sábado, 6 de dezembro de 2025

Como exercemos e sofremos a influência do poder na política brasileira

 

Análise jornalística – Polarização brasileira sob a lente da ciência política

O anúncio da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro reacendeu, nas redes sociais, um fenômeno que já se tornou marca da política brasileira contemporânea: a polarização estruturada em torno de dois polos carismáticos — o lulismo e o bolsonarismo. Os comentários coletados nas plataformas digitais, repletos de frustrações, ironias, receios e acusações, revelam não apenas uma disputa eleitoral, mas um processo mais profundo de construção simbólica do “nós contra eles”, conceito amplamente discutido por pensadores da ciência política e da filosofia política.

Polarização como método e como narrativa

A polarização não é apenas um efeito colateral das redes sociais; ela se consolidou como método político.  Pelo que tenho observado no Brasil, o campo político se organiza a partir da distinção entre amigo e inimigo. Na atualidade essa fronteira se expressa na dicotomia Lula/Bolsonaro que, como apontam os comentários analisados, deixou pouca margem para construção de alternativas.

A reação de parte da direita à escolha de Flávio Bolsonaro, vista como decisão personalista e dinástica — “coronelismo disfarçado”, como escreveu um internauta — evidencia uma crítica que transcende o episódio: a percepção de que ambos os polos dependem um do outro para manter viva a lógica de confronto, alimentando identidades políticas rígidas e bloqueando a emergência de projetos moderados e inovadores.

O voto aprisionado e o personalismo

Historicamente, o Brasil convive com estruturas políticas personalistas. Da “política dos governadores” ao coronelismo, das oligarquias regionais à formação dos grandes líderes carismáticos, a política brasileira tende a gravitar em torno de figuras, não de programas. A citação recorrente ao sobrenome Bolsonaro — e também ao de outros atores como Sarney ou Caiado — reforça essa crítica: a ideia de que famílias permanecem no topo do poder porque exploram capital político acumulado, não porque representam renovação.

Dentro desse quadro, a expectativa frustrada em torno do nome de Tarcísio de Freitas, visto por muitos como gestor técnico e possível ponte entre mercado, centro-direita e eleitores desencantados, simboliza o desejo por um “pós-polarização” que ainda não encontrou expressão competitiva.

Racionalidade enfraquecida e comportamento eleitoral

Do ponto de vista da ciência política comportamental, os comentários ilustram um fenômeno bem documentado: a decisão política baseada mais em afetos do que em racionalidade programática. A literatura de psicologia política — de autores como Jonathan Haidt e Drew Westen — demonstra que emoções como medo, indignação e ressentimento moldam preferências políticas com mais força do que propostas concretas.

Os relatos mostram exatamente isso: medo do retorno de Lula, decepção com o bolsonarismo, descrença na classe política e esperança quase messiânica em “um nome salvador”. O eleitorado, ao oscilar entre rejeição e fidelidade afetiva, acaba contribuindo para a manutenção das forças que critica — fenômeno conhecido como “voto negativo” ou voto contra o inimigo, mais do que a favor de um projeto.

O ciclo histórico da repetição



Filósofos como Nietzsche e historiadores como Hobsbawm observam que sociedades em crise tendem a repetir padrões políticos, mesmo sabendo de seus resultados. No Brasil, a recorrência de velhas lideranças e velhos conflitos sugere uma dificuldade coletiva de romper ciclos. A insistência em Lula e Bolsonaro, conforme apontam os internautas, não deriva apenas da força dessas lideranças, mas da ausência de investimento social e político em alternativas estruturadas.

Esse ciclo é reforçado pelas redes sociais, que amplificam indignações, confirmam vieses e reduzem a reflexão crítica. O espaço digital, que poderia diversificar o debate, termina por segmentá-lo e radicalizá-lo.

A necessidade de romper o padrão

Ao final, a crítica que emerge dos comentários — ainda que caótica, emocional e contraditória — converge para um ponto: a urgência de pensar e agir politicamente de forma diferente. A sociedade parece reconhecer, ainda que intuitivamente, que está presa em um jogo ideológico simplificado que confunde defesa de valores com manipulação emocional, e que substitui debate público por lealdades pessoais.

Se a democracia depende de pluralidade, alternância de poder, racionalidade pública e instituições fortes, a manutenção dessa polarização permanente enfraquece cada uma dessas bases. O desafio, portanto, não é apenas escolher novos nomes, mas reconstruir práticas políticas e cognitivas menos reativas e mais deliberativas.

Em um momento em que “tempos sombrios” e “penumbra política” são metáforas recorrentes nos comentários, a saída passa pela ampliação da consciência política, pela formação crítica do eleitor e pela capacidade de superar o personalismo que historicamente bloqueia a inovação no Brasil.

Pensar diferente e agir diferente, talvez seja o primeiro passo para romper um ciclo que já dura mais de uma década — e que tende a se aprofundar enquanto continuarmos olhando a política apenas pelo espelho das paixões e das rivalidades.

 

 




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