quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Quando a Justiça vira disputa nas redes sociais

 


Quando a Justiça vira disputa nas redes sociais

Por Pedro Claudio
Reflexão, crônica e opinião — escrita a partir das discussões pré-eleitorais de 2026, para que fique registrada na memória aquilo que estamos vivendo.

Há uma frase antiga que parece ter perdido espaço no debate público: “Justiça não se discute, se cumpre.”

Durante muito tempo, essa expressão representou uma compreensão simples da vida em sociedade: existem leis, existem instituições encarregadas de aplicá-las e, quando alguém discorda de uma decisão judicial, existem os instrumentos legais para contestá-la.

Hoje, porém, parece que alguma coisa mudou.

Cada vez mais vemos pessoas questionando o Judiciário, o Supremo Tribunal Federal e decisões de juízes e ministros não necessariamente pelo caminho dos processos, dos recursos e dos argumentos jurídicos, mas principalmente pelas redes sociais.

E aqui faço uma distinção que considero importante: uma coisa é questionar uma decisão da Justiça; outra é deslegitimar a própria instituição da Justiça.

Uma decisão judicial pode e deve ser criticada. O Direito não é uma ciência imune ao debate. Juízes podem errar, tribunais podem tomar decisões controversas e o sistema de Justiça também está sujeito aos mecanismos de controle previstos na Constituição.

A própria Constituição estabelece que os Poderes da União — Legislativo, Executivo e Judiciário — são independentes e harmônicos entre si. Também garante que lesões ou ameaças a direitos sejam submetidas à apreciação do Poder Judiciário.

O problema, na minha visão, começa quando a discussão deixa de ser sobre o processo, a prova, a lei e os fundamentos da decisão e passa a ser simplesmente:

“O juiz é ligado a fulano.”

“O ministro pertence a determinado grupo.”

“Rasgaram a Constituição.”

“Foi julgamento político.”

Muitas vezes, nem sequer se discute mais o fato que originou o processo. Discute-se a pessoa que julgou, a instituição que decidiu ou a preferência política de quem está sendo julgado.

Isso merece reflexão.

Não se trata de defender juiz, ministro, tribunal ou qualquer autoridade. Trata-se de compreender que uma sociedade democrática precisa de instituições que funcionem para além da nossa simpatia por elas.

Se alguém comete um crime, responde a um processo e recebe uma condenação, é legítimo recorrer, apresentar argumentos, contestar provas e buscar a revisão da decisão dentro dos mecanismos previstos em lei.

A própria estrutura constitucional prevê decisões judiciais fundamentadas e mecanismos de controle e revisão.

O que me parece estranho é quando a contestação abandona o processo judicial e migra para as redes sociais, transformando uma discussão jurídica em uma batalha política.

E isso pode produzir consequências que talvez ainda não percebamos em toda a sua dimensão.

Quando a instituição só é legítima quando concorda conosco

É como se estivéssemos ensinando que as instituições são legítimas apenas quando decidem de acordo com aquilo que pensamos.

Quando favorecem o nosso lado, são corretas.

Quando contrariam nossa preferência, são perseguidoras, políticas ou ilegítimas.

Que sociedade pode funcionar assim?

A democracia não pode depender da ideia de que uma instituição é boa somente quando produz a decisão que desejamos.

É possível discordar profundamente de uma decisão judicial. É possível considerar uma sentença equivocada. É possível defender mudanças na legislação, no funcionamento dos tribunais e até no próprio sistema de Justiça.

Mas tudo isso pode ser feito dentro das regras democráticas.

O problema aparece quando a crítica à decisão se transforma em uma tentativa permanente de desqualificar a instituição.

A eleição vai mudar quem manda no STF?

Tenho observado também algo que considero curioso no ambiente pré-eleitoral de 2026.

Candidatos e grupos políticos aparecem defendendo medidas contra ministros do STF, falando em cassação, impeachment ou outras formas de enfrentamento ao Supremo.

Não estou aqui discutindo quem tem razão em cada caso. Minha pergunta é outra:

O que exatamente acontecerá depois da eleição?

