quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Natal de 2025: entre a ignorância coletiva e o esquecimento do Evangelho

 

Natal de 2025: entre a ignorância coletiva e o esquecimento do Evangelho

Por Pedro Claudio Rosa
25 de dezembro de 2025


Neste Natal de 2025, somos confrontados por uma realidade inquietante: a ignorância, longe de ser apenas individual, assume contornos de um fenômeno coletivo, beirando a loucura social. Vivemos tempos em que a polarização entre “direita” e “esquerda” tornou-se uma espécie de dogma moderno, capaz de transformar até mesmo um simples conteúdo de marketing — como o caso de uma campanha publicitária das Havaianas — em motivo de euforia, revolta e histeria ideológica. A pergunta que ecoa é profunda e perturbadora: como chegamos a esse ponto?

Do ponto de vista sociológico, a sociedade contemporânea vive sob a lógica da simplificação extrema. Questões complexas são reduzidas a rótulos, slogans e trincheiras ideológicas. O outro deixa de ser reconhecido como pessoa e passa a ser tratado como inimigo. A cultura digital, alimentada por algoritmos que reforçam crenças e radicalizam emoções, cria bolhas onde a intolerância se normaliza. Como advertiu o Papa Francisco, vivemos uma verdadeira cultura do descarte, que não elimina apenas coisas, mas também pessoas e ideias divergentes.

Sob o olhar psicológico, essa fissura coletiva revela insegurança, medo e uma profunda necessidade de pertencimento. Muitos aderem a interpretações extremadas não por convicção racional, mas por carência de identidade e sentido. O grupo passa a pensar pelo indivíduo; a crítica é substituída pelo impulso; o diálogo, pelo ataque. Como adverte o apóstolo Paulo:
“Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Rm 12,2).

A preocupação é legítima e urgente: da insanidade coletiva à violência é apenas um passo. A história ensina, de forma dolorosa, que guerras ideológicas e perseguições começam quando o outro deixa de ser reconhecido como irmão. O século XX oferece inúmeros exemplos em que a desumanização precedeu a barbárie. Quando a política se transforma em religião e a ideologia substitui a consciência, o amor se fragmenta e perde sua universalidade.

Do ponto de vista teológico, essa realidade torna-se ainda mais grave quando atinge os cristãos. Para quem professa a fé em Cristo, não pode haver barreiras ao amor. O mesmo Filho de Deus que nasceu em Belém veio para todos. “Porque Ele é a nossa paz: de ambos os povos fez um só” (Ef 2,14). No entanto, vemos cristãos transformando irmãos em inimigos por causa de convicções políticas, esquecendo-se das palavras do próprio Jesus:
“Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5,44).

O Natal nos recorda que Deus não veio armado de poder, mas envolto em fragilidade. A manjedoura denuncia toda soberba ideológica. O Verbo se fez carne para reconciliar, não para dividir. “Nisto todos reconhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35). Onde falta amor, falta Cristo; onde reina o ódio, o Evangelho foi esquecido.

Talvez, em linguagem simbólica, estejamos mesmo precisando de um “medicamento coletivo” — não químico, mas espiritual e ético — capaz de apaziguar os ânimos e devolver à sociedade aquilo que parece cada vez mais escasso: inteligência iluminada pela fé. Um remédio que caia como chuva mansa sobre todos, sem distinção, restaurando a capacidade de pensar, dialogar e respeitar.

Esse “medicamento” já existe na tradição cristã: são os dons do Espírito Santo — Sabedoria, Entendimento, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade e Temor de Deus (cf. Is 11,2-3). Dons esquecidos por muitos, relativizados por alguns e, não raramente, substituídos por certezas rasas e paixões cegas.

Para 2026, o desejo que brota desta reflexão é profundamente cristão: que voltemos a caminhar sustentados pela Fé, pela Esperança e pela Caridade (cf. 1Cor 13,13). Que a fé ilumine a razão, que a esperança vença o medo e que a caridade — o amor verdadeiro — supere toda polarização.

Somente reaprendendo a olhar o outro como criatura de Deus, e não como adversário ideológico, conseguiremos atravessar o novo ano em paz. Como ensina a Escritura:
“Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9).

Que o Natal de Cristo não seja apenas uma data comemorativa, mas um chamado permanente à conversão pessoal e coletiva. Só assim a sociedade encontrará novamente o caminho da lucidez, da tolerância e da verdadeira paz.

Fontes de pesquisa e embasamento

  • Bíblia Sagrada – Tradução Oficial da CNBB, 2ª edição, 2019
  • Catecismo da Igreja Católica – Edições CNBB / Vaticano
  • Papa FranciscoEvangelii Gaudium; Fratelli Tutti

 

Nenhum comentário: