Quando a emoção vence a razão
Por Pedro Claudio
Estamos vivendo um dos períodos mais confusos da
história política brasileira recente. Não apenas pela quantidade de denúncias,
investigações e disputas de poder, mas, principalmente, pela dificuldade que
estamos tendo de separar fatos de narrativas, convicções de interesses e,
sobretudo, emoção de razão.
Um episódio revelado nesta semana chama a atenção. O
ex-banqueiro Daniel Vorcaro afirmou, em uma proposta de delação premiada, que
as doações de R$ 3 milhões para a campanha de Jair Bolsonaro e de R$ 2 milhões
para a campanha de Tarcísio de Freitas, em 2022, teriam sido, na realidade,
propina disfarçada de contribuição eleitoral. Segundo o relato, os recursos
estariam relacionados a uma negociação envolvendo a manutenção do Credcesta,
serviço de crédito consignado para servidores públicos.
É preciso fazer uma ressalva fundamental: a
declaração de Vorcaro é uma acusação, não uma verdade judicialmente comprovada.
Sua proposta de delação foi rejeitada pela Polícia Federal e pela
Procuradoria-Geral da República por falta de fatos novos ou provas suficientes.
Os citados também negam as acusações.
Mas o episódio levanta uma discussão que vai muito
além de Vorcaro, Bolsonaro, Tarcísio ou qualquer outro personagem.
Para que alguém coloca milhões de reais em
uma campanha eleitoral?
A resposta pode ser absolutamente legítima: acreditar
em um projeto, defender uma determinada visão de país ou apoiar um candidato. E
a legislação brasileira reconhece a possibilidade de doações de pessoas
físicas, estabelecendo regras e limites. Para as eleições de 2026, por exemplo,
o TSE mantém o limite de 10% dos rendimentos brutos do doador no ano anterior à
eleição.
Portanto, doação eleitoral não é, por si só,
propina.
O problema começa quando uma contribuição financeira
deixa de ser uma manifestação legítima de apoio político e passa a funcionar
como moeda de troca por uma vantagem futura. Aí estamos diante de algo
completamente diferente: dinheiro privado buscando influência sobre decisões
públicas.
E talvez seja exatamente aí que esteja uma das grandes
doenças da política brasileira: a dificuldade de enxergar que, muitas vezes,
quem financia o poder também espera alguma coisa dele.
Mas existe uma questão ainda mais profunda.
O discurso religioso e a prática
Tenho escrito sobre isso porque é algo que me incomoda
profundamente como cidadão e como alguém que, durante tantos anos, conviveu
diariamente com pessoas, ouvindo suas histórias, suas dores, suas esperanças e
suas contradições.
Estamos vendo crescer uma política que utiliza a
religião, especialmente o discurso cristão, como instrumento de mobilização.
Não há absolutamente nada de errado em um cristão
participar da política. Pelo contrário. A fé também pode inspirar a defesa da
justiça, da solidariedade, da honestidade e da dignidade humana.
O problema aparece quando a religião passa a ser
utilizada apenas como ferramenta de convencimento, enquanto determinados
comportamentos e propostas entram em contradição com os próprios valores que o
discurso religioso afirma defender.
É preciso ter coragem para fazer uma pergunta simples:
Será que estamos comparando aquilo que
nossos líderes políticos dizem com aquilo que efetivamente defendem e praticam?
Ou estamos apenas aplaudindo aquilo que confirma
nossas crenças?
É aí que a emoção pode se tornar perigosa.
Um discurso inflamado, uma frase de efeito, uma
passagem bíblica, uma história emocionante ou uma imagem cuidadosamente
produzida nas redes sociais podem criar uma identificação tão forte que muitas
pessoas deixam de fazer a pergunta mais importante da democracia:
“Isso que estão propondo é realmente bom
para mim, para minha família e para o país?”
O paradoxo do pobre que vota contra seus
próprios interesses
É uma das contradições que mais me intrigam.
O trabalhador que recebe um salário mínimo — hoje de
R$ 1.621 — enfrenta o preço da comida, do aluguel, do transporte, da energia
elétrica e dos medicamentos.
E, muitas vezes, esse mesmo trabalhador é convencido a
concentrar sua preocupação política exclusivamente em determinadas pautas
morais, enquanto questões que interferem diretamente na sua vida — educação,
emprego, salário, saúde, aposentadoria, moradia e segurança — ficam em segundo
plano.
Não estou dizendo que valores morais não sejam
importantes. São.
