Que tempos estamos vivendo na política
brasileira?
Gente, que tempos estamos vivendo no Brasil? A campanha
eleitoral de 2026 começa a colocar diante dos brasileiros um debate que vai
muito além da disputa entre esquerda e direita. Estamos falando sobre os
limites do poder, o respeito às instituições, a segurança pública, a liberdade
individual e, principalmente, sobre que tipo de democracia queremos para o
país.
Algumas declarações e propostas de candidatos chamam
atenção e merecem ser discutidas com serenidade, sem paixão partidária.
O candidato Renan Santos, do Missão, por exemplo,
afirmou que, se eleito, poderia deixar de cumprir decisões do Supremo Tribunal
Federal que considerasse ilegais, depois de consultar sua própria equipe
jurídica. Também defendeu que o Brasil desenvolva uma bomba atômica e uma
política de segurança inspirada no governo de Nayib Bukele, de El Salvador, com
uma atuação policial extremamente dura.
A pergunta que fica é: quem decide se uma
decisão judicial é legal ou ilegal? O presidente da República? Sua assessoria
jurídica? Ou existem mecanismos constitucionais para contestar uma decisão da
Justiça?
Porque democracia não significa apenas poder votar.
Significa também aceitar as regras do jogo, inclusive quando a decisão judicial
contraria aquilo que defendemos.
Outro exemplo é o candidato Romeu Zema, do Novo. Ele
criticou a obrigatoriedade da vacinação e defendeu o direito de o cidadão
decidir se quer ou não se vacinar. Também defende anistia para condenados pelos
atos de 8 de janeiro, mesma tese do candidato Ronaldo Caiado..
Aqui também existe um debate legítimo. Até onde vai a
liberdade individual? E em que momento uma escolha individual pode produzir
consequências para outras pessoas?
Na segurança pública, o discurso também está cada vez
mais duro.
Flávio Bolsonaro, candidato do PL, defende a redução da
maioridade penal para 16 anos e, em determinados crimes graves, punição para
adolescentes a partir dos 14 anos. Também propõe penas mais duras e uma
política de enfrentamento extremamente rigorosa contra criminosos.
Mas existe um capítulo ainda mais delicado nessa
discussão: a chamada excludente de ilicitude.
O ex-presidente Jair Bolsonaro defendeu, durante seu
governo, a ampliação da proteção jurídica para policiais e militares em
determinadas operações. Em 2018, ele e Eduardo Bolsonaro apresentaram projeto
para instituir excludente de ilicitude nas ações de agentes públicos em
operações policiais. Em 2019, o governo Bolsonaro também enviou ao Congresso
proposta sobre o tema.
É importante explicar: excludente de ilicitude
não é, juridicamente, um "direito de matar". O Código Penal
já estabelece situações como legítima defesa, estado de necessidade e estrito
cumprimento do dever legal. E a própria lei determina que o agente pode
responder pelo excesso.
O problema político está justamente em saber até
onde essa proteção pode ser ampliada.
Críticos das propostas apresentadas durante o governo
Bolsonaro argumentaram que uma ampliação excessiva poderia funcionar, na
prática, como uma espécie de salvo-conduto para policiais que matassem durante
determinadas operações. A própria Agência Câmara registrou essa crítica ao discutir
o projeto.
Bolsonaro, por sua vez, rejeitava a ideia de que
estivesse defendendo uma autorização para matar e afirmava que o objetivo era
proteger policiais que agissem dentro da lei.
E aqui está o ponto que merece reflexão: quando
um Estado autoriza ou protege o uso da força letal, quem fiscaliza o limite
dessa força?
É legítimo defender que o policial tenha segurança
jurídica para agir diante de uma ameaça real. Afinal, o policial também tem
direito à vida.
Mas uma coisa é proteger o agente que age dentro da lei
para salvar uma vida. Outra, completamente diferente, seria transformar a
possibilidade de matar em uma espécie de autorização prévia.
E essa discussão fica ainda mais interessante quando
colocamos lado a lado diferentes discursos políticos.
