Confesso que às vezes não entendo muito esses tempos atuais. Parece que estamos cercados de pregadores, mentores, coaches, influenciadores e especialistas para tudo. Nas igrejas, multiplicam-se pessoas que afirmam conhecer a vontade de Deus melhor do que qualquer um. Nas redes sociais, surgem diariamente novos "influenciadores", gente que se apresenta como referência para ensinar como viver, pensar, investir, amar, votar ou até mesmo acreditar.
Fico pensando se, em algum momento, perdemos a
capacidade de tirar nossas próprias conclusões.
Sou de um tempo em que as pessoas liam livros,
jornais, estudavam nas escolas, frequentavam bibliotecas, conversavam nas
praças ou nas academias e, a partir disso, construíam suas próprias opiniões.
Havia divergências, claro, mas cada um era responsável pelo próprio julgamento.
A independência intelectual era quase um valor.
Hoje, parece que muita gente prefere terceirizar o
pensamento. Em vez de analisar um fato, espera que alguém faça a interpretação
por ela. E há quem tenha descoberto que isso pode ser um excelente negócio.
Afinal, quanto maior a dependência do público, maior a audiência, maior a
influência e, consequentemente, maior o lucro.
Isso fica ainda mais delicado quando entra no campo da
fé. Pessoas pegam textos sagrados, interpretam conforme seus interesses e, não
raras vezes, fecham os olhos e dizem: "Deus está me revelando
que...". O problema não é a espiritualidade, nem a crença. O problema é
quando alguém usa o nome de Deus para transformar opiniões pessoais em verdades
absolutas.
E o mais impressionante é que sempre existe quem
esteja disposto a seguir, sem questionar, sem refletir, sem confrontar aquilo
com a própria consciência ou com aquilo que está escrito.
Talvez a maior crise do nosso tempo não seja a falta
de informação. Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento. A verdadeira crise
pode ser a falta de autonomia para pensar.
Influenciar pessoas não é necessariamente algo ruim.
Professores influenciam, pais influenciam, líderes religiosos influenciam,
jornalistas influenciam. O problema começa quando a influência substitui o
pensamento crítico.
A liberdade não está apenas em poder falar. Está,
principalmente, em poder pensar por conta própria. E isso talvez seja uma das
coisas mais valiosas que uma sociedade pode preservar.
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