Venezuela, Estados Unidos e o dilema do “mal necessário”
Por Pedro Claudio
Não é um assunto que esteja diretamente ligado à minha área de competência técnica. Ainda assim, como simples cidadão que vive em um país democrático — onde a liberdade de expressão é assegurada, desde que exercida com responsabilidade — sinto-me no direito de opinar, ou, como se diz popularmente, “dar meu pitaco”, a exemplo de milhões de pessoas que acompanham os acontecimentos internacionais.O caso envolvendo Venezuela e Estados Unidos é complexo e cercado de versões, interesses e narrativas. A opinião que formo é construída a partir das informações a que tenho acesso: imprensa, análises de especialistas, redes sociais e comentários de terceiros. Trata-se, portanto, de uma visão leiga, mas nem por isso descompromissada com a realidade.
Diante desse conjunto de informações, a impressão que tenho é de que se realizou ali aquilo que muitos chamariam de um “mal necessário”. Alguém que tinha poder, capacidade e influência acabou agindo. Donald Trump agiu. Pelo que tudo indica, não consultou formalmente o Congresso norte-americano, mas certamente ouviu assessores próximos — e, como é de seu perfil, deixou que seu ego também tivesse peso na decisão.
As intenções por trás dessa ação são motivo de intenso debate. Teria sido uma tentativa de fazer justiça humanitária contra um regime acusado de se apoderar do poder e massacrar parte de sua população? Uma estratégia para conter o fluxo de entorpecentes em direção aos Estados Unidos? Uma demonstração de força geopolítica para deixar claro que nenhuma liderança deve contestar sua autoridade? Ou ainda um movimento calculado de olho nas riquezas naturais da Venezuela, país que concentra cerca de 17% das reservas de petróleo do planeta?
Fato é que Donald Trump foi ousado, petulante e, como poucos líderes contemporâneos, imprevisível. Nesse aspecto, guarda semelhanças com Vladimir Putin, que bombardeia a Ucrânia na tentativa de retomar territórios que considera seus. São líderes que agem à margem do consenso internacional quando acreditam que seus interesses estratégicos estão em jogo.
O grande problema, no entanto, são os efeitos colaterais dessas ações. Como reagirão Rússia, China e a União Europeia? Quais serão os desdobramentos diplomáticos, econômicos e militares? E onde entram os países da América Latina nesse tabuleiro?
A realidade é dura: por mais que a maioria dos países latino-americanos condene determinadas ações, sua influência prática é limitada. Em alguns casos, a reação pode até resultar em prejuízos econômicos, ao se indispor com uma potência global. Ainda assim, o ideal — e o desejável — é que não assumamos uma postura submissa, de “cão vira-lata” ou de mentalidade colonial. Não devemos aceitar o papel de quintal de nenhuma grande potência.
Ao mesmo tempo, é preciso cautela. “Ir devagar com o andor, porque o santo é de barro.” Não considero correto explorar ideologicamente essa situação para atacar adversários políticos internos ou para atiçar ainda mais a fogueira. Divergências políticas não devem servir de combustível para radicalizações irresponsáveis no cenário internacional.
Apesar de todas as ressalvas, continuo acreditando que alguma ação precisava ser tomada. Não é aceitável normalizar a tomada do poder pela força, a perpetuação de ditaduras e a supressão da vontade popular. A democracia — o poder do povo — deve ser um valor preponderante, inclusive quando se trata da “casa dos outros”.
Esse é um debate difícil, cheio de contradições e zonas cinzentas. Não há soluções simples. Mas silenciar diante de regimes autoritários também não parece ser uma opção justa ou sustentável.
