Desconfie dos Excessos e da Razão Armada
Por Pedro
Claudio
Vivemos tempos em que o verniz da civilidade parece caro
demais para o mercado da política. Nas esquinas das redes sociais ou nos
palanques reluzentes, quem grita mais alto costuma levar o troféu do instante.
Mas o instante passa, e o que sobra nos escombros de uma discussão polarizada é
a cinza fria da intolerância. Vale a pena desconfiar. Desconfie do
politicamente correto engessado, desconfie daqueles que brandem com furor
marcial palavras sagradas como "Pátria", "Família" e
"Deus" não como valores de união, mas como armas de exclusão.
Desconfie, sobretudo, do ódio desmedido contra o outro, essa paixão triste que
nos animaliza e nos cega.
Este é um convite urgente à inteligência humana, à paz e
à tolerância.
Será que líderes que tratam quem pensa diferente como
inimigo existencial realmente atraem a maioria? Sim, eles atraem engajamento.
Atraem aplausos ensurdecedores de quem já pensa exatamente igual, de quem
encontrou no eco do outro a validação dos próprios medos. Mas isso, por mais
barulhento que pareça, é uma minoria barulhenta. O grande oceano da sociedade é
feito de nuances, de dúvidas, de gente que tenta pagar os boletos no fim do mês
e só quer viver em paz.
A democracia não exige uniformidade; ela exige respeito.
Você pode — e deve — discordar quando julgar que algo está errado. A
discordância é o oxigênio da liberdade. Ocorre que existe um abismo entre o
argumento firme e a força bruta. É infinitamente mais fácil combater o que
consideramos inadequado apelando para o fígado, para o insulto, para a rinha de
galo verbal. Exige muito mais de nós, no entanto, combater o erro com maestria,
sabedoria e elegância intelectual. A verdadeira força não precisa espumar pela
boca; ela se sustenta na solidez dos fatos e na clareza das ideias.
Nessas eleições recentes, com o advento e a permanência
do bolsonarismo — cujas promessas econômicas ou sociais podem até seduzir
alguns, cabendo a cada cidadão o juízo —, há um dado que é inegável: a
facilidade ímpar com que se cultiva a divisão por meio de um discurso
agressivo. É o combate sem inteligência, ancorado na força da ofensa sistemática.
Negar fatos históricos como um golpe militar, elogiar torturadores que
encarnaram o lado mais sombrio da nossa história, ou virar as costas para a
ciência em troca de bravatas não é apenas uma estratégia partidária equivocada;
é uma indigência mental que vai muito além da política. É uma falência do
espírito.
O fanatismo exige que fechemos os olhos para o óbvio em
nome de uma tribo. A inteligência, ao contrário, exige o esforço incômodo de
abrir a janela e respirar o ar rarefeito da alteridade.
Pense nisso. Antes de curtir o próximo post que destrói
o oponente, antes de transformar o vizinho em monstro só porque ele vota
diferente, lembre-se de que a pátria que queremos salvar é a mesma onde todos
nós teremos de continuar morando, quer ganhe a eleição de hoje, quer vença a
sensatez de amanhã.
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