Há candidatos que fazem da defesa da vida e do combate
ao aborto uma das principais bandeiras políticas e, ao mesmo tempo, defendem
políticas de segurança pública que ampliam a possibilidade do uso da força
letal pelo Estado.
Não se trata de dizer que defender segurança pública é
errado. Muito pelo contrário. O cidadão tem direito de viver sem medo, e o
Estado tem obrigação de proteger a população.
A questão é outra: qual é o limite entre
autoridade e violência? Entre legítima defesa e execução? Entre combater o
crime e transformar a morte em política de Estado?
E existe uma contradição que merece ser discutida sem
paixão partidária.
Como podemos defender que o Estado não deve permitir a
interrupção de uma vida em determinada circunstância e, ao mesmo tempo, aceitar
com facilidade a ideia de que o Estado possa retirar uma vida em outra
circunstância?
É claro que as situações jurídicas são diferentes.
Aborto e legítima defesa não são assuntos juridicamente equivalentes. Mas, no
campo político e moral, quando um candidato fala tanto em "defesa da
vida", o eleitor tem o direito de perguntar: o princípio da defesa
da vida vale para quais situações? E quais são as exceções?
Talvez seja justamente aí que esteja o grande problema
da política brasileira atual: muitas vezes, nós não analisamos princípios.
Analisamos pessoas.
Se é o nosso candidato defendendo uma medida dura,
chamamos de coragem.
Se é o adversário, chamamos de autoritarismo.
Se é o nosso candidato questionando uma decisão
judicial, dizemos que está defendendo a liberdade.
Se é o adversário, dizemos que está atacando a
democracia.
Se o nosso lado fala em anistia, dizemos que é
pacificação.
Se o outro lado fala em anistia, dizemos que é
impunidade.
Se o nosso candidato defende a força policial, dizemos
que está protegendo o cidadão.
Se o adversário faz a mesma coisa, dizemos que está
defendendo a violência.
Talvez esteja na hora de o eleitor brasileiro
tirar a paixão da frente e colocar a coerência no lugar.
Não precisamos concordar com Lula para defender a
democracia. Não precisamos concordar com Flávio Bolsonaro para defender
segurança pública. Não precisamos concordar com Renan Santos para defender
liberdade individual. Não precisamos concordar com Zema ou Caiado para
reconhecer que determinados temas merecem ser debatidos.
O eleitor precisa perguntar a cada candidato:
Você respeitará a Constituição mesmo quando ela
contrariar sua vontade?
Aceitará uma decisão judicial enquanto recorre
pelos meios legais?
Defenderá a liberdade individual mesmo quando
quem exercer essa liberdade for seu adversário?
Combaterá o crime sem transformar a violência
estatal em vingança?
Aceitará o resultado das urnas mesmo se perder?
E, principalmente, respeitará o direito de quem
pensa diferente?
Talvez essa seja uma pergunta ainda mais importante do
que saber quem será o próximo presidente.
Porque o Brasil não precisa apenas de um vencedor da
eleição. Precisa de um presidente que saiba que, depois da eleição, ele
não será presidente apenas de quem votou nele.
E quanto ao voto obrigatório? Sim, esse também é um
debate legítimo.
Se alguém defende liberdade individual para decidir
sobre vacina, costumes e tantos outros assuntos, por que não discutir também se
o cidadão deve ser obrigado a comparecer às urnas?
Mas acabar com o voto obrigatório não significa acabar
com o dever cívico de votar. Uma democracia saudável precisa de participação.
Talvez a discussão mais importante seja justamente esta: como fazer o
brasileiro votar não porque é obrigado, mas porque acredita que seu voto é
importante?
No fim das contas, talvez a pergunta não seja apenas
"o que esses candidatos querem?"
A pergunta deveria ser:
Que Brasil nós, eleitores, estamos dispostos a
construir e aceitar?
Porque candidatos fazem propostas para conquistar votos.
Mas quem coloca esses candidatos no poder somos nós.
E uma democracia não fica forte quando o nosso lado
vence.
Ela fica forte quando aceitamos as regras mesmo quando o nosso lado
perde.
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