domingo, 25 de outubro de 2026

Quando a política desperta o pior de nós: a humanidade ainda tem muito a aprender

 

Quando a política desperta o pior de nós: a humanidade ainda tem muito a aprender

Por Pedro Claudio — em meio a muitas dúvidas



As últimas eleições brasileiras nos deixam uma lição que vai muito além da disputa entre candidatos, partidos e ideologias. Elas nos colocam diante de uma pergunta incômoda: o que acontece com o ser humano quando alguém ameaça suas convicções, seus interesses ou a sua maneira de enxergar o mundo?

Em muitos casos, a resposta aparece nas ruas, nas redes sociais e até dentro das famílias: a razão cede lugar à emoção, o diálogo transforma-se em confronto e aquele que pensa diferente deixa de ser visto como semelhante para ser tratado como inimigo.

Não é uma impressão isolada nem um fenômeno exclusivamente brasileiro. Basta acompanhar os registros públicos, as notícias e os relatos históricos para perceber que a intolerância política, religiosa, racial e ideológica acompanha a humanidade há séculos. O que muda são as circunstâncias, os discursos e os instrumentos utilizados para agredir.

Nas disputas eleitorais brasileiras, encontramos relatos de ameaças, agressões físicas, ofensas e humilhações motivadas por preferências políticas. Nas redes sociais, a violência verbal tornou-se parte da rotina. Quem manifesta uma opinião diferente pode ser chamado de burro, ignorante, vendido, comunista, fascista ou receber outros insultos, como se o simples fato de discordar retirasse da pessoa o direito à dignidade.

E há uma contradição evidente: muitos dizem defender a democracia, mas não aceitam a liberdade do outro de pensar diferente. Querem o direito de falar, mas não reconhecem o mesmo direito a quem discorda deles.

A democracia não é a liberdade de concordar com o meu candidato. É também a capacidade de conviver com quem escolhe outro caminho, sem transformar a divergência em motivo de ódio.

O que a psicologia e a sociologia nos ajudam a compreender?

A psicologia social oferece algumas pistas. O ser humano procura pertencimento, identificação e segurança em grupos. Quando passa a enxergar um partido, um líder ou uma corrente ideológica como parte fundamental da própria identidade, uma crítica ao grupo pode ser sentida como uma ofensa pessoal.

Nesse processo, surge a tendência de valorizar as atitudes dos integrantes do próprio grupo e desconfiar das intenções daqueles que pertencem ao grupo adversário. O adversário deixa de ser alguém que simplesmente pensa diferente: passa a ser alguém que, supostamente, representa uma ameaça.

A psicologia também estuda o chamado viés de confirmação: a tendência de procurar, valorizar e compartilhar informações que reforçam nossas crenças, enquanto questionamos ou rejeitamos aquilo que as contradiz. Em ambientes digitais, esse comportamento pode ser intensificado por conteúdos que provocam indignação e por comunidades que recompensam a hostilidade com curtidas, compartilhamentos e aprovação.

Isso não significa que toda pessoa politicamente engajada se torne violenta, nem que a emoção seja sempre inimiga da razão. A indignação pode ser legítima diante de uma injustiça. O problema começa quando a emoção elimina a capacidade de examinar os fatos, reconhecer os próprios erros e enxergar humanidade no adversário.

A sociologia nos convida a olhar além do indivíduo: discursos de lideranças, relações de poder, desigualdades e normas aceitas dentro de determinados grupos também influenciam os comportamentos. Quando insultar o adversário passa a ser considerado demonstração de lealdade, a agressividade pode ganhar legitimidade social.

É nesse ponto que precisamos prestar atenção: a violência não começa necessariamente com um soco ou um disparo. Muitas vezes, começa quando nos convencemos de que o outro merece ser humilhado.

A história se repete quando transformamos diferenças em motivos para perseguir

A história mundial está repleta de exemplos de seres humanos que foram perseguidos, expulsos ou mortos porque pertenciam a outro povo, professavam outra religião, tinham determinada origem ou eram considerados inferiores por algum grupo dominante.

Na Alemanha nazista, a propaganda antissemita, o racismo e a ideia de superioridade racial foram utilizados para desumanizar os judeus e outros grupos perseguidos. Essa construção ideológica contribuiu para o Holocausto, no qual seis milhões de judeus foram assassinados, além de milhões de outras vítimas do regime nazista e de seus colaboradores.

O genocídio não aconteceu simplesmente porque as pessoas discordavam umas das outras. Foi resultado de uma ideologia racista, da perseguição organizada pelo Estado, da propaganda, da guerra e da participação ou colaboração de diferentes setores da sociedade. Compreender essa complexidade é essencial para que a história não seja reduzida a uma comparação superficial com qualquer disputa política contemporânea.

