sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Perdi a inocência: o que a campanha política de 2026 me ensinou


 

QUANDO A FÉ VIRA INSTRUMENTO DE CAMPANHA



Opinião — Por Pedro Claudio

Nessas eleições, muita coisa me chamou a atenção. Mais do que discursos, propostas ou disputas partidárias, chamou-me a atenção o comportamento humano diante da fé. E, particularmente, o uso do nome de Deus como instrumento para convencer o outro a aceitar determinada convicção política ou partidária.

Foi uma campanha que mostrou como a fé pode ser manipulada quando deixa de ser experiência espiritual e passa a ser utilizada como ferramenta de disputa pelo poder.

Vi religiosos — padres, pastores e outras lideranças — entrarem no debate político. Vi também pessoas sem religião e até ateus discutindo religião e tentando utilizar símbolos religiosos para reforçar suas posições. E isso deveria nos fazer pensar.

Deus apareceu em discursos políticos. A pátria apareceu. A família apareceu. O aborto apareceu. A defesa da chamada família tradicional apareceu. E, muitas vezes, tudo foi apresentado de maneira simplificada: “Fulano é a favor do aborto”; “determinado grupo é contra a família”; “quem apoia aquele partido está contra Deus”.

Mas desde quando a escolha política de uma pessoa pode ser transformada em julgamento sobre sua relação com Deus?

O problema se torna ainda maior quando alguém passa a utilizar o medo religioso.

Houve quem dissesse, por exemplo, que o eleitor deveria tomar cuidado com quem apoiava nas urnas porque poderia estar apoiando alguém ligado ao aborto — e que, nesse caso, “as portas do inferno estariam abertas”.

Isso não é uma simples opinião política. É a utilização de uma linguagem religiosa de condenação para interferir na consciência do eleitor.

E aqui está uma questão teológica fundamental: quem deu a uma liderança religiosa o poder de determinar o destino eterno de uma pessoa a partir do voto que ela deposita na urna?

O Evangelho não pode ser reduzido a cabo eleitoral.

Outro fenômeno que me chamou atenção foi a utilização de Nossa Senhora e de símbolos católicos por pessoas que, em outras circunstâncias, nem sequer demonstram vínculo com a fé católica. De repente, a imagem da Mãe de Jesus passou a aparecer no debate político como instrumento de convencimento.

Nossa Senhora, que para milhões de católicos representa uma referência de fé, humildade e serviço, não deveria ser transformada em moeda de troca eleitoral.

É preciso dizer isso com clareza: símbolos religiosos não são propriedade de partidos, candidatos ou grupos políticos.

E houve ainda uma confusão histórica que considero particularmente grave: a tentativa de estabelecer uma ligação direta entre o Estado de Israel contemporâneo e o Israel bíblico.

É preciso separar as coisas.

O Israel mencionado nas Escrituras pertence a uma realidade histórica, religiosa e teológica própria. O Estado de Israel moderno é uma realidade política contemporânea, criada em 1948, inserida em um conflito histórico envolvendo israelenses e palestinos.

Uma coisa não pode ser automaticamente utilizada para legitimar a outra.

Não se pode simplesmente afirmar que defender o Estado de Israel atual significa estar defendendo o “Israel da Bíblia”, como se todas as decisões de um governo contemporâneo fossem automaticamente aprovadas por Deus.

E muito menos transformar uma posição política sobre o conflito entre israelenses e palestinos em uma espécie de teste de fidelidade cristã.

A Bíblia não pode ser utilizada como um carimbo para legitimar qualquer governo.

Aliás, os próprios profetas bíblicos passaram boa parte de sua história denunciando reis, governantes e estruturas de poder. O Deus dos profetas não era propriedade do palácio. Era justamente aquele que cobrava justiça do palácio.

Talvez essa seja uma das grandes lições que precisamos recuperar.

Deus não precisa de cabo eleitoral.

Deus não precisa que um padre diga em quem devo votar.

Deus não precisa que um pastor transforme o púlpito em palanque.

E Deus certamente não precisa que alguém utilize o medo do inferno para controlar a consciência de outra pessoa.

Foi observando tudo isso que alguma coisa mudou dentro de mim.

Talvez eu tenha perdido uma certa inocência.

Durante muito tempo, talvez tenha imaginado que padres, pastores, bispos e outras lideranças religiosas fossem pessoas que, por sua formação ou posição, necessariamente saberiam mais sobre Deus e, por isso, seriam sempre referências seguras para orientar nossas escolhas.

Hoje penso diferente.

Lideranças religiosas são seres humanos.

Podem estudar muito. Podem possuir uma profunda experiência espiritual. Podem prestar um enorme serviço à sociedade. Mas também podem errar, exagerar, interpretar equivocadamente, misturar convicções pessoais com doutrina e, principalmente, deixar que suas preferências políticas contaminem sua atuação religiosa.

Padre não é Deus. Pastor não é Deus. Bispo não é Deus. Líder religioso não é Deus.

E nenhum deles deveria exigir obediência política como condição para uma pessoa ser considerada boa cristã.

Isso não significa desprezar a religião. Muito pelo contrário.

Significa levar a fé a sério.

Uma fé adulta não precisa ser conduzida pelo medo. Uma consciência cristã não deveria precisar de ameaça para fazer o bem.

Jesus não formou discípulos para serem massa de manobra. Formou pessoas capazes de discernir.

E talvez seja justamente essa a palavra que mais precisamos recuperar: discernimento.

Também quero fazer uma observação sobre a Igreja Católica e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB.

Não faço aqui proselitismo religioso. Tampouco pretendo transformar a CNBB em modelo absoluto de comportamento.

Mas, durante o período eleitoral, foi possível perceber uma diferença entre apresentar princípios da Doutrina Social da Igreja e fazer campanha explícita por candidatos ou partidos.

A tradição social católica possui posições construídas há décadas sobre dignidade humana, pobreza, trabalho, justiça social, defesa da vida, democracia, bem comum, cuidado com os pobres, direitos humanos e responsabilidade do Estado e da sociedade.

Apresentar esses princípios é uma coisa.

Dizer ao fiel em quem ele deve votar é outra.

E essa diferença precisa ser respeitada.

O cidadão tem direito à sua consciência. O eleitor tem direito ao seu discernimento. E a fé não deveria ser utilizada para sequestrar esse espaço de liberdade.

No fim das contas, talvez as eleições tenham deixado uma lição que vai muito além da política.

Precisamos aprender a desconfiar quando alguém coloca Deus ao lado do próprio candidato.

Precisamos ficar atentos quando alguém diz: “Deus está conosco” — como se Deus tivesse partido, número eleitoral e candidato.

Precisamos ter cuidado quando alguém tenta transformar adversário político em inimigo de Deus.

E precisamos ter ainda mais cuidado quando alguém ameaça o outro com o inferno simplesmente porque ele pensa diferente.

A fé pode iluminar a política.

Mas quando a política passa a manipular a fé, alguma coisa se perdeu no caminho.

Eu perdi um pouco da inocência.

E talvez isso não seja necessariamente ruim.

Hoje, quando escuto uma autoridade religiosa falar em nome de Deus, procuro ouvir com respeito, mas também com discernimento.

Porque aprendi uma coisa simples:

religiosos não são Deus.
Lideranças religiosas não são infalíveis.
Candidatos não são enviados por Deus.
Partidos não são igrejas.
E o voto de ninguém determina o lugar de sua alma no céu ou no inferno.

A fé é grande demais para caber em uma urna eletrônica.

E Deus é grande demais para ser transformado em instrumento de campanha.

Opinião — Pedro Claudio