A riqueza de uma frase que muitas vezes
passa despercebida na Liturgia das Horas
Por Pedro Claudio
Na Liturgia das Horas, especialmente nas Laudes,
há textos que repetimos diariamente e que, justamente pela frequência, correm o
risco de passar despercebidos. Dizemos as palavras, rezamos os salmos, seguimos
a oração e, às vezes, não paramos para perguntar o que aquela pequena
introdução realmente está querendo nos dizer.
Um desses textos aparece antes do Salmo 142 (143),
na numeração da liturgia cristã:
“Ninguém é justificado por observar a Lei
de Moisés, mas por crer em Jesus Cristo.”
(cf. Gl 2,16)
É uma frase pequena, mas carrega uma das questões
fundamentais da teologia de São Paulo: como o ser humano é justificado
diante de Deus?
E aqui vale a pena parar um pouco.
O que Paulo está dizendo? Que devemos ignorar a Lei de
Moisés? Que os Dez Mandamentos perderam seu valor? Que, depois de Cristo, cada
pessoa pode fazer o que quiser simplesmente porque acredita em Jesus?
Não é isso.
A frase precisa ser entendida dentro do contexto em
que Paulo escreveu e também dentro da compreensão cristã da relação entre a
antiga e a nova Aliança.
Afinal, o que é a Lei de Moisés?
Quando falamos em Lei de Moisés, estamos
falando principalmente da Torá, os cinco primeiros livros da Bíblia —
Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio — e do conjunto de mandamentos
e prescrições que estruturavam a vida religiosa, moral e comunitária de Israel.
Não se trata simplesmente de uma lista de regras.
A Lei fazia parte da Aliança de Deus com Israel.
Ela orientava a relação com Deus, a vida comunitária, a justiça, o culto, a
alimentação, a pureza ritual, o sábado, a circuncisão e muitas outras dimensões
da existência do povo judeu.
Dentro desse conjunto estão também os Dez
Mandamentos, que ocupam lugar fundamental na tradição bíblica e cristã.
O Catecismo da Igreja Católica explica que a Lei
antiga é o primeiro estágio da Lei revelada e que suas prescrições morais estão
resumidas no Decálogo. Para a Igreja, portanto, a Lei de Moisés não é algo
simplesmente descartável ou sem valor. Ela faz parte da história da salvação e
prepara para o Evangelho.
Então por que São Paulo diz que ninguém é
justificado pelas obras da Lei?
Aqui está o ponto que muitas vezes pode causar
confusão.
São Paulo está enfrentando uma questão muito concreta
das primeiras comunidades cristãs: é necessário assumir as práticas da Lei
judaica para pertencer plenamente ao povo de Deus e alcançar a salvação em
Cristo?
Paulo responde que não.
Em sua compreensão, a pessoa não se torna justa diante
de Deus simplesmente por cumprir exteriormente determinadas prescrições da Lei.
A justificação é dom da graça de Deus, recebida pela fé em Jesus Cristo.
Em uma catequese dedicada justamente a esse tema,
Bento XVI explicou que, para São Paulo, a palavra “Lei” (Torah) abrangia
a totalidade da Lei de Moisés e que o debate envolvia especialmente práticas
como circuncisão, normas alimentares, pureza ritual e observância do sábado.
Bento XVI também advertiu que isso não significa libertação da prática do
bem ou da ética.
Essa observação é importante.
Fé não significa ausência de
responsabilidade.
Não é: “Acredito em Jesus, portanto posso fazer
qualquer coisa.”
A fé cristã verdadeira conduz a uma vida transformada.
Jesus aboliu a Lei?
Também não.
O próprio Jesus, no Evangelho de Mateus, afirma que
não veio abolir a Lei e os Profetas, mas levá-los à plenitude.
É exatamente nessa direção que a Igreja Católica
compreende a relação entre a antiga e a nova Lei.
O Catecismo afirma que a Lei evangélica cumpre,
ultrapassa e leva à perfeição a Lei antiga. A novidade não está
simplesmente em trocar uma lista de regras por outra. Está na transformação do
coração.
A Lei antiga mostra o caminho.
Cristo leva esse caminho à sua plenitude.
E o Espírito Santo torna possível viver essa novidade.
Por isso o Catecismo chama a Nova Lei de lei de
amor, de graça e de liberdade.
A diferença está entre cumprir uma regra e
viver uma relação com Deus
Talvez aqui esteja uma das riquezas da pequena frase
que aparece antes do Salmo.
