terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Convertei-vos e crede no Evangelho

 

“Convertei-vos e crede no Evangelho”

Por Pedro Claudio, uma contribuição pensada para a quaresma.


A frase proclamada sobre cada fiel no rito das cinzas — “Convertei-vos e crede no Evangelho” — não é apenas uma fórmula litúrgica repetida ano após ano. Ela é um chamado profundo, existencial e permanente. Marca o início do tempo quaresmal, quarenta dias que remetem diretamente à experiência de Jesus no deserto, onde, após o jejum, enfrentou as tentações e reafirmou sua fidelidade absoluta ao Pai (cf. Mt 4,1-11; Mc 1,12-13; Lc 4,1-13). A Quaresma, portanto, não é um intervalo simbólico, mas um caminho espiritual que a Igreja propõe a cada batizado.

Em alguns ambientes cristãos, o termo conversão é compreendido como mudança de filiação religiosa: sair de uma denominação para aderir a outra. Do ponto de vista católico, porém, a conversão tem um significado muito mais profundo e exigente. Não se trata, primariamente, de mudar de grupo, mas de mudar o coração.

O Catecismo da Igreja Católica ensina que a conversão é uma obra contínua, interior e comunitária:

“A conversão é, antes de tudo, obra da graça de Deus que faz voltar a Ele os nossos corações” (CIC, n. 1432).

Ela implica arrependimento sincero, mudança de mentalidade (metanoia) e decisão concreta de viver segundo o Evangelho. Jesus inicia sua pregação exatamente com esse chamado: “O tempo se cumpriu, e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho (Mc 1,15). Crer no Evangelho não é apenas aceitá-lo intelectualmente, mas deixar que ele molde atitudes, escolhas e relações.

A Igreja, fiel à tradição bíblica, propõe a Quaresma como um tempo privilegiado de jejum, abstinência e oração, sempre unidos à caridade. Esses três pilares aparecem claramente no ensinamento de Jesus no Sermão da Montanha (cf. Mt 6,1-18), onde Ele alerta que tais práticas não devem ser feitas para aparecer, mas como expressão sincera de conversão interior.

O Código de Direito Canônico estabelece normas concretas para ajudar os fiéis nesse caminho:

  • O cânon 1249 recorda que todos os fiéis são chamados à penitência;
  • O cânon 1251 determina a abstinência de carne às sextas-feiras e, de modo particular, na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa;
  • O cânon 1252 define quem está obrigado ao jejum e à abstinência.

Essas práticas, porém, não são um fim em si mesmas. O próprio Catecismo adverte que a penitência exterior deve estar unida à conversão do coração (cf. CIC, n. 1430). Por isso, muitos pastores insistem corretamente: jejuar de carne, de alimentos ou de costumes só tem sentido se vier acompanhado de gestos concretos de misericórdia, justiça e amor ao próximo.

Receber as cinzas é um gesto forte e profundamente bíblico. Ao ouvir “Tu és pó e ao pó voltarás” (cf. Gn 3,19), o fiel reconhece sua fragilidade, a transitoriedade da vida e a vaidade de toda pretensão de autossuficiência. Tudo passa, tudo se dissolve. No entanto, esse gesto não conduz ao desespero, mas à verdade: só Deus permanece.

As cinzas têm sentido quando provocam uma revisão sincera de vida. Elas não são um rito mágico nem um sinal de status religioso. São um apelo silencioso à conversão: olhar para si, reconhecer limites, pecados e incoerências, e decidir caminhar de modo novo. Conversão, nesse sentido, é retomar o caminho traçado por Jesus.

Os quatro Evangelhos oferecem o conteúdo e o critério dessa caminhada. Jesus ensina o amor radical (cf. Jo 13,34), o perdão sem medidas (cf. Mt 18,22), a misericórdia como rosto do Pai (cf. Lc 15), a verdade que liberta (cf. Jo 8,32) e a atenção preferencial aos pobres, doentes e excluídos (cf. Mt 25,31-46).

Não faltam ensinamentos. Falta, muitas vezes, acolhê-los com o coração e traduzi-los em vida. Isso vale para todos na Igreja: do Papa aos bispos, dos padres e diáconos aos religiosos e leigos. A conversão não é privilégio de alguns nem exigência apenas para “quem está afastado”. É tarefa permanente de todo cristão.

A consciência amadurecida entre os leigos engajados aponta para uma verdade essencial: não basta frequentar o templo, assistir à missa ou cumprir preceitos externos. A fé exige compromisso. O Catecismo é claro ao afirmar que a conversão se manifesta em obras, gestos e decisões concretas (cf. CIC, n. 1434).

Abster-se de carne, jejuar, participar das celebrações quaresmais — tudo isso é valioso quando se transforma em atitudes novas: mais paciência, mais solidariedade, mais justiça, mais cuidado com o outro. Sem isso, o rito perde sua força transformadora.

 “Convertei-vos e crede no Evangelho” não é um convite para agradar aos outros, à sociedade ou mesmo para “parecer religioso”. É um chamado para ser maior diante de si mesmo e, sobretudo, diante de Deus. Não para se exaltar, mas para se tornar melhor; não para julgar, mas para ajudar o próximo a também ser melhor.

As tentações continuam a rondar a vida humana, como rondaram a de Jesus. Por isso, a Quaresma nos lembra: não esmorecer, não ceder, não desistir. Caminhar quarenta dias é aprender a caminhar sempre, sustentados pela Palavra, pela graça e pela esperança de que a conversão, ainda que difícil, é sempre possível.

Esse é o verdadeiro sentido das cinzas, do jejum e da oração: um caminho de transformação à luz do Evangelho, que conduz da fragilidade à vida nova.

 Pedro Claudio