Análise jornalística – Polarização brasileira sob a lente da ciência
política
O anúncio da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro
reacendeu, nas redes sociais, um fenômeno que já se tornou marca da política
brasileira contemporânea: a polarização estruturada em torno de dois polos
carismáticos — o lulismo e o bolsonarismo. Os comentários coletados nas
plataformas digitais, repletos de frustrações, ironias, receios e acusações,
revelam não apenas uma disputa eleitoral, mas um processo mais profundo de
construção simbólica do “nós contra eles”, conceito amplamente discutido por
pensadores da ciência política e da filosofia política.
Polarização como método e como narrativa
A polarização não é apenas um efeito colateral
das redes sociais; ela se consolidou como método político. Pelo que tenho observado no Brasil, o campo
político se organiza a partir da distinção entre amigo e inimigo. Na atualidade
essa fronteira se expressa na dicotomia Lula/Bolsonaro que, como apontam os
comentários analisados, deixou pouca margem para construção de alternativas.
A reação de parte da direita à escolha de
Flávio Bolsonaro, vista como decisão personalista e dinástica — “coronelismo
disfarçado”, como escreveu um internauta — evidencia uma crítica que transcende
o episódio: a percepção de que ambos os polos dependem um do outro para manter
viva a lógica de confronto, alimentando identidades políticas rígidas e
bloqueando a emergência de projetos moderados e inovadores.
O voto aprisionado e o personalismo
Historicamente, o Brasil convive com
estruturas políticas personalistas. Da “política dos governadores” ao
coronelismo, das oligarquias regionais à formação dos grandes líderes
carismáticos, a política brasileira tende a gravitar em torno de figuras, não
de programas. A citação recorrente ao sobrenome Bolsonaro — e também ao de
outros atores como Sarney ou Caiado — reforça essa crítica: a ideia de que
famílias permanecem no topo do poder porque exploram capital político
acumulado, não porque representam renovação.
Dentro desse quadro, a expectativa frustrada
em torno do nome de Tarcísio de Freitas, visto por muitos como gestor técnico e
possível ponte entre mercado, centro-direita e eleitores desencantados,
simboliza o desejo por um “pós-polarização” que ainda não encontrou expressão
competitiva.
Racionalidade enfraquecida e comportamento eleitoral
Do ponto de vista da ciência política
comportamental, os comentários ilustram um fenômeno bem documentado: a decisão
política baseada mais em afetos do que em racionalidade programática. A
literatura de psicologia política — de autores como Jonathan Haidt e Drew
Westen — demonstra que emoções como medo, indignação e ressentimento moldam
preferências políticas com mais força do que propostas concretas.
Os relatos mostram exatamente isso: medo do
retorno de Lula, decepção com o bolsonarismo, descrença na classe política e
esperança quase messiânica em “um nome salvador”. O eleitorado, ao oscilar
entre rejeição e fidelidade afetiva, acaba contribuindo para a manutenção das
forças que critica — fenômeno conhecido como “voto negativo” ou voto contra o
inimigo, mais do que a favor de um projeto.
O ciclo histórico da repetição
Filósofos como Nietzsche e historiadores como
Hobsbawm observam que sociedades em crise tendem a repetir padrões políticos,
mesmo sabendo de seus resultados. No Brasil, a recorrência de velhas lideranças
e velhos conflitos sugere uma dificuldade coletiva de romper ciclos. A
insistência em Lula e Bolsonaro, conforme apontam os internautas, não deriva
apenas da força dessas lideranças, mas da ausência de investimento social e
político em alternativas estruturadas.
Esse ciclo é reforçado pelas redes sociais,
que amplificam indignações, confirmam vieses e reduzem a reflexão crítica. O
espaço digital, que poderia diversificar o debate, termina por segmentá-lo e
radicalizá-lo.
A necessidade de romper o padrão
Ao final, a crítica que emerge dos comentários
— ainda que caótica, emocional e contraditória — converge para um ponto: a
urgência de pensar e agir politicamente de forma diferente. A sociedade parece
reconhecer, ainda que intuitivamente, que está presa em um jogo ideológico
simplificado que confunde defesa de valores com manipulação emocional, e que
substitui debate público por lealdades pessoais.
Se a democracia depende de pluralidade,
alternância de poder, racionalidade pública e instituições fortes, a manutenção
dessa polarização permanente enfraquece cada uma dessas bases. O desafio,
portanto, não é apenas escolher novos nomes, mas reconstruir práticas políticas
e cognitivas menos reativas e mais deliberativas.
Em um momento em que “tempos sombrios” e
“penumbra política” são metáforas recorrentes nos comentários, a saída passa
pela ampliação da consciência política, pela formação crítica do eleitor e pela
capacidade de superar o personalismo que historicamente bloqueia a inovação no
Brasil.
Pensar
diferente e agir diferente, talvez seja o primeiro passo para romper um ciclo que já dura mais de uma
década — e que tende a se aprofundar enquanto continuarmos olhando a política apenas
pelo espelho das paixões e das rivalidades.






.jpeg)




