Quando o canto emociona, mas não
transforma
Por Pedro Claudio
Gosto sempre de pensar e contribuir, de alguma forma, para que a gente possa viver melhor. E hoje quero compartilhar uma percepção que, embora eu tenha convivido durante muitos anos com a música na Igreja, somente agora consigo enxergar com mais clareza.
São as músicas que cantamos nas celebrações
religiosas.
Na Igreja Católica, a música litúrgica há muito tempo
é motivo de estudos, debates e orientações. Existe uma compreensão muito
bonita: a música deve ajudar a oração, favorecer a reflexão e conduzir a
pessoa ao encontro com Deus. Ela não deve, porém, ocupar o lugar da Palavra, da
celebração ou da própria mensagem que a Igreja deseja transmitir.
O cantor, dentro da celebração, não está ali para ser
artista. O canto não deveria ser apresentado como um espetáculo. Existe cuidado
com a melodia, com as notas, com o tom, com o volume e, principalmente, com a
finalidade daquele momento.
Durante muito tempo, inclusive, algumas comunidades e
dioceses fizeram escolhas mais contidas em relação aos instrumentos utilizados
nas celebrações, justamente para evitar que a música se transformasse em
atração e que os músicos ocupassem um espaço maior do que deveriam.
Mas hoje encontramos, em algumas celebrações
religiosas, verdadeiros grandes shows musicais. São grupos numerosos,
instrumentos sofisticados, vozes muito bem preparadas e apresentações capazes
de causar admiração e até inveja a grandes grupos profissionais.
E é preciso reconhecer: há muita coisa bonita
nisso. Existem músicas com letras profundas, melodias que tocam o coração,
vozes que emocionam e momentos musicais que realmente podem ajudar uma pessoa a
rezar.
O problema não está necessariamente na qualidade da
música.
A pergunta que faço é outra: o que acontece depois
da emoção?
A música me emocionou. Mas ela me levou a uma mudança?
O canto me fez chorar. Mas me fez olhar diferente para
quem sofre?
A celebração me envolveu. Mas, ao sair da igreja, eu
me tornei mais paciente, mais solidário, mais disposto a perdoar e a amar?
São perguntas difíceis, mas necessárias.
São Paulo, na Carta aos Romanos, capítulo 13, nos
lembra que o amor ao próximo resume a lei: “Amarás ao teu próximo como a ti
mesmo”. E acrescenta que o amor não pratica o mal contra o próximo; por isso, o
amor é o cumprimento da lei.
Talvez esteja aí uma das maiores medidas da nossa
experiência religiosa.
Podemos cantar muito, cantar bonito, nos emocionar,
levantar as mãos, aplaudir e sentir arrepios. Mas, se tudo isso não produzir
algum movimento dentro de nós em direção ao outro, precisamos perguntar qual
foi o verdadeiro resultado daquela experiência.
É como um sino.
O sino faz barulho. O sino chama. O sino desperta a
atenção. Mas o sino, sozinho, não muda a vida de ninguém.
Quem precisa mudar somos nós.
Por isso, talvez seja necessário pensar na música
religiosa não apenas como aquilo que ouvimos, mas como aquilo que nos ajuda a
fazer.
A emoção pode ser o começo. A
transformação precisa ser o passo seguinte.
Não se trata de condenar quem canta, quem toca ou quem
se emociona. Muito menos de dizer que uma música bonita não tem valor. Pelo
contrário. A música tem uma força extraordinária. Ela pode tocar lugares dentro
de nós onde muitas palavras não conseguem chegar.
Mas uma coisa precisa conduzir à outra.
Se a música me aproxima de Deus, que essa aproximação
também me aproxime das pessoas.
Se o canto fala de amor, que eu pratique o amor.
Se fala de perdão, que eu aprenda a perdoar.
Se fala de solidariedade, que eu seja solidário.
Se fala de Cristo, que eu procure viver aquilo que
Cristo ensinou.
Talvez essa seja uma boa reflexão para fazermos na
próxima vez que estivermos dentro de uma assembleia, entoando um canto.
Não pense apenas se a música é bonita.
Pergunte também:
O que essa música está fazendo dentro de
mim?
E, principalmente:
O que eu vou fazer com aquilo que senti
quando a música terminar?
Porque cantar pode emocionar.
Mas é o amor vivido que pode transformar.

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