sábado, 8 de agosto de 2026

O RÁDIO NA ATUALIDADE: ENTRE A CONCORRÊNCIA, OS DESAFIOS E A SOBREVIVÊNCIA

 

O RÁDIO NA ATUALIDADE: ENTRE A CONCORRÊNCIA, OS DESAFIOS E A SOBREVIVÊNCIA



Por Pedro Claudio.

Desde que nasci, o rádio faz parte da minha vida. Na infância, já o ouvia e tive a oportunidade de acompanhar aquilo que muitos chamam de “era de ouro” desse meio de comunicação. O tempo passou, a tecnologia avançou, a televisão ganhou espaço, depois vieram a internet, os portais de notícias, as redes sociais, os podcasts e tantas outras formas de comunicação. Mesmo assim, o rádio continua presente. Resiste, adapta-se e insiste em cumprir seu papel.

Mas qual é, afinal, o papel do rádio nos tempos atuais? E quais são os caminhos para sua sobrevivência diante de uma concorrência cada vez maior?

Na minha visão, algumas emissoras tradicionais ainda possuem um patrimônio que não se compra e não se transfere: a confiança do público. Essa confiança é construída ao longo de décadas, no contato diário com o ouvinte, na presença da emissora na comunidade, na capacidade de ouvir, questionar, informar e, muitas vezes, dar voz a quem não encontra espaço em outros lugares.

O rádio que pretende sobreviver não pode ser apenas um transmissor de música, publicidade ou informações prontas. Precisa ser um rádio vivo. Um rádio que interage, que pergunta, que escuta, que debate, que provoca e que também sabe reconhecer quando erra.

A história nos mostra que a participação dos ouvintes sempre foi uma das grandes forças desse veículo. Tornar a comunidade parte da pauta é fundamental. Debater os problemas da cidade, sem medo e sem preconceitos, buscar os fatos, confrontar versões, ouvir os envolvidos e tornar público aquilo que interessa à população é uma das maiores responsabilidades do rádio.

Em Iporá, por exemplo, lembro-me de uma época, especialmente na década de 1980, em que se discutia praticamente de tudo. Havia provocações, discordâncias, concordâncias e debates. A rádio participava da vida da cidade. Não era apenas um aparelho colocado em cima de uma mesa para transmitir uma programação. Era um espaço de convivência, discussão e manifestação da comunidade.

E talvez esteja aí uma das respostas para a sobrevivência do rádio: a capacidade de fazer parte da vida das pessoas.

Nossas rádios — digo “nossas” porque, embora tenham proprietários e sejam administradas por grupos ou instituições, também pertencem simbolicamente à comunidade que as ouve — têm uma história construída junto com a população.

Uma rádio verdadeiramente viva interage com outros veículos de comunicação, transmite, retransmite, repercute, discute e rediscute. Um fato pode nascer em uma entrevista, ganhar repercussão nas redes sociais, voltar para o rádio, provocar uma manifestação pública e, finalmente, transformar-se em atitude, decisão ou até em uma política pública.

Pode parecer pretensioso pensar dessa maneira, mas acredito que, em determinados momentos, a imprensa local influenciou e contribuiu para mudanças importantes. Ajudou a discutir leis, cobrou sua execução, questionou administrações públicas, defendeu interesses da comunidade e, em alguns casos, contribuiu para a manutenção de conquistas sociais.

Lembro-me, por exemplo, do saudoso juiz Benedito Silva e Souza. Ele fazia questão de valorizar a imprensa. Não dispensava o tratamento de “doutor”, mas também fazia questão de reconhecer a importância do jornalista e do repórter. Em determinado júri popular, chegou a solicitar a presença deste repórter nas proximidades dos serventuários para que tudo pudesse ser registrado. Para ele, a imprensa tinha importância institucional e social.

Ele costumava tratar a imprensa como o “quarto poder”.

É importante compreender o significado dessa expressão. Os chamados três poderes constituídos são o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. A imprensa, embora não seja formalmente um poder da República, recebeu historicamente a denominação de “quarto poder” justamente por sua capacidade de fiscalizar, informar, questionar e influenciar a opinião pública.

E isso tem relação direta com a democracia.

A palavra democracia vem do grego: demos, povo, e kratos, poder ou governo. Democracia, portanto, significa, em sua origem, poder do povo. E não existe democracia forte sem informação, sem liberdade de expressão e sem uma imprensa capaz de exercer sua função com responsabilidade.

Mas, ao pensar no rádio, sua relevância e sua importância, precisamos também fazer algumas perguntas incômodas.

Quem está por trás de uma rádio?

Geralmente existe um proprietário, uma empresa, uma instituição, uma coordenação ou um grupo responsável por sua administração. E esse grupo possui objetivos. É justamente aí que entra uma das questões mais importantes: qual é a linha editorial da emissora?

Tenho uma rádio apenas para faturar, obter retorno financeiro e recuperar o investimento?

Ou tenho uma rádio também para gerar conhecimento, informar, formar cidadãos, conscientizar, prestar serviço e oferecer entretenimento?

Não existe nada de errado em uma emissora buscar sustentabilidade financeira. Pelo contrário. Uma rádio precisa pagar funcionários, equipamentos, energia, manutenção, impostos e todos os custos necessários para continuar funcionando.

