A saudade talvez seja uma das marcas mais profundas da existência humana. Há
nuances no luto que nunca vão embora. Quando se ama de verdade, quem parte
continua presente de alguma forma na memória, nos gestos, nas lembranças e até
no silêncio. O tempo passa, a correria do dia a dia ocupa espaço, a distância
dos acontecimentos ameniza certas dores, porque a vida dos que ficam precisa
seguir. Mas algumas ausências jamais deixam completamente o coração.
Muitas vezes surge a pergunta que acompanha a
humanidade desde sempre: para onde vão aqueles que partiram? Há inúmeras teses,
religiões, doutrinas e interpretações tentando responder ao grande mistério da
vida após a morte. Mas a verdade é que ninguém voltou para contar, exceto Jesus
Cristo, segundo a fé cristã, que ressuscitou e deixou sua mensagem sobre a eternidade.
No Evangelho de João, na versão da CNBB, Jesus
diz:
“Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim
não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós.”
João 14,2
É uma das passagens mais consoladoras da
Bíblia, porque transmite a ideia de continuidade, acolhimento e esperança além
da existência terrena.
No livro do Apocalipse também aparecem imagens
simbólicas sobre a eternidade e a presença divina. Um dos textos mais
conhecidos descreve a cidade santa iluminada pela glória de Deus:
“A cidade não precisa de sol nem de lua que a
iluminem, pois a glória de Deus é a sua luz, e sua lâmpada é o Cordeiro.”
Apocalipse 21,23
Há ainda a imagem da humanidade sendo
conduzida para junto de Deus, numa caminhada espiritual rumo à eternidade,
acompanhada pela presença celestial e pela esperança de uma nova morada.
A vida, no entanto, continua sendo uma grande
incógnita. O futuro sempre será incerto. E talvez uma das maiores lições da
existência seja justamente perceber que, diante de Deus e do tempo, todos têm o
mesmo destino. Ricos e pobres, pretos e brancos, poderosos e humildes, ninguém
permanece para sempre nesta terra. O que fica são lembranças, histórias, marcas
e afetos, que também vão se apagando lentamente na memória das gerações.
As religiões tentam oferecer respostas.
Algumas trazem conforto verdadeiro. Outras, em certos momentos, parecem
transformar a fé em instrumento de controle humano, estabelecendo regras e
promessas de salvação eterna. É compreensível que existam normas e princípios,
porque uma sociedade sem limites pode mergulhar no caos. Ainda assim, muitas
dúvidas permanecem.
Quem tem fé costuma olhar com preocupação para
quem não compartilha da mesma crença. Há os que se dizem plenamente convencidos
da verdade que professam. Eu, porém, acredito na ação de Deus na construção
humana, na presença divina que inspira o amor, a justiça e a bondade. Mas
também carrego dúvidas sobre intenções humanas quando alguns, do púlpito,
transformam a fé em espetáculo, em premonições ou em instrumentos de manipulação.
Talvez muitos dos que pregam estejam
sinceramente convencidos daquilo que anunciam. Talvez outros usem a mensagem
divina como proteção, influência ou poder nesta vida terrena. No fim, o coração
humano sempre será um território difícil de decifrar.
Por
isso, a sabedoria dos antigos continua atual. Como dizia minha mãe: confiar
sempre… desconfiando.
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