Na região dos Grandes Lagos africanos, especialmente em Ruanda, em 1994, aproximadamente 800 mil pessoas foram assassinadas durante cerca de cem dias, em sua maioria tutsis, além de hutus moderados e outros que se opuseram aos massacres. A violência foi alimentada por extremismo, propaganda, organização política e décadas de tensões históricas.

É importante corrigir uma versão que circula de maneira simplificada: não há fundamento histórico sólido para explicar esse genocídio dizendo que dois povos se mataram simplesmente porque um tinha o nariz mais largo que o outro. Características físicas foram usadas em classificações raciais e em discursos de desumanização, mas as causas do genocídio foram muito mais complexas.

A região do Congo também viveu e continua vivendo conflitos graves, envolvendo disputas políticas, étnicas, territoriais e econômicas, entre outros fatores. Não é correto, porém, atribuir suas guerras a uma suposta diferença no formato do nariz entre grupos negros. Repetir essa explicação seria substituir a história por uma caricatura.

O que esses episódios nos ensinam? Que as diferenças humanas podem ser transformadas em justificativas para a exclusão e a violência quando discursos de superioridade, medo e ódio encontram condições para prosperar.

As Cruzadas, iniciadas no final do século XI, constituem outro capítulo complexo dessa história. Em nome de objetivos religiosos e políticos, diferentes campanhas militares provocaram mortes, perseguições e saques. A religião esteve entre as motivações proclamadas, mas interesses territoriais, dinásticos e econômicos também tiveram importância. Não se pode resumir toda a história das Cruzadas a uma única causa.

O problema, portanto, não está em reconhecer que as pessoas têm crenças, identidades e convicções. Está em transformar essas convicções em autorização para retirar do outro o direito de existir, discordar e viver com dignidade.

E no Brasil, o que estamos fazendo com nossas diferenças?

A política brasileira tem sido marcada, em diferentes momentos e por diferentes grupos, por discursos de hostilidade e episódios de violência. Não seria correto atribuir toda a agressividade a um único campo político sem delimitar os acontecimentos, os períodos e os dados utilizados para essa conclusão.

Isso não impede que cada caso seja investigado e que responsabilidades sejam apontadas quando existem provas. Se os registros de determinado período indicarem maior participação de integrantes ou apoiadores de um movimento em episódios específicos, essa informação deve ser apresentada com números, fontes e critérios claros — não apenas com impressões pessoais.

O bolsonarismo, o petismo e outras correntes políticas precisam ser examinados à luz de declarações, comportamentos e acontecimentos documentados. Nenhuma identidade partidária, por si só, prova que alguém seja violento; da mesma maneira, nenhuma bandeira política torna uma agressão aceitável.

A questão central é outra: por que tanta gente parece disposta a relativizar a violência quando ela é praticada por alguém do próprio lado?

Quando o adversário agride, exigimos punição. Quando o nosso grupo agride, procuramos justificativas. Quando o outro espalha uma informação falsa, denunciamos a mentira. Quando a informação favorece nossas convicções, compartilhamos sem conferir.

É assim que os princípios se tornam conveniências.

Defender a pátria, a família e Deus pode expressar valores legítimos para milhões de brasileiros. Mas nenhuma dessas palavras deve funcionar como salvo-conduto para o desrespeito. A defesa da pátria não autoriza perseguir compatriotas; a defesa da família não justifica humilhar famílias diferentes da nossa; e a fé em Deus não transforma o próximo em inimigo que precisa ser destruído.

Uma sociedade democrática precisa avaliar comportamentos concretos, e não apenas slogans. O discurso público deve ser confrontado com as atitudes de quem o pronuncia.

Quando o Evangelho não chega ao comportamento

Talvez a contradição mais dolorosa esteja entre aquilo que muitos professam e aquilo que praticam.

Há pessoas que frequentam igrejas, conhecem passagens bíblicas, participam de celebrações e falam constantemente em Deus, mas são incapazes de tolerar uma opinião diferente. Algumas utilizam a fé como instrumento de superioridade moral, como se a proximidade com determinada liderança religiosa ou política lhes concedesse o direito de julgar e condenar os demais.

É preciso perguntar: de que serve conhecer a mensagem do Evangelho se ela não modifica a maneira como tratamos as pessoas?

Jesus ensinou: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Marcos 12,31). Também ensinou: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mateus 5,44).

Essas palavras não são convites à passividade diante da injustiça, nem exigem que alguém aceite abusos em silêncio. Amar o próximo também significa defender a verdade, proteger quem sofre violência e cobrar responsabilidades. Mas significa fazê-lo sem transformar o ódio em método e a vingança em projeto de vida.