O problema aparece quando o interesse econômico passa a determinar completamente aquilo que pode ou não ser informado.

Também existem emissoras adquiridas ou administradas por pessoas com objetivos políticos. Nesse caso, existe o risco de a pauta ser construída para enaltecer determinado grupo, apresentar seus feitos, construir uma imagem positiva e, ao mesmo tempo, desmerecer adversários.

Há também situações em que interesses empresariais podem influenciar a pauta. Aquilo que atinge um anunciante importante pode deixar de ser abordado. Um problema que contraria determinado interesse econômico pode ser ignorado. E, assim, a informação passa a ser condicionada por relações que o ouvinte muitas vezes desconhece.

Existem ainda emissoras ligadas a grupos religiosos ou ideológicos. Isso também não significa, automaticamente, falta de credibilidade. Uma orientação religiosa pode estabelecer princípios éticos e valores importantes para a comunicação. Mas, novamente, tudo depende de quem está à frente, de como administra e de como compreende sua responsabilidade diante da sociedade.

Por isso, a linha editorial é tão importante.

No caso de uma rádio de inspiração cristã, por exemplo, é possível defender princípios cristãos sem transformar a emissora em instrumento de preferência partidária. É possível defender valores, dignidade humana, justiça, solidariedade e respeito sem escolher previamente quem merece ser elogiado ou criticado.

Essa é uma preocupação que considero fundamental a partir da minha própria experiência em uma equipe de pauta livre: ter liberdade para informar, questionar e investigar, sem ferir os princípios que orientam a instituição, mas também sem transformar o jornalismo em instrumento de partido ou de projeto político.

Outro aspecto que precisa ser lembrado é que uma emissora de rádio não funciona simplesmente como uma página pessoal de rede social.

A radiodifusão depende de concessão ou autorização pública, está sujeita à legislação e a obrigações específicas. As emissoras precisam cumprir regras, transmitir determinados conteúdos oficiais, reservar espaço para a propaganda eleitoral quando determinada pela legislação e atender a outras responsabilidades previstas para o serviço de radiodifusão.

Isso é importante porque a frequência utilizada pelo rádio é um bem público. A emissora recebe autorização para utilizá-la e, por isso, existe uma responsabilidade que vai além dos interesses particulares de seus proprietários.

Não significa que uma rádio não possa ter opinião. Significa que essa opinião deve conviver com a responsabilidade pública que acompanha a atividade de radiodifusão.

E talvez essa seja uma das grandes diferenças entre o rádio profissional e aquilo que hoje encontramos em boa parte das redes sociais.

Nas redes sociais, qualquer pessoa pode publicar uma informação verdadeira, uma opinião, uma mentira, uma manipulação ou uma acusação sem necessariamente assumir as mesmas responsabilidades de um veículo profissional de comunicação.

É uma espécie de território sem fronteiras, onde a velocidade muitas vezes vence a apuração.

Por isso, considero perigoso comparar simplesmente uma emissora de rádio ou televisão profissional com aquilo que circula nas redes sociais. O rádio possui uma estrutura, profissionais, responsáveis, legislação e, principalmente, uma história de relação com o público.

Isso não significa que o rádio seja infalível. Não é.

Jornalistas erram. Emissoras erram. Profissionais podem interpretar equivocadamente um fato. Mas existe uma diferença fundamental: o jornalismo profissional precisa ter responsabilidade pelo que publica.

O rádio do futuro, portanto, não será necessariamente aquele que tentar competir com as redes sociais na velocidade. Será aquele que souber oferecer aquilo que as redes muitas vezes não conseguem entregar: credibilidade, proximidade, contexto, apuração e responsabilidade.

O rádio precisa continuar ouvindo.

Precisa continuar perguntando.

Precisa continuar incomodando quando for necessário.

Precisa continuar dando voz à comunidade.

Precisa continuar fiscalizando o poder.

Precisa continuar reconhecendo seus próprios erros.

E, acima de tudo, precisa compreender que sua maior riqueza não está apenas nos equipamentos, na frequência, na audiência ou no faturamento publicitário.

Está na confiança construída ao longo do tempo.

Eu ainda acredito no rádio.

Acredito porque cresci ouvindo rádio. Acredito porque vi sua importância na vida das pessoas. Acredito porque testemunhei debates, discordâncias, denúncias, entrevistas, informações e histórias que ajudaram a construir a memória de uma comunidade.

E acredito que, enquanto houver uma população querendo saber, perguntar, participar e ser ouvida, haverá espaço para uma rádio que compreenda sua verdadeira missão.

Porque uma rádio pode ser apenas uma empresa.

Pode ser apenas um negócio.

Pode ser instrumento de interesses.

Mas também pode ser muito mais do que isso.

Pode ser uma instituição a serviço da comunidade, um espaço de democracia e uma voz permanente do cidadão.

E talvez seja justamente aí que esteja o caminho para sua sobrevivência.

Não competir para ser mais rápida que a internet.

Mas ser mais confiável.

Não tentar gritar mais alto que as redes sociais.

Mas saber falar com responsabilidade.

Não apenas transmitir.

Participar da vida da comunidade.

Esse, para mim, continua sendo o grande papel do rádio.

Por Pedro Claudio, vivendo a história construindo a história como você que teve paciência para ler esse texto até o fim.