segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Desconfie dos Excessos e da Razão Armada

 

Desconfie dos Excessos e da Razão Armada

Por Pedro Claudio



Vivemos tempos em que o verniz da civilidade parece caro demais para o mercado da política. Nas esquinas das redes sociais ou nos palanques reluzentes, quem grita mais alto costuma levar o troféu do instante. Mas o instante passa, e o que sobra nos escombros de uma discussão polarizada é a cinza fria da intolerância. Vale a pena desconfiar. Desconfie do politicamente correto engessado, desconfie daqueles que brandem com furor marcial palavras sagradas como "Pátria", "Família" e "Deus" não como valores de união, mas como armas de exclusão. Desconfie, sobretudo, do ódio desmedido contra o outro, essa paixão triste que nos animaliza e nos cega.

Este é um convite urgente à inteligência humana, à paz e à tolerância.

Será que líderes que tratam quem pensa diferente como inimigo existencial realmente atraem a maioria? Sim, eles atraem engajamento. Atraem aplausos ensurdecedores de quem já pensa exatamente igual, de quem encontrou no eco do outro a validação dos próprios medos. Mas isso, por mais barulhento que pareça, é uma minoria barulhenta. O grande oceano da sociedade é feito de nuances, de dúvidas, de gente que tenta pagar os boletos no fim do mês e só quer viver em paz.

A democracia não exige uniformidade; ela exige respeito. Você pode — e deve — discordar quando julgar que algo está errado. A discordância é o oxigênio da liberdade. Ocorre que existe um abismo entre o argumento firme e a força bruta. É infinitamente mais fácil combater o que consideramos inadequado apelando para o fígado, para o insulto, para a rinha de galo verbal. Exige muito mais de nós, no entanto, combater o erro com maestria, sabedoria e elegância intelectual. A verdadeira força não precisa espumar pela boca; ela se sustenta na solidez dos fatos e na clareza das ideias.

Nessas eleições recentes, com o advento e a permanência do bolsonarismo — cujas promessas econômicas ou sociais podem até seduzir alguns, cabendo a cada cidadão o juízo —, há um dado que é inegável: a facilidade ímpar com que se cultiva a divisão por meio de um discurso agressivo. É o combate sem inteligência, ancorado na força da ofensa sistemática. Negar fatos históricos como um golpe militar, elogiar torturadores que encarnaram o lado mais sombrio da nossa história, ou virar as costas para a ciência em troca de bravatas não é apenas uma estratégia partidária equivocada; é uma indigência mental que vai muito além da política. É uma falência do espírito.

O fanatismo exige que fechemos os olhos para o óbvio em nome de uma tribo. A inteligência, ao contrário, exige o esforço incômodo de abrir a janela e respirar o ar rarefeito da alteridade.

Pense nisso. Antes de curtir o próximo post que destrói o oponente, antes de transformar o vizinho em monstro só porque ele vota diferente, lembre-se de que a pátria que queremos salvar é a mesma onde todos nós teremos de continuar morando, quer ganhe a eleição de hoje, quer vença a sensatez de amanhã.

 

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