Nunca diga “dessa água não beberei”
Por Pedro Claudio Rosa
05 de agosto de 2025, às 19h15
“Dessa água não beberei.”
“O mundo dá muitas voltas.” “Aqui se faz, aqui se paga.” “Você só quer o nosso
reino, nada de ‘venha a nós’.” “Pagando língua, entojado você!”
Recolhi essas pérolas da
boca da minha saudosa mãe, dona Luzia. Mulher de fibra, que mesmo sem saber ler
ou escrever, dominava suas crias — e às vezes também a vara. Sabedoria não se
mede por diplomas; tem gente que nasce com ela enraizada no peito, e minha mãe
era dessas. Bastava uma palavra dela e a gente se ajeitava. E, se não fosse
pela palavra, era pela chinela voadora mesmo.
Quem tem mãe e pai sábios
ganha uma bússola moral. Aprende que é melhor ouvir mais e falar menos. Está
até na Bíblia, como diria um amigo meu que, depois de uma vida inteira guiado
por si mesmo, virou crente. Agora diz que se guia pelo Livro Sagrado — mas só
segundo o que ele mesmo entende, ou melhor, o que o “professor” dele
interpreta.
Aliás, entender a Bíblia…
isso sim é coisa complicada. Nem os doutores no assunto entram em consenso. Os
exegetas — esses estudiosos das Escrituras — vivem debatendo interpretações.
Mas quem leu a Bíblia no hebraico, aramaico ou grego sabe que cada palavra
carrega sentidos que se perdem nas traduções.
Tenho amigos que são
verdadeiras fontes vivas dessa sabedoria, como o Padre Dionivaldo Rosa Pires e
o teólogo Mariosan de Souza Marques. Mas também acredito que a sabedoria
popular é uma centelha divina. Gente simples, sem letras, mas com coração cheio
de justiça, paz, temor de Deus e compaixão — como Jesus ensinou.
Meu pai, José Cláudio, o
famoso Zé Faete, também gostava das palavras de impacto que aprendeu com meu
avô, Lafaiete Cláudio Rosa. Dizia: “Mil anos chegará, dois mil não chegará.”
Vai saber o que ele queria dizer com isso, mas soava forte, quase profético.
Lembro também das
histórias de São Cipriano, aquele que, diziam, tinha um livro capaz de prender
demônios. Na infância, eu acreditava com medo e fascínio. Hoje, acredito mais
na ciência e no estudo, mas também nessa sabedoria humana que vem do alto, e na
inteligência como presente divino.
A gente muda, mas nem
tanto. Ainda carrego comigo aquele tremor diante do desconhecido, mas agora ele
tem outro nome: consciência. Perdi a inocência, mas não o temor.
O mundo, esse mesmo mundo
que gira, ainda está cheio de ignorância. Tem gente que aponta o comunismo como
um fantasma sem nem saber o que é. Outros vivem aterrorizados com uma tal de
"Nova Era", que nem sei se é gente, doutrina ou meme — só sei que
falam com tanta certeza que até assusta quem tem um mínimo de senso.
Peço a Deus, em minhas
orações, não apenas que me mantenha firme, mas que me conceda a sabedoria dos
antigos. Que eu consiga ver o presente com as virtudes cardeais — prudência,
justiça, fortaleza e temperança — e com as teologais: fé, esperança e caridade.
E que, ao fim das contas,
eu possa beber da água certa. Mesmo que um dia eu tenha dito que não beberia.