Quando a democracia vira um campo de
batalha
Por Pedro Claudio
Tempo de campanha política. Infelizmente, um dos
períodos de maior desafio para a democracia.
É justamente quando deveríamos estar discutindo
projetos, propostas e o futuro da sociedade que aparecem, com preocupante
naturalidade, discursos que relativizam a liberdade, defendem a concentração de
poder e até flertam com ideias autoritárias, com a ditadura e, em casos
extremos, com o próprio nazismo.
E há algo ainda mais preocupante: a naturalização da
ideia de que o mais forte deve se sobrepor ao mais fraco.
Como se quem possui mais dinheiro tivesse, por isso,
mais direitos. Como se o poder econômico desse ao patrão o direito de impor sua
vontade ao trabalhador. Como se as relações de trabalho pudessem ser resolvidas
exclusivamente pela negociação individual, sem regras, sem proteção social e
sem a presença reguladora do Estado.
Até o salário mínimo, uma conquista histórica de
proteção ao trabalhador, passa a ser apresentado por alguns como algo que
deveria simplesmente ser "negociado" entre patrão e empregado.
Mas negociação entre desiguais nem sempre significa
liberdade. Quando um lado tem o capital, o poder de contratação e a
possibilidade de dizer "aceite ou procure outro emprego", enquanto o
outro precisa trabalhar para sobreviver, a relação de forças não é exatamente a
mesma.
E, em época de eleição, vemos também outra cena
conhecida: candidatos fazendo dancinhas, abraçando crianças, comendo pastel,
apertando mãos e tentando demonstrar uma proximidade com o povo que, muitas
vezes, desaparece depois que termina a campanha.
O cidadão simples vira personagem durante alguns
meses. Depois, volta a ser apenas eleitor — quando não é esquecido.
Por isso, este é um momento que exige atenção.
Democracia não pode ser transformada em um simples
"salve-se quem puder". Porque, quando cada um passa a cuidar apenas
de si e os mais fortes ficam livres para impor sua vontade, quem normalmente
paga a conta é justamente a maioria que tem menos poder econômico, político e
social.
A história já nos mostrou isso.
Antes da Revolução Francesa, a sociedade europeia
estava organizada em uma estrutura de ordens e privilégios. No chamado Antigo
Regime, o clero e a nobreza ocupavam posições privilegiadas, enquanto o chamado
Terceiro Estado reunia a grande maioria da população, incluindo burgueses,
trabalhadores, camponeses e outros grupos que sustentavam grande parte dos
encargos da sociedade.
Era uma sociedade profundamente desigual.
E talvez devêssemos prestar atenção quando algumas
ideias contemporâneas começam a tratar desigualdade como algo natural, pobreza
como culpa individual e direitos sociais como privilégios.
O mais curioso — e preocupante — é que quem questiona
essa lógica muitas vezes é imediatamente chamado de "comunista".
Defender salário digno, direitos trabalhistas, saúde
pública, educação, igualdade perante a lei e proteção para quem está em
situação de vulnerabilidade não deveria ser uma questão de esquerda ou direita.
São questões de cidadania e de dignidade humana.
Não se trata de defender um partido.
Não se trata de escolher um candidato.
Trata-se de perguntar que tipo de sociedade queremos
construir.
Uma sociedade em que o poder econômico determina quem
pode mais?
Uma sociedade em que o trabalhador precisa aceitar
qualquer condição porque não tem outra alternativa?
Uma sociedade em que o cidadão só é lembrado durante a
campanha?
Ou uma sociedade em que liberdade venha acompanhada de
responsabilidade, direitos sejam acompanhados de deveres e todos sejam tratados
com dignidade?
A democracia é imperfeita. Dá trabalho. Exige diálogo,
contraditório, respeito às diferenças e, principalmente, participação
consciente.
Por isso, em tempo de eleição, talvez a pergunta mais
importante não seja "quem está fazendo a melhor propaganda?", mas:
Que ideias estão sendo defendidas? Que
sociedade essas ideias podem produzir? E quem ganha e quem perde quando elas
são colocadas em prática?
Liberdade não pode existir somente para os mais
fortes.
Igualdade não significa que todos sejam iguais em
tudo, mas que ninguém seja considerado inferior por sua condição social.
E fraternidade significa reconhecer que uma sociedade
não pode ser construída contra o outro, mas com o outro.
São valores que atravessaram séculos e continuam
atuais:
Liberté, Égalité, Fraternité.
Liberdade, igualdade e fraternidade.
Talvez seja justamente disso que este nosso tempo
esteja precisando: menos idolatria política, menos culto ao poder e mais
consciência de que democracia não é apenas o direito de votar.
Democracia é também o compromisso permanente de impedir que alguém se torne poderoso demais para se colocar acima dos demais.
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