O próprio Jesus, no Evangelho de Mateus, adverte contra o julgamento hipócrita: antes de apontar o cisco no olho do irmão, é preciso reconhecer a trave no próprio olho (Mateus 7,3-5).

A pergunta, então, não é se sabemos citar a Bíblia. É se estamos dispostos a permitir que ela questione nossas certezas, nossas preferências eleitorais e nosso comportamento.

Quando a lealdade ao candidato vale mais do que a verdade, quando a defesa do partido vale mais do que a dignidade humana e quando a raiva fala mais alto do que a consciência, a religião corre o risco de se tornar apenas um adorno moral.

O Evangelho não perde seu valor porque as pessoas deixam de praticá-lo. O que fica comprometido é a credibilidade de quem proclama seus ensinamentos, mas se recusa a vivê-los.

A violência também pode não deixar marcas no corpo

Quando falamos em violência, pensamos imediatamente em armas de fogo, facas, socos e agressões físicas. Mas há outras formas de ferir uma pessoa.

Palavras podem humilhar, ameaças podem provocar medo e campanhas de difamação podem destruir reputações. O poder econômico pode ser utilizado para intimidar, excluir e silenciar. A discriminação de gênero pode limitar oportunidades, negar direitos e reduzir pessoas à condição de seres inferiores.

Essas formas de violência não são idênticas e precisam ser analisadas em seus contextos específicos. Ainda assim, todas nos obrigam a refletir sobre o uso do poder para diminuir o outro.

Nem toda crítica é agressão, nem toda discordância é intolerância. Questionar um político, denunciar uma irregularidade, contestar uma religião ou criticar uma ideia são direitos importantes. O limite está em ameaçar, perseguir, discriminar ou tentar retirar do outro sua dignidade e seus direitos.

Uma sociedade livre precisa proteger tanto a possibilidade de discordar quanto a segurança de quem discorda.

Será que um dia aprenderemos a viver em harmonia?

Confesso que, diante de tantas contradições, essa pergunta me acompanha.

Somos uma espécie capaz de produzir ciência, construir hospitais, escrever poemas, desenvolver tecnologias e realizar gestos extraordinários de solidariedade. Ao mesmo tempo, somos capazes de perseguir pessoas por suas crenças, odiar por causa de um voto e justificar atrocidades em nome de causas que consideramos sagradas.

Temos conhecimento acumulado, mas nem sempre sabedoria. Temos acesso a uma quantidade imensa de informações, mas nem sempre disposição para verificar o que recebemos. Falamos em liberdade, mas, por vezes, queremos controlar a consciência alheia.

Talvez a humanidade nunca alcance uma harmonia completa. Os conflitos fazem parte da vida social, porque interesses, valores e necessidades nem sempre coincidem. Mas conflito não precisa significar violência. Discordar é inevitável; desumanizar o adversário é uma escolha que podemos combater.

O caminho exige educação para o diálogo, responsabilidade de quem exerce liderança, instituições capazes de aplicar a lei com imparcialidade, compromisso com os fatos e disposição para reconhecer os próprios erros. Exige também uma prática religiosa que não se limite às palavras e uma participação política que não transforme candidatos em ídolos.

Não precisamos pensar todos da mesma maneira. Precisamos aprender que ninguém tem o monopólio da inteligência, da honestidade, do patriotismo ou de Deus.

E talvez seja essa a grande lição das eleições: elas não revelam apenas quem escolhemos para governar. Também revelam algo sobre a maneira como tratamos aqueles que fizeram uma escolha diferente.

Continuo com dúvidas. Às vezes, parece que a humanidade está condenada a repetir seus erros e que, no fim, resta apenas o velho “salve-se quem puder”.

Mas, se desistirmos de acreditar na possibilidade de aprender, estaremos entregando a vitória justamente àquilo que criticamos: à intolerância, ao egoísmo e à indiferença.

Por isso, mesmo sem ter respostas definitivas, fica uma pergunta para cada um de nós:

De que adianta vencer uma eleição, defender uma ideologia ou proclamar uma fé se, no caminho, perdemos a capacidade de reconhecer no outro um ser humano como nós?

Talvez a mudança comece quando deixarmos de perguntar apenas quem está certo e quem está errado e passarmos a perguntar também: que tipo de pessoa estou me tornando ao defender aquilo em que acredito?

É uma pergunta que vale para a política, para a religião, para a família e para a vida inteira.

Pedro Claudio — em meio a muitas dúvidas.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Você está contribuindo com nosso trabalho
Muito Obrigado!