sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Quando a emoção vence a razão

 

Quando a emoção vence a razão



Por Pedro Claudio

Estamos vivendo um dos períodos mais confusos da história política brasileira recente. Não apenas pela quantidade de denúncias, investigações e disputas de poder, mas, principalmente, pela dificuldade que estamos tendo de separar fatos de narrativas, convicções de interesses e, sobretudo, emoção de razão.

Um episódio revelado nesta semana chama a atenção. O ex-banqueiro Daniel Vorcaro afirmou, em uma proposta de delação premiada, que as doações de R$ 3 milhões para a campanha de Jair Bolsonaro e de R$ 2 milhões para a campanha de Tarcísio de Freitas, em 2022, teriam sido, na realidade, propina disfarçada de contribuição eleitoral. Segundo o relato, os recursos estariam relacionados a uma negociação envolvendo a manutenção do Credcesta, serviço de crédito consignado para servidores públicos.

É preciso fazer uma ressalva fundamental: a declaração de Vorcaro é uma acusação, não uma verdade judicialmente comprovada. Sua proposta de delação foi rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República por falta de fatos novos ou provas suficientes. Os citados também negam as acusações.

Mas o episódio levanta uma discussão que vai muito além de Vorcaro, Bolsonaro, Tarcísio ou qualquer outro personagem.

Para que alguém coloca milhões de reais em uma campanha eleitoral?

A resposta pode ser absolutamente legítima: acreditar em um projeto, defender uma determinada visão de país ou apoiar um candidato. E a legislação brasileira reconhece a possibilidade de doações de pessoas físicas, estabelecendo regras e limites. Para as eleições de 2026, por exemplo, o TSE mantém o limite de 10% dos rendimentos brutos do doador no ano anterior à eleição.

Portanto, doação eleitoral não é, por si só, propina.

O problema começa quando uma contribuição financeira deixa de ser uma manifestação legítima de apoio político e passa a funcionar como moeda de troca por uma vantagem futura. Aí estamos diante de algo completamente diferente: dinheiro privado buscando influência sobre decisões públicas.

E talvez seja exatamente aí que esteja uma das grandes doenças da política brasileira: a dificuldade de enxergar que, muitas vezes, quem financia o poder também espera alguma coisa dele.

Mas existe uma questão ainda mais profunda.

O discurso religioso e a prática

Tenho escrito sobre isso porque é algo que me incomoda profundamente como cidadão e como alguém que, durante tantos anos, conviveu diariamente com pessoas, ouvindo suas histórias, suas dores, suas esperanças e suas contradições.

Estamos vendo crescer uma política que utiliza a religião, especialmente o discurso cristão, como instrumento de mobilização.

Não há absolutamente nada de errado em um cristão participar da política. Pelo contrário. A fé também pode inspirar a defesa da justiça, da solidariedade, da honestidade e da dignidade humana.

O problema aparece quando a religião passa a ser utilizada apenas como ferramenta de convencimento, enquanto determinados comportamentos e propostas entram em contradição com os próprios valores que o discurso religioso afirma defender.

É preciso ter coragem para fazer uma pergunta simples:

Será que estamos comparando aquilo que nossos líderes políticos dizem com aquilo que efetivamente defendem e praticam?

Ou estamos apenas aplaudindo aquilo que confirma nossas crenças?

É aí que a emoção pode se tornar perigosa.

Um discurso inflamado, uma frase de efeito, uma passagem bíblica, uma história emocionante ou uma imagem cuidadosamente produzida nas redes sociais podem criar uma identificação tão forte que muitas pessoas deixam de fazer a pergunta mais importante da democracia:

“Isso que estão propondo é realmente bom para mim, para minha família e para o país?”

O paradoxo do pobre que vota contra seus próprios interesses

É uma das contradições que mais me intrigam.

O trabalhador que recebe um salário mínimo — hoje de R$ 1.621 — enfrenta o preço da comida, do aluguel, do transporte, da energia elétrica e dos medicamentos.

E, muitas vezes, esse mesmo trabalhador é convencido a concentrar sua preocupação política exclusivamente em determinadas pautas morais, enquanto questões que interferem diretamente na sua vida — educação, emprego, salário, saúde, aposentadoria, moradia e segurança — ficam em segundo plano.

Não estou dizendo que valores morais não sejam importantes. São.

