sábado, 6 de junho de 2026

Entre pregadores e influenciadores: a crise da autonomia intelectual.

 

A era dos influenciados

Confesso que às vezes não entendo muito esses tempos atuais. Parece que estamos cercados de pregadores, mentores, coaches, influenciadores e especialistas para tudo. Nas igrejas, multiplicam-se pessoas que afirmam conhecer a vontade de Deus melhor do que qualquer um. Nas redes sociais, surgem diariamente novos "influenciadores", gente que se apresenta como referência para ensinar como viver, pensar, investir, amar, votar ou até mesmo acreditar.

Fico pensando se, em algum momento, perdemos a capacidade de tirar nossas próprias conclusões.

Sou de um tempo em que as pessoas liam livros, jornais, estudavam nas escolas, frequentavam bibliotecas, conversavam nas praças ou nas academias e, a partir disso, construíam suas próprias opiniões. Havia divergências, claro, mas cada um era responsável pelo próprio julgamento. A independência intelectual era quase um valor.

Hoje, parece que muita gente prefere terceirizar o pensamento. Em vez de analisar um fato, espera que alguém faça a interpretação por ela. E há quem tenha descoberto que isso pode ser um excelente negócio. Afinal, quanto maior a dependência do público, maior a audiência, maior a influência e, consequentemente, maior o lucro.

Isso fica ainda mais delicado quando entra no campo da fé. Pessoas pegam textos sagrados, interpretam conforme seus interesses e, não raras vezes, fecham os olhos e dizem: "Deus está me revelando que...". O problema não é a espiritualidade, nem a crença. O problema é quando alguém usa o nome de Deus para transformar opiniões pessoais em verdades absolutas.

E o mais impressionante é que sempre existe quem esteja disposto a seguir, sem questionar, sem refletir, sem confrontar aquilo com a própria consciência ou com aquilo que está escrito.

Talvez a maior crise do nosso tempo não seja a falta de informação. Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento. A verdadeira crise pode ser a falta de autonomia para pensar.

Influenciar pessoas não é necessariamente algo ruim. Professores influenciam, pais influenciam, líderes religiosos influenciam, jornalistas influenciam. O problema começa quando a influência substitui o pensamento crítico.

A liberdade não está apenas em poder falar. Está, principalmente, em poder pensar por conta própria. E isso talvez seja uma das coisas mais valiosas que uma sociedade pode preservar. 

Por Pedro Claudio

Nenhum comentário: