quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Memória Afetiva – um valor inestimável

 

Memória Afetiva – um valor inestimável


Por Pedro Claudio Rosa




Em nossa casa, em Iporá – Goiás, guardamos objetos que não são apenas utensílios, mas testemunhos vivos de uma história que atravessa o tempo. Aqui, tradições não moram no passado: respiram, cozinham, alimentam e permanecem. Eva Maria da Silveira, apaixonada pelas raízes da família e pela cozinha como espaço de afeto, mantém viva essa herança. Seu fazer culinário é mais que preparo — é ritual, memória ancestral em chama baixa, onde cada receita tem origem em alguém que amou antes de nós.

Entre tantas peças que atravessaram décadas, uma ganha voz própria:
a antiga panela de ferro de três pés, companheira fiel de fogões à lenha e manhãs cheirando a café quente. O fundo da peça revela um selo circular já quase apagado pelo tempo, talvez marcado 5 ou 50, com inscrições em arco desgastadas pela vida de uso constante. O ferro fundido bruto, ainda com sinais de oxidação, confirma sua idade e seu valor: não apenas um utensílio, mas um artefato de história.


Seu formato, redondo e apoiado em três pés, denuncia origem tradicional — modelo típico do interior de Minas Gerais, muito utilizado até meados dos anos 1940–1960. Naquele tempo, famílias encomendavam panelas diretamente de ferreiros e pequenas fundições regionais. Muitas traziam apenas um número indicando tamanho, sem marcas de grandes fabricantes. O detalhe no centro reforça essa possibilidade: peça de fundição artesanal mineira, nascida do fogo e da habilidade de mãos antigas.

Mas seu maior tesouro não está no metal. Está na linhagem que carrega.

A panela pertenceu à matriarca Luzia Joaquina Rosa, nascida em 1938, em Serrania – MG, filha de Florençia Maria de Jesus e José Urbano da Silva. Ela mesma relatava que sua mãe era descendente de escravizados, e seu pai, indígena — tomado do mato, como dizia, “pego no laço”. Dessa mistura de luta, resistência e raiz nasceu a família e, com ela, a tradição do alimento que cura e reúne.

Luzia herdou a panela de seus antepassados, e tudo indica que a peça é muito mais antiga que ela — possivelmente anterior a 1950, talvez com mais de um século de existência. Foi passando de mãos em mãos, de fogão em fogão, alimentando corpos, memórias e saudades.

Hoje, ainda em uso diário, ela pertence a Pedro Claudio Rosa e Eva Maria da Silveira. Não descansa em exposição: segue fervendo, cozinhando, perfumando a casa com o gosto da infância e com carinho de quem veio antes.

Porque memória é isso: não um objeto parado no tempo, mas um pedaço do passado que continua vivo — quente, útil, afetivo.

Uma panela que cozinha histórias.
E cada refeição é um reencontro.

Doces lembranças.

Ah, cometi ainda o sacrilégio de lavá-la por dias, retirando cuidadosamente o carvão que o tempo havia ali firmado. Quis descobrir sua origem, revelar o que havia por trás daquela superfície escurecida, mas logo percebi: não foi a melhor escolha. Cada camada de carvão impregnada no fundo guardava não apenas marcas, mas eras inteiras de história. Era memória sedimentada, testemunho silencioso de tantas mãos, tantas receitas, tantos momentos. Removi, sem querer, um pouco do passado que ela carregava.

 Por Pedro Claudio Iporá, 27 de novembro de 2025

VAIDADE: O GRANDE PROBLEMA DO SER HUMANO

 



VAIDADE: O GRANDE PROBLEMA DO SER HUMANO

Imagem ilustrativa

Por Pedro Claudio — 27 de novembro de 2025

A vaidade sempre rondou o coração humano. Infiltra-se silenciosa, disfarçada de zelo, vocação e desejo de servir; mas, quando olhamos com profundidade, percebemos que muitas vezes não buscamos servir — buscamos aparecer. A missão religiosa, que deveria ser oferta, torna-se palco. A Palavra, que deveria ser pão partilhado, transforma-se em instrumento de projeção pessoal. Se não estamos no púlpito, se não conduzimos a reflexão, se não somos ouvidos, tudo parece perder o sentido. E é nesse ponto que, sem perceber, deixamos de anunciar Cristo e passamos a anunciar a nós mesmos.

O coração vaidoso quer ser protagonista. Não suporta o anonimato, tem dificuldade em ser discípulo — prefere o trono ao banco da assembleia. Porém, o Evangelho recorda que o Reino de Deus não é lugar de disputa, mas de serviço. Jesus nos adverte:

"Quem quiser tornar-se grande entre vós, seja aquele que vos serve."
(Mc 10,43 — Bíblia CNBB)

A vaidade gera competição. Julgamos quem fala, disputamos o microfone, interrompemos para mostrar que sabemos mais, buscamos títulos — padre, diácono, ministro da Palavra, pastor — como quem busca coroa. Queremos ser senhores, não servos; mandar, não ouvir.
No entanto, o Evangelho apresenta outro caminho. O Senhor não chamou vencedores de disputas, mas homens e mulheres capazes de amar e servir.

O Eclesiastes nos alerta com sabedoria antiga e sempre atual:

"Vaidade das vaidades — diz o Eclesiastes — tudo é vaidade."
(Ecl 1,2 — Bíblia CNBB)

E São Paulo nos exorta a abandonar a lógica do orgulho:

"Nada façais por ambição ou vaidade, mas, com humildade, cada qual considere os outros superiores a si próprio."
(Fl 2,3 — Bíblia CNBB)

A humildade não é humilhação — é verdade. É reconhecer que não somos o centro — Deus é. É perceber que o que arrasta multidões não é o discurso inflamado, mas a vida coerente. O testemunho silencioso converte mais do que as palavras decoradas. Aprender a ouvir é tão divino quanto saber falar. E quem aprende ouvindo, ensina melhor quando fala.

À porta do Advento, tempo de espera e recolhimento, somos convidados a revisitar o coração. O Natal se aproxima — e Ele virá. Não em palácios, mas em uma manjedoura. O Deus que podia nascer em trono escolheu a palha. Ele nos convida a descer, não a subir.

"Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso para vossas vidas."
(Mt 11,29 — Bíblia CNBB)

Que este final de ano seja tempo de revisão interior. Voltemos o olhar ao início de 2025 e nos perguntemos com sinceridade:

— Servi mais ou apareci mais?
— Fui instrumento de paz ou de disputa?
— Busquei ser luz ou apenas ser visto?

Que o Advento nos reencontre pequenos, simples e disponíveis. Que deixemos de querer ser Deus para permitir que Deus seja Deus em nós. A humildade não é perder espaço — é ganhar sentido.

Que a graça nos encontre.
Que o orgulho se renda.
Que possamos aprender — e ensinar aprendendo.

Amém.

Por Pedro Claudio — 27 de novembro de 2025