novamente. Duas mulheres marcaram
profundamente minha trajetória. Com elas, aprendi que a vida não pede permissão
para mudar de rumo.
Agora,
com a aposentadoria no horizonte, me pergunto quantas histórias contei e
quantas precisei guardar. Quantas vezes me calei por ética. Quantas vezes me
questionei se aquela notícia ajudaria alguém. Não sei quantas vezes acertei ou
errei. Sei apenas que continuei. Atualizado, atento, presente.
Por isso
sigo.
Com o rádio ligado.
Com a memória viva.
E com a certeza tranquila de quem pode dizer, sem medo: ainda estou aqui.

