domingo, 19 de abril de 2026

Da ruptura ao recomeço: minha vida, minha essência

 

Da ruptura ao recomeço: minha vida, minha essência


É muito interessante pensar a vida: como ela é dinâmica, como pode mudar de uma hora para outra — ou não. Tudo é incerto. De repente, independentemente da nossa vontade, tudo muda.

Cito o meu caso.

Eu levava uma vida considerada normal: pai de família, dois filhos já formados, 29 anos de vida matrimonial produtiva, uma convivência conjugal e religiosa intensa. Exercia minha missão como diácono permanente na Igreja Católica, em Iporá, Goiás, com uma rotina de celebrações e reuniões. Minha esposa trabalhava, e a vida seguia com boas perspectivas de futuro. Eu, aos 55 anos, acreditava na continuidade daquele caminho.

E então, o pior aconteceu.

Minha esposa, tomada por uma atitude extrema contra a própria vida, decidiu pelo autoextermínio. Um turbilhão tomou conta de mim. Eu não estava preparado para aquilo.

Naquele dia, após uma Celebração da Palavra na comunidade Jardim Monte Alto, às 18h, na periferia de Iporá, eu me dirigia para uma segunda celebração, às 19h, na Comunidade Nossa Senhora Aparecida, no Setor Carajás. No intervalo, senti a necessidade de voltar para casa.

Foi ali que me deparei com a catástrofe.

Minha companheira de mais de 30 anos havia atentado contra a própria vida. Ainda conseguiu expressar o desejo de morrer — foram suas últimas palavras compreensíveis. Após ingerir soda cáustica, já não conseguia mais falar, apenas balbuciava. Cancelei meus compromissos e acionei imediatamente o atendimento médico. O SAMU chegou rápido. Eram por volta das 19h30 do dia 20 de janeiro de 2020.

Ali, minha vida mudou para sempre.

No hospital, com a chegada de familiares, amigos e do padre Pablo, que lhe ministrou a confissão, vivemos momentos de angústia e esperança. Acreditávamos que poderia sobreviver, ainda que com sequelas. Mas, por volta das 3h da madrugada, veio a notícia mais dolorosa: o falecimento.

A partir daí, não houve mais calmaria.

Consegui manter certa serenidade sustentado por Deus e pela presença de pessoas próximas: familiares, colegas, membros da comunidade católica, além do apoio de psicólogos e médicos. Cada um trouxe uma palavra, uma orientação, um consolo.

Mas, ainda assim, era preciso seguir.

Precisei me ressignificar. Mudar. Recomeçar — já às portas da maturidade, mas ainda com energia para viver.

E então veio a pergunta inevitável: o que fazer?

O caminhar é solitário. Toda decisão é subjetiva. Diante de mim, surgiram três possibilidades, apresentadas pelo padre passionista Célio Amaro, que me acompanhava: permanecer sozinho; seguir o sacerdócio; ou pedir dispensa e reconstruir a vida ao lado de outra pessoa.

Naquele momento, compreendi que a decisão era exclusivamente minha.

Coloquei-me no altar do Senhor, pedindo que Ele conduzisse meu caminho, pois minha vontade estava fragilizada por sentimentos, orgulho e vaidade.

Com o tempo, vieram influências externas, contatos, redes sociais. Após o período mais intenso do luto, surgiram experiências, tentativas, instabilidades emocionais. A solidão se impunha. Amigos e até a família seguiram seus caminhos — algo natural da vida.

E foi nesse processo que novas possibilidades surgiram.

Até que, acredito, Deus colocou em meu caminho Eva Maria da Silveira Borges, também viúva, igualmente em busca de reconstrução.

Segui, então, com transparência. Comuniquei minha decisão aos superiores — padres e bispo —, depois à comunidade. Afastei-me das atividades pastorais, pois minha nova condição não era compatível com as normas da Igreja, conforme o Código de Direito Canônico.

Por decisão pessoal, suspendi minhas funções. Posteriormente, essa condição foi formalizada e permanece até hoje.

Mas minha missão não terminou.

Ela continua — e continuará enquanto eu viver.

Hoje, vivo em constante ressignificação. A cada atitude, a cada escolha.

A normalidade de antes não existe mais. E talvez nunca mais exista.

Minha oração é para que, mesmo em meio às inquietações, eu seja coerente, firme e fiel à missão de cuidar, amar e viver enquanto houver fôlego.

Tenho consciência de que não estou livre de novas mudanças. A vida é assim. Perdi a inocência de acreditar que tudo seria permanente. Hoje entendo: tudo dura enquanto precisa durar — e deve ser vivido com intensidade.

Vivemos para nós e para os outros. A vida é comunitária.


Depois de atravessar uma ruptura dessa magnitude, pensar a vida deixa de ser teoria e passa a ser sobrevivência.

A existência, que antes parecia estável, revela sua verdadeira natureza: a impermanência.

Não é apenas a perda de alguém. É a ruptura de identidade. Um “eu” que deixa de existir como era. E, diante disso, surge o vazio — e o vazio exige decisão.

E decidir é um ato solitário.

Mesmo com apoio, ninguém pode escolher por nós. Essa solidão não é abandono — é condição humana. É nela que se constrói um novo sentido.

As possibilidades que tive não eram apenas caminhos práticos, mas formas de existir:
permanecer na ausência, aprofundar a fé no sacerdócio ou reconstruir a vida afetiva.

A escolha foi, acima de tudo, existencial.

Colocar essa decisão nas mãos de Deus foi também uma forma de organizar o caos interior, dar sentido ao que parecia incompreensível.

O luto não é linear. Ele passa por instabilidade, busca, tentativas. Não há pureza nesse processo — há humanidade.

O reencontro com o afeto não substitui o passado. Ele reconfigura o presente.

E assim, a vida ensina:

Não há garantias.
A identidade não é fixa.
O controle é limitado.
O sentido precisa ser reconstruído constantemente.

A maturidade não está em superar a dor, mas em integrá-la à própria história.

A antiga ideia de normalidade desaparece. Em seu lugar, surge uma vida mais consciente, mais real, mais comprometida com o essencial.

Viver passa a ser um ato diário de escolha.

No fim, permanece uma verdade simples: viver é aceitar o inacabado.

E continuar, apesar de tudo, já é um ato de fé.


Sou eu, Pedro Claudio, contando minha história — juntando cacos e construindo uma nova vida.
Iporá, Goiás.
No rádio, meu local de trabalho desde abril de 1987.
19 de abril de 2026.