Estou dizendo que uma sociedade não pode discutir
apenas aquilo que provoca indignação emocional e esquecer aquilo que determina
a qualidade de vida das pessoas.
Veja o caso da juventude.
Em junho deste ano, a Comissão de Constituição e
Justiça da Câmara aprovou a admissibilidade de uma proposta que reduz a
maioridade penal de 18 para 16 anos. A proposta ainda precisa cumprir outras
etapas de tramitação e, portanto, não virou lei.
Podemos discutir se um adolescente que comete um crime
grave deve ou não responder de maneira diferente. É um debate legítimo.
Mas também deveríamos perguntar:
O que estamos oferecendo a esse jovem
antes que ele entre para o crime?
Educação de qualidade?
Formação profissional?
Primeiro emprego?
Esporte?
Cultura?
Perspectiva de futuro?
Os números mostram que o problema é muito mais
complexo. Segundo o IBGE, em 2024, entre os homens de 15 a 29 anos que
abandonaram a escola antes de concluir o ensino médio, a principal razão
apontada foi a necessidade de trabalhar.
E existe outro dado que deveria nos fazer pensar: em
2024, o Brasil tinha cerca de 1,65 milhão de crianças e adolescentes de 5 a
17 anos em situação de trabalho infantil. Entre os adolescentes de 16 e 17
anos, a proporção em situação de trabalho infantil chegou a 15,3%.
Então eu pergunto:
É mais fácil defender que um jovem de 16
anos seja punido como adulto ou construir uma sociedade que ofereça a ele
educação, oportunidade e trabalho digno?
Talvez a segunda opção não produza aplausos imediatos.
Talvez não renda vídeos virais.
Talvez não provoque multidões emocionadas.
Mas pode produzir cidadãos.
E o cristianismo nisso tudo?
É aqui que a contradição se torna ainda maior.
Há cristãos que se mobilizam intensamente contra o
aborto — uma posição que merece ser respeitada dentro do debate democrático —
mas, ao mesmo tempo, defendem discursos de violência e até a ideia de que
determinadas pessoas deveriam ter o direito de matar quem considera um inimigo.
Como conciliar essas duas coisas?
Como defender a vida em uma situação e relativizá-la
em outra?
Como falar em amor ao próximo e transformar
adversários políticos em inimigos?
Como defender a família e, ao mesmo tempo, aceitar a
mentira, a corrupção, a intolerância ou a violência simplesmente porque quem
pratica essas coisas está do “nosso lado”?
O próprio Evangelho deveria ser utilizado como régua
para medir todos — inclusive aqueles de quem gostamos.
Não apenas os adversários.
Talvez este seja o nosso maior problema
Não é apenas a esquerda.
Não é apenas a direita.
Não é Bolsonaro.
Não é Lula.
Não é o Congresso.
Não é o Supremo.
Somos nós também.
Nós, cidadãos, temos responsabilidade quando aceitamos
qualquer coisa de nosso grupo e condenamos a mesma coisa quando praticada pelo
grupo adversário.
A corrupção do meu político vira “erro”.
A corrupção do adversário vira “crime”.
A mentira do meu candidato vira “estratégia”.
A mentira do outro vira “prova de caráter”.
A violência praticada pelo meu lado é “reação”.
A violência praticada pelo outro é “barbárie”.
Esse comportamento não é defesa da democracia.
E democracia não pode ser torcida.
Democracia exige cidadãos capazes de dizer:
“Meu lado também pode estar errado.”
Talvez precisemos recuperar algo que parece estar
desaparecendo: a capacidade de ouvir, desconfiar, conferir, comparar e pensar.
Antes de compartilhar, verificar.
Antes de aplaudir, perguntar.
Antes de condenar, conhecer.
Antes de votar, analisar.
E, principalmente, antes de dizer que alguém
representa nossos valores, comparar o discurso dessa pessoa com aquilo que ela
efetivamente defende.
Porque quando a emoção vence completamente a razão,
deixamos de ser cidadãos críticos e passamos a ser seguidores.
E uma sociedade de seguidores é terreno fértil para
qualquer tipo de líder — inclusive para aqueles que, depois de conquistarem o
poder, descobrem que podem fazer quase tudo porque seus seguidores continuarão
aplaudindo.
A política precisa de convicções, sim.
A religião precisa de fé, sim.
Mas uma democracia precisa, acima de tudo,
de consciência.
E consciência exige uma coisa que parece cada vez mais
rara:
Tenho dito.