sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Quando o algoritmo escolhe o que devemos enxergar Gente, vamos pensar um pouco?

 

Quando o algoritmo escolhe o que devemos enxergar

Gente, vamos pensar um pouco?



Por que tantas pessoas aderem a ideias que parecem contrariar seus próprios interesses?

Por que, às vezes, um trabalhador defende uma proposta que outros consideram prejudicial aos trabalhadores? Por que alguém pode apoiar uma ideia que, analisada por outro ângulo, parece não favorecer a sua própria condição de vida?

O pobre defende a ideia do rico? A vítima aplaude o seu agressor?

Parece estranho. Mas acontece.

E talvez a pergunta mais importante seja: como chegamos a pensar dessa maneira?

Tenho defendido aqui, há algum tempo, a importância do jornalismo diante da crescente preferência das pessoas pelas redes sociais como principal fonte de informação.

E não se trata de demonizar as redes. Elas são ferramentas extraordinárias de comunicação, aproximam pessoas, democratizam a publicação de conteúdos e permitem que uma informação percorra o mundo em poucos segundos.

Mas existe uma questão que merece nossa atenção:

Quem está escolhendo o que nós vemos?

Quando navegamos pelas redes sociais, os algoritmos utilizam sinais de nossas próprias atividades — como curtidas, visualizações e outras interações — para personalizar aquilo que aparece em nossa tela. A própria Meta descreve esse processo ao explicar como recomenda e classifica conteúdos.

Parece conveniente. E é.

O problema começa quando a comodidade substitui a curiosidade.

Você pensa de determinada maneira e pode passar a receber cada vez mais conteúdos relacionados aos seus interesses. Concorda com determinada posição política? É possível que apareçam mais conteúdos daquele universo. Tem determinada visão religiosa? O sistema aprende suas preferências e procura conteúdos considerados relevantes para você.

Pouco a pouco, podemos deixar de encontrar o diferente.

E aí está o perigo.

Como vamos testar nossas convicções se quase nunca somos confrontados com outras ideias?

Uma sociedade que deixa de estudar, pesquisar, comparar e ouvir o contraditório corre o risco de confundir convicção com conhecimento.

E atenção: não estou dizendo que exista uma conspiração para transformar todos nós em alguma coisa. A realidade é mais complexa. Pesquisas sobre os chamados “filtros-bolha” apresentam resultados diferentes conforme a plataforma, o contexto e o tipo de conteúdo analisado. Há estudos que identificam maior exposição a conteúdos semelhantes, enquanto outros encontram também aumento da diversidade de fontes quando as pessoas usam mecanismos de busca e redes para se informar.

Mas uma coisa é inegável: o conteúdo que chega até nós não é apresentado de forma completamente aleatória.

E existe uma consequência preocupante quando confundimos o nosso feed com a realidade:

podemos começar a acreditar que aquilo que aparece na nossa tela representa o mundo inteiro.

Não representa.

É apenas uma parte dele.

É aí que entra o jornalismo.

O jornalismo profissional não deveria existir para dizer ao cidadão aquilo que ele quer ouvir. Sua função é informar, investigar, contextualizar, ouvir versões diferentes, confrontar informações, apresentar fatos e permitir que o público forme sua própria opinião.

O jornalismo pode nos apresentar uma notícia com a qual concordamos e, no minuto seguinte, outra com a qual discordamos.

E isso é saudável.

Porque democracia não se constrói apenas com a confirmação daquilo que já pensamos.

Precisamos do contraditório.

Precisamos sair, de vez em quando, da nossa zona de conforto intelectual. Precisamos ler aquilo que questiona nossas certezas. Precisamos ouvir quem pensa diferente. Precisamos estudar antes de repetir. Precisamos pesquisar antes de compartilhar.

Uma sociedade que deixa de estudar e passa a consumir apenas aquilo que confirma suas crenças pode ficar mais confortável, mas também mais vulnerável.

Talvez o problema não seja simplesmente dizer que “as redes sociais nos emburrecem”.

O problema é permitir que elas pensem por nós.

Porque ser inteligente não é ter certeza de tudo.

É ter coragem de perguntar:

E se eu estiver errado?

Antes de curtir, compartilhar, condenar alguém ou aderir a uma ideia, vale uma pausa:

Eu cheguei a essa conclusão porque pesquisei, comparei e pensei — ou porque o algoritmo percebeu que era exatamente isso que eu gostaria de ouvir?

Gente, vamos pensar.

Pense.

Por Pedro Claudio



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