Se determinado candidato for eleito, ele passará a mandar no STF?

Se outro grupo vencer, terá o direito de controlar os ministros?

E se forem eleitos políticos de diferentes correntes, todos passarão a querer interferir no Tribunal conforme suas conveniências?

É aí que a coisa fica estranha.

A eleição escolhe representantes para exercer determinadas funções dentro dos limites estabelecidos pela Constituição. Ela não entrega a ninguém o comando absoluto das demais instituições da República.

A Constituição estabelece a independência e a harmonia entre os Poderes.

Então fico pensando: se amanhã um grupo político vencer uma eleição e entender que pode determinar como o Judiciário deve agir, o que acontecerá quando o grupo adversário vencer a eleição seguinte?

Vamos repetir o mesmo procedimento?

Cada eleição terá seu próprio Judiciário?

Cada governo terá seu próprio entendimento sobre quais decisões judiciais são legítimas?

É uma pergunta que vale ser feita antes, e não depois.

Política ou politicagem?

Talvez estejamos confundindo política com politicagem.

Política é o debate sobre os caminhos da sociedade, sobre políticas públicas, leis, direitos e deveres.

Politicagem é transformar praticamente tudo em instrumento de disputa eleitoral, inclusive instituições que deveriam funcionar dentro das regras estabelecidas pela Constituição.

E talvez haja também uma responsabilidade nossa enquanto sociedade.

Quando repetimos frases prontas nas redes sociais sem conhecer o processo, quando compartilhamos acusações sem verificar os fatos e quando aceitamos como verdade qualquer narrativa que confirme aquilo que já pensamos, contribuímos para enfraquecer nossa própria capacidade de compreender a realidade.

Não precisamos gostar de ministro, juiz, prefeito, governador, presidente, deputado ou vereador.

Precisamos compreender que as instituições existem para funcionar além das pessoas que temporariamente ocupam seus cargos.

Ministros passam. Presidentes passam. Governadores passam. Deputados passam. Prefeitos passam.

As instituições permanecem.

E é justamente por isso que elas precisam estar submetidas às regras, e não às conveniências de quem ocupa o poder em determinado momento.

Discordar faz parte. Deslegitimar é outra coisa.

Podemos discordar do STF.

Podemos discordar de um juiz.

Podemos discordar de uma sentença.

Podemos discordar de uma lei.

Podemos inclusive defender mudanças profundas no funcionamento das instituições.

Isso faz parte da democracia.

Mas existe uma diferença entre discordar dentro da democracia e trabalhar para desacreditar a democracia quando ela não entrega o resultado que desejamos.

Talvez eu esteja sendo ingênuo.

Talvez minha compreensão seja simples demais.

Mas continuo pensando que, bem ou mal, temos instituições, temos leis e temos servidores públicos encarregados de fazê-las cumprir.

Se uma decisão estiver errada, que seja contestada.

Se houver abuso, que seja denunciado.

Se houver ilegalidade, que seja levada aos órgãos competentes.

Se uma lei precisar ser modificada, que o Congresso a modifique pelos mecanismos constitucionais.

Se uma decisão judicial puder ser revista, que se utilizem os recursos previstos.

Mas que a contestação aconteça dentro das regras.

Porque, se cada eleição passar a significar que o vencedor poderá determinar o que o Judiciário deve fazer, então a pergunta deixa de ser apenas quem ganhou a eleição.

A pergunta passa a ser:

Para que precisamos das instituições?

Talvez essa seja uma discussão muito mais importante do que qualquer eleição.

Escrevo esta reflexão no contexto pré-eleitoral de 2026 não para defender este ou aquele político, partido ou corrente ideológica, mas para deixar registrado o que estamos vivendo.

A política passa.

A eleição passa.

Os candidatos passam.

Mas aquilo que construímos — ou destruímos — em nossa relação com as instituições pode permanecer por muito tempo.

E talvez seja justamente por isso que devêssemos pensar um pouco mais antes de transformar toda decisão que nos desagrada em uma guerra nas redes sociais.

Pedro Claudio
Jornalista e radialista
Reflexão/opinião — 2026

 


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