Israel da Bíblia e Estado de Israel: é
preciso separar as coisas
Por Pedro Claudio
Gente, existe muita confusão quando se fala sobre a
guerra entre Israel e Palestina. Muitas vezes, acontecimentos políticos e
militares do presente são colocados diretamente dentro de uma narrativa
bíblica, como se o Israel mencionado na Bíblia fosse exatamente o mesmo
Estado de Israel que existe hoje.
É preciso fazer uma distinção histórica importante.
O Israel da Bíblia pertence ao mundo antigo. A
Bíblia fala de Israel como povo, como território e também como reino. A
história bíblica registra diferentes períodos e organizações políticas, como os
antigos reinos de Israel e Judá.
Já o Estado de Israel moderno foi criado em 14 de
maio de 1948, no contexto posterior ao fim do Mandato Britânico na
Palestina e de um longo processo político relacionado ao movimento sionista e à
história do povo judeu.
Existe, portanto, uma ligação histórica, cultural e
religiosa muito forte entre o antigo Israel, o povo judeu e o Estado moderno.
Mas isso não significa que sejam a mesma realidade política e histórica.
Israel bíblico não é simplesmente o Estado
de Israel de hoje
Essa distinção é importante também para nós, cristãos.
Há pessoas que dizem: "Sou cristão, portanto
tenho obrigação de defender Israel". E algumas justificam essa posição
recorrendo às promessas feitas por Deus a Abraão na Bíblia.
Um dos textos mais citados é Gênesis 12,3,
quando Deus diz a Abraão:
"Abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei
os que te amaldiçoarem."
É uma passagem importante dentro da tradição bíblica e
da história da fé judaico-cristã. Mas é preciso perguntar: a quem o texto
bíblico está se referindo e em qual contexto histórico e religioso essa
promessa foi feita?
O texto está falando da relação de Deus com Abraão
e sua descendência dentro da história bíblica da aliança. Não está
apresentando uma regra de política internacional para os Estados modernos
milhares de anos depois.
Portanto, utilizar automaticamente essa passagem para
afirmar que todo cristão tem obrigação religiosa de apoiar qualquer decisão
do atual governo de Israel é uma interpretação teológica, não uma conclusão
histórica inevitável.
Uma coisa é apoiar Israel; outra é dizer
que o cristão é obrigado a fazê-lo
Uma pessoa pode, naturalmente, defender o Estado de
Israel, apoiar sua existência, sua segurança e até apoiar determinadas decisões
de seu governo.
Assim como outra pessoa pode fazer críticas às
políticas do governo israelense e defender os direitos dos palestinos.
Essas são posições políticas que fazem parte do debate
democrático.
O problema começa quando alguém afirma:
"Se você é cristão, obrigatoriamente
precisa estar a favor do Estado de Israel porque Israel é o povo protegido por
Deus na Bíblia."
Essa afirmação mistura diferentes períodos históricos,
conceitos religiosos e realidades políticas.
O Israel bíblico, o povo judeu, o judaísmo,
o Estado de Israel moderno, o governo de Israel e os israelenses
de hoje não são expressões que podem ser usadas como sinônimos.
E o Estado de Israel não é um Estado
cristão
Outro ponto que precisa ser esclarecido: Israel não
é um Estado cristão.
Sua população é diversificada. Há judeus, muçulmanos,
cristãos, drusos e pessoas sem religião, entre outros grupos.
Portanto, também não faz sentido apresentar a guerra
atual simplesmente como uma disputa entre "cristãos e inimigos de
Deus".
O conflito envolve história, território, nacionalismo,
religião, segurança, política regional, direitos nacionais, ocupação, grupos
armados e decisões de governos.
É uma realidade muito mais complexa.
Netanyahu não é Israel. Hamas não é o povo
palestino.
Também precisamos separar governo de população.
Benjamin Netanyahu é o primeiro-ministro
de Israel, mas não é Israel. Suas decisões e as
decisões de seu governo podem e devem ser analisadas e criticadas como decisões
políticas.
Da mesma forma, Hamas não é sinônimo de todo o povo
palestino.
Existem israelenses que discordam do governo. Existem
judeus que criticam determinadas políticas de Israel. Existem palestinos que
não apoiam o Hamas. E existem cristãos palestinos vivendo naquela região.
Quando transformamos povos inteiros em representantes
automáticos de governos ou organizações armadas, perdemos a capacidade de
compreender a realidade.
E para o cristão, existe ainda uma questão
maior
O cristianismo nasceu no ambiente judaico do primeiro
século. Jesus era judeu. Os primeiros discípulos eram judeus. A Bíblia cristã
possui suas raízes profundas na história de Israel.
Mas isso não significa que o cristianismo tenha como
missão defender automaticamente um Estado moderno específico.
O centro da fé cristã é Cristo e seu ensinamento.
E quando pensamos nas palavras de Jesus, encontramos
uma mensagem que também nos obriga a olhar para o sofrimento humano.
No Evangelho de Mateus, por exemplo, Jesus ensina:
"Bem-aventurados os que promovem a paz."
Mateus 5,9
E também:
"Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que
vos perseguem."
Mateus 5,44
Isso não elimina o direito de uma pessoa defender
Israel, defender a Palestina, defender a segurança de civis ou criticar grupos
armados e governos.
Mas nos lembra que o cristão não precisa
transformar uma guerra política em uma obrigação religiosa de tomar partido de
um governo.
História não pode ser substituída por
slogan
É perfeitamente possível reconhecer a importância
histórica e religiosa de Israel para o judaísmo e para o cristianismo,
reconhecer o direito dos israelenses à segurança e, ao mesmo tempo, reconhecer
os direitos e a dignidade do povo palestino.
Também é possível condenar ataques contra civis
israelenses sem, por isso, considerar legítima toda e qualquer ação do governo
de Israel.
E é possível defender os direitos dos palestinos sem
justificar ataques contra civis israelenses.
Uma coisa não precisa obrigatoriamente anular a outra.
O que precisamos evitar é uma tremenda confusão
histórica: pegar o Israel da Bíblia, descrito nos textos do Antigo
Testamento, e simplesmente transferi-lo para o Estado moderno criado em 1948,
como se as duas realidades fossem exatamente a mesma coisa.
A Bíblia pertence a uma história religiosa e antiga. O
Estado de Israel pertence à história política contemporânea.
Estudar essa diferença não diminui a importância da
Bíblia, nem a importância histórica do povo judeu.
Ao contrário: respeitar a Bíblia também significa
respeitar o seu contexto histórico.
E talvez seja justamente isso que precisamos fazer
diante de uma guerra: menos slogans religiosos, menos simplificações e mais
conhecimento.
Porque fé não precisa ser confundida com política,
e solidariedade com um povo não precisa significar apoio automático a todas as
decisões de seu governo.
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