Uma pessoa pode cumprir uma regra exteriormente e,
ainda assim, permanecer distante de Deus.
Pode cumprir o ritual e não ter misericórdia.
Pode conhecer a norma e não amar o próximo.
Pode apresentar-se como religioso e manter o coração
fechado.
O cristianismo introduz uma mudança profunda: não
basta saber o que é certo; é necessário deixar-se transformar por dentro.
É justamente isso que encontramos no ensinamento de
Jesus.
O mandamento do amor a Deus e ao próximo não elimina a
dimensão moral da existência. Ao contrário: dá-lhe uma profundidade maior.
Não é apenas “não matar”.
É também aprender a respeitar a vida.
Não é apenas “não roubar”.
É também aprender a ser justo.
Não é apenas cumprir uma obrigação religiosa.
É permitir que a fé transforme a maneira como tratamos
as pessoas.
Por isso, a fé em Cristo não é uma espécie de
salvo-conduto contra a responsabilidade moral.
A fé que justifica é uma fé que produz
frutos.
A Lei mostra, mas a graça transforma
O Catecismo usa uma imagem muito bonita para explicar
a Lei antiga: ela funciona como um pedagogo. Mostra o caminho, denuncia
o pecado, orienta o ser humano e prepara para o Evangelho. Mas, por si mesma,
não comunica a força interior da graça para realizar plenamente aquilo que ela
ensina.
Aqui podemos compreender melhor São Paulo.
A questão não é simplesmente Lei contra fé.
É compreender que a salvação não é uma conquista
humana acumulada pelo cumprimento exterior de regras.
A salvação é graça.
E a graça recebida pela fé produz uma vida nova.
É por isso que São Paulo pode falar de fé e, ao mesmo
tempo, insistir na caridade.
A fé não elimina a prática do bem.
A fé verdadeira conduz ao amor.
E o Salmo 142?
É justamente interessante que essa frase seja colocada
como introdução ao Salmo 142 (143), uma “Prece na aflição”.
O salmista não se apresenta diante de Deus como alguém
que tem uma ficha perfeita e exige reconhecimento pelos seus méritos.
Ao contrário, ele clama por misericórdia.
É a oração de alguém que reconhece sua fragilidade e
coloca sua esperança em Deus.
Isso dá ainda mais sentido à frase que introduz o
salmo:
“Ninguém é justificado por observar a Lei
de Moisés, mas por crer em Jesus Cristo.”
É como se a liturgia nos lembrasse diariamente de algo
que facilmente esquecemos: não somos salvos porque somos perfeitos. Somos
chamados a viver da graça de Deus.
E isso vale também para quem exerce um ministério.
A Liturgia das Horas como escola diária
Talvez seja justamente por isso que a Liturgia das
Horas seja tão rica.
Para quem tem a obrigação canônica de rezá-la, como os
ministros ordenados, ela não deveria ser apenas mais uma obrigação a ser
cumprida.
E para os demais cristãos, a oração das Horas pode ser
uma preciosa fonte de espiritualidade.
As Laudes, especialmente, colocam o início do dia
diante de Deus.
Salmos, leituras, antífonas, preces e hinos vão
formando uma espécie de escola espiritual diária.
Mas é preciso tempo.
É preciso não apenas pronunciar as palavras.
É preciso, algumas vezes, parar.
Perguntar.
Pesquisar.
Voltar ao texto bíblico.
Conhecer seu contexto.
E perceber que uma frase que parece pequena pode
esconder séculos de reflexão teológica.
A Liturgia diária é muito mais rica do que
simplesmente rezar textos porque eles estão previstos no livro.
Ela pode fortalecer o ministro ordenado, o
missionário, o religioso, a religiosa e todo cristão que procura viver sua fé
no cotidiano.
Talvez uma das grandes riquezas da oração seja
justamente esta: ela nos faz parar para compreender aquilo que estamos
dizendo.
E, no caso dessa pequena frase antes do Salmo 142, a
pergunta continua atual:
Estou tentando conquistar Deus pelo
cumprimento exterior das regras ou estou permitindo que a fé em Cristo
transforme meu coração e minha maneira de viver?
Talvez seja uma boa pergunta para começar o dia.
Por Pedro Claudio
Reflexão sobre a Liturgia das Horas, a Lei de Moisés, a fé e a justificação
em São Paulo.
