Quando o algoritmo escolhe o que devemos
enxergar
Gente, vamos pensar um pouco?
Por que tantas pessoas aderem a ideias que parecem
contrariar seus próprios interesses?
Por que, às vezes, um trabalhador defende uma proposta
que outros consideram prejudicial aos trabalhadores? Por que alguém pode apoiar
uma ideia que, analisada por outro ângulo, parece não favorecer a sua própria
condição de vida?
O pobre defende a ideia do rico? A vítima aplaude o
seu agressor?
Parece estranho. Mas acontece.
E talvez a pergunta mais importante seja: como
chegamos a pensar dessa maneira?
Tenho defendido aqui, há algum tempo, a importância do
jornalismo diante da crescente preferência das pessoas pelas redes sociais como
principal fonte de informação.
E não se trata de demonizar as redes. Elas são
ferramentas extraordinárias de comunicação, aproximam pessoas, democratizam a
publicação de conteúdos e permitem que uma informação percorra o mundo em
poucos segundos.
Mas existe uma questão que merece nossa atenção:
Quem está escolhendo o que nós vemos?
Quando navegamos pelas redes sociais, os algoritmos
utilizam sinais de nossas próprias atividades — como curtidas, visualizações e
outras interações — para personalizar aquilo que aparece em nossa tela. A
própria Meta descreve esse processo ao explicar como recomenda e classifica
conteúdos.
Parece conveniente. E é.
O problema começa quando a comodidade substitui a
curiosidade.
Você pensa de determinada maneira e pode passar a
receber cada vez mais conteúdos relacionados aos seus interesses. Concorda com
determinada posição política? É possível que apareçam mais conteúdos daquele
universo. Tem determinada visão religiosa? O sistema aprende suas preferências
e procura conteúdos considerados relevantes para você.
Pouco a pouco, podemos deixar de encontrar o
diferente.
E aí está o perigo.
Como vamos testar nossas convicções se
quase nunca somos confrontados com outras ideias?
Uma sociedade que deixa de estudar, pesquisar,
comparar e ouvir o contraditório corre o risco de confundir convicção com
conhecimento.
E atenção: não estou dizendo que exista uma
conspiração para transformar todos nós em alguma coisa. A realidade é mais
complexa. Pesquisas sobre os chamados “filtros-bolha” apresentam resultados
diferentes conforme a plataforma, o contexto e o tipo de conteúdo analisado. Há
estudos que identificam maior exposição a conteúdos semelhantes, enquanto
outros encontram também aumento da diversidade de fontes quando as pessoas usam
mecanismos de busca e redes para se informar.
Mas uma coisa é inegável: o conteúdo que chega até
nós não é apresentado de forma completamente aleatória.
E existe uma consequência preocupante quando
confundimos o nosso feed com a realidade:
podemos começar a acreditar que aquilo que
aparece na nossa tela representa o mundo inteiro.
Não representa.
É apenas uma parte dele.
É aí que entra o jornalismo.
O jornalismo profissional não deveria existir para
dizer ao cidadão aquilo que ele quer ouvir. Sua função é informar, investigar,
contextualizar, ouvir versões diferentes, confrontar informações, apresentar
fatos e permitir que o público forme sua própria opinião.
O jornalismo pode nos apresentar uma notícia com a
qual concordamos e, no minuto seguinte, outra com a qual discordamos.
E isso é saudável.
Porque democracia não se constrói apenas com a
confirmação daquilo que já pensamos.
Precisamos do contraditório.
Precisamos sair, de vez em quando, da nossa zona de
conforto intelectual. Precisamos ler aquilo que questiona nossas certezas.
Precisamos ouvir quem pensa diferente. Precisamos estudar antes de repetir.
Precisamos pesquisar antes de compartilhar.
Uma sociedade que deixa de estudar e passa a consumir
apenas aquilo que confirma suas crenças pode ficar mais confortável, mas também
mais vulnerável.
Talvez o problema não seja simplesmente dizer que “as
redes sociais nos emburrecem”.
O problema é permitir que elas pensem por nós.
Porque ser inteligente não é ter certeza de tudo.
É ter coragem de perguntar:
E se eu estiver errado?
Antes de curtir, compartilhar, condenar alguém ou
aderir a uma ideia, vale uma pausa:
Eu cheguei a essa conclusão porque
pesquisei, comparei e pensei — ou porque o algoritmo percebeu que era
exatamente isso que eu gostaria de ouvir?
Gente, vamos pensar.
Pense.
Por Pedro Claudio
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