Crônicas da Política Iporaense: A
Instabilidade do Poder e o Julgamento Histórico na Câmara Municipal
Por Pedro Claudio
Jornalista (desde 1987) e editor
responsável pelo Jornal Falado RDR, da Rádio Rio Claro — Rede Diocesana de
Rádio
Se existisse formalmente um Livro Tombo do
Município em Iporá para registrar os grandes marcos da nossa história, as
páginas dedicadas ao Poder Executivo local certamente exigiriam capítulos
densos, marcados por reviravoltas institucionais, crises e o rigor implacável
da fiscalização pública.
Como profissional de imprensa que atua na cobertura
jornalística de Iporá desde 1987, tenho o privilégio — e a responsabilidade
histórica — de ser testemunha ocular dos fatos mais relevantes que moldaram a
vida política da nossa terra. Ao longo das décadas, vi mandatos se
consolidarem, mas também assisti de perto a episódios de grave instabilidade
institucional que redefiniram os rumos da administração municipal.
Para a memória futura de quem busca compreender a
trajetória política iporaense, vale rememorar os precedentes que compõem essa
crônica do poder:
- Iron
Alves Guimarães: Ex-prefeito de Iporá, teve seu
mandato cassado e extinto pela Câmara Municipal em setembro de 2003, em
decorrência da não prestação de contas e outras irregularidades
administrativas da época.
- Naçoitan
Araújo Leite: Outro ex-chefe do Executivo
municipal cujo mandato enfrentou severas turbulências jurídicas, tendo o
registro cassado pelo TRE em processos originados após as eleições de
2016. Posteriormente, protagonizou um dos episódios mais graves da
história policial e política da região ao ser afastado e preso no final de
2023, sob acusação de tentativa de feminicídio contra a ex-mulher (Conforme
reportagens do Portal MPGO
e do jornal O Popular).Portal MPGO. Depois conseguir
liberdade e encerrou seu mandato de prefeito.
- Maysa
Cunha: A atual prefeita, 2026, segundo ano
de mandato, que passa a enfrentar
um dos momentos mais críticos de sua gestão com processos de cassação e
pedidos de impeachment protocolados na Câmara Municipal devido a supostas
irregularidades administrativas.
O Julgamento de Hoje 20 de outubro de 2026
: A Saturação Institucional e o Futuro do Executivo
A crônica política iporaense ganha mais um capítulo de forte tensão nesta terça-feira, 20 de outubro, a partir das 18h. A Câmara Municipal de Iporá realiza sessão extraordinária para julgar o processo político-administrativo instaurado contra a prefeita Mayza Peres Cunha Peixoto. Ao final dos debates e votações, o plenário decidirá pelo arquivamento da denúncia ou pela cassação definitiva do mandato da chefe do Executivo.
Os Trâmites da Comissão Processante
O julgamento coroa a conclusão dos trabalhos da
Comissão Processante, constituída originariamente em 18 de maio. O colegiado é
conduzido pela vereadora Viviane de Leão Duarte Specian (PT) na
presidência, tendo Ricardo da Mota Vita (PODE) como relator e Cassio
Douglas Mendes Lara (CIDADANIA) como membro.
O relatório final foi entregue à presidência da Casa
de Leis, que convocou os treze parlamentares para a deliberação soberana em
plenário. O escopo da apuração concentra-se em duas denúncias principais:
- O
suposto não repasse às instituições financeiras dos valores
descontados diretamente dos vencimentos dos servidores municipais para a
quitação de empréstimos consignados.
- O
alegado não repasse das contribuições destinadas ao Instituto de
Assistência dos Servidores Públicos de Goiás (IPASGO).
Vale ressaltar que tais apontamentos integram o escopo
do processo político-administrativo e dependem do crivo soberano do plenário
para qualquer conclusão jurídica definitiva.
Batalha Jurídica e Quórum Qualificado
O rito processual não transcorreu sem percalços. Os
trabalhos da comissão chegaram a ficar suspensos por 40 dias em virtude de
mandado de segurança impetrado pela defesa da gestora. Superado o entrave
judicial, os trabalhos foram retomados até o desfecho.
Diante da impossibilidade de localização pessoal da
prefeita para alguns atos do procedimento, segundo a comissão, a convocação
para a defesa ocorreu por meio de editais. A defesa jurídica seguiu acionando
os tribunais na tentativa de barrar o julgamento, cabendo o monitoramento
constante de eventuais limusines de última hora.
Conforme as diretrizes do Decreto-Lei nº 201/1967,
a decretação da cassação de um prefeito exige quórum qualificado de dois
terços dos membros da casa legislativa. Como a Câmara de Iporá é composta
por 13 vereadores, são exigidos, no mínimo, 9 votos favoráveis para que
a cassação seja consumada.
A Linha Sucessória
Caso a condenação política seja efetivada pelo
plenário, os trâmites legais preveem a imediata formalização da decisão pela
Mesa Diretora. Nessa hipótese, o vice-prefeito eleito, Leonardo César Lima
Araújo (conhecido como Léo Contador), deverá ser convocado para assumir o
comando da prefeitura, com eventual posse tramitando sob a responsabilidade
institucional da Câmara.
O Papel da Imprensa: O Compromisso com a
Verdade
Como repórter e editor responsável pelo Jornal
Falado RDR, da Rádio Rio Claro (Rede Diocesana de Rádio), procurei
ouvir todas as partes envolvidas. No dia 16 de outubro, solicitei formalmente à
prefeita Mayza Cunha um posicionamento acerca das acusações, do andamento do
processo e das teses de sua defesa sem retorno e emissora aguarda o retorno,
permanecendo o espaço inteiramente aberto para o contraditório e a ampla defesa
da gestora e de sua assessoria jurídica.
Fica aqui registrado, para a posteridade e para a consulta das futuras gerações, mais um momento emblemático da nossa democracia local — acompanhado, analisado e documentado pelo jornalismo que não se omite diante dos fatos.
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