Estou dizendo que uma sociedade não pode discutir apenas aquilo que provoca indignação emocional e esquecer aquilo que determina a qualidade de vida das pessoas.

Veja o caso da juventude.

Em junho deste ano, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou a admissibilidade de uma proposta que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. A proposta ainda precisa cumprir outras etapas de tramitação e, portanto, não virou lei.

Podemos discutir se um adolescente que comete um crime grave deve ou não responder de maneira diferente. É um debate legítimo.

Mas também deveríamos perguntar:

O que estamos oferecendo a esse jovem antes que ele entre para o crime?

Educação de qualidade?

Formação profissional?

Primeiro emprego?

Esporte?

Cultura?

Perspectiva de futuro?

Os números mostram que o problema é muito mais complexo. Segundo o IBGE, em 2024, entre os homens de 15 a 29 anos que abandonaram a escola antes de concluir o ensino médio, a principal razão apontada foi a necessidade de trabalhar.

E existe outro dado que deveria nos fazer pensar: em 2024, o Brasil tinha cerca de 1,65 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil. Entre os adolescentes de 16 e 17 anos, a proporção em situação de trabalho infantil chegou a 15,3%.

Então eu pergunto:

É mais fácil defender que um jovem de 16 anos seja punido como adulto ou construir uma sociedade que ofereça a ele educação, oportunidade e trabalho digno?

Talvez a segunda opção não produza aplausos imediatos.

Talvez não renda vídeos virais.

Talvez não provoque multidões emocionadas.

Mas pode produzir cidadãos.

E o cristianismo nisso tudo?

É aqui que a contradição se torna ainda maior.

Há cristãos que se mobilizam intensamente contra o aborto — uma posição que merece ser respeitada dentro do debate democrático — mas, ao mesmo tempo, defendem discursos de violência e até a ideia de que determinadas pessoas deveriam ter o direito de matar quem considera um inimigo.

Como conciliar essas duas coisas?

Como defender a vida em uma situação e relativizá-la em outra?

Como falar em amor ao próximo e transformar adversários políticos em inimigos?

Como defender a família e, ao mesmo tempo, aceitar a mentira, a corrupção, a intolerância ou a violência simplesmente porque quem pratica essas coisas está do “nosso lado”?

O próprio Evangelho deveria ser utilizado como régua para medir todos — inclusive aqueles de quem gostamos.

Não apenas os adversários.

Talvez este seja o nosso maior problema

Não é apenas a esquerda.

Não é apenas a direita.

Não é Bolsonaro.

Não é Lula.

Não é o Congresso.

Não é o Supremo.

Somos nós também.

Nós, cidadãos, temos responsabilidade quando aceitamos qualquer coisa de nosso grupo e condenamos a mesma coisa quando praticada pelo grupo adversário.

A corrupção do meu político vira “erro”.

A corrupção do adversário vira “crime”.

A mentira do meu candidato vira “estratégia”.

A mentira do outro vira “prova de caráter”.

A violência praticada pelo meu lado é “reação”.

A violência praticada pelo outro é “barbárie”.

Esse comportamento não é defesa da democracia.

É torcida organizada.

E democracia não pode ser torcida.

Democracia exige cidadãos capazes de dizer:

“Meu lado também pode estar errado.”

Talvez precisemos recuperar algo que parece estar desaparecendo: a capacidade de ouvir, desconfiar, conferir, comparar e pensar.

Antes de compartilhar, verificar.

Antes de aplaudir, perguntar.

Antes de condenar, conhecer.

Antes de votar, analisar.

E, principalmente, antes de dizer que alguém representa nossos valores, comparar o discurso dessa pessoa com aquilo que ela efetivamente defende.

Porque quando a emoção vence completamente a razão, deixamos de ser cidadãos críticos e passamos a ser seguidores.

E uma sociedade de seguidores é terreno fértil para qualquer tipo de líder — inclusive para aqueles que, depois de conquistarem o poder, descobrem que podem fazer quase tudo porque seus seguidores continuarão aplaudindo.

A política precisa de convicções, sim.

A religião precisa de fé, sim.

Mas uma democracia precisa, acima de tudo, de consciência.

E consciência exige uma coisa que parece cada vez mais rara:

pensar antes de aplaudir.

Tenho dito.