A Lista de Schindler e a pergunta que
precisa ser feita a nós mesmos
Lendo a obra A Lista de Schindler e assistindo
ao filme, é impossível não olhar para a história e perguntar: como o ser
humano foi capaz de chegar a tamanha desumanidade?
O Holocausto nos causa indignação. A perseguição, a
discriminação, a separação entre pessoas, a ideia de que alguns seres humanos
seriam superiores a outros e, portanto, teriam o direito de decidir quem
deveria viver ou morrer.
Mas, depois de olhar para tudo isso, talvez seja
necessário fazer uma pergunta ainda mais difícil:
E eu? Como estou sendo como ser humano?
É muito fácil condenar os erros do passado. É fácil
olhar para a história e dizer: “Eu jamais faria uma coisa dessas”. Mas será que
não existem, em nosso cotidiano, pequenas atitudes de exclusão, preconceito,
julgamento e separação?
Será que, ao me declarar cristão, estou realmente
olhando para minhas próprias atitudes?
Será que, algumas vezes, não me coloco em uma posição
de superioridade diante de outras pessoas? Será que não faço uma divisão
silenciosa entre “os bons” e “os pecadores”? Entre aqueles que frequentam o
templo e aqueles que estão fora dele?
Será que não penso, mesmo sem perceber: “Ele é
pecador; eu sou diferente, porque frequento a igreja”?
E aqui está uma contradição que precisa nos fazer
pensar.
Qual é o sentido de frequentar um templo, participar
de uma comunidade religiosa, ouvir a Palavra de Deus, rezar, cantar, receber os
sacramentos e professar uma fé, se tudo isso não produz em nós um esforço
sincero para sermos pessoas melhores?
Não melhores do que os outros.
Melhores do que nós mesmos fomos ontem.
Talvez essa seja uma das grandes perguntas que a fé
deveria provocar em nossa vida.
Não se trata de construir uma aparência de santidade.
Não se trata de apontar o dedo para quem erra. Não se trata de criar muros
entre os que consideramos “certos” e os que consideramos “errados”.
Trata-se de olhar para dentro.
Porque também podemos separar pessoas com palavras.
Podemos afastá-las com nossos julgamentos. Podemos promover distanciamento
social com nossos preconceitos. Podemos transformar a religião em uma espécie
de fronteira: de um lado, os que consideramos dignos; do outro, aqueles que
julgamos indignos.
E talvez seja justamente aí que nossa fé esteja sendo
colocada à prova.
O cristianismo não deveria nos ensinar a olhar de cima
para baixo. Deveria nos ensinar a olhar para o outro como alguém que também é
filho de Deus.
Isso não significa concordar com tudo. Não significa
abandonar princípios, convicções ou valores. Significa não transformar nossas
convicções em instrumentos para humilhar, excluir ou desumanizar o outro.
A história nos mostra até onde a humanidade pode
chegar quando começa a retirar do outro sua dignidade.
Por isso, talvez a grande reflexão de A Lista de
Schindler não esteja apenas naquilo que aconteceu ontem.
Ela também está naquilo que fazemos hoje.
Como tratamos quem pensa diferente?
Como tratamos quem errou?
Como tratamos quem não frequenta nossa igreja?
Como tratamos o pobre, o dependente químico, o preso,
o imigrante, o adversário político, aquele que vive de maneira diferente da
nossa?
E, principalmente: como tratamos aqueles de quem
não precisamos de nada?
Talvez seja aí que descobrimos quem realmente somos.
A fé não deveria servir para nos colocar acima de
ninguém. Deveria nos colocar diante de Deus com humildade.
Não sou melhor que ninguém.
Também não sou pior.
Sou gente.
Tenho erros, tenho limitações, tenho contradições e
tenho muito a aprender.
Sou filho de Deus e estou tentando melhorar.
Quero aprender a ouvir mais. Julgar menos. Perdoar
mais. Amar mais. Reconhecer meus próprios erros. E, quando eu cair, ter
humildade para recomeçar.
Talvez a grande vitória da vida não seja convencer o
mundo de que somos santos.
Talvez seja permitir que Deus transforme,
silenciosamente, aquilo que ainda precisa ser transformado dentro de nós.
Deixar Deus agir.
Ouvir o sussurro do Espírito Santo.
E encontrar força para continuar a caminhada.
Porque, no final, a pergunta mais importante talvez
não seja:
“Eu sou melhor do que os outros?”
Mas:
“Hoje, eu estou sendo uma pessoa melhor do
que fui ontem?”
E talvez seja justamente nessa caminhada — imperfeita,
humana e sincera — que a nossa fé começa a fazer sentido.
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