O eleitor que aceita ser massa de manobra
Chega a temporada mais previsível da política brasileira. É o momento em que muitos candidatos vestem a fantasia de santo, de salvador da pátria, de herói incorruptível, enquanto pintam o adversário como a própria encarnação do mal. A política vira novela barata, com mocinhos e vilões cuidadosamente construídos por marqueteiros.
Nas novelas, o roteiro é fictício. O vilão manipula, mente, engana, e mesmo quando todos enxergam suas artimanhas, ele continua conquistando espaço porque a trama precisa de audiência. Na política, infelizmente, a história se repete. A diferença é que o enredo afeta a vida de milhões de pessoas.
Boa parte dos políticos conhece perfeitamente a fragilidade emocional do eleitorado. Sabem que a paixão política cega, ensurdece e emburrece. O sujeito deixa de analisar propostas, esquece o histórico dos candidatos e passa a agir como torcedor fanático. Não importa o que seu político faça; para ele, sempre haverá uma justificativa. Já o adversário, mesmo quando acerta, será tratado como inimigo.
É assustador perceber o quanto nos deixamos manipular. Um pretenso candidato cria uma crise, joga a responsabilidade no colo do outro e, com a maior cara de pau, faz um discurso moralista, quase sorrindo da ingenuidade dos seus seguidores. E eles aplaudem. Aplaudem porque não querem ouvir a verdade; querem apenas confirmar suas próprias crenças.
A paixão, quando entra na política, costuma expulsar a razão. Quem já se apaixonou sabe disso. Fazemos sacrifícios, ignoramos defeitos e defendemos o indefensável. O problema é que, na política, essa paixão destrói amizades, separa famílias e cria inimigos onde deveriam existir apenas opiniões diferentes.
Enquanto o povo se agride nas redes sociais e nas rodas de conversa, muitos daqueles que alimentam essa guerra dividem a mesma mesa, apertam as mesmas mãos e negociam os mesmos interesses. O cidadão comum vira soldado de uma batalha que não é sua.
Somos, muitas vezes, uma sociedade de memória curta e senso crítico atrofiado. Aceitamos discursos prontos, frases de efeito e falsas narrativas sem o mínimo esforço para questionar. Viramos massa de manobra voluntária, manipulados por quem domina a arte da propaganda e da divisão.
Nenhum político, de qualquer lado, merece que você destrua amizades, rompa laços familiares ou carregue ódio no coração. Ideias devem ser debatidas; pessoas não precisam ser inimigas.
O Brasil não precisa de torcidas organizadas da política. Precisa de cidadãos atentos, críticos e inteligentes. Eleitores capazes de desconfiar de promessas milagrosas, de discursos exageradamente moralistas e daqueles que sempre apontam o dedo para os outros, mas nunca assumem seus próprios erros.
Chegou a hora de deixar a paixão de lado e recuperar a lucidez. O Brasil merece ser tratado com seriedade. E o eleitor também.
Por Pedro Claudio
