domingo, 15 de fevereiro de 2026

Quaresma: tempo de pensar, refletir e caminhar com Cristo rumo à grande Páscoa

 

Quaresma: entre a norma e o encontro
Por Pedro Claudio

A Igreja entra novamente no tempo da Quaresma, uma caminhada espiritual de 40 dias que, na tradição cristã católica, convida à conversão, à oração, ao jejum e à caridade. Mais do que um calendário litúrgico, trata-se de um período que provoca perguntas profundas e necessárias sobre a vivência da fé em nossos dias. A participação é consciente ou apenas ritual? A fé nasce do encontro com Deus ou da correta observância das normas religiosas?

Essas questões ganham relevo quando se observam debates recentes dentro da própria Igreja Católica. Religiosos bem-intencionados, mas excessivamente focados nas questões dogmáticas, ajudam ou atrapalham a experiência de fé? Por que receber as cinzas? Como viver o sacramento da confissão? Qual o lugar dos casais em segunda união na comunidade cristã? São temas sensíveis, especialmente neste tempo quaresmal, e exigem reflexão serena, teológica e pastoral.

A tradição cristã sempre ensinou que a doutrina não é um fim em si mesma. Ela é um meio pedagógico, destinado a conduzir a pessoa ao encontro com Deus. O problema surge quando a norma deixa de iluminar o caminho e passa a funcionar como uma barreira, afastando em vez de aproximar. Nesse cenário, a fé corre o risco de se reduzir a um sistema moral rígido, incapaz de dialogar com a fragilidade humana e com as complexidades da vida real.

Quando um padre alerta que não se deve ir à missa apenas “para receber as cinzas” ou questiona a participação em romarias de pessoas em situação considerada “irregular”, ele não está se colocando no lugar de Deus, mas falando a partir de uma interpretação institucional da Igreja. Como instituição, a Igreja possui regras sacramentais e orientações morais construídas ao longo da história. O ponto crítico não é a existência dessas normas, mas a forma como elas são comunicadas: sem discernimento pastoral, a regra pode parecer mais importante que a pessoa.

Após o Concílio Vaticano II, a Igreja reafirmou que a fé é um caminho progressivo. A participação nos ritos — mesmo imperfeita, mesmo motivada por tradições populares — pode ser uma porta de entrada para uma conversão mais profunda, e não um erro a ser reprimido. As cinzas, nesse sentido, não são um “prêmio espiritual”, mas um sinal de humildade: recordam a condição humana, frágil, limitada e sempre necessitada de mudança.

No caso dos casais em segunda união, a tensão entre doutrina e pastoral torna-se ainda mais visível. A posição oficial da Igreja sobre o matrimônio permanece clara. No entanto, a pastoral contemporânea, especialmente sob o magistério do Papa Francisco, insiste que ninguém deve ser tratado como alguém fora do alcance da misericórdia. A pergunta central deixa de ser apenas “a pessoa está em regra?” e passa a ser “como ajudá-la a crescer na fé possível hoje, nas condições concretas em que vive?”.

Algo semelhante ocorre no sacramento da confissão. O papel do confessor é orientar, ajudar no discernimento, e não substituir a consciência do fiel. Quando o sacerdote aponta pecados como se já soubesse tudo o que a pessoa irá dizer, corre-se o risco de transformar a confissão em um procedimento mecânico. Na teologia moral cristã, a consciência bem formada é o lugar primeiro do encontro com Deus, onde a graça atua de modo pessoal e livre.

A própria história das religiões mostra que aquelas que permanecem vivas e significativas são as que conseguem equilibrar norma e misericórdia. Onde existe apenas regra, nasce o medo. Onde há apenas permissividade, perde-se o sentido. A fé cristã vive justamente dessa tensão: verdade e amor, exigência e acolhida, justiça e compaixão.

Religiosos bem-intencionados ajudam a fé quando ensinam sem humilhar, corrigem sem excluir e recordam a doutrina como caminho, não como arma. Atrapalham quando falam mais em nome da instituição do que do Evangelho, esquecendo uma lição central da própria tradição cristã: o sábado foi feito para o ser humano, e não o ser humano para o sábado.

No fim das contas, a pergunta decisiva desta Quaresma não é se alguém está plenamente “apto” a se aproximar de Deus, mas se a Igreja está conseguindo ser sinal desse Deus que se aproxima primeiro, que chama, acolhe e caminha com o ser humano, mesmo — e sobretudo — em suas fragilidades.

“Onde há graça, o perdão é abundante; onde há perdão, há o sinal do cristão.”

Do ponto de vista da fé cristã, a graça é sempre iniciativa de Deus, nunca mérito humano. Quando a graça é acolhida, ela não se manifesta primeiro em regras, mas em misericórdia concreta. Por isso, o perdão não aparece como exceção, mas como consequência natural. Um coração tocado pela graça aprende a perdoar porque antes se reconhece perdoado.

O perdão, nesse sentido, torna-se critério visível da autenticidade cristã. Não é apenas um gesto moral elevado, mas um sinal, quase um sacramento cotidiano, que revela a presença do Evangelho na vida das pessoas e das comunidades. Onde o perdão é negado, substituído pelo julgamento ou pela exclusão, algo essencial do cristianismo se perde.

A frase também provoca a Igreja e seus ministros: se a graça é abundante, por que o perdão às vezes é administrado com escassez? Se o perdão é o sinal do cristão, então comunidades marcadas pelo medo, pela rigidez e pela condenação silenciosa precisam se perguntar se ainda estão comunicando o coração da fé.

Em tempos como a Quaresma, essa afirmação funciona como um exame de consciência coletivo. Ela recorda que a verdadeira conversão não se mede apenas por práticas religiosas, mas pela capacidade de reconciliar, acolher e recomeçar. Onde a graça é reconhecida, o perdão floresce. E onde o perdão floresce, ali o cristianismo se torna visível, humano e credível.

 

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