segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Crônicas da Política Iporaense: A Instabilidade do Poder e o Julgamento Histórico na Câmara Municipal

 

Crônicas da Política Iporaense: A Instabilidade do Poder e o Julgamento Histórico na Câmara Municipal




Por Pedro Claudio

Jornalista (desde 1987) e editor responsável pelo Jornal Falado RDR, da Rádio Rio Claro — Rede Diocesana de Rádio

Se existisse formalmente um Livro Tombo do Município em Iporá para registrar os grandes marcos da nossa história, as páginas dedicadas ao Poder Executivo local certamente exigiriam capítulos densos, marcados por reviravoltas institucionais, crises e o rigor implacável da fiscalização pública.

Como profissional de imprensa que atua na cobertura jornalística de Iporá desde 1987, tenho o privilégio — e a responsabilidade histórica — de ser testemunha ocular dos fatos mais relevantes que moldaram a vida política da nossa terra. Ao longo das décadas, vi mandatos se consolidarem, mas também assisti de perto a episódios de grave instabilidade institucional que redefiniram os rumos da administração municipal.

Para a memória futura de quem busca compreender a trajetória política iporaense, vale rememorar os precedentes que compõem essa crônica do poder:

  • Iron Alves Guimarães: Ex-prefeito de Iporá, teve seu mandato cassado e extinto pela Câmara Municipal em setembro de 2003, em decorrência da não prestação de contas e outras irregularidades administrativas da época.
  • Naçoitan Araújo Leite: Outro ex-chefe do Executivo municipal cujo mandato enfrentou severas turbulências jurídicas, tendo o registro cassado pelo TRE em processos originados após as eleições de 2016. Posteriormente, protagonizou um dos episódios mais graves da história policial e política da região ao ser afastado e preso no final de 2023, sob acusação de tentativa de feminicídio contra a ex-mulher (Conforme reportagens do Portal MPGO e do jornal O Popular).Portal MPGO. Depois conseguir liberdade e encerrou seu mandato de prefeito.
  • Maysa Cunha: A atual prefeita, 2026, segundo ano de mandato,  que passa a enfrentar um dos momentos mais críticos de sua gestão com processos de cassação e pedidos de impeachment protocolados na Câmara Municipal devido a supostas irregularidades administrativas.

O Julgamento de Hoje 20 de outubro de 2026 : A Saturação Institucional e o Futuro do Executivo

A crônica política iporaense ganha mais um capítulo de forte tensão nesta terça-feira, 20 de outubro, a partir das 18h. A Câmara Municipal de Iporá realiza sessão extraordinária para julgar o processo político-administrativo instaurado contra a prefeita Mayza Peres Cunha Peixoto. Ao final dos debates e votações, o plenário decidirá pelo arquivamento da denúncia ou pela cassação definitiva do mandato da chefe do Executivo.

Os Trâmites da Comissão Processante

O julgamento coroa a conclusão dos trabalhos da Comissão Processante, constituída originariamente em 18 de maio. O colegiado é conduzido pela vereadora Viviane de Leão Duarte Specian (PT) na presidência, tendo Ricardo da Mota Vita (PODE) como relator e Cassio Douglas Mendes Lara (CIDADANIA) como membro.

O relatório final foi entregue à presidência da Casa de Leis, que convocou os treze parlamentares para a deliberação soberana em plenário. O escopo da apuração concentra-se em duas denúncias principais:

  1. O suposto não repasse às instituições financeiras dos valores descontados diretamente dos vencimentos dos servidores municipais para a quitação de empréstimos consignados.
  2. O alegado não repasse das contribuições destinadas ao Instituto de Assistência dos Servidores Públicos de Goiás (IPASGO).

Vale ressaltar que tais apontamentos integram o escopo do processo político-administrativo e dependem do crivo soberano do plenário para qualquer conclusão jurídica definitiva.

Batalha Jurídica e Quórum Qualificado

O rito processual não transcorreu sem percalços. Os trabalhos da comissão chegaram a ficar suspensos por 40 dias em virtude de mandado de segurança impetrado pela defesa da gestora. Superado o entrave judicial, os trabalhos foram retomados até o desfecho.

Diante da impossibilidade de localização pessoal da prefeita para alguns atos do procedimento, segundo a comissão, a convocação para a defesa ocorreu por meio de editais. A defesa jurídica seguiu acionando os tribunais na tentativa de barrar o julgamento, cabendo o monitoramento constante de eventuais limusines de última hora.

Conforme as diretrizes do Decreto-Lei nº 201/1967, a decretação da cassação de um prefeito exige quórum qualificado de dois terços dos membros da casa legislativa. Como a Câmara de Iporá é composta por 13 vereadores, são exigidos, no mínimo, 9 votos favoráveis para que a cassação seja consumada.

A Linha Sucessória

Caso a condenação política seja efetivada pelo plenário, os trâmites legais preveem a imediata formalização da decisão pela Mesa Diretora. Nessa hipótese, o vice-prefeito eleito, Leonardo César Lima Araújo (conhecido como Léo Contador), deverá ser convocado para assumir o comando da prefeitura, com eventual posse tramitando sob a responsabilidade institucional da Câmara.

O Papel da Imprensa: O Compromisso com a Verdade

Como repórter e editor responsável pelo Jornal Falado RDR, da Rádio Rio Claro (Rede Diocesana de Rádio), procurei ouvir todas as partes envolvidas. No dia 16 de outubro, solicitei formalmente à prefeita Mayza Cunha um posicionamento acerca das acusações, do andamento do processo e das teses de sua defesa sem retorno e emissora aguarda o retorno, permanecendo o espaço inteiramente aberto para o contraditório e a ampla defesa da gestora e de sua assessoria jurídica.

Fica aqui registrado, para a posteridade e para a consulta das futuras gerações, mais um momento emblemático da nossa democracia local — acompanhado, analisado e documentado pelo jornalismo que não se omite diante dos fatos.


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