Onde estamos sendo enganados?
Por Pedro Claudio
24 de janeiro de 2026
Onde estamos sendo enganados? Como estamos sendo enganados? E por que tantas vítimas acabam defendendo seus próprios algozes? Essas perguntas atravessam o nosso tempo e exigem mais do que respostas rápidas — pedem reflexão profunda, discernimento e coragem intelectual.
Nossa inocência, muitas vezes, é atravessada
pela esperteza de poucos e pela simplicidade de muitos. No cenário nacional,
vivemos uma explosão de plataformas digitais, transmissões em streaming, canais
fechados e abertos de rádio e TV que se apresentam como imprensa. Parte deles,
de fato, exerce função jornalística; outra parte atua claramente como braço
partidário. Há quem se autoproclame comentarista ou jornalista e, de forma
histérica, substitua a análise pelo ataque, o contraditório pelo achincalhe, a
informação pelo linchamento verbal. Discordar passou a ser motivo suficiente
para destruir reputações.
Instala-se, assim, uma confusão perigosa:
opinião travestida de notícia, militância disfarçada de jornalismo. Uma
imprensa que escolhe um lado, distorce fatos de maneira deliberada e apresenta
versões parciais da realidade perde qualquer utilidade coletiva. Não informa;
forma torcidas. Não esclarece; manipula. O resultado é uma sociedade manobrada
como marionete, cheia de defensores das causas dos outros — típica condição de
quem foi conduzido, mas nunca verdadeiramente convencido.
Esse fenômeno não se limita à política ou à
mídia. Ele também se repete no campo religioso. Protegidas pela liberdade de
crença e pelo princípio do Estado laico, diversas expressões religiosas acabam
servindo de palco para projetos de poder, autopromoção e política partidária.
No cristianismo, isso se torna ainda mais grave. Cristo não deixou dúvidas
sobre o que pregava: justiça, misericórdia, serviço e verdade. Ainda assim, seu
nome é frequentemente utilizado para deturpar, dominar e enganar. O apóstolo
Paulo advertiu com clareza: “De fato, vai
chegar um tempo em que muitos não suportarão a sã doutrina, mas, segundo seus
próprios desejos, cercar-se-ão de mestres, quando sentirem coceira nos ouvidos”
(2Tm 4,3, Bíblia Sagrada, CNBB, 2ª ed.,
2019).
Num país onde a educação não alcança a todos,
torna-se fácil fazer o pobre — em recursos, oportunidades e acesso à informação
— defender a causa dos ricos. Defender quem já tem tudo. Quem pisa, desvia, se
apropria e ostenta. O profeta Isaías denunciou essa lógica com dureza: “Ai dos que decretam leis injustas e dos escribas
que redigem decretos opressores, para negar justiça aos pobres no julgamento”
(Is 10,1-2, Bíblia Sagrada, CNBB, 2ª ed.,
2019). O estelionato, nesse caso, não é clandestino; é oficial,
público, à vista de todos. E, ainda assim, passa despercebido.
Comentadores lançam pedras com palavras,
analisam apenas o lado que lhes convém, ignoram conquistas alheias e
transformam o debate público em trincheira permanente. Isso não é crítica; é
partidarismo. E o partidarismo, quando travestido de análise, serve para
promover grupos e interesses específicos — quase sempre em benefício próprio.
Se não refletirmos sobre isso, corremos o
risco de sentar à mesa como convidados e descobrir, tarde demais, que não fomos
chamados para o jantar, mas para o cardápio. Foi contra esse tipo de dominação
que Jesus se levantou. Ainda assim, os “grandes” e “poderosos” que ele
enfrentou continuam sendo defendidos por cidadãos simples, que entregam sua
vida simbólica — e às vezes concreta — àqueles que os exploram.
O Evangelho não pede ingenuidade. Pelo
contrário: “Vede, eu vos envio como ovelhas
no meio de lobos; sede, portanto, prudentes como as serpentes e simples como as
pombas” (Mt 10,16, Bíblia Sagrada,
CNBB, 2ª ed., 2019). Jesus também ensina: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e
humilde de coração” (Mt 11,29, Bíblia
Sagrada, CNBB, 2ª ed., 2019). Mansidão e humildade não são sinônimos
de submissão cega, alienação ou cumplicidade com a injustiça. São virtudes que
caminham junto com a lucidez, a prudência e o compromisso com a verdade.
Ser manso não é ser tolo. Ser humilde não é
abrir mão da consciência crítica. Ao contrário: é reconhecer a própria
dignidade e não permitir que ela seja usada contra si mesmo.
Como
defender a causa de quem já tem tudo? De quem vive no luxo enquanto muitos mal
sobrevivem? Pense nisso. Desperte. Viva — mas viva de verdade. Não a vida
oferecida pela manipulação, pelo medo ou pela idolatria do poder, e sim a vida
que nasce do pensamento livre, da fé coerente e da verdade que liberta.










