sábado, 26 de setembro de 2026

Quando a democracia vira um campo de batalha

 

Quando a democracia vira um campo de batalha



Por Pedro Claudio

Tempo de campanha política. Infelizmente, um dos períodos de maior desafio para a democracia.

É justamente quando deveríamos estar discutindo projetos, propostas e o futuro da sociedade que aparecem, com preocupante naturalidade, discursos que relativizam a liberdade, defendem a concentração de poder e até flertam com ideias autoritárias, com a ditadura e, em casos extremos, com o próprio nazismo.

E há algo ainda mais preocupante: a naturalização da ideia de que o mais forte deve se sobrepor ao mais fraco.

Como se quem possui mais dinheiro tivesse, por isso, mais direitos. Como se o poder econômico desse ao patrão o direito de impor sua vontade ao trabalhador. Como se as relações de trabalho pudessem ser resolvidas exclusivamente pela negociação individual, sem regras, sem proteção social e sem a presença reguladora do Estado.

Até o salário mínimo, uma conquista histórica de proteção ao trabalhador, passa a ser apresentado por alguns como algo que deveria simplesmente ser "negociado" entre patrão e empregado.

Mas negociação entre desiguais nem sempre significa liberdade. Quando um lado tem o capital, o poder de contratação e a possibilidade de dizer "aceite ou procure outro emprego", enquanto o outro precisa trabalhar para sobreviver, a relação de forças não é exatamente a mesma.

E, em época de eleição, vemos também outra cena conhecida: candidatos fazendo dancinhas, abraçando crianças, comendo pastel, apertando mãos e tentando demonstrar uma proximidade com o povo que, muitas vezes, desaparece depois que termina a campanha.

O cidadão simples vira personagem durante alguns meses. Depois, volta a ser apenas eleitor — quando não é esquecido.

Por isso, este é um momento que exige atenção.

Democracia não pode ser transformada em um simples "salve-se quem puder". Porque, quando cada um passa a cuidar apenas de si e os mais fortes ficam livres para impor sua vontade, quem normalmente paga a conta é justamente a maioria que tem menos poder econômico, político e social.

A história já nos mostrou isso.

Antes da Revolução Francesa, a sociedade europeia estava organizada em uma estrutura de ordens e privilégios. No chamado Antigo Regime, o clero e a nobreza ocupavam posições privilegiadas, enquanto o chamado Terceiro Estado reunia a grande maioria da população, incluindo burgueses, trabalhadores, camponeses e outros grupos que sustentavam grande parte dos encargos da sociedade.

Era uma sociedade profundamente desigual.

E talvez devêssemos prestar atenção quando algumas ideias contemporâneas começam a tratar desigualdade como algo natural, pobreza como culpa individual e direitos sociais como privilégios.

O mais curioso — e preocupante — é que quem questiona essa lógica muitas vezes é imediatamente chamado de "comunista".

Defender salário digno, direitos trabalhistas, saúde pública, educação, igualdade perante a lei e proteção para quem está em situação de vulnerabilidade não deveria ser uma questão de esquerda ou direita. São questões de cidadania e de dignidade humana.

Não se trata de defender um partido.

Não se trata de escolher um candidato.

Trata-se de perguntar que tipo de sociedade queremos construir.

Uma sociedade em que o poder econômico determina quem pode mais?

Uma sociedade em que o trabalhador precisa aceitar qualquer condição porque não tem outra alternativa?

Uma sociedade em que o cidadão só é lembrado durante a campanha?

Ou uma sociedade em que liberdade venha acompanhada de responsabilidade, direitos sejam acompanhados de deveres e todos sejam tratados com dignidade?

A democracia é imperfeita. Dá trabalho. Exige diálogo, contraditório, respeito às diferenças e, principalmente, participação consciente.

Por isso, em tempo de eleição, talvez a pergunta mais importante não seja "quem está fazendo a melhor propaganda?", mas:

Que ideias estão sendo defendidas? Que sociedade essas ideias podem produzir? E quem ganha e quem perde quando elas são colocadas em prática?

Liberdade não pode existir somente para os mais fortes.

Igualdade não significa que todos sejam iguais em tudo, mas que ninguém seja considerado inferior por sua condição social.

E fraternidade significa reconhecer que uma sociedade não pode ser construída contra o outro, mas com o outro.

São valores que atravessaram séculos e continuam atuais:

Liberté, Égalité, Fraternité.

Liberdade, igualdade e fraternidade.

Talvez seja justamente disso que este nosso tempo esteja precisando: menos idolatria política, menos culto ao poder e mais consciência de que democracia não é apenas o direito de votar.

Democracia é também o compromisso permanente de impedir que alguém se torne poderoso demais para se colocar acima dos demais.


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